29.6.09

Nomenclatura para organizações de gente alienada

A par de um duche gelado tomado a rigor, de fato e gravata, antes de sair de casa gosto de me refrescar pela manhã com notícias que me provam que há gente em pior estado mental do que eu.

Sendo assim, foi com alegria que descobri , através deste espantoso relato, que existem organizações com nomes desta craveira - Rede Internacional de Pessoas que Consomem Drogas (INPUD) e o movimento português CASO (Consumidores Associados Sobrevivem Organizados).
Primeiro que tudo, maravilha-me o facto desta malta ter efectivamente a capacidade de se organizar. Já não me parece tão extraordinário a forte possibilidade destes nomes terem sido obtidos sob o efeito das suas matérias primas favoritas.

Rede Internacional das Pessoas que Consomem Drogas parece-me uma organização que se manifesta quando a polícia apreende contentores de drogas, apelando à liberdade dos narcóticos e que organiza exposições das melhoress fotos de apreensões policiais, daquelas todas direitinhas, com pacotes ordenados por volume e tudo. Parece-me ainda que é gente para lançar o cartão DrugPlus, com descontos nos principais postos de abastecimento e a oportunidade de trocar pontos por seringas, cartões de plástico, garrafas de água e, expcionalmente, comida.

Já o movimento português, parece-me um CASO sério. Não sei se é a rima Consumidores Associados / Sobrevivem Organizados, se é o facto de ver que nem os arrumadores se conseguirem organizar, mas parece-me pouco credível. Depois houve a necessidade de transformar a sigla numa palavra, levando-me a pensar que os consumidores de ecstasy e LSD têm preponderância no grupo, o que leva à conclusão que num dia podem estar a lutar contra a discriminação do toxicodependente e no dia seguinte pela defesa dos ninhos de elefantes verdes na Assembleia.

E, sendo este um texto escrito no âmbito da EDIOTA (Escritores Desorganizados mas Interventivos, Opinativos e Totalmente Amorosos), sei bem o que se passa nos movimentos associativos menos considerados. Simplesmente, eu não consumo drogas.

As drogas é que me consomem a mim.

The drugs don’t work, Ben Harper cover

26.6.09

Consternação, horror e outras palavras de bom porte

Vou começar por despachar já o assunto – Michael Jackson morreu. Fui dos primeiros a saber, não através do Twitter, mas porque a Alexandra Solnado me ligou a dizer que Jesus se tinha desbocado.
Nos próximos dias isso significa que o Cristiano Ronaldo só vai poder continuar a galar a sua própria cara ao espelho, que o Jacko vai fazer tanto dinheiro como nos útlimos dez anos e que finalmente vai acabar a novela mórbida e restará aquilo que realmente vale a pena – a sua música.

Mas, o meu verdadeiro horror do dia não teve a ver com a notícia que faz com que Portugal pudesse levar com uma bomba atómica em cima e ainda assim não ser tema de abertura em noticiário que se preze.

Não é que ontem se cruza comigo um indivíduo, para aí com 50 anos, sem ar de andarilho (e acreditem, eu sei o que é ter ar de andarilho) e quando vai a passar por mim diz alto e bom som “BOI”.
Estando eu na proximidade do Campo Pequeno, primeiro pensei que era um alerta para algum bovino desgarrado à solta. Mas, ao virar-me constatei que o único animal à vista era aquele com quem me tinha cruzado.

Pensei então que o Sr se estava a apresentar, mas como não ficou para conversar e isto não era um encontro de “Speed Greeting”, descartei a hipótese.
Restavam duas opções: doido varrido ou estava efectivamente a insultar-me. Não consegui decidir-me, pelo que não fui a correr atrás dele para um ajuste de contas.
No entanto, à cautela, tirei o piercing-argola do nariz, só para tirar isso a limpo numa próxima ocasião.

Jackson 5 – Blame it on the boogie

19.6.09

Parábola do coelho, da hiena e da piada


Tempos houve em que os animais (para além dos políticos) falavam. Possivelmente porque não havia tantas restrições sobre hormonas e medicamentos administradas em animais, mas adiante. O que interessa é que falavam e tinham sempre coisas interessantes para dizer, como era o caso do coelho.

O jovem coelho era uma espécie de ídolo do stand up da altura. Sempre de piada em riste, percorria os palcos, da savana ao círculo polar, divertindo a bicharada como se não houvesse amanhã. Sendo um animal, o seu humor era bestial, mas tinha um toque de requinte que nenhum dos outros animais conseguia acompanhar.

O seu fã número era a hiena. Fã de uma boa gargalhada, seguia o coelho para todo o lado, e não havia devoção maior. Ao fim de vários anos, encontrou o coelho à entrada de uma reserva natural, onde este ia dar uns espectáculos. Aproveitou a ocasião e resolveu meter conversa:

Hiena – Grande coelho pá, tu é que a sabes toda. Admiro imenso o teu trabalho. Epá, só de pensar naquela do urso polar que era bi. Ah, ah, ah!

Coelho – Obrigado, mas olha que isto dá trabalho. Sempre a saltar aí de um lado para o outro.

Hiena – Epá, ah ah ah, sempre a saltar, muito bom, tu estás lá. Diz-me lá, qual é o segredo para ser tão engraçado, curtia saber ah ah ah!

Coelho – Bem, suponho que...

Hiena – Ah ah ah! Epá, sempre a dar-lhe. Tu não perdoas coelho, ah ah ah!

Coelho – Sim, mas...

Hiena – Ah, ah, ah. Pára, pára, que eu não aguento. Ah ah ah!

Já meio irritado, o coelho salta para o trilho, pronto para se fazer à estrada. Virou-se para a hiena e diss:

- Olha, v....

Distraído, não reparou no jipe da reserva e ficou, como se dizia na época, esmigalhado.
A hiena ficou estática por uns segundos. Abriu a boca, fechou, olhou para o que restava do coelho e finalmente conseguiu articular alguma coisa:

- AH AH AH AH AH AH AH – as lágrimas brotavam-lhe dos olhos – LINDAAAAA. GRANDE COELHO, sempre a bombar. SEU GRANDE MALUCO. AH AH AH AH AH!

E depois, foi andando.


Moral da história – As melhores piadas surgem muitas vezes por acidente, mas desprezar até o fã mais idiota pode ser a morte do artista.

18.6.09

Saída do armário a 300 metros


Convenhamos, ser gay e sair do armário já não é o que era. Sim senhor, ainda há casos em que isso causa grande emoção, etc e tal, mas a verdade é que os tempos mudaram e quando se vê “Música no Coração pela 43a vez” aquilo já não é propriamente novidade...

Vislumbre-se um episódio jovem a sair do armário com os pais:

Jovem – Mãe, pai, vim cá jantar hoje para vos dizer algo importante.

Mãe – Ó filho, pensei que viesses por causa do cabrito.

Jovem – Sim, o cabrito é sempre bom, mas eu...

Mãe – É por causa de seres gay?

Jovem – Mas...já sabiam?

Pai – Então, mas tu achas que somos parvos? Olha, passa aí as batatinhas.

Jovem – Eu sei que não é fácil, mas acreditem....

Pai – Não é fácil? Difícil foi a tua mãe preparar o cabrito. Mas olha, se já te decidiste, aproveita e vê lá se convidas o teu primo Hugo para sairem mais à noite.

Jovem – O Hugo é gay????

Mãe – O Hugo e a filha da Arlete, a Carminho. Esteve cá a lanchar com a namorada a semana passada.

Pai – Era simpática a rapariga, despachou-me foi meia garrafa de aguardente.

Jovem – Eu não sabia...

Pai – Pronto, não fiques assim, agora já sabes. E, quando puderes, traz-me daquele creme que tinhas para a cara aqui na casa de banho. É que me faz um jeitaço para depois da barba.

Jovem – É que, nem no emprego sabem...

Mãe – Falando em trabalho, o teu pai diz que abriu um escritório de consultores lá no edifício dele Acho que têm assim um ar bem cuidado e essas coisas. Tu no teu CV dizes que és gay? Olha que podia dar jeito...

Jovem – O que é que isso tem a ver? As pessoas não têm nada a ver com isso. Cada um...

Pai – Mas filho, tu é que vieste falar connosco....

Jovem – Epá, vocês são impossíveis. Eu vou andando...

Mãe – Olha, leva cabrito!


Como se vê, necessitamos de novas saídas do armário para dinamizar a expressão. Talvez pessoas que gostassem de dançar em ranchos ou contabilistas que gostem de declamar poesia lírica. Não se acanhem, eu já assumi o meu amor pelas rendas de bilros.

Little Boots, New in town

16.6.09

Se vai de férias, visite pessoas


É certo e sabido que este blog tem sido maltratado, nomeadamente por mim, mas a verdade é que, tematicamente, isto nunca foi bem tratado. No entanto, achei que era altura de ele crescer e, como tal deixei-o sozinho para ver como se safava. Tal como eu pensava, os blogs são um bocado lerdos, e este ficou assim para o parado.

Volto agora para lhe limpar a baba (não me refiro a si, prezado leitor) e volto com dicas de elevado gabarito. E, acabando por agora a temática de viagens, não o faço com mais fotos de New York City e relatos de fatias de cheesecake do tamanho do Bruno Nogueira.

Nos guias turísticos não vem isto, mas é bom visitar pessoas, quando se vai para fora. Para já, ao contrário dos monumentos, respondem-nos e dão-nos informações, ao passo que os monumentos e coisas parecidas ficam para ali paradinhos a fazer-se à fotografia.

As pessoas são ainda a base de boas histórias de férias. Desde o porteiro que apreciava brincar com a dentadura, ao oriental que tentava “sugar” energia das obras de arte no Metropolitan, passando pelo empregado de recepção que me pediu para lhe traduzir para inglês o que hóspede espanhola gritava ao telefone (e que era “Está um bêbado aos murros e a mijar-me na porta do quarto”) isto são só exemplos das últimas férias. As gajas e os gajos bonzões (ou as crianças, se costumam fazer férias pedófilas), as pessoas irritantes e os personagens, é essa tropa toda que vai diferenciar as vossas férias das dos demais. Porque as fotos e os sítios vão estar lá para todos, salvo catástrofes naturais (incluindo doenças venéreas e pandemias).

Finalmente, só as pessoas nos sítios a que vamos de férias têm curiosidade genuína em saber o que cada um de nós faz ou como é a vida em Portugal. Muitas vezes é só para ver se compensa matarem-nos e roubarem a nossa identidade, mas não deixam de ser uns minutos de conversa interessantes, que nunca temos hipótese de pôr em prática no quotidiano. Aliás, a última vez que tentei pôr isto em prática nos transportes públicos fui posto fora antes de chegarmos às Galinheiras.

Sendo assim, recomendo – lá fora, nem que seja para variar, aproveite as pessoas (não confundir com “aproveite-se das pessoas”).

Thievery Corporation, El Pueblo Unido

1.6.09

Viagens a New York – o que não te dizem nos guias

Então, essas férias? Não é preciso responderem, isto é o que se chama um cumprimento retórico, apesar de ser uma pergunta que tenho ouvido com frequência nos últimos dias. Essa e “Quando é que pagas a guita que me deves?”.

Pormenores à parte, podia vir agora todo ufano falar-vos do requinte que é ir a NY, de tudo o que se pode por lá fazer e não é (muito) ofensivo relatar e ou de como dei uma cabeçada numa gaja do Sexo e a Cidade. Mas, sabendo eu que uma paragem no blog de 3 semanas deve ter deixado este espaço estilo escritório em que foi dada tolerância de ponto, não vou continuar a escrever para mim próprio. Para isso já me bastam os postais de Natal.



No entanto, irei deixando aqui um pequeno guia de curiosidades, caso algum incauto venha cá parar através da pesquisa do Google, por outras palavras que não “Miúdas desinibidas, canalizador, pickles ou moonwalking”.

1º - No avião – Nos vôos de longo curso, os monitores individuais permitem que cada um escolha o filme/série/etc que quer ver. O que é óptimo, mas aumenta o efeito típico dos transportes, em que o vizinho cobiça sempre mais o que estamos a ver do que ele próprio escolheu. Ah e no quadro de visualização do mapa de viagem na altura de partir, para além de Lisboa consta também a Amadora, destino muito popular para o viajante mais exótico.

2º - Comissários/Assistente de bordo – as companhias estrangeiras mimam os passageiros portugueses com humor de cabine, já que entre vôos Lisboa-NY têm sempre um luso-descendente açoreano ou um brasileiro radicado nos EUA ao serviço. Não imaginam a piada que isso confere ao ouvir traduzidas para português umas monótonas indicações de segurança, avisos de turbulência ou respostas pedidos feitos por passageiros armados em espertos, vulgo eu.

3º Entrar nos USA – Para além de parecer que se está na secção de maquilhagem do Corte Inglês, dê cá uma mãozinha, depois a outra, mostre esses olhinhos, sim senhor está aí um turista todo janota, os aeroportos americanos têm a vantagem que parece que estamos logo em Times Square, tal é a montanha de gente de todos os lados. Os japoneses eram os mais fáceis de distinguir, não pelos olhos em bico, mas sim pelas máscaras anti-gripe ex-suína, tipo A apanhe ali o acesso H1N1. O tipo que me admitiu, um tal de Watkin, fê-lo com uma afectuosidade que o meu ar moreno ligeiramente árabe nos dias de Verão deve ter despertado. Sorte que o carimbo foi no passaporte e não no peito, senão lá se iam umas costelas.

Vão-se entretendo a contar prédios, que eu já volto.



Fun Lovin' Criminals - King of New York

10.5.09

Três pontos para o país de Mak

Ora pois, isto tem andado complicado mas dou cá um saltinho, tarde e a más horas, só para dizer de minha justiça.

Ponto 1 - Vasco Granja não morreu.



Para quem, como eu, pertence a uma faixa etária em que os desenhos animados da infância tiveram a presença deste senhor pelo meio, intervalando sempre desenhos que nos eram familiares e simpáticas plasticinas checas ou bonecos experimentalistas da Ossétia do Sudoeste. É certo que muitas vezes podíamos até não perceber a riqueza que nos era passada, mas o certo é que ainda hoje falamos nela com carinho e boa disposição. Era um bocado como se o nosso avô nos contasse umas histórias de adormecer e pelo meio metesse uma falada em russo. Não deixávamos de gostar quer da história, quer do avô.
O Vasco Granja terá lugar cativo na minha memória, como o tem na de muitos outros que pensam como eu. E, a confirmar-se que nos arquivos da RTP desapareceram grande parte ou todos os registos das suas intervenções em programas, isto só prova que há plasticinas checas que fazem mais sentido na cabeça de qualquer criança, do que certas decisões alguma vez farão na cabeça de adultos.

Ponto 2 - Caça ao Porco



Já decidi, com a febre com a gripe do porcos, vulgo A aí à solta, safo-me mais disfarçado de suíno do que com a roupinha do dia à dia. Pelo menos, o trabalho com disfarce não é muito e aposto que entre porcos não se fala tanto da javardice e da gripe dos humanos.

Ponto 3 - Start spreading the news



Lá está, se fosse só para dar notícias nem cá punha os caracteres. Como também é para meter nojo, cá estou eu prazenteiro. Então vou só ali dar umas braçadas até encontrar uma senhora com um facho na mão e já volto. Saudínha jovens e que a vossa labuta faça o país andar para a frente, que assim a minha viagem de regresso é mais curta.

Beastie Boys, No Sleep 'till Brooklyn

30.4.09

Perguntas, idiotas e perguntas idiotas

Dentro das muitas perguntas que rodeiam as capacidades humanas, algumas têm resposta fácil. Infelizmente são aquelas que têm que ver com o nosso virtuosismo de fazer perguntinhas idiotas.

Senão vejamos: no campo amoroso haverá alguém que pergunte “Amas-me?” esperando ouvir outra coisa que não seja um “Sim” (Exclui-se deste exemplo pessoas que fazem esta pergunta com uma peça de cutelaria escondida na mão). Já no campo do trato social, um bom exemplo é a pergunta “Então estás melhor?” feita a gente que encontramos depois de ausência por doença é tão óbvia que para além do “Sim / Um bocadinho” só se admite um “Não, estou a morrer, mas quis contagiar o maior número de pessoas possível antes”.

Encontrar perguntas idiotas ou pré-formatadas é fácil, pois as pessoas (à minha excepção) não são perfeitas e têm inseguranças, falhas comportamentais ou são, pura e simplesmente, assim para o parvo.

Eu perdoo isso às pessoas porque também erro (por exemplo devia ter posto algo mais forte que “parvo” no parágrafo acima). Mas, caso pior é o das as instituições, que deviam ter mais juizinho, mas em vez disso são aquelas que fazem as perguntas mais idiotas e não me estou a referir apenas às portuguesas. Prova disso mesmo é o questionário para autorização de vôo até aos EUA. Qualquer uma das perguntas feitas só tem uma resposta possível, a não ser que a pessoa goste mesmo de preencher questionários online por desporto ou queira acumular pontos para enviar um currículo para a Coreia do Norte.

Se tiverem paciência vão lá ver, mas fica ao meu exemplo favorito:



De facto, a semana passada, entre um jogo de basket e um jantar de amigos passei umas horas a fazer sabotagem e já se sabe que os fins de semana grandes são bons é para um genocídio à maneira. É melhor dizer que “Sim”.
Mas, outro pormenor tem a ver com as perseguições nazis entre 1933 e 1945. Se for a partir de 1946 estamos safos, porque na altura da 2a Guerra Mundial é que aquilo não era só um hobbie. Além disso se, na melhor das hipóteses, alguém tivesse 20 anos e andasse armado em nazi a perseguir malta em 1945, teria agora 84 anos. Dá-me ideia que se não foram apanhados até agora, não se devem descair no questionário. “Então Sr. Muller, 60 anos a fugir às autoridades por ter sido nazi e agora é que diz que sim no questionário? Ai, ai, ai, já não vai a Miami nem come puré de maçã ao jantar. Seu maroteco, vá lá brincar com Sr.Alzheimer”.

Depois sou eu que sou parvinho...

28.4.09

A vida sexual dos pombos



É certo e sabido que os pombos cagam de alto para a vida das pessoas. Já o fazem há muito tempo e não é exagero dizer que isso faz parte da sua natureza. E não mudam por ninguém, nem sequer pelos idosos que fazem de milho e pão seco bonitos tapetes-refeição ou pelas estátuas que ajudaram a redecorar ao longo dos tempos.

No entanto, já eu não consigo fazer o mesmo em relação aos pombos. Não só porque as leis da física me impedem de tentar proeza semelhante sem a coisa correr mal, como pelo facto que me preocupam certos aspectos na vida deles. Por exemplo, se eu não recomendaria a amigos meus que comessem beatas, também me faz confusão que os pombos as comam à bruta. Ainda por cima estas nem sequer são religiosas.
Mas, acima de tudo, uma vez que há quase tantos pombos em Lisboa como há romenos a pedir nas ruas, há um factor que me intriga sobremaneira – onde raio andam os pombos bebés ou onde raio é que os pombos fazem os ninhos?

Não me lembro de ter visto um pombo júnior, mas eles multiplicam-se em grande. E não me dá ideia que sejam precisas clínicas de fertilidade. Aliás, deve bastar um resto de pastilha e uma poça de água suja para um jantar romântico entre pombos. Depois, bem depois é a história da pomba e da paz, paz, paz.

O certo é que podem ser sujos, estúpidos, odiáveis, transportar doenças, ter pouco critério a escolher locais de refeição e uma forma estranha de deixar a sua marca na vida das pessoas (e na roupa). No entanto, levam a história da vida privada muito a sério e, pelos vistos, protegem bem os filhos. Coisa que muita gente às vezes parece não saber fazer.

27.4.09

O tempo musical


Começo por desiludir-vos aos três se pensam que isto vai ser uma rica composição sobre música. Caso a imagem ainda não vos tenha elucidado, é sobre o binómio decadência-aparência e a sua aplicação ao mundo do rock que estas linhas vão incidir.

O mundo do rock tem uma mística que funciona da seguinte maneira – as músicas vivem para sempre, os músicos/bandas vivem a pensar que o mesmo é válido para eles. E, se é verdade que nalguns casos isso vem mesmo a acontecer, os ditos rockers já não estão cá para comprová-lo, já que é preciso que estejam mortos, para que se possa dizer que vivem para sempre. Parece estranho, mas com a dose certa de álcool e medicamentos tudo acaba por fazer sentido.

No entanto, eles tentam e os fãs agradecem, pois claro. As artroses aparecem, as vozes às vezes desaparecem e não há maneira de serem encontradas e o ar rebelde ou sexy dá lugar a um ar que prova que o mundo do rock é tipo máquina de lavar a roupa, mas sem usar amaciador.
Os concertos, consoante o sucesso da banda, não param 10, 20, 30, 40 anos depois da formação da banda e se alguém decide morrer um bocado mais cedo do que é previsto, ainda se tenta de novo trocando esse membro por outro, preferencialmente vivo.

A questão é sempre: será que vale a pena? Será que ver, usando o exemplo visual, um concerto dos AC/DC hoje é o mesmo que os ver há 25 anos? Acho que depende das pessoas, eu por exemplo gosto de manter uma imagem da memória de uma banda no seu auge e não a caminho da reforma activa. É certo que há bandas que envelhecem bem, mas são mais raras do que aquelas que congelam no seu auge e depois vão replicando sempre aquele período, mas cada vez mais em declínio.
É que, ao contrário da música clássica, em que as grandes obras podem ser sempre interpretadas pelos melhores executantes do seu tempo (um chamado cover em rock), a mística torna cada banda rock de sucesso em algo único. E isso, só o bom senso ou tempo podem decidir quando é altura de parar e, quem sabe, viver para sempre.

We have band, Oh!

24.4.09

E assim se vai uma semana

Como devem ter reparado, a vossa vida esta semana foi um pouco mais cinzenta e faltou algum daquele brilho que vos torna tão queridos entre as duas pessoas que vos suportam.
Garanto-vos que não fiz de propósito, já que se passou comigo o mesmo que com esta rapaziada, mas de forma metafórico-profissional.

Não envolveu bolas vermelhas na boca e animação condizente, mas o efeito foi semelhante. Com a agravante que para a semana podem fazer o mesmo se lhes apetecer. Quando me disseram que tinha um trabalho liberal, esqueceram-se de mencionar estas alíneas.

Sendo assim, saudínha e bom fim de semana da revolução. Prometo que para a semana não prometo nada.

17.4.09

Mak & Duca 3 - Vegetando

Há pessoas que não vacilam e mantêm um caminho definido e constante na sua vida, nunca cedendo a pressões ou a tangas. Depois existem outras que, embora boas pessoas, ainda vão em cantigas e deixam que pessoas como eu as convençam que afinal as coisas não são assim tão más.

Graças a isso, esta alminha voltou a colaborar em mais uma tira Mak & Duca. Só me falta então caminhar sobre a água.

16.4.09

Tecnologia até rima com velharia


Não se pense que vou dedicar estas linhas a fazer poemas. Já usei a quota de sensibilidade deste mês quando esperei que o sinal estivesse verde na passadeira para só então passar uma rasteira ao ceguinho.

O meu propósito tem a ver com o facto de muita gente associar os idosos a tecno-excluídos. Ora isso é uma bela mentira e conheços muitos velhotes que provam isso alto e bom som. Pena é que esse alto e bom som se refira essencialmente ao toque do seu telemóvel. Pode parecer estranho, mas quem anda de transportes sabe do que estou a falar, pois onde há um idoso com telemóvel há um toque capaz de fazer do Clube Jamba parecer um grupo de meninos de coro.

Começa logo pelo facto do idoso ter, por norma, um telemóvel “só para fazer chamadas” (que demodé). Esse é um tipo de telemóvel que não tem toques modernos, reais, polifónicos, metropolitanó-sinfónicos, etc. Tem apenas toques, que se dividem entre maus ou que não se ouvem, segundo os próprios.

Como um telemóvel serve para se ouvir alto (ou para gritar, quando faz a chamada), o idoso escolhe o pior toque possível, o mais alto possível, porque na mala ou no bolso “depois não se ouve com a confusão”. Mas, fartos de serem acusados de não acompanharem a tecnologia, os idosos não se contentam em atender o telemóvel à primeira.ou vá lá à segunda. Há que martirizar o resto da vizinhaça com com a versão ferrinhos de Beethoven, pôr os óculos, tirar o dito cujo da bolsinha feita pela neta e olhar para o visor e dizer “Oh, também desligam logo” (2 minutos depois).

Com sorte, o ritual repete-se e depois de finalmente se decidir a atender o telemóvel temos a sorte de saber que hoje o almoço é dobrada e o Dr.Francisco não atende às 5as.

Eu ia dizer que uso headphones para evitar danos mais graves nessas situações, mas já não preciso, desde que os fabricantes de telemóveis meteram nas mãos das crianças os telemóveis com colunas.

13.4.09

Filmes no Metro


Há quem defenda que o cinema é sobrevalorizado. Paga-se pelo bilhete, não se escolhe a companhia (para além de um possível par, é claro) e siga para bingo, esperando ter acertado no filme e no par. Daí eu ser forçado a compreender a venda de pipocas no Metro, por mais idiota que isto possa parecer.

Senão vejamos: o Metro é frequentado por milhares de utentes ao fim da tarde e também por algumas pessoas. Boa parte vem da sua rotina do trabalho a caminho da sua rotina familiar/pessoal e procura algum tipo de animação no intervalo. Podem até ponderar ver um DVD/TV em casa ou até ir ao cinema, mas a viagem que vão fazer pode conter ingredientes suficientes para superar pelo menos boa parte da programação nacional.

A fome também costuma vir com eles e o cheiro de pipocas funciona logo como um despertador/iman (existissem roulottes no Metro e a conversa era outra). Os olhos arregalam-se e a expectativa do cinema está lá toda, com o acréscimo do factor surpresa, já que pelo preço do passe mensal ou de uma viagem a 80 cêntimos+ pipocas nunca sabemos bem no que nos estamos a meter.

Será o drama do idoso que queria sair em Picoas e, ao ver-se no Sr. Roubado, diz que no tempo de Salazar não era assim? Será o musical com dois romenos e um ceguinho talentoso que conhecem um jovem que não ouve a surdez a aproximar-se por ter o leitor de MP3 com o som no máximo? Ou então uma comédia romântica em que um casal apaixonado tenta beijar-se mas não consegue por causa do emaranhado de piercings e é ajudado por uma testemunha de Jeová farta de conversar com o frango assado que leva para o jantar.

Como vêem, não faltam boas opções de curtas no metro, pelo menos foi isso que me tentou vender a senhora ucraniana da barraquinha das pipocas. Isso e a filha.

7.4.09

Tens um Fernando Pereira dentro de ti?

Pode parecer idiota....não não parece, é mesmo idiota, mas já repararam que grande parte das pessoas, quando imita a voz de alguém num diálogo ou a recriar uma situação, faz uma imitação de voz tipo desenho animado ou personagem de filme de comédia.

Talvez seja pelo facto de gostarmos de distinguir a nossa voz da imitação que fazemos, mas rapidamente o senhor da portaria se transforma num misto de Mickey Mouse e Maximiana ou a namorada do primo Carlos que ligou ontem a pedir desculpa mais parece um cruzamento entre o Bob Marley e o Darth Vader.

A coisa complica ou galopa para a demência, quando se imitam duas vozes diferentes na mesma conversação. Aí a coisa tende a transformar-se numa mistura explosiva entre um disco lido em rotações diferentes e alguém que andou a mamar balões de hélio ou, pura e simplesmente, não se nota a diferença.

Seja como for, não conheço estudos que comprovem esta minha teoria, nem mesmo da minha alma mater, a Universidade de Badmington. Resta-me continuar a contar esta cena da vida real, tal como ela me foi contada por um amigo, numa voz que parecia a Montserrat Caballet misturada com o Bonga.

Green Jelly, Three Little Pigs

5.4.09

O brinquedo da Playboy


Antes de mais, não a comprei pelos artigos. A mais velha desculpa do mundo para se comprar revistas com miúdas descascadas não foi precisa e, se a tivesse utilizado, iria sentir-me mal por tamanha falta de originalidade. Mas, explicando adiante o porquê, o facto é que sou dono do exemplar nº1 da Playboy.

A compra teve razões simples – que um dia, quando tiver um filho, ele tenha um item de colecção pronto a desbaratar mal possa e, acima de tudo, saber como uma revista icónica a nível mundial seria adaptada ao mercado português, numa época em que a Internet arrasou com tudo o que vendia conteúdos eróticos/pornográficos noutros formatos. Então e pelas gajas não? Pelas gajas sim, mas essencialmente numa perspectiva de curiosidade pseudo científica. Porque se, chegado a esta idade, o meu ponto alto no relacionamento com o sexo oposto viesse em formato revista nós não estávamos a “ter esta conversa”, porque muito possivelmente eu estaria a visitar o marotas.pt

Mas, voltemos à Playboy PT, número uno. Na capa, a foto desilude, não pela interveniente, mas pela escolha. Aquela, em preto e branco e dourados, ali resultou num pastelão e existiam melhores. Em termos editoriais, apostou-se nalguns cronistas actuais e aí não há grande truque. Por exemplo, pega-se num bom humorista, numa girl power atrevida e num autor de nova vaga e a receita resulta para o fim previsto. Quanto aos fait divers, um ou outro apontamento interessante, mas nada que não se encontre em publicações semelhantes já no mercado. Entrevista a um gajo da bola (6 páginas!!), piadas, correio, rúbricas e cartoons com cheirinho a picante e já lá vão mais uma catrafada de páginas. Nota extra, a paginação foi grosseira nalguns pontos, com má distribuição, páginas de texto sem imagem seguidas, etc. Não fui eu que disse, foi uma mulher com experiência no ramo (de páginação, gente lasciva).

Então e as gajas? Calma, já lá vamos. Entre destinos de férias, uma reportagem mais séria sobre África, mais especificamente Guiné Bissau. Destoa do resto, mas faz sentido, para que não seja mais do mesmo. Ah, então e nos conteúdos Playboy capricharam? Aquilo que pensei, para além das gajas, que ia ser um ponto forte, a ligação ao tio Hugo das coelhinhas, ficou aquém das minhas expectativas. Uma retrospectiva ao longo dos anos que mais reduzida teria possivelmente ganho em qualidade, uma foto Carmen Electra que se orientaria melhor na net à vontade e uma chamada de atenção a Marilyn Monroe que não passa disso mesmo. Honra seja feita às citações de figuras entrevistadas ao longo do ano pela Playboy.

Tanta conversa e, finalmente, AS GAJAS SÃO AGORA? Sim, são. A escolha não foi desonrosa, apesar de haver silicone party em destaque. Gostos não se discutem, a cotação da borracha parece que está em alta. Tanto figura central como playmate são moças com os seus atributos e achei muito engraçado o grupo das amigas do horseball. Cavalos e gajas são daquelas coisas que servem para excitar tanto um público urbano como outro mais rural.
Seja na Sra. Penedo ou na Dona Mónica, o problema é mais a fotografia. Há uma ou outra interessantes, mas dá-me ideia que bons fotográfos de nus, numa perspectiva que interesse a uma revista do género não são fáceis de encontrar. Falta glamour nalguns casos, faltam sítios requintados ou talvez tenha faltado imaginação. O fácil está lá todo e é claro que, para uma boa parte da audiência ver tranca, pandeireta e prateleira (como dizia o outro) já é requinte. Mas, parece-me a mim que não é bem nesse campo que a fotografia da Playboy se destacou.
(Olha o parvalhão, GAJAS DAQUELAS e ele a desdenhar)

A questão é, como será evolução? Acredito que ela possa existir, caso contrário a emoção do lançamento desaparecerá e começará a vir a questão – Playboy ou Playboring? Os senhores nos dirão.

Sex Type Thing, Stone Temple Pilots

3.4.09

Aula e pára o baile


Há pessoas que nascem com o dom da pedagogia, outras apenas com pés chatos. A verdade é que nunca vi para o meu futuro uma carreira num corpo docente e tomara eu que o meu futuro inclua um corpo decente. Por isso, segui o meu caminho e deixei essa história de dar aulas para quem tem vocação ou, como muitas vezes acontece, para quem não tinha outra saída possivel.

Mas, recentemente, fui convidado a dar uma aula. Eu, que normalmente só sou convidado a baixar o tom de voz e a sair ordeiramente. Era uma coisa extra-curricular, ir a uma universidade e falar à malta sobre aquilo que faço. Perguntei se a turma estava de castigo. Não perceberam a piada.

A questão é que, de repente pensei, “Poderá haver gente interessada no que eu tenho a dizer?”. O blog não é um bom indicador, porque não sou parvo em fulltime (ou quase). Para descobrir, só tive um remédio, ir dar a referida aula.

Surpreendi-me, correu bem e ao que parece-me sou uma pessoa extremamente interessante ou muito habilidosa a projectar isso mesmo. E os alunos foram cinco estrelas, quase nem se notou que estavam algemados.

1.4.09

Umas verdades sobre o dia das mentiras

Aproveitando que já está no fim um dia de regabofe e patranhas, queria aproveitar aquilo que aprendi nas aulas de Arraiolos e tecer algumas considerações sobre o sempre tão querido Dia 1 de Abril - Dia das Mentiras.

Eu sou daqueles que acha que nunca é demais que se publicite o Dia das Mentiras. É que me parece que nunca ninguém tem bem a certeza de quando é e, à cautela, vão mentindo o ano inteiro com medo de falhar a verdadeira data. Até porque a história do Natal ser quando o Homem quiser é que é uma bela tanga, pois para esse efeito já existe o Dia das Mentiras. E olhem que o Homem (e a Mulher) querem muitas vezes.

A questão é muito simples, a ciência evoluiu para o conhecimento do ADN de fio a pavio, a clonagem faz com que um tipo já nem possa ter segurança sobre a origem dos carneiros que conta para adormecer, mas a razão pela qual as pessoas mentem (razão científica, não de vantagem do momento) permanece desconhecida. Pelo que sei, a nossa espécie é única na matéria, pois existem animais que fingem, mas em reacções primárias e não em comportamento elaborado como o nosso. Do género, uma leoa a perseguir presas não pergunta a um elefante para que lado é que foram as gazelas. Até porque bastava ele responder "Epá, não tenho bem a certeza" para a leoa o apanhar a mentir, pois toda a gente sabe que os elefantes têm boa memória.

Mas pronto, em média todos nós mentimos e, até ver, nisso não há volta a dar. Aliás, mostrem-me uma pessoa que diz que não mente e eu vejo logo probabilidades de ela mentir, nem que seja a si própria. Uma vez que a relação entre mentiras e pessoas é um facto assente, ao menos que sejamos bons nisso. É que há aí gente que mente mal e em grandes doses e isso não é honra para a classe dos bons mentirosos.

Sim, porque concluindo, é tudo muito bonito e temos um dia e tudo. em que do cidadão aos meios de comunicação, todos fazem gáudio em dizer uma mentirinha, mas se houvesse um dia em que só fosse possível dizer a verdade tenho a impressão que ia ser mais complicado.

E olhem que me custa viver num mundo assim.
Mentira, não custa nada, mas também tenho direito a dar-vos umas tangas (que não de couro) não é verdade?

31.3.09

Chegado a bom Porto

Aproveitei o fim de semana do apagão para apagar do mapa um ponto de ignorância da minha parte. Vai daí, fui ao Porto, cidade aonde só tinha passado a caminho de outro sítio qualquer, o que não abona muito a meu favor, mas o facto é que o Porto também podia ter insistido para eu ficar mais um bocadinho.

Para começar, decidi que ia ficar bem impressionado com a cidade. Por isso, à cautela, orientei bilhetes para ir ver a selecção, pois ver um jogo da turma do Queiroz faz tudo o resto parecer melhor. Um nativo avisou-me também, com a devida antecedência, para ter cuidado com um tal de Andante, tipo esquisito que opera no Metro e que às vezes troca as voltas a quem só queria dar um giro. Falando em Metro, posso dizer que não se nota nada que está em falência técnica. Tem bom aspecto, tem estações com nomes engraçados para a malta se ir entretendo a ler na viagem e a senhora que diz o nome das estações, para variar, até sabe falar bem inglês.

Saído na Trindade, não evitei a emoção de ter uma banda à espera em frente à câmara municipal. Depois, ao percorrer a Avenida dos Aliados foi fácil reparar que a decoração ocasional de adeptos do FC Porto retira algum do esplendor à dita cuja. Um pormenor interessante, se não vão com alguém da zona, não perguntem na rua qual o melhor sítio para comer uma francesinha. 30 pessoas diferentes, indicam 30 lugares diferentes, com uma coisa em comum – todos são o berço da verdadeira francesinha. Por isso ou levam já uma indicação específica ou arrisquem. Foi o que eu fiz e tive sorte – Buffet Fase ao cimo da Rua de St. Catarina, um espaço com 2 m2, mas com umas francesinhas de categoria, com prémios ganhos e tudo.
Uma nota em relação à rua de St. Catarina, a concentração de dreads por metro quadrado era potente, numa espécie de Bairro Alto concentrado, mas com sotaque nortenho.

Mais umas voltinhas, com aquilo cheio de suecos (poucas suecas convenha-se), ninguém deu por isso que eu era um mouro infiltrado. O facto de eu insistir que era filho do Pinto da Costa também deve ter ajudado. Romaria então para o Dragão, com inspectores do Metro a mostrarem que aquilo do Andante não é mesmo apenas o pior nome para um título de transporte público.

Depois, o que se passou no estádio já é de domínio público e nem vale a pena bater no ceguinho. Foi merecidamente a parte mais fraca da visita. E ainda bem, porque assim fiquei com vontade de voltar a agraciar essa cidade com a minha presença. Não precisam de agradecer, eu sou mesmo assim.

27.3.09

Boleiofóbicos

Caso não tenham reparado, seja qual for o meio que utilizam para se deslocarem para o trabalho, escola, casa de strip ou acampamento de escuteiros, há um fenómeno muito comum à vossa volta – Na maior parte dos carros que circulam, lá dentro vai apenas o condutor.
Este facto leva-me a falar da ideia do car-pooling, que já não é nova. É praticada noutros países há muito tempo e por diversas razões, tendo-a até já referido aqui. Sinto-me à vontade para falar sobre o assunto porque sou daquelas pessoas estranhas que utiliza regularmente os transportes públicos e costuma andar a pé, apesar de ter carta de condução e carro estacionado à porta de casa.

O tema volta agora à baila, porque uma empresa de combustível veio lançar uma campanha sobre isso (gosto do anúncio, conheço quem o criou, mas não vou comentar as intenções da malta do pitroile) e descobri até que há um outro site tuga onde se organiza o carpool. Mas, com muita pena minha, vejo pouca esperança que a coisa pegue/resulte.



Como é dito no terminar de muitas relações, “o problema não és tu, sou eu” ou, neste caso, “o problema não são os carros, são as pessoas”. A ideia de levar duas ou três pessoas (desconhecidas ou não) no carro, ainda que em rotatividade, com claras vantagens económicas e ambientais causa ainda horror a muita gente.

Porquê? Na verdade não sei, porque não conheço a sensação de ir todos os dias de manhã sozinho no carro. Se der a mesma sensação que dava ao Fernando Gomes do FC Porto ao marcar um golo, então percebo perfeitamente e até a familiares e amigos trancava a porta do carro.
No entanto, acho que é um misto de egoísmo/medo/deixa andar. Porque não temos de aturar ninguém, porque assim não me entram tarados no carro, porque assim é mais fácil continuar a queixar-me do trânsito e do preço da gasolina. Toda a mudança de hábito exige um esforço e quando o benefício não é imediato (mesmo que se avancem 30 boas razões para o fazer) é difícil convencer o bom português.

Assim, quando depois surgem leis e imposições como taxas elevadas para entrar com um carro na cidade ou restrições semanais ao número de veículos que entram (por exemplo: num dia só entram matrículas com terminação ímpar, no outro par e assim sucessivamente), as pessoas insurgem-se. Porque é um abuso, porque os transportes públicos não funcionam, porque somos sempre nós a pagar. O que não é totalmente mentira, mas também acontece às vezes porque olhamos vezes demais só para nós e poucas à nossa volta, para perceber o que melhorar.

Um carro é ainda, por estas bandas, um objecto demasiado associado ao status, ao poder pessoal. Partilhar status neste capítulo é contraditório. Mas insistir em continuar a dar tiros no pé, também o é.
Resta saber se algum dia aprendemos a ver a diferença.