2.3.10

Falta de inspiração

Levantou-se, decidido a escrever. Voltou a sentar-se, pois não lhe dava jeito escrever de pé. Olhou para a folha em branco e pensou em como gostava de folhas em branco, mundos inteiros à espera de ganhar forma através das suas palavras. A folha continuava em branco. Por vezes a sofreguidão desse vazio incomodava-o, todo aquele imenso nada a chamar, a exigir que ele o preenchesse, que lhe desse vida e um propósito. Fechou o caderno, irritado com as manias das folhas em branco.

Pegou na caneta. Não ligava muito a canetas e nem sequer tinha aquilo a que se pode chamar uma caneta da sorte. Costumava até dizer, em jeito de brincadeira “Sorte tem a caneta, que cria sem ter de imaginar”. A caneta não se manifestou e ele largou-a, enfadado.

Bem, já era hora. Se o método artesanal não resulta, há que apelar à maquinaria moderna. Abriu o portátil. Identificava-se muito com o computador, apesar de achar que era menos quadrado. Começou por abrir uma janela, porque estava calor, abriu outra porque queria ir à Internet. Orgulhava-se de considerar a sua imaginação uma espécie de Google interno da sua cabeça. Bastava-lhe pensar em algo e logo apareciam inúmeros resultados.
“Não foi possível carregar a página pretendida”. A mensagem foi simultânea, no computador e na cabeça.

Olhou lá para fora. Possivelmente lá fora estava a resolução para os seus problemas. Não havia razão para ficar cá dentro. Tirando que tinha de escrever. Ter não tinha, mas queria. Queria, mas não saía nada. O uso do condicional estava a condicioná-lo e isso ele não admitia.

Resolveu sair à mesma, escrevendo só algo enigmático para sossegar a sua parca consciência. Podia ser que ninguém desse por isso.

1.3.10

O Spectrum da felicidade



Quando consola ainda era apenas um tempo verbal e entre marido e mulher só se metia a colher e não o gamepad, existiu um outro mundo. Um admirável, apesar dos gráficos deploráveis e música bastante redutora, mundo novo de diversão que marcou a geração que tem a honra de me ter como membro.


Pausa para saudosismo bacoco e ingestão de fruta o mais ácida possível (para tirar a noção que comer uma frutinha a meio da tarde é coisa de gaja).


Falo, claro está do Zx Spectrum. Atentem que neste link está toda uma riqueza escondida, dividida por anos, horas de diversão e, porque não, saudável pancadaria entre jovens à procura de afirmação. Se não perceberem do que estou a falar, então fazem parte de uma outra geração. Se for anterior, tragam lá um baralho de cartas que ainda vos ensino umas coisas. Se forem mais novinhos, vão lá buscar a consola do papá que eu espero.

Load "" Enter.
Over & Out


(Ah, e recebi queixas de alguns dançarinos indignados a dizer que as senhoras também fazem figuras tristes na pista de dança. Não era preciso, eu já sabia. Mas talvez elabore sobre isso, para nivelar a balança.)

28.2.10

Danças com os bobos

Apesar de, com este tempo, boa parte da maralha a quem me dirijo estar certamente debaixo de uma mantinha com um pijaminha do Noddy ou das Winx a ver “A pequena Sereia” em DVD, sou um gajo de palavra. Várias até. Nada melhor que o tema da dança para vos dar baile e se juntarmos ao mix uma abordagem sobre talentos dançantes no masculino, temos aqui uma calamidade para juntar às outras dos últimos dias. Na realidade, existem até vários homens que dançam bem ou, mais factualmente, tipos que não envergonham o seu par, mas qual seria a piada de me pôr aqui a elaborar sobre pares fofos e memórias do “Dirty Dancing”?

Ai, o Dirty Dancing, até fiquei comovido. As pessoas por vezes são...são... são mas é horas de tomar a medicação.
Pronto, já passou.

A questão base é, gajo que é gajo sabe que a dança não é só ballet, nem coisas que ameaçam a masculinidade, como sapatos de tacão ou bebidas com palhinha. E, pondo-se no papel de John Travolta de trazer por casa, sabe que há-de chegar uma altura em que vai ter de mostrar do que é feito na pista de dança.

E às vezes o resultado não é bonito. Senão vejamos alguns craques:

O encostado – Este homem podia ter ido longe, não fossem os problemas no ouvido interno. Esta é certamente a razão porque dificilmente o conseguem afastar do bar, onde procura apoio para o seu corpo. A amargura de ver outros a aproveitar a música enquanto ele é obrigado a ficar atracado, levam-no também a ter quase sempre um copo na mão. Poderá abanar a cabeça de quando em vez, devido a uma réstea de ritmo que tenta desesperadamente fugir de si.

O simbiótico – Este homem ama a música, mas esta não lhe retribui o gesto. Talvez por isso insista em ser sempre diferente do ritmo escolhido por ele para mostrar os seus moves, que parecem oscilar entre um exorcismo e uma aula dos jovens heróis de Shaolin. Não existem estilos nem ritmos diferentes para esta alma, existe sim um único fluxo de energia que o une à música de forma inqualificável. E não há maneira de o desligar.

O totem – Este homem deseja ser venerado. Não pelas suas capacidades de dança, mas pela sua extrema parecença com um... totem. Mexendo-se o mínimo possível, esta deidade tem princípios firmes e a sua imobilidade comprova-o. Espera que todos dancem à volta dele, nem que seja para invocar a chuva. A parecença com um dançarino vem do facto dos seus olhos se mexerem e ambos respirarem.

O caretas – Se há alguém que não tem medo de dar a cara pela dança é este homem. Quando muitos apostam no jogo de pés e de cintura, a expressividade deste senhor centra-se nos músculos faciais. Quer parecer sexy? Os lábios juntam-se, formando um beijo com ritmo. Quer mostrar ritmo? Os dentes superiores cobrem o lábio inferior, mostrando descontracção e dentição alinhada. Quer espelhar concentração ou um AVC? Os olhos semicerram-se, as feições contraem-se e a esperança do AVC desaparece, por entre uma língua de fora que salta enérgica.

O eufórico – Embora tenha parecenças com o simbiótico, este homem difere, porque não dança para si mesmo. Na realidade, ele quer dançar com toda a gente. Desde gritos de guerra, a palmas, ao acompanhamento de refrões, quem disse que a dança é feita apenas de ritmo. Há sempre um truque para ensinar, um movimento colectivo para gerar entusiasmo e é claro, uma rodinha em que ele é sempre o primeiro a brilhar. Se não fosse o eufórico, a dança seria só música, pessoas e ritmo.

O pseudo pro – Este homem cometeu uma proeza – convenceu-se a si mesmo que sabe dançar e bem. A sua auto confiança cega-o mais que as luzes da pista e, entre um ar confiante e uma certa condescendência com aqueles que dançam à sua volta, ele mostra que na escola onde os outros aprenderam a dançar, ele já deu aulas, mas de autismo.

O comunicador – A dança é uma forma de comunicação, mas para este homem isso não é razão para desperdiçarmos todas as outras. Daí que nada melhor para acompanhar o ritmo, tentando conversar por cima da música, dando toques e fazendo gestos que pretendem signifcar um valor acrescentado, se bem que só o próprio percebe qual. E, se a coisa estiver animada, não faltará mímica a rigor, para mostrar que há mais do que uma maneira de dizer que os nossos corpor comunicam, mas às vezes a chamada cai.

Muito mais se pode aprender numa pista de dança, mas vocês não pagam e o fato e os sapatos que uso nas galas dos Alunos de Apolo ainda custam dinheiro.

Vemo-nos nas pistas.

26.2.10

Os homens e a dança

Não resisto a colocar este vídeo, depois de o ter recomendado ainda há poucos dias. Mostra que há gente que nasce com o ritmo dentro de si. Não se iludam, por cada um desses, há 20 que nasceram com 10 baldes de cimento e juntas sem óleo.

Mas, para além de quem se dedique profissionalmente à dança, acho que esta deve ser incentivada junto da população masculina, na qual me incluo. Nem que seja pelo espectáculo à parte que pode constituir um homem a dançar.

Se se portarem bem, este fim de semana vou ilustrar-vos alguns dos estilos de homens dançantes que podem encontrar nas pistas e salões de dança por esse mundo fora.

Infelizmente, nem todos podem ser como eu. Um Fred Astaire de trazer por casa, um grau 10 de intensidade na escala de James Brown, um Nijinsky mas com testosterona ou então...
...um aldrabão com muito boa pinta.

25.2.10

Ponham-me a andar, se faz favor


A minha escola primária era a cinco minutos de casa, indo a pé. A minha escola preparatória era a 15 minutos de casa, indo a pé. Já a minha escola secundária era a 10 minutos de minha casa, indo a pé. Quando cheguei à faculdade, as coisas mudaram claramente de figura.

Agora eram precisos 20 minutos para lá chegar, indo a pé.

Para além de isto significar que cresci com glúteos e quadríceps bem trabalhados, mostra que, se não tivesse seguido por maus caminhos, poderia hoje ser um peregrino exemplar, trilhando os caminhos de Santiago, Fátima ou até do Amílcar, que não é menos que os outros para não poder ter um caminho para ser trilhado.

Ainda hoje tenho a possibilidade de ir de casa para o trabalho a pé. O que é bom, nem que seja por significar que, nos dias que correm, tenho trabalho, caso contrário teria que ir de casa para a taberna, possivelmente também a pé. Mas também o faço regularmente nas férias, nos meus tempos livres e em ocasiões especiais.

Alguns cus tremidos vacilarão um pouco ao ler estas linhas, antes de avançar a medo com a pergunta “Epá, mas qual é a panca toda do andar a pé?”.
Antes de mais, esclareço, não é uma panca, tirando o facto de gostar de o fazer descalço e a tocar harpa.
Depois, porque mais do que uma panca, é uma possibilidade e uma escolha. Primeiro porque sendo um menino da cidade, nunca tive uma viagem maior à minha espera ao início e ao final do dia. Depois, porque me reserva o prazer da condução para alturas em que dá mesmo gozo conduzir. Finalmente porque, quando me dá uma veia masoquista, tenho sempre um transporte público para me levar, nem que seja para outra dimensão.

Mas, acima de tudo, porque por mais que ande, a minha imaginação caminha sempre mais depressa. E, sendo assim, mesmo antes de eu sair à rua já ela anda por lá a abrir caminhos, a conhecer pessoas estranhas e outras estranhamente normais, a ver uma história em cada esquina e avenidas de delírios por todo o lado.

Assim, é fácil perceber porque ando a pé. Não é boa ideia deixar a minha imaginação andar por aí à solta sem mim. Depois, dá nisto.

24.2.10

Ó culos escuros que pairam no Metro

Airosos
seus portadores,
de cegueira não padecem,
pirosos,
seus trejeitos,
esmola não merecem.

Que estilo o meu,
Pensam com seus botões,
Coitadinhos,
Penso eu,
De tamanhos figurões.

Invejo
os ceguinhos,
Que não têm de os ver,
Mas mais cego é quem vê,
mas prefere não o fazer.

Claridade,
Alegam com recato,
Cagança,
É a verdade,
Por detrás de tal acto.

Solução,
Não tenho,
Só disponho de azia,
Já me basta pedir perdão,
Por molestar a poesia.

23.2.10

O call center da sorte

Tocou o telefone. Esperei que fosse engano, mas esperei em vão, já que continuou a tocar. Fui ver quem era mas, por automatismos que a razão desconhece, dirigi-me à porta, algo que o telemóvel não apreciou, tocando ainda mais insistentemente.

Número não identificado.

Pensei um pouco. Ora eu só conheço um Número Simão Delgado, por isso não podia ser o mesmo. Ainda assim, atendi:

”Tou, Número, és tu?”

“Boa noite, tenho o prazer de estar a falar com o Sr. Mak Arena?” (bónus de piada fácil com nome falso)

Aquele início de conversa não enganava, ou era o Euromilhões ou era um call center. Tendo em conta que o Euromilhões para mim está sempre sem saldo, fui pela segunda.

“Sim, é o próprio. Mas deixe-me pô-lo já à vontade, não quero comprar nada, não vou assinar nada e mesmo que não demore nada, eu ainda demoro menos”.

Silêncio. Pausa institucional.

“Não se trata de nada disso Sr.Mak. Gostaria apenas de saber se vai renovar o seu pacote clássico de sorte ou se está interessado em fazer um upgrade?”

“Sorte? Mas isto é alguma brincadeira?”

“Claro que não Sr.Mak, até porque não somos nós que tratamos desse tipo de serviço. A nosso cargo está apenas a sorte. E, obviamente, o azar.”

“Portanto, devo depreender que tenho tido sorte, é isso?”. Depreender é sempre um bom verbo para entabular conversações com um toque de seriedade.

“É o que está nos nossos registos Sr.Mak. Pacote clássico de sorte.”

Pensei um pouco. De facto, nasci com os bracinhos e as perninhas todas, consigo conjugar verbos sem dificuldade e não pareço um arrendatário de Notre Dame. Combinando convívio com mitras de primeira e gente honrada, cresci com uma noção de valores e também a saber como me apropriar indevidamente deles.
Tirando sintonizar ocasionalmente a TVI, não tive de conviver com muita tragédia de perto e pratico regularmente desporto, incluindo modalidades não olímpicas. Profissionalmente, pessoalmente e outras coisas acabadas em mente, os níveis de satisfação flutuam acima do mar da incerteza.

“Sr. Mak”

“Espere um momento, estou em divagações internas”

Sim, podia ter muito mais. Aliás, a insatisfação é o meu motor, mas tenho a sorte de não ser tapado. Espera lá, pois, tenho sorte.

“Oiça lá, vai custar muito continuar a ter esse pack de sorte?”

“Não custa nada Sr. Mak, a não ser que queira ter um pack de Funtastic Lucky Life ou, para os mais ousados, um aZarON, que lhe sai mais em conta e ainda lhe permite passar a vida sintonizado no Canal de Queixas”.

“Deixe estar, não vale a pena. Mas tem a certeza que não custa nada renovar o pack de sorte?”

“Claro que não Sr. Mak, primeiro que tudo porque existir um call center que disponibilizasse sorte seria uma estupidez. Mais estúpido seria cobrar por isso.”

“Mas então, qual é a função do seu telefonema?” Odeio operadores de call center armados em filósofos.

“Basicamente, foi o senhor Mak que criou este call center.”

“Eu? Olhe, não tenho tempo para isto, ficamos....” Estava obviamente a despachá-lo.

“Sim, Sr. Mak e não esteja a despachar-me. Criou isto com o intuito de iludir os seus leitores e projectar-lhes uma pseudo reflexão na vida, levando-os a questionar o que é realmente a sorte ou, na melhor das hipóteses lerem mais uma das suas banhadas esc.....”

Desliguei. Felizmente tenho a sorte de ser uma pessoa objectiva, pouco dada a devaneios e não há pachorra para call centers assim.

22.2.10

Tirem-me as aspas da cabeça


Ser um bom observador é meio caminho andado para rir sozinho regularmente. Ora, como prefiro rir sozinho do que mal acompanhado é uma actividade agradável. Muito apropriadamente, deixem-me abrir aqui um parêntese

(

Pronto, podemos seguir. Tal como a filoxera molesta a vinha, tenho detectado um certo maneirismo à minha volta que tem afectado a minha paciência. E eu não gosto de ver a minha paciência abatida porque depois não tenho pachorra para tentar recuperá-la.

Falo das pessoas adeptas das aspas gestuais, também chamadas de “mãozinhas de citação”. Se não sabem o que é isto, então estão a confirmar a máxima “a ignorância é uma benção”. Se eu fosse um cromo da aspa gestual, teria acompanhado esta expressão com as minhas duas mãos em frente aos ombros, flectindo o indicador e o dedo médio de ambas duas a três vezes seguidas, simulando algo que tanto podem ser aspas como um exemplo de uma variante estranha de Parkinson.

Uma aspa gestual é tão útil como alguns administradores da PT. Está lá, existe, ninguém percebe bem a sua utilidade, mas vai tendo o seu sucesso.

)

Desculpem, tive de fechar o parêntese, que não me dou bem com as correntes de ar, nem com apartes disparatados.
Voltando às aspas, já não bastava termos tido uma banda com uma pseudo-diva a abusar delas, quanto mais este aspismo gestual. Fazer aspas com as mãozinhas é tão necessário como os Malucos do Riso fazerem caretas para nós percebermos que está na hora de começar a rir.

Se eu estou a dar um segundo sentido a uma frase, faço uma citação ou não estou a ser literal, porque raio tenho de elucidar o meu interlocutor à bruta. Ou parto do princípio que é um idiota e, nesse caso, qual é o sentido de usar segundas interpretações, coisa que afecta muito a auto-confiança dos idiotas. Caso esteja a falar com gente inteligente, então fazer estas aspas estilo vira minhoto é estar-lhes a chamar broncos ou pouco perspicazes, coisa que, vá-se lá saber porquê, essa gente inteligente costuma levar a mal.

Isto para não falar no triste que é ver gente adulta a tentar comunicar com as mãozinhas com gestos idiotas para ilustrar o que diz. Já não basta sermos um povo latino, onde se pedes a alguém para falar sem usar as mãos, parece que lhes pediste para estarem dois minutos sem respirar, tal é o esforço de contorcionismo.

Quanto às pessoas que pedem descontos de tempo, usando linguagem gestual do basket, idem idem, aspas aspas. (com a agravante de usarem o gesto errado e acreditem que, enquanto gajo que joga basket, a raiva é redobrada).

Fecho este post, dando as minhas mãos e elevando-as num gesto alto, como se me congratulasse de modo vitorioso sobre a explanação desta matéria de forma brilhante.

19.2.10

Bandas que fica bem a malta dizer que ouve



Como é com o Eddie Vedder ainda ganhamos bónus de retro-coolness

Então a ver se depois combinamos alguma coisa.



Esta frase podia ser o começo de algo. E é, normalmente é o começo de um buraco negro onde terminam encontros, saídas, reencontros ocasionais, cortesias profissionais e toda uma panóplia de eventos sociais muito pouco memoráveis.

Eu depois ligo-te.
A gente depois fala.
Então um dia destes falamos.
Depois diz-me alguma coisa.
Fazemos assim – deixa-me ver a minha agenda e logo acertamos.
Ainda não sei bem como vai ser a minha vida, mas depois vemos se dá....
Foi giro, a ver se repetimos, deixa-me depois ver quando posso...

Em 7 segundos e 38 décimas, gerei um lote premiado de exemplos da chamada execução misericordiosa de expectativas sociais. Não sei bem porquê, mas temos no nosso software algo que nos impele a trocar uma negativa educada mas explícita, por um hipotético futuro conjunto puramente fantasioso.

Isto não é coisa de novelas mexicanas, à procura de tragédia e drama em overdose, com vilões que se disfarçam de anjinhos e fazem chorar criancinhas. É a pura realidade, pois nas mais diversas situações cruzamo-nos com pessoas que gostamos de ver com a periodicidade de anos bissextos, isto no melhor dos cenários. Mas, no entanto, sempre que as vemos, fazemos uma festa, prometemos encontros, damos o braço da frontalidade a torcer até partir, se for preciso.

Damos? Peço desculpa, por um momento de insanidade estava a confundir-me com vocês. Eu não dou nada, sou o tipo de personagem que quando me dizem “Então até um dia destes”, se sujeitam a ouvir, algo como “Só se eu não conseguir evitar”.

Sou educado, cortês, eloquente, ocasionalmente um palhaço de primeira e falo apenas de qualidades menores. Daí que, depois de me conhecerem, muitas pessoas só me evitam no mesmo sentido em que as pessoas com tendência para o alcoolismo evitam bares.
Eu acedo, é melhor para todos, depois ainda tinha que lhes dizer “Epá, sim senhor, temos de fazer isto mais vezes, eu digo qualquer coisa...”.

E para isso, prefiro ir arrancar dentes.
Espero que não fiquem melindrados, que eu aprecio muito a vossa companhia. E acho até que devíamos fazer isto mais vezes. Quando é que vos dá jeito?

18.2.10

O último grito em cirurgias

Apesar do sucesso da lipoaspiração, da cirurgia facial estética, do advento da silicone, do implante salino e todo esse mundo de regabofe e bisturi, continuo em crer que a extracção da consciência continua a ser das operações mais bem sucedidas que vejo por aí.

As pessoas não têm cicatrizes aparentes, parecem viver bem sem ela e, nalguns casos, esse acaba por ser o segredo do seu sucesso. Não se arrependem de o ter feito, essencialmente, porque não têm consciência.

Por ter parcos recursos, procedi apenas à remoção parcial da minha consciência, apesar de já me terem dito que não falta aí quem trate do processo de borla.

Até lá, limito-me apenas a não ter consciência das alarvidades que escrevo.

17.2.10

Sr. Entrudo - Necrologia

Faleceu hoje o Sr. Entrudo Tuga, mais conhecido entre os amigos por Carnaval. Segundo se conseguiu apurar, embora não haja confirmação oficial, a causa da sua morte terá sido o suicídio, muito possivelmente levado a cabo pela sua mão.
Anos e anos de abusos e fingimento, vieram apenas acentuar o que já muitos tinham identificado – o Sr. Entrudo era brasileiro por fora, mas por dentro continuava com a mágoa de ser português. Por mais que sambasse, por mais reduzida que fosse a roupa utilizada, por mais “Olélélé-olalalá” que cantasse, o frio no seu coração não desaparecia e a chuva que cobria a sua alma não se dissipava.

No seu funeral estiveram presentes diversas carpideiras, que vieram mais tarde a revelar-se matrafonas cujo o choro se devia principalmente ao facto de terem perdido a justificação para se vestirem de mulheres (assumidamente) uma vez por ano. Alguns cabeçudos, dos poucos parentes verdadeiros que tinha, vieram também dizer um último adeus, aproveitando para alguns dedos de conversa com actores brasileiros de segunda linha que lhes perguntavam se também há hipóteses de ser pago em Portugal para desfilar na Páscoa. Mais de trezentas jovens que estavam previstas comparecer, não puderam ir, por estarem casa com princípios de pneumonia, depois de dias a desfilar.
Estranhamente para alguns, as crianças não ficaram tristes. O Sr. Entrudo era simpático, deixava-as mascararem-se e tal, mas nunca deu prendas. E, se não dá prendas, também não faz muita falta.

A grande notícia foi que o seu irmão, Entrudo Brasileiro, não pôde estar presente. Teve de ir acompanhar Madonna ao aeroporto e, além disso, nunca teve bem a certeza se era mesmo parente do Tuga, apesar das vezes que este último insistiu em referir isso.

Ao contrário de outros anos, este enterro teve realmente piada. Talvez devido ao facto de ser a sério.

14.2.10

Passados tenebrosos há muitos

Para fechar uma semana em que revelei alguns aspectos tenebrosos do meu passado, gostaria de dizer que, comparado com outros, o meu é uma brincadeira de criança.

Senão vejamos as maravilhas que o Youtube nos revela:

Marisa Cruz em 1992



Ora bem, por onde começar. Sete anos antes de andar a agitar muito cavalheiro no anúncio da Maxmen, saltando à corda, a jovem Marisa tinha sido Miss e isso tinha claramente afectado o seu penteado, isto para não falar na sua dicção e à vontade. Apesar de não fazer bem o meu género, numa coisa esta jovem não evoluiu. Em 1992 tinha a seu lado dois ícones da mitologia portuguesa (um deles de meia branca e tudo), hoje tem um ex-futebolista. Ainda por cima um que arruinou a locução de um jogo de PlayStation.

Pedro Abrunhosa no Natal dos Hospitais



Aqui nem se pode dizer que este passado faz cair Abrunhosa em desgraça. Capaz de cair sozinho já ele é nos dias que correm... No entanto, é apenas mais uma prova do mal continuado que se fez a muito doente e acamado ao longo das várias edições daquele nefasto programa televisivo.
Ver Abrunhosa sem óculos não dá saúde a ninguém e, apesar de alegações de aparente estrabismo, o facto mais grave é que a cantar daquela forma, é natural que ainda ecoem alguns gritos de terror em certos hospitais.

Posto isto, sinto-me bem mais descansadinho com o que andei a fazer nos últimos 20 anos.

12.2.10

Sim, eu fui ao Ponto de Encontro. E depois?

Depois de ontem ter revelado o meu passado de figurante, têm chovido boatos de gente maldosa que alega já me ter visto a bater palmas no programa do Goucha, abraçado ao João Kléber no “Fiel ou Infiel” e por aí em diante. Não tendo eu nada a esconder tirando aquilo que não revelo, desde já afirmo que não é por aí, já que o meu ponto mais baixo, televisivamente falando, deu-se no “Ponto de encontro”, com o saudoso e sempre compreensivo Henrique Mendes.
Foi um one night tv stand e mais nada.

Fui parar ao estúdio, com um amigo meu, certo de que ia à gravação do “Casos de Polícia”, programa que era a minha cara. No entanto, o cheiro a naftalina e os velhotes à porta logo constituíram mau prenúncio. A nossa amiga na produtora, com ar meio culpado diz-me “Desculpem, é que estamos com falta de malta nova na assistência...”
Olhei em volta, o mais jovem a seguir a nós devia ter deixado de ter dentes próprios há 10 anos.

“Ok, vamos lá, mas vamos para a última fila. Tenho uma reputação a defender”. No estúdio, a história foi diferente.

“Vocês aí atrás, os putos novos” esta última parte sentou de novo o velhadas com o andarilho estacionado à porta. “Venham cá para à frente, preciso de gente nova para equilibrar a plateia”. Esta tirada teve a mesma validade de um gajo querer evitar o naufrágio do Titanic pondo panos de cozinha no rombo do casco.

E assim, durante duas horas, na primeira fila mesmo atrás do apresentador, lá me sentei feito (pato)bravo, disposto a entrar no espírito do programa e fazer figuras....tristes.

Durante esse episódio, três casos escolhidos a dedo: uma senhora fez uma toalha bordada em Angola, que já lhe tinha sido paga por uma outra senhora, que se veio embora durante a guerra, Com o remorso de já ter a toalha paga e não a ter entregue, a primeira senhora vivia num sufoco. A produção foi brava, a senhora que encomendou a toalha não, visto que já tinha morrido. Compareceu uma filha, cujo o ar ao receber uma toalha bordada com mais de 20 anos só teve espelho em dois otários que tentavam refrear o riso.

Segundo caso: jovem moça das cercanias de Beja tenta comunicar com o pai, que deixou o lar e foi constituir família para outras bandas sem dar notícias. A produção, brava uma vez mais, percorre os cantos do mundo para encontrar o pai no... Barreiro. À pergunta da filha “Mas pai, porque é que nunca nos tentaste visitar”, responde o pai dissidente “O Barreiro é longe, não tem dado muito gente”. O teor surreal da coisa leva dois jovens às lágrimas....de riso. Henrique Mendes parece descontente.

Por essa altura já uma velhota estranha nos tinha captado a atenção. Sentada ao nosso lado na plateia, ostentava um relógio do Rato Mickey e um ar de quem não tinha os rolamentos todos alinhados. Eis quando cortamos para intervalo e a velhota se levanta, me dá uma palmada no ombro, sorri com os dois maravilhosos dentes que a Natureza lhe permitiu conservar e me diz “A seguir sou eu”. E foi mesmo. Queria encontrar o irmão, já que tinha ido servir para fora muito cedo. “Se tinha fé que o ia encontrar?” Tinha e explicou porquê, desabotoando a camisa e mostrando um fio que, frente a frente, tinha uma medalha de N.Sra de Fátima e de Pinto da Costa. “Ah, mas do meu irmão só tenho uma foto vestido de marujo. Sabe o que é um marujo, senhor Henrique?” Ele sabia.
Nós também. Sabíamos essencialmente que não íamos conseguir deixar de rir, até mesmo na parte em que o irmão apareceu emotivamente por detrás da névoa falsa do programa.

E assim, no historial do “Ponto de Encontro” e da minha memória ficará para sempre gravada uma emissão em que, na primeira fila, dois jovens passaram o programa inteiro com um esgar e lágrimas a bailar nos olhos. O telespectador pensou-os embrenhados no programa, mas na verdade...

11.2.10

O juiz decide



Quando era mais novo e precisava do dinheiro, muitas vezes recorri às minhas capacidades de figurante, para figurar de modo exemplar nalgumas das principais séries/novelas de lastro produzidas em Portugal.
Do "Juíz Decide", com o mítico Dr.Juiz a dizer "A audiência facha vôr de se sentar" e a Liliana Campos bastante longe dos tempos de pseudo fashion-tv starlette, aos "Casos de Polícia" e sim, confesso ao "Ponto de Encontro", não faltaram por aí grandes apontamentos de reportagem que davam para eu fazer 50 posts e ainda sobrava muita matéria.
Para além disso, não faltaram filmes nacionais e estrangeiros, tal como novelas como "Os Lobos", em que interpretei mais de 7 personagens diferentes, todos eles insignificativamente nada memoráveis.

Mas pronto, foram bons tempos, em que me davam dinheiro só pela minha presença. Quem me dera que as coisas ainda fossem assim hoje...Nos dias que correm só me dão dinheiro para me ir embora.

Não sendo possível, vou hoje à tarde figurar a um tribunal a sério pela primeira vez.
Tenho medo de mim, acho que o meu sentido de humor não tem enquadramento legal.

Vamos ver. Se correr mal, espero que haja Internet na cadeia.


Edit: Parece que afinal já não vou, pediram adiamento. Devem ter lido este post e perceberam com quem estão a lidar.

10.2.10

Duelos com chapéus de chuva


Há quem tenha uma certa devoção por filmes de capa e espada. Há quem tenha um certo apreço por usar chapéu de chuva em situações inusitadas como, por exemplo, quando chove. O problema é quando estes dois universos de magia e água se cruzam, em tempestades de mau feitio.

Quem nunca se envolveu num duelo de chapéu de chuva ou, pura e simplesmente, não o usa ou poderá dar-se o infortúnio de não ter bracinhos. Nesse caso, peço-lhe desculpa e poupo-lhe o trabalho de fazer scroll para ler o resto do texto.

Inclina-se o chapéu para a esquerda ou para a direita, baixa-se ou sobe-se o mesmo, dá-se um passo à direita, ops, é melhor ser para a direita, raios ta partam, decide-te pá, tudo isto para evitar levar com uma litrada do melhor líquido que as nuvens produzem. Por cada opção que se possa considerar certa, surge uma nova reacção que a torna errada.
Da dama pós-moderna que aponta o seu chapéu à tromba de quem com ela se cruza sem se dignar a olhar para o lado, ao velhote aguerrido que se recusa a sair debaixo da protecção de um toldo, apesar do seu chapéu poder albergar toda uma família cigana, não faltam motivos para se mistura água, raiva e golpes de pulso.

Já perdi duelos por ser mais alto e acabei vergonhosamente de calças encharcadas, já me regozijei por driblar uma feroz idosa e usar a água acumulada no chapéu num golpe de mestre para lhe dar banho aos botins. Ah, e como eu gosto de idosas de botins.

Olho lá para fora, em dias de chuva, e oiço o Robin Hood dentro de mim, “ vá, larga os collants, empunha o chapelito do Mickey que te alcançou fama e respeito”. E assim saímos à rua, de capa negra e instinto matador, prontos a enfrentar qualquer chapeleiro de segunda.

9.2.10

O porteiro dos sonhos

Outro dia deu-me para dormir fora de horas. Não foi planeado e, por isso mesmo, vi logo a coisa complicada quando, passado o portão do sono, reparei que o porteiro não era o mesmo.

“Boa noite...ou melhor bom dia. O Carlos não está?”
O ar indiferente do latagão funcionou quase como resposta “Não. Ele só faz noites.”

“Pois... costumo passar por cá a essa hora” Arrastei a voz para ganhar tempo.
“Posso ajudá-lo?” Frase automática que não transmitia qualquer vontade em fazê-lo.

“Eeehhr... queria saber se é possível marcar um sonho.”
“Para quando?” sacou de um livro preto e de um ar enfastiado a condizer.
“Agora...se for possível” fiz o papel de jovem humilde.
“Hmmm, quantos disse que eram?”
“Só um, tipo eu” Sorri, para tentar criar uma ligação. Cortou-a pela raiz.

“As pessoas acham que sonhar é fácil, que é só fechar os olhos quando lhes apetece e já está. Mas não pode ser assim, tem de haver um mínimo de respeito por quem trabalha nos sonhos.”. Bateu com mão pesada no livrinho preto, mas parecia haver alguma vontade de fazê-lo em mim.

“Claro...claro” a minha concordância não parecia amansar a fera “Foi mesmo algo que se proporcionou, não foi planeado”.

“O problema é esse, nunca é. Uma vezes juram que é só uma soneca de dez minutos e depois querem uma réplica do Moulin Rouge”

aquele livrinho preto estava mesmo a ficar em mau estado

“Outras vezes, dizem que querem um sonho surreal, mas depois queixam-se noutros sonhos que andam a gastar balúrdios no psicanalista. Isto para não falar nos Chico-espertos que passam a vida a sonhar de olhos abertos e a furar o sistema”.

Os olhos esbugalhados do senhor diziam-me que sonhar na próxima hora, só em sonhos. Assumi a derrota “Pronto, deixe estar, volto mais tarde, também não vale a pena estar a sonhar de mau modo”.
Voltei as costas e fui para a paragem para apanhar o Despertar das 16.15.

Chamou-me.
“Oiça, não é por mal, isto às vezes complica-me os nervos. E dizem eles que é um emprego de sonhos”.

Sorriso amarelo 38 chamado ao palco. Fez de conta que não viu e abriu o livro.

“Olhe, para agora consigo arranjar-lhe um pesadelo de meia horita, com uma modelo finlandesa e carrinhos de choque”
Sorri “Mas isso não é pesadelo nenhum”
Sorriu de volta “Para a modelo finlandesa é”
O árbitro apita para o final dos sorrisos.

Virei-lhe as costas e apanhei o das 16.15. Quando um gajo conhece o porteiro, os sonhos têm outro nível.

8.2.10

Serei eu uma gaja boazona?



A Internet tem uma coisa maravilhosa. E, para os rebarbados da sala, não me refiro à pornografia. Falo da capacidade das pessoas confiarem/acreditarem no que lêem, por exemplo em blogs.

“Deves. Eu não acredito em merda nenhuma que leio neste blog, se é que isto pode ser considerado um blog”. Isto sou eu, a fingir que sou um de vocês a fingir que não acreditam no que acabam de ler, enquanto se questionam sobre a complexidade dos diálogos interiores.

A verdade é que, e acreditem em mim, por norma somos mais desconfiados com desconhecidos no mundo real, do que com desconhecidos na blogosfera. Criam-se laços, a escrita é uma boa forma de identificação e, quando damos por isso, estamos em perfeita sintonia com alguém que não conhecemos de lado nenhum.

O ponto base é, se um tipo com o meu savoir faire do Feira Nova vos abordasse na rua, não pensariam duas vezes em me deixar a falar sozinho. Aqui posso até pôr em causa a capacidade que têm de pensar que, com um bocadinho de sorte, ainda acham piada. Um bocadinho grande.

Nada vos diz que eu não sou uma barmaid voluptuosa da Reboleira cujo sonho era fazer-se passar por um gajo idiota, ainda assim um charme de moço, com a mania que é engraçado. E, para aqueles que alguma vez aventaram essa hipótese, a primeira rodada no “SAM Bar” é por minha conta.
Há pessoas e personagens na Internet, a proporção é incerta e duvidosa, eu próprio sou um deles e vejam lá o ambíguo que isto é.

No entanto, ao contrário dos programas da manhã na TV, nem tudo é mau e tenebroso. Numa era em que é a imagem que dita as regras (exemplo: digam-me qual foi a última gaja não boazona/excêntrica que viram na MTV a cantar ou a tentar), as pessoas na blogosfera seguem outra coisa. Uma percepção, uma vivência, uma história com um fio condutor ou não. Errados ou certos, isso depois é outra história.

Mais vale sonhar um dia do que passar a vida no escuro.

Seja como barmaid na Reboleira ou como eu, o que pode ser ou não a mesma coisa.

Ex-excluído social

Ultimamente não tenho visto muita televisão, talvez por isso me tenha andado a sentir mais inteligente. (o espalho do Abrunhosa não é televisão, é retribuição divina)

Talvez por isso tenha descortinado um certo zum-zum nas minhas costas. As pessoas olhavam para mim, falavam em surdina e não era sobre televisão. Era pior que isso. Nas últimas semanas desdenhavam de mim, não me convidavam para almoçar e, quando pensavam que eu não estava a ver, abanavam a cabeça em sinal misto de desdém e fiambre.

“Lá vai ele. Não sabe o que faz...” ouvia nos corredores. “É este que ainda não...”, as frases interrompem-se à minha passagem. Até que um responsável do meu estaminé me chamou à parte:

“ Já lá vão quase dois meses e tu nada. Pensa nisso no fim de semana, mas não nos podemos dar ao luxo, se isso se mantiver, de continuar a ter uma pessoa como tu aqui na empresa. Está muita coisa em jogo, não és só tu que ficas mal...”

A coisa ficou em aberto, mas eu sabia que a coisa ficou bem clara. Tinha de ser agora.

E pronto, lá fui ver o Avatar.

Hoje fui recebido em ombros, mal me viram elucidar a senhora da recepção sobre o termo Na’vi e as singularidades do povo Omaticaya.

Mal sabem eles que eu nunca vi ou li “O Código de Da Vinci”.

5.2.10

A menina dança?


Música e dança, haverá melhor mistura? Não tendo resposta segura para tal questão, resolvi acrescentar álcool.

Epá, eu não enjoo em movimento, mesmo que tenha um problema nos braços. Espera lá, não é um problema, é uma donzela e sorri para alguém. Deve ser para mim, pelo menos sou eu que a estou a agarrar enquanto dançamos. Dançamos? Sim, deve ter sido essa a minha resposta, senão isto não faz sentido e eu estaria sentado.

Eu danço? Oh, se danço, enquanto passa por mim o Gabriel Alves, dançando um magnífico tango emparelhado com a Charlize.
Theron boas razões para isso digo eu, não resistindo a uma piada em movimento.

“Altossddseenr e párnejeej o bailenazzz!!” A expressão não sai tão bem quando gritamos com uma rosa na boca. O baile pára, Gabriel comenta a beleza da força do baile versus o baile da força. Já eu não comento nada, estou à rasca a tirar espinhos de rosa das beiças. A fazer beicinho está a Charlize, o Gabriel deixa-a fora de jogo com uma entrada mais dura, creio beringelas com vinagrete.

A bater o pé o meu par é ímpar. As socas ajudam, mas não lhe consigo ver a cara. Talvez por ter 35 cms a menos que eu e estar a limpar as lágrimas à minha camisa de folhos.
Desculpem, deve haver aqui alguma falha em relação aos folhos. Eu não uso disso.

Trazem-me outra camisa. É de forças.

Finalmente vejo a cara ao meu par, acho eu que é a cara. Ou tem dos bigodes mais deslumbrantes que conheci até hoje ou o cabelo escadeado não lhe fica bem.
É uma Madre Teresa por me aturar.
Suspeito que anda a ser Madre Teresa com outros nas minhas costas. Só lhe desculpo porque é efectivamente a Madre Teresa.

Começa a cantar-me uma música ao ouvido e diz que quer viver comigo em Ibiza. Suspeito que andou a ler o meu blog.
Tenho comichão na orelha, mas com a camisa de forças não me dá jeito coçar.
Resolvo acordar.
Abro os olhos, tudo parece anormal. Sinal de que já acordei.
Cuspo um espinho da boca que é para não me armar em esperto.

4.2.10

Sem medo de ser parvo


Há uma diferença entre ser parvo sem o saber e sê-lo de forma assumida e descontraída. Se não há, passa a haver, até porque sou parte interessada. Aliás, não sendo o despotismo modalidade olímpica, permitam-me que elabore sobre a questão.

As pessoas que são parvas sem o saber, como essa condição indica, julgam-se bem longe do Olimpo da parvoíce. Podem pensar-se portadoras de fino humor, requintada inteligência, oportuna sagacidade ou sublime genialidade, quando na realidade são essencialmente parvas. E se o sorriso amarelo não os ajuda a perceber isso, é melhor não tentar a pergunta “Tu és um bocado parvo, não?”.

Por outro lado, já eu responderia a essa pergunta com um sorriso aberto e confirmação rápida e concisa.

Sim, sou parvo.

E basta isso para parecer logo menos estúpido. Aos parvos assumidos desculpa-se muita coisa, porque...são parvos. Tendo cuidado em não pisar a fronteira poderás fazer carreira na parvoíce, isto sem descambares em parvalhão, patarmar a partir do qual se acabam as regalias.
A parvoíce é um filtro a partir do qual até a realidade mais dura tem um ângulo mais suave. O parvo, quando domina o seu mister, é uma valiosa companhia, com a vantagem de que não precisa de ser passeado à rua. Curiosamente, os parvos que o são sem saberem, tendem a não gostar dos parvos assumidos. É natural, são parvos, mas de outra espécie.

Não me preocupa ser parvo, enquanto tiver sempre a noção de quando o estou a ser. Como por exemplo hoje de manhã no elevador a caminho do trabalho, ao ser interpelado por uma jovem empresária de sucesso:

“Vai subir?”
retive a porta
“Só na sua consideração, espero”.

3.2.10

Viver contrariado

A vida é feita de contrariedades. Estamos no quentinho do ventre da nossa mãezinha, mandam-nos cá para fora. Somos crianças e não temos responsabilidades, estamos a gozar isso e vêm logo obrigar-nos a ir para a escola aprender. Depois de aprendermos tudo na escola ou fingirmos bem, dão-nos duas opções: ou vais trabalhar ou vais aprender mais para a universidade. Se fores um verdadeiro maluco, fazes as duas ao mesmo tempo.
Por esta altura, se não tiveste a contrariedade de ter o QI de um espargo, já passaste mais de um quarto da tua vida a lidar com isso. E ainda a procissão vai no adro.

É que, se não nasceste com o kit eremita plantado no cérebro, vais perceber a dada altura que há outro vazio na tua caderneta, que só é completa com um cromo difícil de encontrar. E começa aí outro processo de tentativa-erro, que muitas vezes te vai levar à contrariedade de te veres com o coração nas mãos, nos pés e noutras partes do corpo que manifestem interesse em adquiri-lo.
Independentemente do que já tenhas aprendido e trabalhado, poderás portanto sentir-te burro e inútil. Por outro lado, podes efectivamente ser burro e inútil, mas ter alguém com quem compartilhar isso todos os dias. A contrariedade, nesse caso, surge apenas se a outra pessoa te relembrar isso todos os dias.

Lembra-me alguém que há quem não veja muita contrariedade no facto de nascer com o rabo virado para a Lua. Contraponho, referindo que o facto de passar a vida a ser reconhecido por uma determinada posição do meu rabo não é o mais agradável. É, porventura, uma contrariedade.

Não vou sequer mencionar a contrariedade que é chegar o dia em que te dizem que não precisas de trabalhar mais, apenas para descobrires que a tua reforma já não existe, devido a algumas contrariedades do sistema de segurança social. Ops, já o fiz.

Mas, pelo meio disto tudo, podes não ter noção de grande parte das contrariedades que apontei. Em primeiro lugar, pela contrariedade que é passar a vida a vivê-la, o que te deixa pouco tempo para pensares em ti. Em segundo, porque nos foi instituído um certo gozo na superação, ainda que aparente, de todas as contrariedades que se nos vão aparecendo à frente durante a vida.

E isso, para quem gosta de dizer mal da vida, é uma contrariedade.

2.2.10

Intervalo para reclames

Por norma, publicidade é coisa que não se vê muito neste espaço. A não ser que seja má publicidade e, nesse caso, muito possivelmente foi causada por mim.

No entanto, desta vez não é esse o caso. É um bom exemplo aquilo que vos mostro.


Aproveitem, não vão encontrar muito disso por aqui.



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1.2.10

Alien da parte do pai


Enquanto estacionava o meu disco voador em plena Avenida de Roma, buzinando freneticamente ao idoso que insistiu em atravessar mesmo por trás do OVNI, ocorreu-me uma forte possibilidade – “E se eu for um extra-terrestre, não obviamente daqueles fofos com dedos iluminados, mas assim daqueles estranhos, sem roçar também a violência daqueles que saem de dentro de caixas toráxicas de humanos?”

Congelei o parquímetro com o poder da mente, enquanto me debruçava sobre essa possibilidade. “Ora eu nunca fumei um cigarrinho que fosse neste vida terráquea, não aprecio minimamente café e tenho pela cerveja a mesma estima que nutro pelas novelas venezuelanas, ou seja, só para me rir de vez em quando”

Dei por mim a falar comigo em voz alta e, depois deste discurso, já as pessoas fugiam a correr ou olhavam para mim como se ter um braço atrás das costas não fosse algo perfeitamente normal.

Matutei alguns segundos, usando a minha matuta comprada numa loja de penhores em Marte, e prossegui “Por outro lado, há todo um tipo de interacções humanas que aprecio, como as cócegas nos pés, as piadas secas e a utilização de léxico diversificado de modo pomposo e galante em situações que façam pouco sentido. Isto para não falar de regabofe à antiga.”. Portanto, talvez não seja totalmente de fora desta região.

Enquanto pensava mais um pouco, passei uma rasteira a um cego, sinal do máximo respeito pelos invisuais na minha terra, não percebendo a reacção de pânico e indignação de boa parte dos transeuntes. O cego, vá lá, limitou-se a cair e a chorar, certamente de emoção pelo meu tributo.

Não fiquei com certezas, mas já o implante neural sináptico-tamagochi tocava a pedirem-me para ir acabar com a peste do smiffer em Jupíter, que lá ao menos sempre pagam os serviços a horas.

30.1.10

Tenho um Moto Moto na cabeça

Alguém que me tire a porra da música do hipopótamo da cabeça. Quem me manda a mim andar a ver desenhos animados...como se a minha cabeça não me bastasse...

Chunkyyy!

29.1.10

Sherlock Holmes na fila do supermercado

Na fila para pagar no supermercado, como se pode tentar deduzir, com alguma segurança, que a jovem à nossa frente ou vive sozinha ou tem sérios distúrbios alimentares?


Olhando para o seu cesto e verificando que consta de 1 desodorizante, 1 embalagem de pensos higiénicos e cerca de 15 embalagens de comida para gato.


Como se deduz que atrás dela ia um gajo meio parvo?


Olhando para as trinta coisas que leva no seu cesto e no saco de plástico ridiculamente pequeno que leva na mão e espera que milagrosamente aguente sem romper até casa.

Ontem, os milagres não existiram.

28.1.10

Domingo Desportivo versão Striptease



Existe por aí uma gentinha que afirma em surdina que neste blog não se abordam temas de jeito. Gostaria de negar peremptoriamente, e uma vez mais, o facto de isto ser um blog. Mas, porque até tenho umas noções de entretenimento de massas, permitam-me misturar o universo do comentarismo desportivo e do striptease.

Nos habituais programas de comentário desportivo, temos resumos de dois minutos e secas de meia hora. Análise ao pormenor, discussões acaloradas sobre capacidades técnicas e capacidades de técnicos, etc. Como isso me farta um bocado, acabei por ir ontem ao cabaret Maxime, onde a noite prometia Manuel João Vieira e dançarinas exóticas.

O programa revelou-se interessante, se bem que não exactamente o previsto, pois Manuel João deu uma de Dom Sebastião e foi o guitarrista dos Ena Pá + pianista a fazer o support act das três miúdas desinibidas que entraram em palco mais tarde. O facto de ter ido acompanhado de senhoras (e uso este termo como contraste óbvio para o bandalho que sou) revelou-se um claro valor acrescentado.

Ver um show de strip acompanhado de mulheres foi como ir ver o jogo da bola com o Gabriel Alves e o Rui Santos ao lado. Não se deixa de apreciar o espectáculo, mas tem-se toda uma outra dinâmica técnico táctica. Vejamos apontamentos.

“Ah, tem muito pouca sensualidade a dançar. Parece um cepo.”
“Epá, celulite é que não, estraga um pouco o número para uma profissional do género”
“Repara na musculação das pernas. Horas de ginásio, tornear assim sem exagero não é fácil”
“A morena é sem dúvida alguma mais evoluída tecnicamente que as outras. A cabra tem cá uma flexibilidade. Pena a cara de cavalo.”
“Há muita silicone a actuar no campeonato do strip. Pena que nem toda seja realmente um valor acrescentado”.
“A combinação roupa-música não está a funcionar muito bem. Não estudou bem o número”.
“Esta gaja é muito dinâmica, ocupa bem os espaços no palco, parece que tudo está focado nela”.
“Os implantes daquela tipa são claramente uma aberração”.
“Muito boa música. Assim até eu me despia”.
“Estás a gozar com o tipo que ela sentou na cadeira? Não é fácil, vais lá tu?”

Não fui. Não podia. Estava completamente embevecido a ouvir pérolas da análise stripteaser. As gajas, de facto, não eram nada do outro mundo, mas tinham o seu talento. E não fui eu que disse isto.

27.1.10

Uma vida em 15 linhas

Alberto, o Arte e Tecto

Alberto nasceu para ser arte e tecto e, mal nasceu, disse isso a quem o queria ouvir. “Arquitecto”, corrigiam-no com um sorriso, quando ele ainda era pequeno demais para os desmentir com algo mais do que “Na, na, na, arte e tecto”. Quando começou a crescer, manteve “Arte e tecto, é o que quero ser”. Sorrindo menos, não o corrigiam tantas vezes, pensavam que era fase “Ora, o primo Carlos também queria ser burro crata e agora tem uma boa carreira, o 28 da Carris”.
Em Portugal não havia cursos de Arte e tectura, por isso foi para o Tibete, aprender tudo o que sempre quis saber, na Faculdade do Tecto do Mundo. Alberto voltou diferente, voltou contente e arte e tecto formado. É bem sucedido e passa a vida a ser convidado para ficar pendurado no tecto, a decorar casas de pessoas importantes. A arte e tectura está na moda. Há quem já não sorria e goze quando falam de Alberto, o arte e tecto. Ninguém gosta de tipos que ganham a vida a olhar as pessoas de cima para baixo.

26.1.10

Cromos auto-pedantes

Gosto de interagir com gente pedante. Especialmente de lhes dar com um malho nas rótulas só para os ver a rastejar, isto falando obviamente em sentido figurado, que eu sou pela paz (ou pelas pás, se for para lhes dar com elas nas trombas).

O que é realmente triste, em boa parte das pessoas pedantes, é que não se vislumbra o porquê dessa atitude. Se fossem génios, aristocratas de oito gerações ou, vá lá, eu, até se percebia. Mas, na sua generalidade, são pessoas mesquinhas que usam o pedantismo como uma capa de superioridade para ocultar as suas próprias falhas.

Depois, caem no ridículo perante pessoas que ligam zero a esse tipo de atitude ou que as desarmam e expõem o que realmente são. De que serve a um casal de cromos massacrar a cabeça a um empregado de mesa, porque têm de esperar por uma entrada, quando só estão à espera porque foram pela opção buffet livre (mais barata), em vez da opção carta. Quanto mais alto falam, mais ridículos se tornam, porque quem ouve pensa: “Se tens um padrão de exigência assim tão elevado, porque raio não optaste pela carta ou não te calas e esperas só uns segundos até reporem”.

Isto é só um exemplo, outro seria o de, no espaço profissional que frequento, a minha empresa (onde impera uma certa informalidade) coabitar com a de uma consultora (formalidade rules). Formalidade, gravata, tailleur, sapatinho pipi-fashion, pasta com portátil, i-Phone, ar de nhonhó e falar das férias na neve não são sinais de superioridade, mas sim de ostentação. Não me impressionam em viagens de elevador, não me fazem sentir pequeno no mesmo café e não me causam suores frios (para isso basta-me o ar condicionado).

Por isso, vão lá ser auto-pedantes para a vossa caderneta, que eu para esse pedantório não contribuo.

25.1.10

Faisal guma coisa por ti pá!


Já muito se falou sobre Abel Xavier, portanto falemos então de Faisal... Xavier. Antes de se converter ao islamismo o Faisal foi um futebolista conhecido em todos os cantos do mundo, particularmente por ter jogado praticamente em todos os cantos do mundo. Num total de oito países e mais de dez clubes, antes de ser Faisal este rapaz correu todos os campeonatos e em todos os campeonatos houve quem corresse dele.
Porquê? Porque mais do que clubes, futebol e capacidades futebolísticas, a páginas tantas o Faisal antes de o ser, acumulou mais penteados exóticos do que clubes e países somados, isto para ser simpático.

Desde Yeti, a Cotonete Dourado, passando pelo Abelminável Homem das Neves, muita coisa chamaram ao Faisal quando ele ainda não o era. A dada altura pareceu até que os seus olhos mudaram de cor, mas já ninguém ligou muito, pois tinha-se tornado rotina. Além disso, no futebol o seu destino já tinha ficado marcado pelo lance da mão-que-não-foi-mas-na-volta-até-foi nas meias finais do Euro2000.

Longe do rapazinho que tinha aparecido num clube de Amadora, o pré-Faisal era agora um boneco simpático para tirar fotos e decorar o relvado tipo árvore de Natal. Foi até aos EUA, para aparecer em postais ao lado do David Beckham. Mais socialite do que futebolite, o já quase Faisal que, diga-se de passagem, sempre foi minimamente articulado no discurso colocou um ponto final na carreira dos relvados, embora também se possa dizer que a carreira há muito que já estava em reticências.

Pensámos nós, “Ah, Faisal-no-prelo, é agora que vais deixar de ser motivo de atracção e acalmar”. Mas não, não havendo futebol, logo houve Islamismo para voltar à ribalta. Totalmente lícita a opção (como todas as de cabeleireiro o tinham sido), mas Faisal, e agora sinto que te posso tratar assim, não achas que depois de tanta tropelia já poucos te levam a sério?

Logo à noite, quando pisares o relvado da Luz para ajudar o Haiti, pensa nisso. Porque o Faisal podia ser o começo de algo novo e não uma sequela de um Abel Xavier de quem já todos já só estão pelos cabelos.

Uma pessoa reinventar-se é algo positivo, mas de que serve isso se ficar tudo na mesma?

23.1.10

Mordam lá esta



Ainda outro dia aqui falava da epidemia de vampiragem que para aí anda, desde que a coisa passou da categoria horror para a prateleira pop/sexy. Como é óbvio, a programação nacional não podia deixar de aproveitar a ocasião para nos sugar a paciência.
Assim sendo, já este fim de semana, estreiam Lua Vermelha (SIC) e Destino Imortal (TVI). Se a sinopse da primeira tresanda a cópia da saga do Crepúsculo, o segundo também tem essas referências mas dá-lhe um toque familiar, coisa que já se tinha para aí há 20 anos, com a Vamp que nos chegou direitinha do Brasil.

Vou já colocar uma coleirinha de alho no meu comando de televisão, que eu estou bem a par das tradições e sei que os vampiros e a programação da tanga só me entram pela casa adentro se eu deixar.

PS - Aguardo nervosamente ser "surpreendido" por séries nacionais sobre tremores de terra, poker, médicos loucos, médicos pseudo-sexy e super heróis, coisas que também parecem estar a interessar audiências.

22.1.10

Quando o telefone me toca


Todo o Super Homem tem a sua kryptonite, dai que seja natural que até eu tenha as minhas fraquezas. Sendo eu matreiro como uma qualquer raposa que se preze, não me vou pôr para aqui a enunciar as que realmente interessam, até porque em termos de folhetins sentimentais já está a blogosfera bem servida.

No entanto, e visto que não estou à espera de uma chamada vossa, posso dizer-vos que tenho muito pouco prazer em falar ao telefone e que o uso frenético do telemóvel veio apenas acentuar isso mesmo. Do alto dos meus skills comunicacionais, quer por via da escrita, quer em pessoa, hábil artista do léxico diversificado e parlapié para entreter donas de casa e surpreender eruditos, vejo-me feito mono em conversações telefónicas, especialmente quando não se trata de gente que me é próxima (e ainda assim...).

Há algo no telemóvel (para além de que este aparelho veio estimular o inseguro e o pequeno controlador que há em muita gente) que me soa sempre a traiçoeiro. Enquanto observador da fauna social, na conversação telefónica falta-me a proximidade que, para muitos, o facto de ser mano-a-mano parece contentar.
Depois, a riqueza da escrita quando existe, para mim é bastante mais sedutora do que falar para o tamagochi. É essa a minha natureza, quanto ao resto, muita saudínha para quem aprecia uma boa hora de converseta com a torradeira no ouvido.

Quem me ouvir ao telemóvel, terá dificuldade em perceber que por detrás daquela voz cortante, que quer despachar o que quer que esteja na origem daquela chamada o mais depressa possível, está um tipo eloquente, sagaz, irónico e, acima de tudo, modesto. Mas, por outro lado, quem vem aqui ao blog também nunca viu nada disso e ainda volta.

Por isso, vou desligar a chamada, mas fiquem aí que eu já volto.

21.1.10

Mestre-sala de pânico


As pessoas tendem a não gostar do pânico, muito possivelmente porque não conseguem controlá-lo. O que até é natural, dado que o pânico viaja normalmente acompanhado do horror e da desgraça.

Mas, em ambientes específicos, não me referindo eu a experiências com ratos de laboratório e queijos suíços, o pânico é um bom amigo. Por exemplo, nos meus tempos de marujo, dei por mim num destino tropical rodeado de beldades, estando elas rodeadas maioritariamente pelos seus respectivos Sandokans.
Um deles distinguia-se pelo seu físico hercúleo e atitude de matador. Por todo o sítio onde o vi por essas bandas, tinha sempre um ar calmo, cool e de quem salva o mundo enquanto prepara um batido de proteínas.

Quis o destino que estivéssemos os dois no mesmo barco (literalmente) num cruzeiro pela região. A meio do mesmo, os animadores celestiais acharam que seria porreiro abrilhantar a coisa com uma tempestade tropical e cocktails de pânico para toda a gente. Chuva a rodos, muita agitação e eu, sempre que pude, no convés a espreitar a tormenta, enquanto que o matulão se encolhia lá em baixo, sentadinho ao pé da Dona Alzira de 70 anos.
Se eu tive medo? Tive sim senhor, mas nunca pensei que estava ali a queimar os últimos segundos da minha existência. Mas, quando aquilo terminou (e foi relativamente breve) dei por mim a rir e a pensar “Epá que experiência”. Foi quando o Hércules de trazer por casa assomou ao convés e, vendo-me a rir, disse meio a chorar entre dentes indignado “Epá...epá” (fazer uma voz fininha para ainda tirar mais seriedade ao indivíduo) “Epá, mas tu estás-te a rir?? És parvo, nós íamos morrendo, morrendo ouviste e a rir. Eu não percebo...”

Mas eu percebi. As pessoas em pânico são como fotografias sem moldura decorativa. Por mais enfeitadas que estejam, na altura da verdade, despidas dessa capa, é aí que as conhecemos verdadeiramente. E isso, rapaziada, é coisa que tem um valor para lá de Bagdad.

PS - Isto é válido para climas tropicais, para a pessoa ao vosso lado no emprego ou para o colega de carteira. Vejam como em reagem em pânico/sob pressão e terão uma boa noção daquilo com que podem contar.

20.1.10

Batam palmas, é o bate-pé



Se o nome desta actividade lúdico-libidinosa não vos diz nada, então é porque são jovens demais para estar a consultar este blog e, nesse caso, fechem lá a janelinha e voltem para o site dos Morangos com Açúcar.

Caso o nome vos desperte algumas memórias e todo um sistema de código numérico-beijoqueiro, então estão no sítio certo. A verdade é que recentemente, pelo meio de uma garrafa de vinho (não, não foi sozinho à porta do Lidl), veio à baila o tema do bate-pé, esse jogo que batia nas horas o Traga-Bolas ou o Pulgas na Cama.

Haveria coisa mais interessante para criancinhas desinibidas do que juntar raparigas de um lado e rapazes do outro (na altura o governo ainda não tinha aprovado o bate-pé entre pessoas do mesmo sexo) e pô-los a pedir números uns aos outros, que correspondiam a coisas que iam do aperto de mão, ao beijo na boca, ao diabo a quatro e até ao casamento.

Era a adrenalina de arriscar e ver-se correspondido ou jogar pelo seguro e ser um pacholas. A rejeição teria que ser superada convidando um amigo para irem beber um pacote de leite com chocolate e desabafar sobre o assunto. Com o tempo, gente inventiva começou a inventar números que já queriam dizer tudo e mais alguma coisa, lembrando-me eu de um que já trazia laivos de um certo materialismo feminino, pois exigia “um anel” antes qualquer outro tipo de brincadeira a dois.

Longe de mim ficar-me para aqui a chorar pelas memórias. O bate-pé tem o seu lugar na minha prateleira de recordações, mesmo ao lado do episódio em que parti a cabeça à pedrada ao meu melhor amigo, depois deste me roubar uns berlindes e da vez em que a coisa correu mal quando resolvi saltar de um eléctrico em andamento ao pé do Aquário Vasco da Gama. E está lá muito bem.

Contudo, não deixa de me assomar um sorriso maléfico quando penso no que aconteceria se, no mundo dos adultos, as coisas também funcionassem com a lógica do bate pé- “Então, vamos jantar fora?”, “Tudo bem, mas aviso já que contigo não passo do 4”, “4?? O que é isso?”, “No máximo dou-te um beijo na boca”, “Ah, então esquece o jantar, vamos só ao cinema”. E logo se ouviria um pé a bater no chão, pondo fim à história o que, vendo as coisas, seria bem melhor que uma chapada.

Phoenix, 1901

19.1.10

Eu em 3 verbos

Querem gramática pessoal, querem? Então tomem lá.

Criar
v. tr.
1. Dar existência a.
2. Dar o ser a.
3. Gerar; produzir.
4. Originar.
5. Educar.
6. Inventar.
7. Fomentar; estabelecer; interpretar.
v. pron.
8. Nascer; produzir-se.
9. Crescer; passar à juventude.

Ironizar
v. tr.
1. Tornar irónico.
2. Exprimir com ironia.


Racionalizar
v. tr.
Tornar racional ou reflexivo.


Como é óbvio, o léxico da minha existência é mais extenso e tem erros. Mas não estou cá para vos facilitar a vida e prontuários ortográficos é coisa que não falta à venda por aí.

18.1.10

A minha ida ao veterinário


Haverá melhor programa para domingo de manhã do que ir ao veterinário (a pergunta é retórica, não precisam de responder). Pois foi isso que fiz.

_________________________________________

O espaço anterior está reservado a todas as piadas do género: “Então, doeu muito?”, “O que é que tinhas?”, “De um animal como tu espera-se tudo”, etc. Posto isto, posso dizer que é uma experiência curiosa.

Primeiro que tudo, o nosso sofrimento é indirecto. Ou seja, podemos estar preocupados, mas sobra-nos a lucidez mental (quando esta existe) para observar o que nos rodeia. Em segundo lugar, porque o binómio pessoas-animais (quando é possível a distinção) gera situações caricatas, apesar do local em causa.

Assim, num parágrafo, encontramos: a família desavinda que acerta as contas na sala de espera, utilizando o animal como arma de arremesso. A velha fatalista que sofre sempre muito com os animais e jura que o Jeremias, o 38º gato que tem vai ser mesmo o último (ou talvez não, tal é a falta de memória que a leva a confirmar 38 vezes como é a história da medicação). A senhora dondoca que tem um cão de ouro, pelo receio que tem em mostrá-lo ou deixar que ele interaja com pessoas e bichos. O pai com o filho que tem comportamentos mais animalescos do que o paciente. A mulher que tem no animal de estimação o filho que ainda não tem. O tipo que está preocupado porque usa o cão para engatar e com ele avariado a coisa não corre bem. A velha beata de consultório, que sabe tudo sobre animais e consegue descrever mais de 20mil mortes trágicas e doenças horripilantes de animais antes que consigas dizer “Cale-se, por favor”. Pelo meio ainda vão lá algumas pessoas normais, que gostam de animais e de pessoas como eu.

No final de contas, é difícil não sorrir quando finalmente o veterinário nos atende e, meio em desabafo nos diz “Às vezes chegam cá em muito pior estado do que os animais”.
Calculei que fosse uma dica para não continuar a fazer-lhe xixi na perna.

15.1.10

Mas tu lês o que escreves ou escreves o que lês?

Houve alguém que se lembrou de estabelecer que quem gosta de escrever, por norma gosta de ler. Big deal, isso apenas vem confirmar que boa parte dos escritores são uns narcisistas de primeira que gostam é de ler aquilo que debitam enquanto dão palmadinhas nas próprias costas.
Desde já quebro esse mito, se há pessoa que não gosta de ler aquilo que escreve sou eu, essencialmente porque quando o faço chego a ficar com inveja de mim próprio e do misto de parvoíce, genialidade e modéstia que emana da minha mente. Além disso, não me quero sujeitar a encontrar comentários meus a gozar com os meus próprios textos, que eu sei bem como são os tipos que têm a mania que são engraçadinhos. Nem que seja por ser um deles.

Assim sendo, entretenho-me a ler livros de outras pessos, primeiro porque gosto de conhecer pessoalmente os artigos que decoram as minhas estantes e, em segundo lugar, porque tenho uns quantos volumes daquelas edições tipo 1001 coisas (Livros, Filmes, Discos, Receitas do Chefe Silva) para ver antes de Morrer e agora, apesar de ainda estar na flor da idade, sinto muita pressão nos ombros, especialmente no que ao Chefe Silva diz respeito.

Neste momento, dois volumes em análise. Um deles sobre algo que muito possivelmente não sei se tenho, outro sobre algo de grande valor para quem o sabe utilizar. Para não me envergonhar, obviamente não vou dizer mais que isto.




Nota mais ou menos séria: Para quem aprecia humor (e para cá vir tenho a ligeira impressão que ainda são uns quantos), a Antologia é uma bela porta de entrada para a obra de alguns autores portugueses que, na melhor das hipóteses, muita gente conhece apenas superficialmente.

Nota menos séria: O do cérebro também é muito interessante, especialmente para quem só o conhece/utiliza muito superficialmente.

14.1.10

Falar do tempo, essa cena fashion


Começo por agradecer ao tipo que vendeu a alma ao Diabo para termos quinze minutos de Sol em Lisboa hoje. Apesar de efémero, é um esforço bonito que tive a oportunidade de observar. Obrigado e que a danação eterna não faça esmorecer esse espírito grandioso.

Mas, adiante, que é do tempo que se fala aqui hoje. E, para quem não é de modas, haverá melhor tema? Actualidades, como o seu nome indica, são temas de conversa que facilmente deixam de condizer com a roupa e, porque não, com a capa de pessoa interessante que gostamos de usar.
Temas mais pesados, como Filosofia, Arte ou “Bola” não ficam bem a toda a gente, uns porque se arrastam demasiado, outros porque são muito formais e alguns temas nem sequer assentam bem a toda gente. Haverá coisa pior do que alguém a usar um tema na rua ou num jantar de amigos que não só não tem nada a ver com ele, como ainda se percebe que não está nada confortável?

Portanto, se querem o meu coneelho, falar do tempo é o eterno “novo preto” em termos de tema de conversação. Pode parecer de propósito, mas fenómenos como o aquecimento global só vêm confirmar isto. Tempo incerto, degelo, chuvas e secas, tornados, ciclones, anti-ciclones ou, para os mais simplistas, “um caloréu dos diabos” ou “uma humidade que não se pode” são frases que se pode usar sempre em qualquer altura.
Seja para quebrar o gelo em reuniões, elevadores ou a preparar bebidas, em situações românticas (Vide Guia Nacional do Piropo “Estás a causar-me cá um aquecimento global”) ou mais funestas (Vide Guia Nacional Funesto “Olhe, foi-se por aí abaixo como a temperatura e agora está ali frio e rígido que nem uma solha congelada”), o tempo há-de ser sempre útil para quem quer ficar bem na fotografia.

Como é óbvio, esta norma não se aplica a mim. Eu sou daqueles privilegiados que faz conversa de qualquer coisa, até do tempo....

13.1.10

I don’t want to live in Ibiza

Racionalizar uma música de dança, ora aí está uma coisa que não se deve fazer. Como tal, obviamente que me decidi a fazê-lo, mais por preocupação depois de me ter apanhado a cantar “I want to live in Ibiza”, do que por outra coisa.

Primeiro que tudo, eu NÃO quero viver em Ibiza. Depois, visto que não sou grande fã de música do género (o que não quer dizer que não seja um dançarino de primeira), quero aqui culpar rádios e auto-rádios alheios pelo facto de injectarem tal pastilha nos ouvidos de inocentes (vou poupar a mentira de dizer “como eu”).



Finalmente, eis as conclusões da minha investigação

- O artista é o DJ Diego Miranda e sua partenaire Liliana. Diego, sendo português, meteu o Diogo no bolso, pois o apelo do mercado hispânico tende a causar este efeito. Por esse motivo, tratem-me por El Malo a partir de hoje.

- Sim, eu sei, a letra de uma “música de dança” baseia-se num refrão simples e muita repetição. Tal não deveria dispensar que o resto da letra fosse mais do que palha para enfeitar, já que insistem em ter uma.

- O vídeo é o espelho do aspiracional de quem quer efectivamente viver em Ibiza. Mais uma boa razão, para eu não querer fazê-lo.

- Começar com um plano de Lisboa é bonito. Mas, no mercado internacional é mato e engana, pode pensar-se que Ibiza é já aqui.

- Liliana, moça culta, lê um livro. Toma lá que já captei todos os intelectuais para o meu som. Nesse livro está um postal/marcador de Ibiza. O sonho e as memórias começam...

- Parece que Liliana e su muchacho gostam de passear de barco ao pôr do sol. Calha bem quando se canta “The sun is rising”. Em Ibiza, o andamento é tal que é fácil não sabermos a quantas andamos.

- Ibiza é uma ilha bonita, tanto que esta música podia ser o hino da Remax da zona (ou seria um remix?). A porrada de planos idênticos da baía comprovam isso.

- Há uma certa selectividade em Ibiza. Daí as festas abrilhantadas por Diego parecerem ter sempre as mesmas cinco gajas focadas e o resto ser sempre desfocado en passant. Ou isso ou a guitola não dá para tudo.

- Ibiza é também sensual. Se o ritmo não demonstrar isso, Liliana terá que o fazer, tocando-se aqui e acolá ao som do reminder “Feel your body and everybody, thats the game we will play”. Espera lá “my body” e depois “everybody” e “games and soi on”? Não sei bem se esse é o tipo de comboio maroto que eu quero apanhar...

- O artista principal também quer mostrar aos amigos e família que tem a sua tatuagem finalizada. Sôr realizador, ponha lá dois planos focados na mesma. E, já que investi dinheiro no vídeo, ponha lá também uns planos saloios de mim e da Liliana na piscina em relax activo, que a vida em Ibiza não pode ser só trabalho.

- Como se isso não bastasse, há uma estrofe final, semi-declamada, para nos fazer pensar “The sexy island / The Powerful One / If you don’t have the spirit / Than you can’t return”. Que tipo de controlo fronteiriço é este? E porque raio a dicção da moça não me deixa perceber se é can ou can’t que ela diz. Não me convinha nada fazer as malas e depois chegar lá e voltar para trás por causa do spirit em falta ou em excesso.

- Bónus track: os comentários no Youtube. Valem mais que o vídeo, especialmente no âmbito da Psicologia e da Sociologia.

É fácil dizer mal? É
Será fácil fazer melhor, sendo menos wannabe e vendo mais as coisas como elas são? Também.

12.1.10

O Tempero médico



Nunca fui rapaz muito dado a doenças, pelo menos daquelas comuns. A título de exemplo, não tive sarampo, nem papeira, nem varicela, nem outros bónus infantis que nos dão histórias para a posteridade, depois de adultos. As minhas maleitas foram sempre coisas mais condizentes com a maldade que me é inerente. Ou seja, estranhamente interessantes.

“Ah, o menino vomita e tem febre alta 1 ou 2 vezes por semana e depois passa-lhe? É da alimentação, vá fazendo listas do que ele come”. Só depois de várias listas, vários vómitos e várias febres depois se chegou à conclusão de que eram os malandros do feijão e do grão. Solução: não os coma (alimentos só retomados depois de adulto).

“Ah, o menino foi levar uma vacina e ficou com um bracinho que faria o Hércules corar de inveja? Deve ser reacção alérgica, vamos fazer testes”. Testes esses que levaram ao conselho de “Se não quer ser culturista, tome só as vacininhas mesmo em casos essenciais”. Lá se foi a colecção de carimbos no boletim de vacinas...

Fora isso e uma pele sensível para contrastar com um interior endurecido, aqui o artista cresceu saudável e com uma destacável resistência à dor. “Ai que bom!!” dirão os mais fracotes, ainda a chorar agarrados aos dedinhos depois de terem magoado uma unha na tecla Enter. Atentem ao que vos digo, tolerância à dor é como um tempero, só é boa até certo ponto. E quem vos diz isso é um tipo que pratica desporto desde tenra idade com todas as amolgadelas que me fazem rir quando me dizem “Desporto é saúde”. Pronto, por acaso é, mas também é muita porradinha no lombo.

A dor é um alarme do corpo. Tal como os alarmes dos carros, às vezes foi só um anormal que se encostou, mas convem pelo menos ir espreitar. O que também não é o mesmo de correr aos gritos escada abaixo, cada vez que se tem dor/o alarme do carro toca.

Serve isto para dizer que, por um lado não tenho grande estima pelos campeões da hipocondria, medalhados inúmeras vezes nos Jogos Olímpicos do Alarmismo e nos Mundiais do Choraminguismo Absoluto. No entanto, por outro lado, também não me deslumbro com campeões da saúde de aço, os Homens e Mulheres de Ferro que se orgulham de ter feito o último check up médico na maternidade e que só sentem dores em caso de explosões nucleares à queima roupa. É gente que ainda não aprendeu que quando o corpo nunca se queixa de nada....

11.1.10

Pedido Encarecido ao Sr. Vendedor de casas

Faça-me um favor, ou melhor, faça um favor a si mesmo. Se eu estou interessado em comprar uma casa, trate-me como uma pessoa que está interessada em comprar uma casa e não como um alguém que vai comprar um pacote de leite. Até porque, vistas as coisas, a comissão de uma casa é substancialmente maior do que a de um pacote de leite, indepentemente do tamanho da vaca.

Primeiro que tudo, se está apostado nas novas tecnologias e não entende por novas tecnologias a utilização de vocábulos de venda tipo, “muito cachet”, “joy of living” e toda uma gama de adjectivos para lá do indispensável, então ponha o imóvel na Internet. Garanto que, como eu, existe muita gente que agradece a disponibilidade. Mas, se o fizer, agradeço também que ponha fotos, porque um quadrado cinzento a dizer “Ñão disponível”, não é um grande cartão de visita. No entanto, não deixe que a sua veia de Doisneau se apodere de si. O jardim a 200 metros da casa pode ser agradável, a rua pode ser pitoresca e duas crianças que brincam num largo podem ser inspiradoras, mas o montante pedido não inclui nenhum destes itens, pelo que o melhor é concentrar-se na casa. Pronto, não sejamos extremistas, deixe lá uma da rua ou da vista, mas só para complementar.
Por outro lado, a Internet também é conhecida por ter posto o mundo inteiro em contacto em segundos. Pode parecer estranho, mas se demorar mais tempo a responder a um email do uma carta a seguir no correio, então talvez ande a apostar no cavalo errado.

Outra coisa, sei que está muito ocupado e cinco minutos antes de eu ir ter visto aquela casa esteve lá com um casal simpático que também quer mesmo, mesmo, mesmo este apartamento e que, sem me querer pressionar, se eu gostar dele é melhor decidir rápido. Por isso, para pouparmos a todos tempo, incluindo ao tal casal, quando colocar o anúncio da casa na Internet, seja descritivo, mas acima de tudo seja honesto.
Não quero que fira os seus princípios, mas partilhar informações como se o prédio tem elevador ou não (especialmente quando aquele 3º andar tem uma vista magnífica), se é uma cave ou não (que eu deduzo apenas pelo facto de indicar que tem muita luz mas eu nas fotos não ver janela nenhuma) ou se o "precisa de uma pintura" não se refere apenas ao cenário idílico que esteve a desenhar, já que a casa precisa mesmo é apenas de uma extrema unção.
Longe de mim criticar o seu talento em eufemismos, mas uma casa para redecorar a gosto não é o mesmo que uma para reconstruir a custo e um imóvel para investimento, não é o mesmo do que um imóvel vendido com um idoso como revestimento. Também não vou apontar o dedo à precisão da sua localização geográfica, mas se me vai dizer que o metro é a cinco minutos, não parta do princípio que eu sou um queniano corredor de fundo e não use a Alameda como referência, quando ela já só é uma doce memória quando chego finalmente à casa onde me aguarda com um sorriso e outras histórias para contar.

A verdade é que, meu caro (e não leve esta apreciação para o campo do excessivamente valorizado), eu não vou comprar uma casa sem a ver, não vou comprá-la a pensar que, se for má, depois troco para a semana e, acima de tudo, não vou comprar se não gostar dela. Portanto, toda a areia que me atirar previamente para os olhos, todo o cenário irreal que me pintar e todos os eufemismos com que me bafejar dissipam-se no momento em que eu conhecer o imóvel, como tanto gosta de lhe chamar.
Se falarmos por telefone, vai obrigar-me a parecer um tipo da Saúde24 a perguntar todos os sintomas que a casa tem e não foi capaz de me descrever antes. E eu não gosto de tratar da saúde a ninguém por telefone. Se chegar ao ponto de ver a casa e me sentir enganado, pior ainda. É que, tal como certos argumentos, não se ganha muito em construir casas a partir do telhado. E a queda é sempre maior.

Por isso, Sr.vendedor, não pense em mim como um potencial comprador de argumentos, mas sim de casas. É que se depois de vender uma casa lhe pagassem a comissão em eufemismos, certamente não estávamos a ter esta conversa.

8.1.10

O ponto G das discussões na rua


Na sequência do post anterior, dediquei parte do dia de ontem a uma actividade vulgarmente definida como – dormir que nem um urso. Já a tarde ia avançada quando, para além de acordar para a vida, despertei para uma gritaria na rua.

Ora eu, para além de um extremo bom acordar, disponho também de uma consciência filosófica muito activa. E, testemunhando os berros entre (suponho eu) um peão indignado e um condutor, transpus o que ouvi para um reflexão profunda sobre discussões de rua, em geral.

A situação é, tirando nos casos em que a pancadaria é logo utilizada para abrir o certame, muito simples: há uma escalada de argumentos, que vai aumentando no volume utilizado pelos envolvidos e reduzindo na racionalidade dos argumentos.
Mas, e isto tem quase validade científica na Universidade de Badmington, há um momento em que a coisa passa da discussão à selvajaria, dez segundinhos em que um ou mais intervenientes rebentam com o fusível e passam para o lado negro da força. Interessantemente, ou não, são precedidos normalmente por uma repetição de argumentos e uma pequena pausa.

Vejamos o exemplo de ontem:

Biltre 1 – Então mas você ainda acha que tem razão!!!
Biltre 2 – Sfraggles zbournin outnaer BONDER! (imperceptível, mas intenso)
Biltre 1 – MAS, você ainda acha que tem razão??? (mais forte, mais raivoso)
Biltre 2 – Sfraggles, sfraggles!! (meio a terminar, meio a cagar para o que o outro disse)

(Ligeira pausa, possivelmente para revirar dos olhos do primeiro biltre)

Biltre 1 – Você é mas é um palhaço de primeira...., OTÁRIO do C”#&””#, não respeita ninguém, és UM MERDAS.

A partir daí, o resto é circo.

Pode parecer exagero, mas dependendo dos interlocutores, quem se presta a discutir na rua tem um fluxo de racionalidade muito reduzido. E raramente a conclusão chegada é de conciliação, mas mais de distribuição de insultos, infelizmente parcos em criatividade.

É pena, mas também é disto que o meu povo gosta. E quem sou eu para contrariar o povo.

7.1.10

Errado o c......

Estar a trabalhar às 5 da matina, sem ter passado pela casa Partida nem recebido horas de sono não está errado.

Errado ficou lá atrás, para aí depois de jantar.

6.1.10

Olha que te parto os rótulos

Há muito que a Humanidade tem uma carinhosa afinidade com o vinho. Tanto é assim, que já lá vão uns bons aninhos desde que decidiu começar a bebê-lo. Mas, que não se pense que é sobre a boa da pinga que me vou debruçar, pois para isso já me bastou o pequeno almoço.

Serve este pequeno raciocínio para mais uma analogia barata, prato favorito nesta modesta casa. “Um bom rótulo não faz bom um vinho e um mau rótulo não faz mau um bom vinho”.

Funciona para o vinho, funciona para as pessoas. Com a diferença que é mais fácil tirar um rótulo a uma garrafa do que a uma pessoa e que há mais rótulos certos no mundo vinícola do que no mundo das pessoas.

5.1.10

Monstruosamente Sexys



Comecemos por esclarecer algo. Sim, vivemos na era das aparências. Não, as crianças e os animais não fogem de mim quando me vêem (pronto, não correm pelo menos).

É que, desde que o tio Bram Stoker formalizou a vampirada clássica na forma Conde Drácula nasceu um mito, daqueles que chupa sangue. Aliás, o cinema e a literatura já nos trouxeram N tipos de vampiros, assim como as Finanças, a Assembleia e a Banca em geral. No entanto, a figura romanceada de um tipo sedutor, apesar de morto-vivo, com charme aguçado e dentes a condizer é compreensivelmente mais apelativa.

Até aí tudo bem. O problema tem sido que, numa era em que a imagem é cada vez mais preponderante (vá lá que a escrita ainda serve para ir enganando alguns), a ficção cinematográfica tem sido cada vez mais arrastada na corrente, ultrapassando o equilíbrio do lado aspiracional que é natural ao cinema.
Ao ver, por mero acaso, o primeiro filme da saga Twilight, deparei-me com uma tribo de vampiros que facilmente podia estar toda no Lux numa qualquer sexta-feira. Jovens, modernos, bonitos, mas mortos e sedentos de sangue, com uma palidez que nem 10kgs de picanha crua atenuariam.

Sim, é um filme assumidamente teen. E não é menos verdade que já fizeram trinta por uma linha à vampiragem desde que o Bela Lugosi começou a sugar pescocinhos nas salas de cinema. Mas, ao ver este protótipo sexy passado para a miudagem, não pude deixar de pensar (coisa que me desgasta o organismo): a importância dada à aparência está num ponto tal, em que até os monstros são obrigatoriamente bem parecidos e de alto potencial sexy, segundo os padrões vigentes.
Para além dos problemas de consciência que isso levanta aos vampiros, que ao saciar a sua sede voraz, têm agora de pensar duas vezes: “Epá, mas então vou morder este camafeu e depois tenho de levá-la lá a casa para apresentar ao paizinho, que há dois séculos que me anda a dizer para não andar a morder nos caixotes do lixo.... Mais vale passar ali nas traseiras do hospital, pedir duas doses e umas compressas ensanguentadas para comer em casa”.

O que virá a seguir, Frankensteins de corpo escultural, rosto profundo e apenas uma cicatriz minúscula na testa, devido aos progressos da cirurgia estética? Uma múmia sexy, com ligaduras DKNY e corpo de modelo Victoria’s Secret, que atormenta todos aqueles que visitam o túmulo de uma clínica assombrada?

Não sei, mas cheira-me que cá vou estar para ver.

4.1.10

A última tentação das passas



Depois de um dia inteiro a ouvir e a disparar automaticamente “Bom Ano” para todos os lados (proferindo, em certos casos, o sorridente apêndice em voz baixa “...e vai morrer longe”), finalmente tenho alguns minutos para debater matérias realmente importantes.

Nomeadamente, passas e desejos. Se é certo que o mundo está cheio de gente que diz não crer em nada que não seja palpável, por outro lado não faltam curandeiros e fontes dos desejos pejados de moeda corrente até ao tutano. Daí achar que, salvo aqueles que à meia noite já iam em 2050 em graduação alcoólica, mesmo quem não acredita lá mama 12 passitas e pede os seus desejos.

É fácil demais, nunca falta uma mão cheia delas por perto, nem gente disposta a eleger-nos nados-mortos para o ano que acaba de nascer, caso nos recusemos a semelhante ritual. Eu, que tenho a rectidão moral do circuito de Jacarepaguá, cedi num instante e lá me pus a desejar à laia da máxima “Não acredito em passas, mas já que elas existem e se comem.....”

Os primeiros desejos são fáceis, é aquilo que queremos e se tornaria mais fácil se bastasse uma uva seca para alcançar. Os segundos são aqueles que os mais altruístas dedicam aos seus entes queridos e os mais egoístas também, com a diferença em que o seu único ente querido são eles próprios.

A malha aperta quando olhamos para a mão e já só temos três passas e um mundo inteiro ainda por dominar. Sempre advoguei que a última passa deveria ser de “Desejo ter mais 12 desejos”, o que nos levaria à loucura ou, pelo menos à indigestão, por abuso de passas. Não sendo possível, é que aqui que entram os chamados desejos genéricos. São desejos iguaizinhos aos outros, mas com a diferença que abarcam uma catrafada de gente que não coube nas outras nove passas.
Do género “Quero que todos os meus amigos tenham dinheiro, para poderem pagar finalmente o que me devem” É bonito, é altruísta e resolve uma resma de problemas, a começar pelos nossos.

Outro “Quero que haja paz no mundo, começando pelo andar de cima, porque a velhinha anda muito agitada e arrasta os pés a noite inteira, enquanto ouve os programas televisivos que pões gente anormal a ligar para a televisão”. Mais uma vez uma solução geral para um problema específico, que traz a paz ao Sudão, mas também ao meu ambiente urbano.

Se querem saber mais, tivessem usado uma passa para serem mais criativos. Se estão a ler isto, escusado será também dizer que a passa que gastaram para passarem a ter bom gosto não resultou...