15.10.09

Era um actor melhorzinho FlashFavor


É a nova série do momento, é a razão porque muitas famílias ainda se sentam juntas no sofá e as séries continuam a ser uma meca televisiva. Falo, claro está, do Flash Forward. Aliás, não me estou a excluir do bando e depois de ter visto parte dos dois primeiros episódios em Londres, resolvi continuar a ver o que sai dali, através do AXN.

O argumento é interessante, pela sua abordagem, uma vez que o tom apocalíptico-ai ai ai que isto vai dar molho ou se calhar já deu e nós é que não sabemos, não é propriamente novidade. O interessante, para mim, é ver como se explora a vertente de toda a gente saber algo sobre o seu futuro e como isso se encaixa nas relações de uns com os outros, quer nesse mesmo futuro, quer no presente. É tipo já sabermos todos o que vamos ganhar de prenda no Natal e ver como vamos tratar quem nos deu um aftershave manhoso ou saber porque é que a Tia Clarinda nos vai cuspir no cálice de Vinho do Porto, se nós até gostamos tanto dela.

Essa parte é porreira e recomenda-se. E isto ainda vai no início, o que significa que há uma larga margem para dizer mal, caso seja necessário. Mas, porque não é preciso grande futurismo para constatar o que vou dizer a seguir, fica já aqui mais uma opinião:

O Joseph Fiennes é lastro. Embora o apelido seja um valor acrescentado em termos de mais valia cinematográfica, sem um Ralph antes a coisa fica mais fina. O Fiennes júnior nunca me convenceu, nem sequer nos tempos em que andava a fazer a festa com "A Paixão de Shakespeare"
Como o tempo passou e não tenho levado grandes banhos de Joseph, dei-lhe uma folga quando o vi a aparecer no ecrã a fazer de polícia durão mas sensível, ex-alcóolico e amante de sevilhanas (há aqui uma parte para despistar).

Mas não, ao fim de dois episódios já vi um bom futuro para o Joseph. E não passa pelo mundo do cinema. O tipo, atributos físicos à parte, é pouco profundo, muito pouco convincente e não me consegue envolver minimamente naquilo que o seu personagem deveria transparecer. Tal como o Ronaldo, não sei onde ele vai estar daqui a uns tempos, mas certamente não será a impressionar-me.

Sendo o personagem central do Flash Forward, temo que no futuro desta série haja uma altura em que o Joseph lhe vai fazer mal. Deixa lá ver se ela consegue superar isso.

14.10.09

O Portugal da Maitê do Pingo Doce

Caso ainda não saibam, as novelas hojem em dia passam-se na Internet. É aí que se descobrem as últimas escandaleiras, que se se revelam os novos heróis e vilões e é aí que toda a gente vai procurar informação, quando tal é preciso. Quando tal não é preciso, ainda vão mais depressa.

E, como tal, na ordem do dia andam o Pingo Doce e a Maitê Proença.

Sobre o Pingo Doce, nãp me vou alargar muito. Primeiro porque seria daquelas situações em que depois de um dia passado no talho, ainda teria que ir desmanchar um porco quando chegasse a casa. Já paravas com as metáforas não? Depois, não me apetece e é auto evidente o que há para apontar, mesmo para quem não percebe patavina de publicidade. Seja em Portugal ou no Brasil.

Quanto à Proença do Maitêgate, é apenas triste. Triste por se dar dimensão e protagonismo a quem não o merece, quando a reacção natural seria um sorriso desdenhoso, como quando se vê o filho dos outros a fazer asneiras e pensar “Pobre tontinha”.
Obviamente não conhece Portugal, não se preocupa em conhecer e tem pouco futuro como humorista. Ofendido fica-se quando alguém faz uma ofensa qualificada, a ignorância não ofende, só choca. Vende muitos livros em Portugal? A Margarida Rebelo Pinto também e isso não quer dizer que a malta não gostasse de também a impedir de entrar em Portugal.

Quanto à Maitê, essa pode vir. Quantas vezes quiser, não faltam cá fontes para cuspir e doces que não têm barrigas de freira, não têm papos de anjo, nem sequer mil folhas, apesar do seu nome. Isto para não falar em túmulos cheios de gente morta e rios que insistem em ir dar ao mar.

Vem lá Maitê, que apesar de gostares muito de nós, ainda tens muito que aprender sobre o nosso humor.

Nem que venhas só para conhecer o Pingo Doce. Afinal de contas, eles têm sempre preços que combinam com a qualidade do teu humor.

Acredita, que é verdade.

11.10.09

A dor do dador



É bom acordar cheio de vontade de ajudar os outros. Para além de ser uma coisa que os outros não podem fazer por si próprios ou estariam a ajudar-se a sim, em vez de ajudarem os outros, pelo menos sempre é melhor do que acordar cheio de vontade de ir a correr para o WC. Em princípio....

Alucinações galopantes à parte, a verdade é que ontem acordei decidido a seguir o conselho que muita gente me dá depois de ouvir os meus fogachos humorosos ou ler o chorrilho de alarvidades que para aqui despejo: “Vai mas é dar sangue!”.

E, assim fui.
Ou...
pelo menos tentei.

A verdade é que primeiro tive que debater-me com a dúvida se seria melhor ir dar sangue da forma tradicional ou da moderna, que é ir até à porta de uma discoteca e insultar o porteiro. Como não tenho consulta no dentista marcada para breve, optei pela tradicional.
Escolher o sítio foi fácil, já que o Júlio de Matos traz-me sempre uma sensação de saudade. Depois de cumprimentar alguns amigos, dirigi-me ao sítio onde haviam alguns baldes de sangue à porta e entrei.

Era agora. Ou então não...

É natural que tenham alguns cuidados, afinal no folheto até se avisa logo que não é permitido vender sangue, pelo que tirei logo as etiquetas de preço que tinha colado a algumas veias premium. Algums perguntinhas sobre hábitos e doenças, que tipos de regabofes de sexo e drogas costumo fazer e depois, uma pergunta que me deixou um bocado a pensar (coisa rara):

Já fez sexo a troco de dinheiro ou drogas?
(felizmente não tinha lá a opção bilhetes para o circo)

Estranhei, se já me perguntaram sobre o tipo de parceiros, a regularidade e o uso de drogas, qual a necessidade de cruzar as duas. Será que há uma sala especial para quem diz sim? Ou é para facilitar marcações? Adiante.

Espera lá que a doutora já fala contigo, vê aí uma revistinha, atenção ao sistema sonoro, lá vai ele para a salinha. “Olá como está?”, “Estou bem e a senhora?”, “Está com corrimento?”, “Desculpe Dra., como disse?”, “Ranho, tem?”, “Tenho aqui, num lencinho e tudo, quer ver?”, “Deixe estar, mas tem cor?”, “Aaaaaargh!”, “Isso não é uma cor jovem”, “Pois....é incolor, com uns toques de XXXXXX (ponham uma cor da vossa preferência)”, “Pois então, adeus e até à próxima”.

E foi assim, em 1m32s, descobri que sou ranhoso demais para dar sangue. Vá lá, é temporário.

Sendo assim, aproveitei que de momento não posso dar sangue e fui enfrascar-me em álcool, drogas e ligar às cinco modelos escandinavas que referi no post anterior. É preferível juntar tudo agora, do que depois não poder dar sangue outra vez.



PS – O dia depois até melhorou. Ganhei um passatempo destinado a mulheres, fui ver a selecção sem sair de lá deprimido e soube que hoje vou à moda Lisboa. Está bonito está...

8.10.09

O prazer do regresso



Voltar de um lugar, por norma, é bom. Numa primeira abordagem mais simplista, é sinal que não se morreu por lá. Numa segunda abordagem, mais lata ou simplesmente mais parva, pode ser um sinal de um novo começo. Veja-se por exemplo:

Gajo1: Epá há que tempos que não te via, por onde é que tens andado?

Gajo2: Olha, estive em coma uns mesinhos, mas agora regressei.

Gajo1: Em coma? Epá, sim senhor. Então e como é aquilo por lá?

Com um interesse para a humanidade de cerca de grau zero, este pequeno excerto prova-nos que existem vários tipos de regresso.
Mas, confesso que para já continuo a gostar apenas de regressar de férias. Para já, mesmo que tenhamos passado as férias a ser espancados por porteiros de discotecas ou idosos em fúria, somos sempre motivo de inveja para quem ficou a trabalhar. E ai daquele que diga mal das suas férias, que ouve logo um: “Na volta preferias ter ficado a trabalhar, não?”.

Depois, regressar de férias permite um exercício de criativdade. Do género, as 38 maneiras de dizer que as férias foram boas ou aqueles chavões icónicos como “Olha, já foram” ou “Foi bom, mas acabou-se”, entre outros. Para além disso, podemos sempre mentir e dizer que fomos atacados por tubarões, violentados por 5 modelos finlandesas altamente desinibidas ou que fizemos o milagre da multiplicação dos pães, tudo isto na mesma noite, dentro de uma discoteca. O melhor é se isto for efectivamente aquilo que acreditamos ter acontecido para termos acordado nus, com uma marca de uma dentada no rabo num beco à saída de Helsínquia.

Enfim, gosto de regressar. Dá-me sempre a ilusão que vou finalmente começar a fazer alguma coisa útil para a sociedade.

E que vou deixar de continuar a escrever textos que não têm ponta por onde se lhes pegue.

Especialmente daqueles com quebra de linha a cada frase.

Sim, tipo este.

2.10.09

Friends will be friends


Sou a favor da emigração dos melhores cérebros portugueses, embora ache que era mais proveitoso mandarmos antes os mais fraquitos. Talvez lhes fizesse bem uma mudança de ares. Se não servisse de nada, pelo menos sempre tínhamos tido uns tempos livre para nós (é boa esta forma subtil de me associar aos melhores cérebros portugueses, não é?).

Aliás, o facto de ter vários amigos emigrantes deixa-me orgulhoso porque gosto de pensar neles como inteligentes e não como gente da pior espécie que só deixou o país por estar farta de mim. Isso é como querer deixar de respirar, diria mesmo.

Assim, de quando em vez, gosto de ir visitá-los, tentar distinguir se o seu sorriso amarelo é do clima ou da minha presença e ajudar a acabar com qualquer tipo de saudades que ainda tenham de Portugal.

Como sempre, sou bem recebido, até com lágrimas, para depois ser muitas vezes levado com entusiasmo até ao aeroporto, nalguns casos três dias antes de ter vôo de regresso. Por isso malta, preparem-se, está na hora de baixar estores e andar silenciosamente pela casa.

Já vou a caminho.

30.9.09

Olhar para o boneco


Toda a gente, especialmente se forem mulheres, já vestiu uma peça de roupa para agradar alguém (vou poupar aqui a piada do "também já despiu roupa para agradar a alguém"). Que se desenganem os machões, que até tiraram as mãos do rato para mostrar virilidade, coçando ostensivamente determinada zona corporal, pois em dada altura certamente a vossa mãezinha vos enfiou um pullover com um alce ou coisa parecida pelo pescoço abaixo.

Pois eu cheguei a uma fase da minha vida em que, ocasionalmente, visto uma peça de roupa para desagradar. Trata-se, mais precisamente, de uma T-shirt que tem estes simpáticos e desinibidos bonequinhos e o nome da marca “Pornstar”.
Sendo que eu, por mim só, já tenho a capacidade de desagradar a muita gente que me conhece, com esta T-shirt estendo essa franja populacional a quem não me conhece de lado nenhum.

Entre senhoras que olham para mim com ar desconfiado a tipos que confirmam na agenda se de facto já está na hora do Salão Erótico de Lisboa, esta simples T-shirt de cariz lúdico-grosseirão faz milagres de engagement social. Há quem sorria e pense “Deves, deves”, há quem faça um ar de asco contido, há quem pergunte se tenho vagas às 5as. Há quem espreite por cima dos óculos escuros, há quem tenha óculos escuros por ser cego e como tal não faz porra de ideia da T-shirt que estou a usar e há quem finja desprezo, que é algo bem mais trabalhoso do que simplesmente desprezar.

Seja como for, não temo que a minha T-shirt esteja sob escuta e tenciono continuar a usá-la. É um bocadinho parvinha? É, mas é também a prova viva 100% algodão que é possível fazer pendant com a personalidade. Basta tentar.

PS – Espero não ter ofendido nenhuma estrela porno no processo. Com o resto do corpo já ocupado, certamente não precisam de mais outro para lhes f***r o juízo.

Muse, Starlight

29.9.09

Amor em tons de cinzel

Virou-se para mim e disse-me que às vezes parecia ter sido esculpido à mão.
Sorri, fiquei meio envergonhado.

Arrisquei a pergunta.

- É do músculo? Sabes que tanto exercício compensa...

Foi a vez dela sorrir.

- Não. É mesmo por seres um bocado tosco.

28.9.09

Votar, esse belo filme


Dsescansem, não vou falar de resultados. Aliás, eu resultados vejo poucos, ao contrário de paleio, que disso neste país não servem meias doses. A verdade é que mais do que ganhar o Partido A ou B (não é preciso dizer C porque por cá só ganha mesmo o A ou o B) é ver que muita da malta que não se dá ao trabalho de ir votar, é hoje a primeira da fila para dizer que isto nunca muda, que isto quando muda é para pior e que são sempre os mesmos.

E é verdade, são sempre os mesmos.

Sempre os mesmos a não fazer nada e a depois querer dizer tudo.
Quem não gosta de circo, na verdade não tem de votar no número de palhaços que prefere, mas só se se conseguir abstrair que a sua vida é passada dentro da tenda. E, porque não há nada como começar uma semana a enfardar metáforas como se não houvesse amanhã, permitam-me que faça outra:

Votar, com as devidas distâncias, pode ser como ir ao cinema. E o filme em cartaz é mau, é até previsível, sabemos como vai acabar, os protagonistas são fraquitos e essa história toda. Mas, para podermos dizer mal dele com propriedade, temos que o ver. Ainda por cima o bilhete é de borla, mesmo não havendo pipocas.

É que um dia, se nos disserem que perdemos o direito de ir ao cinema, somos capazes de ficar chateados. Se fizerem o mesmo em relação ao direito de voto, na volta, nem por isso.

Mas, até lá, vou votando, nem que seja para poder ir dizendo mal.

22.9.09

A semana da imobilidade

Naquilo a que se convencionou chamar o mundo real, chega hoje ao fim a semana da mobilidade, com um evento denominado “Dia Europeu sem Carros”. Tempos houve, em que eu pensei que este dia era a sério, tempos esses em que fui atropelado por dois táxis, uma carrinha de distribuição e um tipo que ia a conduzir enquanto escrevia mensagens no Blackberry, lia um gratuito e fazia uma Raspadinha. Depois, os tempos de reflexão no hospital levaram-me a pensar que talvez não fosse boa ideia acreditar em tudo o que dizem as notícias. Afinal de contas, dois becos e uma travessa fechados ao trânsito e muito mediatismo não é propriamente uma efeméride a sério.

Mas, houve de facto toda uma semana de mobilidade. Eu celebrei imobilizando o blog, porque não gosto de carneiradas e é preciso equilibrar a balança, mas indo à janela, vejo pessoas a mobilizarem-se por tudo quanto é sítio. É o que dá haver tanto desemprego, estivessem sentadinhas a trabalhar, como deviam, e não andavam para aí a mobilizar-se, só para dizer que são muito activas e militantes.

Da minha parte, confesso que a semana passada só aderi em pleno no dia em que os transportes públicos decidiram adoptar o conceito favorito dos portugueses e foram: "À borla". O que me fez sentir estúpido, porque tenho passe e, como tal, tive de pôr um sorriso falso, pois o que todos estavam ali a aproveitar à grande, já eu tinha pago. É uma vergonha esta Carris e o Metro, sempre a prejudicarem os seus clientes.
Estes dias de transportes à borla são, no entanto, chatos para os mitras, tanto do Metro, como da Carris. Isto é gente que se esforça, que dá o litro para sacar borlas e de repente é assim, ninguém paga? Onde é que está a moral? Um tipo quer roçar-se na pessoa da frente para passar nos torniquetes do Metro e está tudo aberto?? Quer mostrar um bocado de cartão como se fosse o passe e fazer “Piiii” ao mesmo tempo e não é preciso?? Assim, não pode ser, depois qualquer um quer ser um mitra.

Adiante minha gente, que hoje os transportes são outra vez à borla e eu tenho que ir ali mobilizar-me para a entrada do Metro dizer “Ah, hoje que é a borla queres andar nisto não é. No resto do mês, eu que pague...Bandalhos!”

11.9.09

Produtos Austríacos de referência


Depois das montanhas do "Música no Coração", de um rapazinho chamado Amadeu que progrediu no mundo da música e do strudel de maçã, eis que presto a devida homenagem a um produto austríaco, de nome Christoph Waltz.

Tio Tarantino, o filme é bom, o casting é muito bom (apesar de eu até dar o Brad Pitt de borla), mas este senhor é fora de série.

9.9.09

Passatempo Dr. Tédio - Apocalipse fiNow

Nota Prévia: Já era hora de esta história ter um fim. Bom, mau ou assim-assim, o importante era não continuar a gozar com pessoas com problemas e isso inclui-me a mim, a vocês e também ao Vicente.

Um digestivo para o caminho.

Com a refeição a caminhar para o fim, a ausência de notícias da sua noiva, fazia a crispação de Vicente aumentar. E, se alguns dos convidados pareciam querer ajudá-lo, conversando e rindo, outros pareciam ter uma mira apontada para si.
Levantou-se, ajeitou a camisa e preparou-se para ir buscar uma garrafa à cozinha. “Ouve lá” disse-lhe o avô, que até ali intervalara pratos com sonecas, “Estás todo janota, isso é de alfaiate?”.
“Não avô, é fatiado hermético...”, o absurdo das suas palavra era quase tão embaraçoso como a recusa do avô em usar aparelho auditivo. “Ado Ermetti? Muito bem, fatinho italiano, hein, pareces um jogador do Sporting. Qualquer dia és fino demais para pegar nuns euróis e pagar uma bejeca ao avô”.
“Não arrebente a fábula avô. Está aí albardado em beldroegas, quando é o avô que me deve umas a mim”. Correu para a cozinha para lavar a boca com Super Pop, a fazer se não dizia tanta merda.

Aqueles minutos na cozinha valeram olho, pensava ele. Pegou na garrafa, “onde é que está a merda do caga-trolhas?”. Encontrado o dito cujo, abriu-a e voltou para mais um round.
“Então Vicente, não encontraste nenhuma moçoila disposta a casar contigo aí escondida na cozinha?”. A voz da tia Isaltina, só por si, dava vontade de a enforcar nos laços de sangue que os uniam.
“Não tia, mas essa conversa de pachacha não a vai fazer soltar um brilharete”. O horror...

“Filho!!” A expressão da mãe dizia tudo...
“Francamente Amélia, o teu Vicente está um bocado rude hoje. Se calhar é melhor irmos andando já que, ao contrário da má educação, noiva nem vê-la.” Isaltina começou a levantar-se.

“Oiça lá, sua pinchona bufa...” Vicente ficou surpreendido, porque estas palavras não saíram da sua boca, mas sim do seu pai, que raramente dizia mais de três palavras por jantar.
“Então o rapaz arrefanhou talento por todos os poros, para fazer um jantar em grande para a família e os amigos e dar uma novidade que todos já sabemos qual é e agora não tem aqui a noiva e ainda tem que a gramar?”

Vicente estava preocupado, será que o pai também tinha batido com a cabeça?

“Pegue lá no balão insuflado do seu marido”, o pai estava embalado e não havia quem o segurasse “e aproveitem a recta à saída do prédio para irem dar uma curva. Só tenho pena da Clara, porque se calhar tem que ir convosco”. Ouviram-se palmas camufladas, por parte dos amigos de Vicente.

“Amélia!!! Não dizes nada?” Isaltina estava da cor do seu vestido “Deixas o teu marido tratar-nos assim?”
A mãe de Vicente não tinha palavras, talvez porque o marido e o filho as estivessem a usar todas. Ana, sempre oportuna, interveio.
“Vicente, o teu telemóvel está a tocar lá dentro, se calhar é melhor atenderes”.

Com gente aos gritos na sala e a IIIa Guerra Familiar a estalar, Vicente desatou a correr, ouvindo o seu apropriado toque kitsch “Words don’t come easy” ao fundo. À entrada do quarto, não calculou bem um salto e aterrou em cima do tapete, que deslizou e levou a cabeça de Vicente a conhecer de perto a mesa de madeira, antes de lhe apagar as luzes.
“Words don’t come easy
to me
How can i find a way, to make you see...”

O toque não o deixava desmaiar em paz.
Abriu os olhos.

“...I love you.
Words don’t come easy”

Tinha o telemóvel na mão, os dentes ainda na boca, mas não estava no quarto, mas sim no aeroporto, sentado na zona das chegadas.
Atendeu o telemóvel, que já não se podia com o sacana do FR David.

“Estou?”
“Pelos vistos agora estás” o sorriso da sua miúda via-se até pelo telemóvel “Já te tinha tentado ligar, já estou à espera das malas, afinal isto não atrasou tanto como se previa. Recebeste a minha mensagem?”

“Sim...” esfregou os olhos para ver se agora é que estava acordado ou se isto é que era um sonho. “É que fiquei com um tatu no tutu e....” ao ouvir as suas próprias palavras, sentiu um frio na espinha.
“Ficaste com o quê?”
Vicente respirou fundo “Desculpa, ainda estava a acordar”.

“Acorda lá”, ela tinha uma maneira carinhosa de o fazer sentir uma criança “e vai ter comigo que já estou a sair. E espero que não te tenhas esquecido que hoje é o jantar da tua prima Clara, para anunciar às tropas que se vai casar. Vá, até já, beijo.”

Ah, um jantar de família. Era mesmo disso que Vicente estava a precisar.

8.9.09

Passatempo Dr. Tédio Parte 3 - Afinal ainda não acabou

Nota Prévia: Esta é a terceira parte do passatempo Dr. Tédio. Por motivos de verborreia, terei afinal que o dividir em quatro, para não deixar aqui um lençol. Por tal facto, peço desculpa, mas não estou arrependido.
Se não fazes ideia do que estou a falar usa essa maravilha da ciência a que se convencionou chamar “scroll”. Ou, como diria Vicente, experimenta o vagão.

Sobre a mesa, alguém?

Fome era coisa que ele não tinha. A boca seca de tentar não falar contrastava com a algazarra que os seus doze convidados faziam. Lá estavam os seus pais, o avô Carlos, a tia Isaltina e o seu pedante marido, o “Dr. Hugo. Com eles tinha vindo a Clara, a sua prima, que há tanto tempo não via e que, pelo menos sempre parecia mais simpática. Ana andava de um lado para o outro, fazendo as falas de Vicente, conversando com Sandra e Bruno, seus amigos da faculdade, enquanto dava também as boas vindas ao André e à Renata, que tinham trazido aquele terrorista em forma de filho. Faltava era a futura noiva e também a sua capacidade de articular um discurso coerente, mas pronto agora já estava tudo em movimento.

A tia Isaltina aproximou-se, trazendo consigo Clara: “Bem Vicente, vê lá tu como o tempo passa. Já não vias a Clarinha para aí desde quando, do tempo em que jogavam à apanhada?”
Clara sorriu.
“Para aí, tia...” Vicente tinha medo de ouvir a sua voz “...lembro-me que a Clara estava sempre a fugir de mim para o coito interrompido”.
Clara não sorriu.
A tia não percebeu.
Vicente não ficou para explicar.

Suando em bica, estava encostado à bancada da cozinha, quando Ana entrou. “Tens de vir, está tudo à tua espera”.
“Epá, o cacete está eminente e isto vai correr tudo mal. Não há noiva, não consigo sequer afinfar um paralelepípedo e não vejo como me safar disto”.

“Calma” a voz de Ana era suave, mas ainda assim autoritária. “Vais falar pouco e devagar. Eles já sabem que ela está presa no aeroporto, vão perceber que estejas abatido e não digas coisa com coisa”. Piscou-lhe o olho “Anda.”

E juntos entraram na sala.

Durante cinco minutos, tudo correu bem. As conversas fluíam e Vicente, entre acenar de cabeça e concordâncias não verbalizadas, foi disfarçando. Mas, o sacana do “Dr.Hugo” tinha de estragar tudo.
“Então Vicente, dantes as noivas fugiam era no altar. Pelos vistos a tua fugiu antes do anúncio de casamento”. Aquele sorriso ia tão bem com um punho fechado.

“Olhe Hugo, eu não estou com muita concuspiscência para o patinhar, por isso vá com calma”. O controlo estava a apanhar um táxi para se ir embora.
“Desculpa, não te queria ofender, mas também não percebi muito bem o que queres dizer com isso. A rapaziada, hoje em dia, tem um palavreado que eu desconheço”. O ar condescendente ofendido não estava a ajudar à festa.

“Tudo bem, fale de asinhas de frango ou coma esse chaparro com courgette que está aí sentado no prato ao seu lado”. A tia Isaltina, de vestido verde, olhou escandalizada. “Mas, por favor não me massacre”.

Houve uns momentos de silêncio e então Ana interviu, lançando um qualquer tema e os seus amigos ajudaram a dinamizar de novo o jantar. A mãe, ao seu lado, disse baixinho a Vicente “Estás bem filho? Pareces-me nervoso e um bocadinho distante”
“São nervos mãe” Vicente tinha a noção de que não era muito convincente “E este tipo causa-me uma idiossincrasia no estomâgo que não imagina”.
“Bebeste filho?” a mão da sua mãe pegava na sua “Não mãe, é de bater com a cabeça na parede” disse Vicente, sorrindo.

Mas, o prato ainda estava cheio e a vontade de sorrir não era muita.

7.9.09

A última ceia de Vicente - Parte 2

Nota Prévia: Esta é a segunda parte do desenlace do Passatempo Dr. Tédio. Para saberem se estou sobre o efeito de substâncias tóxicas e tudo o mais, consultem os posts anteriores.

O prato principal

Desorientado, o futuro noivo tentou acalmar metendo água, ou melhor, tomando um banho. Olhou para o relógio, o catering só chegava daqui a meia hora, correu para o quarto, tinha a farpela pronta e seguiu para banheira.

Enquanto a água jorrava com força e Vicente ensaboava intimamente, mas com firmeza, as suas profundezas, não podia deixar de pensar no que iria dizer aos seus implacáveis convivas. “Depois do jantar, fiquem para o pequeno almoço, vão ver que até lá ela chega”. E foi assim que, distraído a enxugar os pensamentos, o nosso anfitrião não deu pelo sabão que escorregou e se anichou estrategicamente, qual Cinderela, no local onde segundos depois colocou o pé e imitou Rudolf Nureyev na perfeição. Tirando a parte em que bateu com a cabeça no lavatório.

Nem cinco minutos demorou a recobrar a consciência. Surpreendeu-se por ver que não tinha redecorado a casa de banho em tons de vermelho e por não ter um lote de dentes para oferecer à fada madrinha. Mas, acima de tudo, surpreendeu-se pelas palavras que proferiu, mal se levantou.

“Fónix, vou ter de lucubrar a alcachofra”.

Mas, que era aquilo? Ele não queria dizer isso, estaria trifásico? Trifásico? A palavra não era essa, era….. magnésio?? Fosse o que fosse, ele não tinha tempo para isso, com o catering a chegar, os convidados logo a seguir e a noiva nem por isso. Ia falar pouco, enquanto via se recuperava a erecção involuntária. O quê????? “Concentra-te Vicente”, pensou, vais ver que amanhã ainda te ris disto.

Falando só por monossílabos e alguns grunhidos, despachou o catering o mais rápido que pode, já que só tinham que entregar os acepipes, que do resto tratava ele e a sua irmã, que vinha para o ajudar.



Assim que a sua irmã chegou, notou logo que algo não estava bem “Que se passa Vicente?” e, ele como irmão mais novo que sempre fora, logo desabafou “A minhoca está azeda e não deve chegar a tempo do jantar. Para ajudar, lambi o corrimão quando estava a tomar banho e fiquei assim”.
A cara de Ana foi um misto de espanto, incredulidade e vontade de rir. Vendo os nervos do irmão, disse-lhe “Acalma-te lá, que vamos resolver isto” e deu-lhe um papel, para que ele lhe explicasse por escrito. E assim, Vicente descreveu o seu infortúnio. “É melhor cancelares o jantar” sugeriu Ana. “Estás com bananas na garagem???” gritou Vicente, enquanto lhe descrevia, novamente por escrito, o que lhe aconteceria se voltasse a fazer uma desfeita à família e aos amigos, que já vinham todos a caminho.

“Pronto” disse-lhe ela em voz calma “Então vamos a isso, mas tu fala o menos que possível, eu digo que estás rouco e explico-lhes da tua noiva. “Pode ser?”
“Vai ter que ser minha barata de caramelo” suspirou Vicente.

A campaínha tocou, a última ceia de Vicente ia começar.

A última ceia de Vicente - Parte 1

Nota prévia: No âmbito do passatempo Dr. Tédio (ver posts anteriores), esta alucinação tem uma base colectiva (as vossas palavras), mas também uma personalidade muito própria, já que quem atestou a viatura fui eu. Daí que este texto se divida em trilogia, pois com tanta verborreia junta, alguém vai ter que comer pela medida grande. Não eu, nem sequer vocês, mas sim o Vicente.
Concluo dizendo que as palavrinhas estão lá todas e, sempre que possível o mais juntas que possível segundo as vossas parelhas. O resto, bem o resto é o resto...

Parte 1 - As entradas


Vicente era um rapaz inocente até o dia em que se deu o acidente. Bateu com a cabeça, ficou diferente, ainda era o Vicente, mas não falava como toda a gente. A partir daí, chamaram-lhe escanifobético e até estrambótico e, educamente, ele até agradeceu, mas ainda assim continuou a preferir que lhe chamassem só



Vicente.

Mas afinal, que maldição se abateu sobre este filho de boa gente?
Era uma noite importante para Vicente. Convidou para jantar a sua família, amigos próximos e até Fulano e Beltrano (não os conhecia bem, mas disseram-lhe que era gente que ia a tudo quanto era evento), fazendo tenção de a todos anunciar que iria fazer aquilo a que se chama casar.

Com a hora do jantar a aproximar-se, os primeiros a chegar foram os nervos. “Nervos temos todos”, costumava ele dizer, mas naquele dia pareciam estar todos por sua conta. Pegou no telemóvel, para procurar ânimo e conforto junto da sua futura esposa, que devia estar a chegar ao aeroporto nesse momento, vinda de uma conferência.

Ah, que querida, já lhe tinha deixado uma mensagem. Duas palavras apenas, ouviu ele, e logo o seu coração disparou: “Tou atrasada”. Do ânimo e do conforto ao horror, com o tarifário mais barato. O avião ficara retido, um qualquer circuito derretido e os planos de Vicente esturricados. É que apresentar uma noiva em pessoa pode ser difícil, mas anunciar noivado com uma cadeira vazia é mais complicado. Já ouvia a sua tia a dizer que, pelos vistos, ela devia ser uma zoina estouvada. E isso era coisa que ele não admitia que chamassem, quer à sua cadeira, quer à sua noiva.
E, para celebrar início tão auspicioso, resolveu Vicente abrir o serão de forma eloquente:

“Cum caralho”.
Não foi bonito, mas pelo menos não deixava hálito, como aquela garrafa de ginjinha que o convidava para desabafar.

3.9.09

Nas vossas palavras

E eis que o Passatempo Dr.Tédio chega agora à sua segunda fase. É uma parte importante, já que me obriga a reflectir e, a espaços, ir ao dicionário para perceber que tipo de demência vos levou a escolher determinadas palavras. Se há coisa que me assusta é ver gritos de ajuda mascarados de duas palavras soltas.

Para os atrasados (vou deixar esta categoria aberta), podem ainda ir preenchendo palavritas na caixa anterior. Só quando eu fizer um comentário a dizer “Fechou a loja” é que não se aceitam mais encomendas.

No entanto, posso dizer que não me surpreenderam. São o tipo de gente torcida que eu esperava encontrar por aqui, a dificultar a vida a quem trabalha, com léxico de três em pipa, o ocasional atentado gramatical e coisas que não lembram ao demo.

Amanhã, durante o dia, vão ver o que é bom para a tosse (Tamiflu não sei se arranjo). Os ingredientes são vossos, a sopa é minha.

1.9.09

Passatempo Dr.Tédio

Neste blog não se aprende nada. Neste blog não há diários íntimos e reflexões profundas, nem sequer diário íntimos sobre outro tipo de coisas profundas.

Neste blog não há parágrafos alinhados. Existem, no entanto, cabelos desalinhados, coisa que não podem ver pelo que vai dar

ao mesmo. Neste blog não há conselhos para a vida, nem sequer para o próximo....






....minuto.

Não há prémios neste blog, nem porventura à vossa paciência por cá virem. Não há muita coisa, nem sequer sobre mim. Mas também este blog não é sobre mim, é meu, o que são coisas diferentes. Ou seja, tem muito de mim, mas pouco sobre mim, se é que me entendem. Se não me entendem, então certamente não é a primeira vez que cá vêm.

E, sendo assim, uma coisa que sabem é que escrevo. Neste blog, por exemplo. Mas, apetece-me variar e por isso vou deixar que sejam vocês a escrever e eu a inventar. Pode ser? Se não puder, vai ser à mesma por isso vocês é que sabem.

Ora então, o passatempo Dr. Tédio funciona assim: Nesta caixa de comentários, para além de elogios gratuitos e insultos pagos (para variar), dou-vos a liberdade de deixarem duas palavras. À vossa escolha, sem restrições, desde que existam e sejam portuguesas.
Cada pessoa pode deixar unicamente D-U-A-S. Se deixar mais, contam apenas as últimas duas. Se deixar duas em vários comentários, conta o último comentário.

Para quê?

Vou pegar em todas, não necessariamente aos pares e vou usá-las num texto. Não sou eu que digo, são vocês, eu acrescento é ingredientes e temperos.
Isto vai dar cócó? Depende, basta que alguém escolha essa palavra. Também pode dar carambolas.

Aceito então duas palavras por pessoa até final do dia de amanhã. Depois o bolo vai ao forno e Sexta-feira o mais tardar está cá fora. Estou-vos a citar, atenção.

31.8.09

Pregar surtos à malta


Já me despedi de praticamente toda a gente que conheço. Aproveito agora para fazer o mesmo em relação aos três leitores que também ainda não sucumbiram à pestilência.
A contagem não deixa enganar, todos os dias aumenta na televisão e raras são as vezes em que se ouve falar de gente curada.

Malvada gripe, que todos os dias levas mais gente com os porcos.

Eu não quero não ter gripe. Já me sinto um cidadão de segunda. “O quê, só tens gripe normal? Isso é tão retro-viral”.

No meu estaminé profissional houve uma moça que teve de ficar em casa, porque se suspeitava que tivesse gripe A. Falava-se dela com orgulho, “É a nossa primeira”, “Ah mulher de raça, ali sempre a dar-lhe na Gripe A” ou “Estive com ela na 2a feira, quem sabe serei eu a brilhar a seguir”.
Toca de rezar a São Tamiflu, mas parece que afinal a moça não teve Gripe A. Que era uma vergonha, que as mulheres nos enganam com facilidade, que tinham sido só desculpas e que agora não podíamos usado as 30 piadas que já tínhamos guardado para fazer quando encontrássemos no corredor. No tempo da Peste Negra é que era, agora andam a brincar com a malta.
A Gripe A está realmente a afectar os portugueses. Mas os efeitos mais graves têm sido na cabeça e não nas vias respiratórias.

Confesso que já tenho o ar condicionado aqui do burgo em 25 Graus negativos, estou a despejar água gelada nas costas há uma semana e abraço com sofreguidão todas as pessoas que vejo a espirrar. Não há forma da temida Gripe A me bater à porta, nem ao menos acenar da janela.

É triste admitir, mas sou saudável.

Thompson Twins, Doctor Doctor

28.8.09

O queijo da vergonha




admiti publicamente o facto de só ter ido pela primeira vez a um casamento muito recentemente. Muitas pessoas me escreveram, perguntando se tinha problemas de adaptação social, se não tinha amigos ou se, pura e simplesmente, era um bocado estranho. Senti-me um bocado ofendido com esta última pergunta, até porque pensei que isso já tinha ficado sobejamente comprovado neste blog.

Mas, voltando um pouco atrás, recordarei um pequeno episódio no dito casamento, cujo esquecimento pode ter a ver com a matéria prima do mesmo, mas que reforça o ficheiro secreto que habita em mim.

Toda a gente sabe que os noivos, a cerimónia e o resto é tudo acessório, porque o que interessa é mesmo encher o bandulho. Pelo menos foi o que me disseram, com ar condescendente, pessoas mais experientes na matéria. Assim sendo, foquei-me mais na alimentação e menos na celebração, mantendo no entanto um mínimo de dignidade e deixando passar à frente mulheres e crianças, desde que não excedessem o número de três.

Tudo correu bem, tirando um ligeiro incidente na mesa de queijos. Sendo eu apreciador dessa iguaria, apesar de alguns cheiros se assemelharem vagamente aos das minhas meias depois de actividades desportivas, investi na mesma duas ou três vezes. Na segunda rodada, achei que eles tinha reposto alguns queijos e ataquei um prato que não tinha visto antes e que tinha algumas variedades de eleição. Cortei a bom nível, escolhi como tinha de escolher, até me sentir incomodado com um olhar. “Francamente”, pensei eu “não pode estar um gajo a acumular queijo como se fosse um rato e o Inverno estivesse à porta e vêm logo os apressados”. O senhor aproximou-se e disse “Posso?” e eu, olhando para o meu prato bem composto, acedi.
Qual não foi o meu espanto/embaraço quando vi que o conviva era nada mais nada menos do que o dono do prato que eu tinha estado a fatiar como se não houvesse amanhã e que só se tinha afastado para ir buscar bolachas, aguardando calmamente depois que eu o desfalcasse de queijo, com calma, compostura e, certamente, com a benevolência de quem está perante um refugiado do Sudão.

Afastei-me rapidamente da mesa e comi todo o queijo que tinha a grande velocidade. Não porque tivesse fome, mas sim para esquecer semelhante figura de urso.

E assim consegui, até hoje.

26.8.09

As mulheres e os super poderes



Na sequência do chorrilho de alarvidades anterior, escapou-se-me um aspecto interessante. As mulheres, no seu quotidiano, parecem às vezes sacar do baú super-poderes capazes de fazer até o Hulk (o tipo verde musculado e não o avançado do Porto) corar de inveja.

Um deles, que tive a oportunidade de testemunhar algumas vezes de perto, tem a ver com a capacidade de duas ou mais mulheres juntas conseguirem tornar qualquer homem invisível. Não me refiro à invisibilidade tipo barreira de gelo, que pretende evitar a aproximação de qualquer pacóvio ou camafeu desconhecido.

Aqui trata-se daquela capacidade de, a meio de uma conversa num gurpo em que esteja um homem presente, torná-lo invisível. Normalmente, começa com um “Eles” e depois tem em anexo uma panóplia defeitos ou insuficiências masculinas que ilustram facilmente porque devem ser as baratas e não os homens a sobreviver a um desastre nuclear.

O homem presente, quando não surdo, tenderá a sentir-se incrédulo e a tentar mostrar que está presente. Nunca, em situação alguma, deve pedir uma bofetada para comprovar que existe sob o risco de perder a invisibilidade e ganhar alguns traumatismos. Tentar participar na conversa pode ser um caminho, mas só se as senhoras se sentirem na disposição de uma sessão espírita, já que não reconhecem presenças adicionais.

Nesse caso, o homem não deve tentar superar a sua invisibilidade temporária com frases tipo “Eu não concordo nada com isso” ou “Mas eu não sou assim”. A conversa feminina iniciada com o termo “Eles” e não “Vocês” indica aos homens presentes que acabam de ser invisibilizados e, como tal, a tentativa de chamar a si o protagonismo, é ridícula e acarreta o risco de o transformar de homem invisível em criança invisível com um falsamente acalmante “Oh tonto, não era de ti que falávamos”.

No entanto, o homem não deve sentir que o facto de estar invisível é um poder seu, quando na realidade é das mulheres. Daí ser desnecessário avisar para o risco de, caso esteja emocionalmente ligado a uma das mulheres, controlar outras ou ter alguma atitude mais indecorosa, como pôr o relato da bola mais alto. A invisibilidade, por si, não acarreta dor, mas pode ter essa consequência nesses casos.

A solução: Esperar que a invisbilidade passe. Com sorte, não há-de durar muito tempo. O suficiente para aprender a dar valor à expressão “O silêncio é de ouro”.

25.8.09

Super poderes a la carte

Influenciado pela Marvel e também pela lycra dos maillots de ginástica, o meu encanto por super heróis tem-me acompanhado desde pequeno. Gostava daquele mundo em que pessoas picadas por aranhas radioactivas, gente verde ou, por exemplo, extra-terrestres adoptados andavam normalmente por aí sem ser em reality shows ou no noticiário da TVI.

Acima de tudo, gostava da ideia de ter super poderes e, no meio das histórias que lia, pensava frequentemente como seria bom poder ter um só para mim. Inicialmente, os super poderes com que sonhava tinham muito a ver com a capacidade de mudar o mundo, o meu mundo claro está. Poderes como comer mais de cem chocolates sem enjoar ou entrar no balneário das miúdas em modo invisível, em ambos os casos com inegáveis mais valias para a humanidade.

Conforme fui crescendo, as prioridades foram mudando e, entre várias hipóteses, havia uma que me seduzia mais – a capacidade de ler pensamentos. Esqueçam os enredos de filmes babacas com o Mel Gibson ou, mais recentemente em séries tipo Heroes. Falo simplesmente no poder de olhar para alguém e saber o que ela pensa. À primeira vista, parecem ser só vantagens, com um super poder que não nos obriga ao contacto com animais estranhos ou nos envolve em cenários de pancadaria de três em pipa, possibilitando ainda uma simpática progressão de carreira pessoal e profissional e, ocasionalmente para desenjoar, ajudar os outros.

Só que, um episódio da 5a Dimensão ensinou-me que ler os pensamentos é coisa que não foi feita para nós, nem mesmo para super-heróis, no mundo em que vivemos. As pessoas dizem muitas coisas que não pensam e pensam muitas coisas que não fazem. Por isso, ler pensamentos seria como um programa da Tertúlia Cor-de-Rosa em que, por cada segundo que passasse a agonia da realidade seria torturante.

Será que queremos mesmo saber o que as pessoas pensam sobre nós? Será que descobriríamos que há malta que pura e simplesmente não pensa? Confesso que desisti na hora, vendi as minhas revistas de super heróis para arranjar uns bons cobres e investi no super poder de escrever baboseiras sem parar.

O mundo pode não ter ficado melhor por causa disso, mas há para aí 10 pessoas que não andam a fazer asneiras só por estarem a perder tempo a ler isto.

Another job well done, Super-Mak (não confundir com o cão gelado, o Super Maxi).



Ps - Não resisti a pôr o Rod Serling da Twilight Zone.

19.8.09

Ai se Portugal dependesse de nós



Para quem não tenha visto bem a sinopse do filme, vivemos num país onde a sacanice e a chico-espertice são, a par do bitoque, o prato do dia. Misto de optimista e cínico, acredito que um dia vamos lá, mas só se isso não depender só de nós.

Se depender só de nós, vamos continuar a fazer o que sempre fizemos. A deitar as culpas no Estado, esse monstro que, faça o que fizer, não faz nada do que diz. A deixar para amanhã. A amaldiçoar a Segurança Social, mas a continuar a receber subsídio de desemprego, apesar de trabalharmos e passar recibos verdes em nome do avô que já morreu há dois anos. A pedir crédito atrás de crédito, porque temos tanto direito a férias como os outros e carro com mais de 3 anos não é coisa que se apresente.

Além disso, se depender de nós a cultura vai continuar a ser uma coisa muito bonita em teoria, mas na prática preferimos gastar 250€ num telemóvel XPTO e no saldo do dito cujo, só porque até temos pontos e senão nunca mais se aproveita aquilo.
Dependendo de nós, os transportes deviam ser muito melhores, mas mesmo que fossem continuávamos a andar quase todos os dias de carro, nem que fosse para ter mais direito a dizer mal das gasolineiras e dos polícias que só querem fazer dinheiro à conta da nossa inocente vontade de ver os limites do carro ou beber uns copos com os amigos.

E, quando falarmos com a geração futura, se depender de nós vamos dizer-lhe que já não dão valor a nada, mas não vamos poder ensinar-lhes o valor das coisas porque nós próprios já não o sabemos. E, quando perguntarem porquê, vamos dar-lhes um telemóvel novo porque agora não temos tempo para explicações e vai dar a bola.
Mas vamos querer que sejam do nosso clube, que vibrem com o futebol, mas não com os futebolistas que, se dependesse de nós, não ganhariam um décimo daquilo que ganham. Tirando se o nosso filho der um dia um pontapé na bola. Aí, tudo o que ele tiver é merecido e, se depender de nós, faremos tudo para garantir isso.

No fim de tudo, se depender de nós, vamos estar fartos de políticos, mas não de politiquices. Vamos dizer a quem quiser ouvir como deviam ser as coisas, mas que não esperem pelo nosso voto, que ele é como nós e tem mais que fazer. Se depender de nós, Portugal deve mudar, desde que a mudança não comece por nós.

E assim em Portugal, se depender de nós, tudo depende dos outros.

Milli Vanilli, Blame it on the rain

17.8.09

Curta sobre certas cartas


Este fim de semana fiz-me à estrada. Apanhei-a desprevenida e antes que desse por isso, já eu andava de volta de dela. Depois de quase três horas naquilo, pensei que não íamos a lado nenhum, mas pelos vistos fomos, já que quando parei não estava muito longe de Oliveira do Hospital.

Deixei a estrada para trás, depois telefono-te. Abracei nova paixão, de olho azul, fresca e sedutora, apesar da caruma que lhe caía em cima. E, mesmo sabendo que muitas vezes me levaria ao fundo, mergulhei nessa tentação de fim de semana. Sem amarguras nem lágrimas, o pouco cloro também ajudou.

Nos intervalos pensei em escrever cartas aos meus amigos, mas surgiram outros que me deram um baralho já com elas escritas. Poupei trabalho, resolvi abrir o jogo. Disseram-me que não jogava com o baralho o todo, mas pus as cartas na mesa: posso não ser um ás das relações, mas não sou uma carta fora do baralho.
“Só nos saem é duques” gozaram eles. Não respondi e resolvi guardar alguns trunfos na manga. Se não saísse dali a dar cartas, pelo menos tentaria baralhar e voltar a dar.

Muito mais tinta correu, mas por fim joguei a cartada final. Voltei a fazer-me à estrada. Aceitou-me de volta, apesar de estar só de passagem. É uma querida, apesar de eu lhe estar sempre a passar por cima. Cheguei a casa, não abri o correio. Não me apetecia jogar às cartas.

13.8.09

Sobre a acção de despejo de Adão e Eva


Toda a gente conhece a vida do Adão e da Eva tão bem, que até parece que somos porteiras de um qualquer prédio celestial. E, embora nem entre na discussão no plano teológico, há ali muita coisa mal explicadinha.

Primeiro que tudo, Eva era aquilo a que se chama na restauração “um piano” do Adão, isto é, antes de Deus se armar em Dexter. Mas adiante, se o biótipo pele e osso era o que estava a dar na altura, siga.
Agora, um casal nu, ambiente paradisíaco, nada para fazer, nunca lhes passar pela cabeça toda uma panóplia de regabofe? Dá-me ideia que, parra à parte, se tratava de um casal de atadinhos. Para além do mais, se esse tipo de entretenimento não estivesse já nos desígnios do Senhor, para quê dotar a malta de certas e determinadas ferramentas. Só se fizer parte de um sentido de humor muito mórbido.

Tendo todo este cenário em conta, a conclusão é óbvia: só com uma maçãzinha aquele parzinho não dava conta do recado. Para já, Eva teria um claro problema com a bebida ou era esquizofrénica, pois embora se conheçam muitas víboras com duas pernas, as tradicionais não são conhecidas por entabular conversações com a malta. Depois, conheço muitas linhas de engate duvidosas mas coisas do estilo “Bem, já que comeste a maçã, bem me podias comer a mim” criam toda uma nova categoria de actos falhados. (tirando se houvesse já uma predisposição para gostar dos Malucos do Riso)

Daí que a razão mais provável para o pecado original tenha possivelmente que ver com uma de duas coisas que não devem faltar em Jardins de categoria divina – erva ou cogumelos. Sim, porque nada me diz que aquele casal não tinha ali uma pitada de hippie.
E, como é óbvio, por muito complacente que um Senhorio seja, sacar drogas do jardim e manchar a esteira que lá havia para os piqueniques, mostrou logo que há malta em que não se pode confiar. Especialmente se forem pessoas.


Afroman, Because i got high

9.8.09

Da galera para a galera.




Ao contrário dos rumores que têm havido por aí, não é verdade que tenha sido trocado por dois prisioneiros de Guantanamo e uma sandocha de torresmos ou que tenha sido condenado a fazer parte da lista do Santana Lopes, enquanto trabalho comunitário junto dos mais desfavorecidos.
No entanto, certamente que o meu ar bronzeado e sorriso trocista devem ter irritado alguém, já que ando mais soterrado em trabalho que uns artistas que viviam em Pompeia.

Mas, tenho conseguido estar com os meus amigos quase todos, já que tenho impressão que até na praia anda aí malta ligada a certas e determinadas redes sociais. É que a gripe suína já afecta centenas em Portugal, mas a febre do Facebook já atinge milhares, com quizzes e aplicações pandémicas para me moerem o (pouco) juízo.

Back to life - Faith No More, Edge of the world

3.8.09

Cigano virtuoso

Primeiro que tudo, esta conjunção no título desmente os boatos que tais palavras nunca poderiam ser proferidas juntas.
Depois, mostra que eu este fim de semana descobri um pouco mais sobre "Gipsy Jazz" e afins.

E não, não se trata do Bamboleo tocado em saxofone.



Mas tal descoberta não me impede de constatar algo que nos mercados inteiros de Portugal já se sabia: os ciganos são bons a dar-nos música.

29.7.09

Rica vida tem a morte


É certo e sabido que, traço geral, a malta não é assim grande fã da morte. Fazem-se piadas sobre ela, trivializa-se o seu efeito, mas quando nos toca de perto, a vontade de rir desaparece num instante. O que é chato, porque a maior parte das pessoas que conheço ficam mais bonitas a rir do que a chorar. Tirando umas quantas, que não há boa disposição que as safe.

O nosso problema com a morte é que não somos racionais, o que até se pode justificar pelo facto de ela também não nos estender essa cortesia. Há mortes esperadas, há mortes inesperadas, há mortes trágicas, há mortes heróicas, mas não deixam de ser mortes. E isso signifca que alguém que nos é próximo passa a ser para sempre distante. A culpada do costume: a morte, claro está.
A realidade é que essa é uma culpa fácil, porque a morte em si não faz nada, é um bocado parada. São as doenças, os acidentes, a idade e tudo o resto que matam as pessoas. A morte é o ponto final num texto, não tendo qualquer responsabilidade sobre a forma como o fim da história se desenrolou. Mas nós transferimos para ela todo o nosso sofrimento.

A verdade é que não gostamos muito da dita Sra pelo facto de assinalar, de forma marcante, o momento em que o sofrimento passa definitivamente para as nossas mãos. E isso dói. Dói ainda mais porque nessas alturas vem ao de cima o nosso egoísmo, o egoísmo próprio de quem está vivo e sofre.

Mas e então, devemos gostar da morte? Se tivermos uma funerária, sim, porque é ela que nos garante a vidinha e é um sector em que nunca há falta de matéria prima. A verdade é que também eu não gosto da morte, mas também não sou grande fã do nosso culto à volta dela.
A versão religiosa serve para dar conforto face ao desconhecido, mas é tudo muito virado para nós, para amplificar o nosso sofrimento. O cerimonial foca-se na partida, num tom carregado e, adequadamente, fúnebre, mas nem tanto no que de melhor teve a vida de quem morreu.
Sim, porque se estamos ali, é porque algum impacto aquela pessoa teve na nossa vida e, por mais trágica que a forma como nos separamos dela possa ter sido, isso não devia apagar o que de melhor nos juntou, nem sequer secundarizá-lo. Mas, a saudade e o sofrimento tornam-nos egoístas. A reacção é natural, mas também é muito cultural.

A maior parte dos nossos cemitérios é apenas um espelho disto tudo. Pedra e mais pedra, placa e ostentação, sinais que falam para os vivos, mas homenageam pouco a vida. Nada substitui uma pessoa, mas uma lápide fria terá sempre menos vida que uma árvore, uma planta, algo verde e colorido. É certo que não temos espaço para exemplo estilo americano ou inglês, mas à escala poderíamos ter espaços bem mais naturais, verdes, tranquilizantes e, porque não, vivos para honrar os nossos mortos. Eles certamente ficariam satisfeitos, especialmente por nós.

21.7.09

Et tu Bruno


Toda a gente é livre de se rir, mesmo que não saiba porquê. É saudável, faz bem a uma data de coisas e não tem sabor esquisito, ao contrario de certos iogurtes. Mas, sendo eu um tipo com uma certa afinidade em relação ao humor e à escrita, ao ponto de aderir na hora caso surgisse um projecto aliciante nessa área, é natural que tenha um determinado grau de exigência na matéria.

Tudo isto para falar de “Bruno”. Assisti à antestreia mas, antes de debitar sobre o assunto, quis ler e ouvir um pouco de feedback sobre o filme, quer de “profissionais e entendidos do ramo”, quer de comuns mortais e também de dois ou três gnomos.

O resultado final é este – não há concordância, o que até favorece o filme, já que concordâncias e aclamações unânimes por norma não são bom sinal. Aliás, o único ponto mais concordante é que o filme é intencionalmente chocante, algo típico dos personagens de Baron Cohen, como já se vira em Borat. O problema, para mim, começa logo por ser um filme e não uma curta, um documentário ficcionado de forma mais assumida, whatever. Um filme exige enredo e uma maior duração, algo que não favorece, a meu ver, um tipo de humor que tira a sua força do choque e da surpresa. Até porque é difícil chocar e surpreender com qualidade ao longo de uma hora e meia, mas aí o critério financeiro de quem quer também fazer dinheiro fala mais alto.

A abordagem do tema gay é ousada e desafiante, mas só por si chega? Sei que com temas polémicos vem sempre a reacção / incompreensão de parte do público e muita critica, nem sempre criteriosa. Mas isso será sinónimo de qualidade?
O choque pelo choque desgasta-se na vulgaridade da repetição, apesar de ser suficiente para muitos. A mock-interview também tem pontos de bom nível no filme, mas também tem momentos estilo “Michael Moore vs Charlton Heston”, em que o efeito se vira contra o provocador.

E no fim, o que torna “Bruno” algo de memorável em termos de humor? Eu tentei descobrir, mas não cheguei lá, não estive perto e nem sequer pude pedir o dinheiro de volta, já que fui à borla. Talvez o mérito do tio Sasha seja criar personagens que se “canalizam” bem através do mediatismo e de conseguir aliar o humor à polémica, mesmo que o primeiro seja por vezes apenas um artifício para ir mais longe.

Mas, a beleza do humor é que o humor é como a beleza. Está sempre nos olhos de quem o vê.

20.7.09

Sim, já fui a um casamento

Suponho que, para muita gente, esta seja uma afirmação trivial semelhante a “Sim, já pontapeei um idoso na rua”. Mas, para o ilustre que vos escreve, até este fim de semana, só a segunda premissa era realidade.
De facto, fiz parte de uma elite restrita, para aí de cinco gajos que, em Portugal, tinham já uns anos valentes de idade adulta sem nunca terem posto os pés num casamento. Se a isso juntar o pormenor de sobreviver sem carro próprio (sim, conduzo e não tenho atropelamentos e fuga no cadastro), éramos só dois sendo eu o único que não estava ligado a uma máquina de respiração artificial desde os 18.

“Será este tipo tão anormal como parece?”, aventarão alguns dos leitores. Não sejam prepotentes, que eu ainda não confio que saibam pensar. Neste caso, a questão nem vai por aí, já que não sou aquilo que se pode chamar um devoto dos deveres familiares e os meus amigos, pelo menos os que não estão internados, ainda não casaram na sua maioria ou, pelo menos, tiveram a inteligência de não me convidar.

Mas, passando ao casamento em si, o que pude eu constatar:

- Há um certo egocentrismo da parte dos noivos. Tudo bem, são eles que se casam, mas não havia necessidade de estarem sempre a querer ser o centro das atenções. Ai, agora vamos assinar e dar um beijinho, ai agora são as fotografias, ai agora temos uma mesa de honra, uma dança só para nós, um bolo para estrearmos, etc.

- Há gente que capricha na fatiota. Mas certamente que, para alguns, um casamento, um cortejo de Carnaval em Torres Vedras ou uma festa da espuma são eventos de cariz semelhante, no que ao vestuário diz respeito.

- Atirar arroz e pétalas pode ser divertido. Também pode ser violento, se tiver em conta o vigor com que alguns cestos foram arremessados.

- Empregado de mesa/bar pode exigir seguro de vida, especialmente se estiver de serviço nas horas de abertura / início de distribuição de comida. Se ha um grupo perigoso de enfrentar é uma “posse” de convivas esfomeados e sebentos.

- A senhora do registo não ficou para almoçar. Primeiro não percebi a recusa de uma borla, mas depois vi que mexia com o horário de serviço de um funcionário público e fez-se luz.

- Mais irritante que o fotógrafo só mesmo o cliché das suas fotografias. Única nota criativa, os tranquilizantes que usou para conseguir fotografar as crianças. (era bom não era)

- A ementa desiludiu-me. Pensava que a magia do casamento também se estendia aos nomes dos pratos. Mas não, o que era bacalhau vinha mesmo como bacalhau e nem sequer como “Lascas de codfish em cama de espinhas com toque de pele e sensações gratinée”.

- A banda não era má ou então era a bebida que era boa. Mas também não era assim tão boa, senão eu não me lembraria da banda.

- A par do K1, o apanhar do bouquet deve ser um dos desportos mais agressivos que já vi. Curiosamente ou não, as mulheres que mais se empenham por norma são aquelas que não vão acompanhadas.

- Com a alarvidade de comida que sobra, lembrei-me de um bom nicho de mercado. A malta que organiza casamentos devia contactar organizações de cariz cívico e guardar as madrugadas para casamento de mendigos, sem-abrigos e/ou toxicodependentes. Eles não iam ligar à apresentação das coisas, as facturas de mecenatos são dedutíveis nos impostos e o amor acontece a todos, até aos mais desfavorecidos.

- Há um tipo de pessoas que se deve ter muito cuidado, nas mesas de casamento. E não me refiro ao etilizado do costume, porque nódoas da roupa são o menos. Mas, sobre isso debruçar-me-ei noutras núpcias.

- Não vi, perto do final da festa, ninguém com um leitão ao colo, disfarçado de criança. Desde que vi um sketch assim (quando o Herman ainda era vivo), tinha essa ilusão.

E pronto, temos estes apontamentos, no meio de tantos outros. E eu já fui a um casamento. Mas a comprar um carro não me apanham tão facilmente.

17.7.09

Sempre a fracturar

A única questão em q o actual Papa assumiu uma posição fracturante parece ter sido em relação ao seu pulso...

14.7.09

Silly season à séria, precisa-se.

Podem não acreditar, mas o Verão já ai anda há quase um mês. Se isso é tudo muito bonito, as férias, o CampingGaz, o choro de alegria e tristeza com os figurinos que surgem com o Verão e até a malta que se recusa a parar de bronzear, mesmo depois de fazer parecer pálidos alguns cadáveres carbonizados, mas ainda assim falta-me algo.

O Ronaldo bem tenta, a Manuela Moura Guedes bem assusta, mas entre Gripes A, Tamiflus (com este nome, só devia haver em supositório), bancos e mais mancos, bi-eleições (eleições que dão para os dois lados, mas em que quem se fornica é sempre o mesmo) e outras preocupações, sinto falta das reportagens sobre a porca que amamenta um contabilista anão ou do pai de família que construiu uma réplica do Titanic com dentes que caíram dos seus 8 filhos.

É que nem os incêndios têm estado a ter o destaque de Verão de outros anos e a chamada reportagem-chouriço, mesmo junto à brasa, tem tido muito menos saída. Muitos de vocês podem até estar aliviados com isso, mas para mim estes são os meses em que as notícias mais valem a pena.

É que, no final de contas, para palhaçada já me basta a realidade do resto do ano.

Jigsaw falling into place, Radiohead

10.7.09

O metal reinou por um dia


O rádio-despertador soou diferente ontem. De repente, a Romântica FM foi esmigalhada por uma força poderosa, uma bateria que anunciava o fim do mundo ou então saldos no Media Markt. Não, era mesmo mais tipo fim do mundo.
Esfregaste a careca para despertar, só para encontrares um viçoso cabelo comprido no seu lugar. Já não tinhas o cabelo assim desde o tempo em que os vikings chegaram à Trafaria.

No lugar da barriga que compraste em suaves prestações de cerveja, casamento e sedentarismo estava aquela tshirt preta com um grafismo literalmente dos diabos, que sacaste do chão depois de um mosh em 87. Seria possível? Deste uma chapada na tua mulher, só para ver se não estavas a sonhar e o soco que tiveste como resposta provou-te que não era sonho. A subsequente dor nos tomates também.

Foi então que olhaste para o bilhete em cima da mesa. Brilhava quase tanto como os teus olhos, mas com menos ramelas. O concerto era hoje e a tua alma metaleira vestira-se a rigor. Mas, esquecera-se das calças pretas e no armário só haviam as da tua mulher. Azar, o mundo é injusto, mas as calças serviram à justa, como era suposto. Os teus putos vieram dizer-te bom dia e tu fizeste-lhes uma mosh só para eles verem como era dantes. Eles adoraram e nem o braço partido do mais novo atrapalhou.

Hoje era o dia em que o metal voltava a reinar e o seu principe estava de volta. E iria mostrar o seu valor, enterrado em imperiais até ao pescoço.
A noite chegou depressa, os portões não resistiram à sua força e do concerto só se lembra que ficou tudo negro. Como era suposto.

O dia seguinte trazia de novo a Romântica e o poderoso príncipe do metal voltaria a esconder-se por entre o manto da vida comum.


Eu vi-o ontem à noite ao meu lado – Metallica, Master of Puppets

8.7.09

Futuro, triagem de informação e newsjacking


Chegámos a um futuro não muito distante, onde para aparecer nos noticiários não bastará ser notícia. O sistema de triagem de Manchester, aplicado aos hospitais portugueses, é agora também utilizado em todos os cidadãos que se candidatem a ser notícia.

A massificação da informação está no seu auge. A seguir a um período de descontrolo editorial veio uma política de zelo e estratificação noticiosa para tentar separar o trigo do joio, ambos transgénicos. Os canais de informação são agora verdadeiras fortalezas. Por outro lado, a TVI tem um noticiário em formato Big Brother, o único lugar onde podemos ver uma vetusta Manuela Moura Guedes em versão infravermelhos.

Eis uma entrevista a um candidato a ser notícia.

Info-funcionário: Portanto, o senhor acha que é notícia e quer ter acesso ao estatuto de celebridade, nível 3?

Cidadão: Oiça, eu tenho a certeza, não acho.

IF: Amigo, você não sabe quantos chegam aqui com essa conversa e depois nem de rodapé de teletexto passam. Celebridade de nível 3? Isso tem que ser matéria para abrir noticiário.

Cidadão: Meu caro, mas eu acabo de descobrir a cura para o vírus da SIDA.

IF: Ui, mais vírus? Já não nos bastavam a gripe A, B, C, D e as outras todas que já parecem matrículas de carros, mais a febre do peixe galo, a perturbação da pata de coelho e o síndrome do entrecosto e você vem-me com mais doenças?

Cidadão: Não está a compreender, estamos a falar de um vírus que dizima milhões de vidas há décadas.

IF: Isso é tudo muito bonito, mas ainda nos vai é dizimar milhões em audiências. Deixe lá ver, como é que o posso ajudar. Está a planear suicidar-se ou morrer de forma espectacular nos próximos dias?

Cidadão: Não...

IF: Tudo bem, talvez não seja preciso ir por aí. Familiares ou criancinhas fechadas por si em caves ou buracos, arranjam-se?

Cidadão: Está a brincar??!!

IF: Ok, ok, já vi que com essa disposição nem vale a pena perguntar se por acaso não é casado com a Maddie ou a tem embalsada junto à lareira...
E laboratórios interessados em contratá-lo hein? Tipo assim uma cena inovadora, cientista e o seu vírus recebidos em delírio no novo laboratório. A loja anuncia que a bata com o seu nome já está esgotada. Isso era bom!

Cidadão: Oiça, as coisas não funcionam assim. Eu sou respeitado, mas...

IF: Não funcionam, diz ele. Epá, se o respeito lhe chegasse não estava aqui. Conhece ao menos o Ronaldo?

Cidadão: Quem?

IF: O futebolista pá, o gajo que bateu o seu próprio recorde de transferências, quando o Inter Alberto João Jardim ofereceu Portugal ao Real Madrid para o contratar.

Cidadão: Não.

IF: E alguma das mulheres dele? A Paris Hilton, a Shakira, a Susan Boyle ou uma das outras?

Cidadão: Também não.

IF: Estou a ver que não vamos lá. E o gato dele, o Ronronaldo?

Cidadão: Ainda menos.

IF: Amigo, assim não vai dar. Chega-me aqui sem referências, só me pode avançar com a cura do vírus da SIDA e eu não estou a ver como o posso encaixar no nível que pretende. Não chega uma entrevista no “Memórias do Baião”, tem que ser mesmo noticiário? É que o João tem Alzheimer e você vai poder falar do que quiser.

Cidadão: Eu sou uma pessoa séria, só quero falar sobre esta descoberta maravilhosa, mas com dignidade. Você está a irritar-me, seu biltre.

IF: Está disposto a bater-me?

Cidadão: Muito facilmente.

IF: Então fazemos assim. Eu tenho aqui um abre-latas, você dá-me dois socos, e ameaça infectar-me com a cura da SIDA. Eu ligo para a regie, temos aqui um directo. Você diz que só fala com a minha avó, a Judite de Sousa e quer que o Marcelo, mesmo já cego de um olho leia a sua dissertação na diagonal. Que lhe parece, chega-lhe?
Amigo, onde é que vai, oiça lá... Volte, olhe que é boa ideia. Se for à TVI olhe que o fecham no escuro com a Moura Guedes.
Vá lá, volte lá.

2.7.09

Nollywood here I come

Meus caros, está resolvido. Quem me conhece sabe que, para além de deslumbrar diariamente na minha actividade profissional principal (Cobrador do Fraque), tenho um vasto interesse pela escrita de humor (e não só), assim como pelo guionismo.

Apesar de não pertencer a nenhuma pandilha organizada do ramo (mantenho-me fiel ao Clube do Macramé), interessam-me sempre novos projectos e desafios e, como tal, assim cheguei a Nollywood.
Para quem já pensou “Ó urso, é Hollywood ou Bollywood que queres dizer?”, deixem que aqui o Puff vos elucide – é mesmo Nollywood e refere-se à indústria cinematográfica da Nigéria que, em termos de volume de produção já ultrapassou os americanos e já só tem os indianos pela frente.

Vendo este mercado em clara expansão, não hesitei, sorvi a cultura nigeriana e aquilo que faz mexer o cinema local, bebi um copo de água para desembuchar e deitei mãos à obra. Eis seis pequenas sinopses de múltiplos temas que, pelo que sei, foram muito bem recebidas pelos executivos locais.

Título: O Tubo / The Pipe
Género: Policial
Sinopse: Samson, jovem nigeriano, morre numa explosão ao tentar gamar petróleo de um oleoduto local. Seu irmão, Abiodun, lança-se numa investigação para saber quem acendeu o cigarro segundos antes da explosão.

Título: Pelo Tubo / Down the Pipe
Género: Drama
Sinopse: Samson, jovem nigeriano, morre numa explosão ao tentar gamar petróleo de um oleoduto local. Seu irmão, Abiodun, mergulha no mundo do gamanço em oleodutos, para tentar saber o que levou o seu irmão a acender um cigarro, segundos antes da explosão.

Título: Rico Tubo / She’s not my Pipe
Género: Comédia
Sinopse: Samson, jovem nigeriano, morre numa explosão ao tentar gamar petróleo de um oleoduto local. Seu irmão, Abiodun, lança-se numa série de peripécias para não explicar à família porque acendeu um cigarro segundos antes da explosão.

Título: O Tubo Sentido / The Pipe Sense
Género: Terror / Sobrenatural
Sinopse: Samson, jovem nigeriano, morre numa explosão ao tentar gamar petróleo de um oleoduto local. Seu irmão, Abiodun, mergulha no mundo da feitiçaria africana e, com a ajuda do Prof. Bambo, convocam o espírito do irmão para acabarem de fumar o cigarro que tinham começado segundos antes da explosão.

Título: Ao longo do Tubo / Through the Pipe
Género: Romance
Sinopse: Samson, jovem nigeriano, morre numa explosão ao tentar gamar petróleo de um oleoduto local. Seu irmão, Abiodun, afoga as mágoas lançando-se num tórrido romance com uma meretriz local que viu, pela primeira vez, a fumar um cigarro segundos antes da explosão.

Título: Tubo / In Tubis
Género: Manoel de Oliveira
Sinopse: Samson, jovem nigeriano, morre numa explosão ao tentar gamar petróleo de um oleoduto local. Seu irmão, Abiodun, não faz nada. Catherine Deneuve passa ao longe, em Sintra.

1.7.09

Febre de museu à noite


Hoje já não é segredo que gosto de visitar museus. Em miúdo tive de o fazer às escondidas, pois no meu bairro puto que ia a museus estava a um passo de se tornar escuteiro e isso não era abonatório para a nossa integridade física.
Sempre achei isso positivo, porque te obrigava a estar sempre alerta: do ponto de vista cultural aprendias muito nos museus, do ponto de vista do cabedal porque não era raro intervalares festivais de impressionismo com festivais de pancadaria.

O problema foi sempre: os museus nunca foram promovidos como sítio cool, pelo menos na idade certa para isso. Não o foram quando eu era miúdo, não o são agora certamente, mesmo que me venham dizer que às 5as agora a malta tem os museus abertos até à meia noite.
É uma questão cultural, famílias inteiras vieram de todo o país para um piquenique com intoxicação musical incluída (Toni, tu és o Ronaldo da música), mas nem duas trotinetas se encheriam se o piquenique fosse na Gulbenkian com visita ao museu incluída.

Mas, como se muda isso? Lavagens ao cérebro e começar tudo de novo? Pode ser que isso seja um plano secreto das novelas da TVI, mas não me parece. A questão é que a dinamização dos museus, por exemplo em Lisboa, está a anos luz de outras metrópoles, onde aproveitar a oferta cultural é tão natural como ir passar uma tarde ao centro comercial. Cá, a noção geral de oferta cultural deve ser para aí o cheque-brinde da FNAC.

Alargar horários serve apenas para alguns baterem palmas e aumentar a circulação do ar durante algum tempo. Alarguem antes mentalidades – é mais difícil, demora mais tempo e na volta... não serve de nada (pensavam que isto ia ser profundo não era?).

29.6.09

Nomenclatura para organizações de gente alienada

A par de um duche gelado tomado a rigor, de fato e gravata, antes de sair de casa gosto de me refrescar pela manhã com notícias que me provam que há gente em pior estado mental do que eu.

Sendo assim, foi com alegria que descobri , através deste espantoso relato, que existem organizações com nomes desta craveira - Rede Internacional de Pessoas que Consomem Drogas (INPUD) e o movimento português CASO (Consumidores Associados Sobrevivem Organizados).
Primeiro que tudo, maravilha-me o facto desta malta ter efectivamente a capacidade de se organizar. Já não me parece tão extraordinário a forte possibilidade destes nomes terem sido obtidos sob o efeito das suas matérias primas favoritas.

Rede Internacional das Pessoas que Consomem Drogas parece-me uma organização que se manifesta quando a polícia apreende contentores de drogas, apelando à liberdade dos narcóticos e que organiza exposições das melhoress fotos de apreensões policiais, daquelas todas direitinhas, com pacotes ordenados por volume e tudo. Parece-me ainda que é gente para lançar o cartão DrugPlus, com descontos nos principais postos de abastecimento e a oportunidade de trocar pontos por seringas, cartões de plástico, garrafas de água e, expcionalmente, comida.

Já o movimento português, parece-me um CASO sério. Não sei se é a rima Consumidores Associados / Sobrevivem Organizados, se é o facto de ver que nem os arrumadores se conseguirem organizar, mas parece-me pouco credível. Depois houve a necessidade de transformar a sigla numa palavra, levando-me a pensar que os consumidores de ecstasy e LSD têm preponderância no grupo, o que leva à conclusão que num dia podem estar a lutar contra a discriminação do toxicodependente e no dia seguinte pela defesa dos ninhos de elefantes verdes na Assembleia.

E, sendo este um texto escrito no âmbito da EDIOTA (Escritores Desorganizados mas Interventivos, Opinativos e Totalmente Amorosos), sei bem o que se passa nos movimentos associativos menos considerados. Simplesmente, eu não consumo drogas.

As drogas é que me consomem a mim.

The drugs don’t work, Ben Harper cover

26.6.09

Consternação, horror e outras palavras de bom porte

Vou começar por despachar já o assunto – Michael Jackson morreu. Fui dos primeiros a saber, não através do Twitter, mas porque a Alexandra Solnado me ligou a dizer que Jesus se tinha desbocado.
Nos próximos dias isso significa que o Cristiano Ronaldo só vai poder continuar a galar a sua própria cara ao espelho, que o Jacko vai fazer tanto dinheiro como nos útlimos dez anos e que finalmente vai acabar a novela mórbida e restará aquilo que realmente vale a pena – a sua música.

Mas, o meu verdadeiro horror do dia não teve a ver com a notícia que faz com que Portugal pudesse levar com uma bomba atómica em cima e ainda assim não ser tema de abertura em noticiário que se preze.

Não é que ontem se cruza comigo um indivíduo, para aí com 50 anos, sem ar de andarilho (e acreditem, eu sei o que é ter ar de andarilho) e quando vai a passar por mim diz alto e bom som “BOI”.
Estando eu na proximidade do Campo Pequeno, primeiro pensei que era um alerta para algum bovino desgarrado à solta. Mas, ao virar-me constatei que o único animal à vista era aquele com quem me tinha cruzado.

Pensei então que o Sr se estava a apresentar, mas como não ficou para conversar e isto não era um encontro de “Speed Greeting”, descartei a hipótese.
Restavam duas opções: doido varrido ou estava efectivamente a insultar-me. Não consegui decidir-me, pelo que não fui a correr atrás dele para um ajuste de contas.
No entanto, à cautela, tirei o piercing-argola do nariz, só para tirar isso a limpo numa próxima ocasião.

Jackson 5 – Blame it on the boogie

19.6.09

Parábola do coelho, da hiena e da piada


Tempos houve em que os animais (para além dos políticos) falavam. Possivelmente porque não havia tantas restrições sobre hormonas e medicamentos administradas em animais, mas adiante. O que interessa é que falavam e tinham sempre coisas interessantes para dizer, como era o caso do coelho.

O jovem coelho era uma espécie de ídolo do stand up da altura. Sempre de piada em riste, percorria os palcos, da savana ao círculo polar, divertindo a bicharada como se não houvesse amanhã. Sendo um animal, o seu humor era bestial, mas tinha um toque de requinte que nenhum dos outros animais conseguia acompanhar.

O seu fã número era a hiena. Fã de uma boa gargalhada, seguia o coelho para todo o lado, e não havia devoção maior. Ao fim de vários anos, encontrou o coelho à entrada de uma reserva natural, onde este ia dar uns espectáculos. Aproveitou a ocasião e resolveu meter conversa:

Hiena – Grande coelho pá, tu é que a sabes toda. Admiro imenso o teu trabalho. Epá, só de pensar naquela do urso polar que era bi. Ah, ah, ah!

Coelho – Obrigado, mas olha que isto dá trabalho. Sempre a saltar aí de um lado para o outro.

Hiena – Epá, ah ah ah, sempre a saltar, muito bom, tu estás lá. Diz-me lá, qual é o segredo para ser tão engraçado, curtia saber ah ah ah!

Coelho – Bem, suponho que...

Hiena – Ah ah ah! Epá, sempre a dar-lhe. Tu não perdoas coelho, ah ah ah!

Coelho – Sim, mas...

Hiena – Ah, ah, ah. Pára, pára, que eu não aguento. Ah ah ah!

Já meio irritado, o coelho salta para o trilho, pronto para se fazer à estrada. Virou-se para a hiena e diss:

- Olha, v....

Distraído, não reparou no jipe da reserva e ficou, como se dizia na época, esmigalhado.
A hiena ficou estática por uns segundos. Abriu a boca, fechou, olhou para o que restava do coelho e finalmente conseguiu articular alguma coisa:

- AH AH AH AH AH AH AH – as lágrimas brotavam-lhe dos olhos – LINDAAAAA. GRANDE COELHO, sempre a bombar. SEU GRANDE MALUCO. AH AH AH AH AH!

E depois, foi andando.


Moral da história – As melhores piadas surgem muitas vezes por acidente, mas desprezar até o fã mais idiota pode ser a morte do artista.

18.6.09

Saída do armário a 300 metros


Convenhamos, ser gay e sair do armário já não é o que era. Sim senhor, ainda há casos em que isso causa grande emoção, etc e tal, mas a verdade é que os tempos mudaram e quando se vê “Música no Coração pela 43a vez” aquilo já não é propriamente novidade...

Vislumbre-se um episódio jovem a sair do armário com os pais:

Jovem – Mãe, pai, vim cá jantar hoje para vos dizer algo importante.

Mãe – Ó filho, pensei que viesses por causa do cabrito.

Jovem – Sim, o cabrito é sempre bom, mas eu...

Mãe – É por causa de seres gay?

Jovem – Mas...já sabiam?

Pai – Então, mas tu achas que somos parvos? Olha, passa aí as batatinhas.

Jovem – Eu sei que não é fácil, mas acreditem....

Pai – Não é fácil? Difícil foi a tua mãe preparar o cabrito. Mas olha, se já te decidiste, aproveita e vê lá se convidas o teu primo Hugo para sairem mais à noite.

Jovem – O Hugo é gay????

Mãe – O Hugo e a filha da Arlete, a Carminho. Esteve cá a lanchar com a namorada a semana passada.

Pai – Era simpática a rapariga, despachou-me foi meia garrafa de aguardente.

Jovem – Eu não sabia...

Pai – Pronto, não fiques assim, agora já sabes. E, quando puderes, traz-me daquele creme que tinhas para a cara aqui na casa de banho. É que me faz um jeitaço para depois da barba.

Jovem – É que, nem no emprego sabem...

Mãe – Falando em trabalho, o teu pai diz que abriu um escritório de consultores lá no edifício dele Acho que têm assim um ar bem cuidado e essas coisas. Tu no teu CV dizes que és gay? Olha que podia dar jeito...

Jovem – O que é que isso tem a ver? As pessoas não têm nada a ver com isso. Cada um...

Pai – Mas filho, tu é que vieste falar connosco....

Jovem – Epá, vocês são impossíveis. Eu vou andando...

Mãe – Olha, leva cabrito!


Como se vê, necessitamos de novas saídas do armário para dinamizar a expressão. Talvez pessoas que gostassem de dançar em ranchos ou contabilistas que gostem de declamar poesia lírica. Não se acanhem, eu já assumi o meu amor pelas rendas de bilros.

Little Boots, New in town

16.6.09

Se vai de férias, visite pessoas


É certo e sabido que este blog tem sido maltratado, nomeadamente por mim, mas a verdade é que, tematicamente, isto nunca foi bem tratado. No entanto, achei que era altura de ele crescer e, como tal deixei-o sozinho para ver como se safava. Tal como eu pensava, os blogs são um bocado lerdos, e este ficou assim para o parado.

Volto agora para lhe limpar a baba (não me refiro a si, prezado leitor) e volto com dicas de elevado gabarito. E, acabando por agora a temática de viagens, não o faço com mais fotos de New York City e relatos de fatias de cheesecake do tamanho do Bruno Nogueira.

Nos guias turísticos não vem isto, mas é bom visitar pessoas, quando se vai para fora. Para já, ao contrário dos monumentos, respondem-nos e dão-nos informações, ao passo que os monumentos e coisas parecidas ficam para ali paradinhos a fazer-se à fotografia.

As pessoas são ainda a base de boas histórias de férias. Desde o porteiro que apreciava brincar com a dentadura, ao oriental que tentava “sugar” energia das obras de arte no Metropolitan, passando pelo empregado de recepção que me pediu para lhe traduzir para inglês o que hóspede espanhola gritava ao telefone (e que era “Está um bêbado aos murros e a mijar-me na porta do quarto”) isto são só exemplos das últimas férias. As gajas e os gajos bonzões (ou as crianças, se costumam fazer férias pedófilas), as pessoas irritantes e os personagens, é essa tropa toda que vai diferenciar as vossas férias das dos demais. Porque as fotos e os sítios vão estar lá para todos, salvo catástrofes naturais (incluindo doenças venéreas e pandemias).

Finalmente, só as pessoas nos sítios a que vamos de férias têm curiosidade genuína em saber o que cada um de nós faz ou como é a vida em Portugal. Muitas vezes é só para ver se compensa matarem-nos e roubarem a nossa identidade, mas não deixam de ser uns minutos de conversa interessantes, que nunca temos hipótese de pôr em prática no quotidiano. Aliás, a última vez que tentei pôr isto em prática nos transportes públicos fui posto fora antes de chegarmos às Galinheiras.

Sendo assim, recomendo – lá fora, nem que seja para variar, aproveite as pessoas (não confundir com “aproveite-se das pessoas”).

Thievery Corporation, El Pueblo Unido

1.6.09

Viagens a New York – o que não te dizem nos guias

Então, essas férias? Não é preciso responderem, isto é o que se chama um cumprimento retórico, apesar de ser uma pergunta que tenho ouvido com frequência nos últimos dias. Essa e “Quando é que pagas a guita que me deves?”.

Pormenores à parte, podia vir agora todo ufano falar-vos do requinte que é ir a NY, de tudo o que se pode por lá fazer e não é (muito) ofensivo relatar e ou de como dei uma cabeçada numa gaja do Sexo e a Cidade. Mas, sabendo eu que uma paragem no blog de 3 semanas deve ter deixado este espaço estilo escritório em que foi dada tolerância de ponto, não vou continuar a escrever para mim próprio. Para isso já me bastam os postais de Natal.



No entanto, irei deixando aqui um pequeno guia de curiosidades, caso algum incauto venha cá parar através da pesquisa do Google, por outras palavras que não “Miúdas desinibidas, canalizador, pickles ou moonwalking”.

1º - No avião – Nos vôos de longo curso, os monitores individuais permitem que cada um escolha o filme/série/etc que quer ver. O que é óptimo, mas aumenta o efeito típico dos transportes, em que o vizinho cobiça sempre mais o que estamos a ver do que ele próprio escolheu. Ah e no quadro de visualização do mapa de viagem na altura de partir, para além de Lisboa consta também a Amadora, destino muito popular para o viajante mais exótico.

2º - Comissários/Assistente de bordo – as companhias estrangeiras mimam os passageiros portugueses com humor de cabine, já que entre vôos Lisboa-NY têm sempre um luso-descendente açoreano ou um brasileiro radicado nos EUA ao serviço. Não imaginam a piada que isso confere ao ouvir traduzidas para português umas monótonas indicações de segurança, avisos de turbulência ou respostas pedidos feitos por passageiros armados em espertos, vulgo eu.

3º Entrar nos USA – Para além de parecer que se está na secção de maquilhagem do Corte Inglês, dê cá uma mãozinha, depois a outra, mostre esses olhinhos, sim senhor está aí um turista todo janota, os aeroportos americanos têm a vantagem que parece que estamos logo em Times Square, tal é a montanha de gente de todos os lados. Os japoneses eram os mais fáceis de distinguir, não pelos olhos em bico, mas sim pelas máscaras anti-gripe ex-suína, tipo A apanhe ali o acesso H1N1. O tipo que me admitiu, um tal de Watkin, fê-lo com uma afectuosidade que o meu ar moreno ligeiramente árabe nos dias de Verão deve ter despertado. Sorte que o carimbo foi no passaporte e não no peito, senão lá se iam umas costelas.

Vão-se entretendo a contar prédios, que eu já volto.



Fun Lovin' Criminals - King of New York

10.5.09

Três pontos para o país de Mak

Ora pois, isto tem andado complicado mas dou cá um saltinho, tarde e a más horas, só para dizer de minha justiça.

Ponto 1 - Vasco Granja não morreu.



Para quem, como eu, pertence a uma faixa etária em que os desenhos animados da infância tiveram a presença deste senhor pelo meio, intervalando sempre desenhos que nos eram familiares e simpáticas plasticinas checas ou bonecos experimentalistas da Ossétia do Sudoeste. É certo que muitas vezes podíamos até não perceber a riqueza que nos era passada, mas o certo é que ainda hoje falamos nela com carinho e boa disposição. Era um bocado como se o nosso avô nos contasse umas histórias de adormecer e pelo meio metesse uma falada em russo. Não deixávamos de gostar quer da história, quer do avô.
O Vasco Granja terá lugar cativo na minha memória, como o tem na de muitos outros que pensam como eu. E, a confirmar-se que nos arquivos da RTP desapareceram grande parte ou todos os registos das suas intervenções em programas, isto só prova que há plasticinas checas que fazem mais sentido na cabeça de qualquer criança, do que certas decisões alguma vez farão na cabeça de adultos.

Ponto 2 - Caça ao Porco



Já decidi, com a febre com a gripe do porcos, vulgo A aí à solta, safo-me mais disfarçado de suíno do que com a roupinha do dia à dia. Pelo menos, o trabalho com disfarce não é muito e aposto que entre porcos não se fala tanto da javardice e da gripe dos humanos.

Ponto 3 - Start spreading the news



Lá está, se fosse só para dar notícias nem cá punha os caracteres. Como também é para meter nojo, cá estou eu prazenteiro. Então vou só ali dar umas braçadas até encontrar uma senhora com um facho na mão e já volto. Saudínha jovens e que a vossa labuta faça o país andar para a frente, que assim a minha viagem de regresso é mais curta.

Beastie Boys, No Sleep 'till Brooklyn