3.10.08

Entrada livre para senhoras, cavalheiros e indecisos



Apesar de não vos cobrar nada à entrada, fiquem sabendo que a clientela deste blog é sujeita a um rigoroso exame. Ainda ontem, em conversa com um amigo imaginário, depois de debatermos se seria mais interessante correr todo nu pelo Jardim do Campo Grande ou electrificar os teclados da malta no trabalho, abordámos a seguinte questão:

Porque será que, tendencialmente, boa parte (para não dizer a maioria) dos visitantes deste blog é mulher ou é oriunda de blogs assim mais para o feminino?

O meu amigo imaginário, claramente machista e portador de um bigode, veio logo com teorias que punham em causa a minha masculinidade, aconselhando-me a aumentar o número de receitas de cozinha e a falar abertamente sobre os meus sentimentos, para gerar mais clientela entre a mulherada.
Enquanto fazia arranjos florais, neguei tudo isso e tentei explicar-lhe a minha teoria sobre o assunto. Felizmente, ele tinha uma festa de aniversário de outro amigo imaginário comum, e fiquei de explicar isso noutra altura, o que me dá mais tempo para lhe mentir com propriedade, já que não tenho teoria nenhuma.

Aí começa a vossa parte, já que da parvoíce em posts trato eu. Sejam anónimos (alcoólicos ou não), sejam o que quiserem. O que eu gostava de saber é – O que vos leva a perder 20 segundos do vosso tempo inútil para vir até cá? Especialmente vocês, caras senhoras, que segundo o meu amigo imaginário deveriam estar a remendar meias e a confeccionar refeições ou, se estão na net, a procurar sites com dicas para melhorar os vossos talentos nesta área.


PS – Garanto resposta personalizada, tanto em comments como em mails, mas não resolvo os vossos problemas em 48horas

War, Why cant we be friends

2.10.08

10 Minutos de 27

Depois de algum tempo em que o meu périplo pelo bus 27 se viu algo reduzido, eis que hoje regressei ao alegre convívio nos transportes públicos. E, como sempre, bastam 10 minutos para aprender coisas que duram uma eternidade.

- Apesar do advento dos gratuitos, a chamada leitura por detrás da orelha ou do ombro continua a ser um must. Sejam livros, jornais ou talões de compras, o voyeurismo tem sempre lugar (obrigadinho Teresa Guilherme).

- Se os telemóveis causam cancro/tumores ainda não está confirmado. Que causam irritação em quem tem que gramar toda uma panóplia de toques merdofonicamente reais e idosos que usam o telemóvel como megafone, disso já não há dúvida.

- O ipod/mp3 já faz parte do ritual matinal da maioria dos utentes de transportes públicos. Incluindo os que não usam, visto que entre gente que conseguia ficar surdo em menos de cinco anos e aqueles que fazem do karaoke e do lipsynching um hobbie é impossível não entrar no ritmo.

- Em tempo outonal mas de calor, o número de gajos que usa óculos de sol por causa do mesmo é inferior ao número de gajos que usa óculos de sol por causa de decotes.

- Os idosos vêem melhor dentro dos autocarros. Isso prova-se pelo facto de descobrir um lugar do outro lado do bus, mesmo que ele esteja cheio e também pelo facto de conseguirem descortinar um símbolo para a 3a idade nos lugares reservados, enquanto tipos como eu só conseguem descortinar grávidas, deficientes e acompanhantes de crianças de colo.

- É raro ver alguém sorrir de manhã. Dado a elevada percentagem de má higiene oral, é um favor que me fazem.


Haveria muito mais para dizer mas, infelizmente, só pus moeda para 10 minutos.

Steely Dan, Peg

30.9.08

Música e actividades amorosas em viaturas

Em dados serões profissionais, não raras vezes me vejo a procurar música de cariz duvidoso para me ajudar na árdua labuta. Ontem, dei por mim viajando por entre os acordes românticos de Amadeu Mota, artista luso que já me tinha supreendido pelo seu hino quase pedófilo “Ela tem apenas 15 anos de idade”.
Desta feita, foi o seu “Amor no Carro” que me levou a reflectir um pouco sobre o sofrimento que ele nos transmite e que, sem dúvida alguma, nos deixa presos numa malha de agonia musical e sentimental.

Mas, oiça-se o tema e comente-se depois.



Então, vejamos o início: um órgão com um ligeiro mood litúrgico mostra-nos que estamos perante um tema respeitoso, mas a guitarrada seguinte diz-nos que lá por haver respeito não deixa de também constar rebeldia neste tema. O tom psicadélico do Casio de feirante que entra em cena serve apenas para provar que estamos perante alguém que toma medicação.

Amadeu começa por nos referir que passou a semana sozinho obcecado por alguém, que esta noite anseia por encontrar. Nota vinte pela motivação e pela garra que certamente terá no encontro, mas também a clara indicação que podemos estar a lidar com um stalker ou, pior ainda, um desempregado com muito pouco que fazer.

Movido pela saudade, Amadeu mostra alguma incongruência gramatical ao referir “Preciso te ver, não me digas que não”. Isto, para além de alguma falta de atenção na tradução do cancioneiro mostra que, quando contrariado, Amadeu pode tornar-se ameaçador, passando de algum distanciamento às exigências no tratamento por tu.

“Paro o meu carro em frente ao teu portão. Ajeito meu cabelo no retro-visor”. Amadeu não se sente à vontade para entrar na casa da sua amada. Pontos negativos para ele. Isto significa que ou tem panca com automóveis ou os pais dela não aprovam o seu penteado, coisa que tenta disfarçar com uma penteadela de última hora, enquanto que reflecte sobre a necessidade de quebrar a palavra retrovisor para não estragar a rima.

A rima seguinte é um claro indício de que Amadeu não tem telemóvel, já que ainda recorre à buzina para chamar a sua miúda. Pontos contra na modernidade, que podem ser rebatidos se tiver uma buzina com um toque rítmico peculiar. A insistência em ver a sua moçoila para lhe entregar o seu coração poderá indicar que estamos perante um dador de órgãos. O outro órgão, o psicadélico, continua a indicar que a medicação está em falta.
Começa o ritual amoroso. Vencendo o enjôo do perfume excessivo da sua amada, Amadeu tem tempo para fazer considerações sobre a Lua antes de mostrar mais uma faceta perturbante ao referir o efeito da Lua “iluminando nós TRÊS”. O nosso artista tem de facto um grande apreço pela sua viatura ou então, esqueceu-se de deixar um amigo em casa antes de ir ter com a miúda. A opção regabofe a três parece não encaixar com o carácter respeitoso da música.

Já não é segredo quando Amadeu nos revela o que se passa no seu veículo “Amor no carro” grita ele a plenos pulmões, acrescentando “Carinho que não é pecado”. Aí, a doutrina divide-se, já que o facto deste jovem estar envolvido em grande Tetris humano dentro do seu carro, mesmo em frente aos portões de casa da moça não parece ser daqueles actos com a chancela de aprovação do Vaticano.Isto para não mencionar que Amadeu nunca nos fala em casamento, nem há indícios que não tenha andado a dar duas buzinadelas pela rua inteira.

No entanto, o verso seguinte tira algum brilhantismo à fogosidade que acreditamos estar a testar as suspensões da viatura. No meio do pagode, Amadeu indica que alguém se diverte a escrever o nome da moça no vidro embaciado. Se for ela, é mau sinal para o jovem garboso, já que pode denotar alguma falta de engenho nas artes do amor da parte deste. Já se for Amadeu o escritor de janelas, isto pode aludir a um estratagema para se certificar que não se engana no nome da moça...

O solo de guitarra a seguir leva-nos para ambientes idílicos, talvez para nos distrair da javardice que se deve seguir ao referido “Amor no carro”. Mas, para quem tenha dúvidas sobre o que se tenha passado, Amadeu faz um reprise na segunda parte da música, começando logo na parte do portão, focando-se assim no essencial.

A verdade é que, depois de ouvir Amadeu Mota, invade-nos uma sensação de tranquilidade. É bom saber que há por aí gente com estofo para amar em qualquer lugar. Mesmo que seja estofo manchado por música duvidosa e não só...

29.9.08

Forever a Newman



Há gente que só é boa depois de morta, outros garantem esse estatuto ainda em vida, não por se esforçarem por isso, mas sim por efectivamente o serem. Paul Newman faleceu aos 83 anos, mas o seu lugar na história há muito que já tinha sido estabelecido. Combinando distinção no ecrã, com um pensamento próprio e uma actividade extensa como filantropo, Newman nunca se esforçou por ser um queridinho em Hollywood, preocupando-se muito mais com aquilo que realmente importa - a vida real.

Como é óbvio, houve altos e baixos no seu percurso, quer como actor quer como homem mas, olhando para trás, para além de performances notáveis desde os tempos de The Hustler / O jogador (1961) e outros, um casamento de 50 anos que termina apenas com a sua morte ou uma empresa na área alimentar que desde há anos distribui os seus lucros pelos mais necessitados, falamos de alguém que soube marcar uma posição na vida, incluindo na sua fase derradeira.

E, quando vejo a sua família optar por um funeral privado, longe do mediatismo e transmitir a mensagem de "Se querem demonstrar o vosso afecto por Paul Newman, façam hoje algo por alguém que realmente necessita", creio que ele deixou tudo realmente bem encaminhado.

É que, afinal de contas, nem tudo se guia apenas pela cor do dinheiro.

26.9.08

Cover, my ass


Assiste-se actualmente a uma febre no mundo da música, dita mais trendy. Primeiro surgiu um e foi engraçado. Mais dois ou três e olha, por acaso até tem piada. De repente, já eram 50 mil e não páram de crescer. Refiro-me, é claro, aos covers. O que antigamente era território de bandas jovens e, acrescente-se, claramente pouco confiantes no seu futuro no ramo musical ou, ocasionalmente, de tributo entre grandes artistas, tornou-se um regabofe pós-moderno.

Por norma apanágio de gente com bons dotes técnicos, mas com fraca criatividade de composição, o cover é neste momento o sushi da música ou seja, mesmo que não gostes, tens vergonha de o admitir em certos círculos, porque não é fashion. E isto chega-vos pelas mãos de alguém que até aprecia um bom cover.

Como é óbvio não se trata aqui de marionetes tipo Milli Vanilli ou paródias de Weird Al Yankovic. São moças modernas que tentam reinventar 50 êxitos desde Def Leppard a Screamin Jay Hawkins em versão bossa nova ou com um beat muito lounge. São cromos bem parecidos com pinta de crooner ou artistas old school que se aperceberam do filão que há a explorar nos covers.

A verdade é esta, um bom cover reinventado é interessante, é novo e dá uma frescura musical a temas que já conhecemos há muito. Uma avalanche non stop não é, pelo simples facto de ser uma procura constante da mesma solução pelo mesmo tipo de artistas que, sendo um pequeno nicho têm algum valor, sendo uma grande classe não entretêm porra nenhuma, servindo apenas para reinventar a expressão “Aonde é que eu já ouvi esta trampa?”.

Venham de lá os defensores das Nouvelle Vague, do Paul Anka ou do Richard Cheese, apesar de a minha irritação não ser com nenhuma banda em particular. É um pouco como o Paulo Coelho escrever 20 livros iguais ou todos os bancos portugueses andarem a arranjar musiquinhas do cancioneiro nacional para vender mais corda para a malta se enforcar...

Bom fim de semana, que eu agora vou ali espancar alguém para dar o convite que me deve para a festa da Eristoff hoje.

Carlos Paião, Playback

25.9.08

Investimento sexy




Não consigo deixar de ler estas declarações do Ministro das Finanças, Teixeira dos Santos, e pensar em varinas desinibidas com arrojados vestidos transparentes...


Também só se for assim é que os nossos mercados animam...





Depois desta imagem, vou ali enfiar o meu cotovelo nas amígdalas e já volto

24.9.08

Eu sou adepto do Buffett

Esta frase, que poderia ser proferida por qualquer parasita social que faça parte do chamado jetset nacional, tem aqui outro contexto. Não se trata portanto de croquetes, empadas, shots de sopa (para quando um bar da especialidade em Santos?) ou qualquer outro nenúfar de alface mascarado de alimento distribuído em ambiente de festa.
Refiro-me a um senhor chamado Warren Buffett que, entre muitas outras coisas, se diverte a ser bilionário. Ora, até aqui nada de novo, artistas com olho para o negócio que se divertem a atafulhar dinheiro lá para os Estados Unidos é coisa tradicional desde o Rockefeller ao JP Getty. Nem vou questionar o tipo de negócios a que o senhor se dedica ou se afogou cem mil criancinhas vietnamitas num ritual para atrair fortuna.

O que em mim me fascina, há já algum tempo, no Sôr Buffett é que um dia olhou para a sua fortuna, avaliada em cerca de 60 biliões e, antes que dissessem que estava gagá ou que casasse com alguma mamalhuda de poucos escrúpulos, disse “Epá, esta merda é dinheiro a mais” e resolveu fazer alguma coisa acerca disso.

De facto, no que a riqueza diz respeito (e talvez em muitos outros campos da natureza humana) é difícil encontrar quem saiba reconhecer os seus limites. O tio Buffett, talvez um iluminado ou apenas um anormal com um laivo de inspiração resolveu doar 83% da sua fortuna a uma fundação para que a coisa fosse canalizada para melhores caminhos.

Tudo bem, a fundação era do Bill Gates, rapaz que também já deve ter as suas contas pagas para as próximas 38774 encarnações, mas isso é secundário. É saber reconhecer que é humanamente impossível gastar esse dinheiro todo e não deixar a questão para depois de morto. É garantir que a família fica com alguma coisa (17% de 60 biliões ainda são uns trocos) suficiente para nunca mais se preocupar, mas prevenindo o desbaratamento de algo conseguido por trabalho e mérito e não por simples herança.

Por mim, acho isso deveras inteligente. Anormais filhos de ricos é coisa que não falta neste planeta. Gajos como o Buffett escasseiam muito mais. E garanto-vos, anseio pela oportunidade de fazer o mesmo e, de momento, embora não o possa fazer com dinheiro, vou doando o meu património de alarvidades a quem o queira ler. E não vos vejo a agradecer, meus bandalhos.

23.9.08

Dia Europeu sem tangas

Ontem, dia 22 de Setembro, celebrou-se o Dia Europeu sem Carros. Lisboa rejubilou com o encerramento parcial de algumas ruas na Baixa, duas vielas na Serafina e um beco em Marvila, naquele que foi o encerramento da Semana Europeia da Mobilidade.

Então e se se mobilizassem todos para o fundo do rio abraçados a blocos de cimento? É que, se algumas das acções do programa me parecem interessantes, quem tivesse lido o dito cujo parecia que na capital e arredores se anda a partir carros à marretada em prol de um ambiente melhor. E não é isso que se passa, antes pelo contrário. Aliás, se perguntarmos à malta que anda à solta por Lisboa se deu pelos efeitos do estrondoso Dia Europeu sem Carros, 85% vai responder: “O que quer dizer - sem carros?”

Dia sem Carros a sério houve uma vez, no primeiro ano desta iniciativa, creio que em 2000. Aí, a cidade de Lisboa viu o que era ter a circulação reduzida em cerca 70% nas suas vias centrais e os resultados foram contraditórios. Boa parte da população clamou que depois do terramoto de 1825 (História, essa disciplina sempre tão maltratada) nunca se tinha visto tanto prejuízo, destruição e histerismo. Gajos como eu, andaram satisfeitos pela rua, insultando apenas o taxista ocasional e suspirando pelo dia em que uma catástrofe simpática torne algumas ruas intrasitáveis.

Depois disso, tudo voltou a ser...o mesmo. Reduziu-se a iniciativa cada vez mais a um papel decorativo, sendo que hoje em dia é apenas uma boa bandeira para inglês ver. Eu percebo, é difícil a malta custa-lhe a subir colinas de bicicleta e a rede de transportes ainda parece, muitas vezes, saída de um livro de anedotas do António Sala. Mas, se é assim, não encerrem rua nenhuma, não atirem poeira para os olhos da malta e não me façam programas que vendem Lisboa como uma cidade verde.
E, por falar em verde, vão mas é pastar mais os eventos de fachada e os histerismos colectivos.

20.9.08

Como acabar com as beatas



Na sequência de proverbial troca de bitaites com este artista, eis um pensamento: "Tantas vezes vão as beatas à igreja que um dia a __________ parte".

19.9.08

Spam, machismo e outras questões imbecis

Para quem só tenha desenvolvido polegar oponível há relativamente pouco tempo ou não tenha fácil acesso à internet na caverna onde reside, vou discorrer brevemente sobre o que é o Spam.
Por Spam entende-se todo lixo informático que não pedimos e nos chega às caixas de email o que, no meu critério, inclui chainletters manhosas e composições com fotos de bebés, gatinhos e outro tipo de bicharada. Mas, confesso que me intriga um pouco a maioria da temática dos mesmos.

Entre os senhores responsáveis pelo envio do Spam, há uma conclusão assumida sobre o que preocupa os homens em geral – Aumentar a conta bancária e o tamanho do pénis (não necessariamente por esta ordem), reduzir as dívidas e enfardar Viagra como se não houvesse amanhã. Aliás, fossem resolvidos esses três problemas e não só o Spam deixaria de ter razão para existir, como a felicidade da Humanidade aumentaria exponencialmente.

“Enlarge your penis”, “You won a National Lottery”, “Cheap Viagra” ou “Consolidate your debt” são de facto propostas diárias que um gajo tem na sua mesa virtual. Seria interessante pensar num Spam único que englobasse as propostas numa só, do género “You won a National Lottery, so you can consolidate your debt and use the rest of the money to enlarge your penis and get cheap Viagra”.

Mas, o que e eu gostava mesmo de saber é se o Spam é machista. Será que as mulheres têm, diariamente, de lidar com Spam que não se preocupa com as suas necessidades? Que só pensa em sexo e dinheiro? Ou o Spam mais inteligente sabe agradar a uma mulher, recomendando “Buy beautiful flowers”, “Pick nice restaurants and spas that treat you like a queen” “You won a trip to the NY Fashion Week”. Aposto que o Spam que mantém uma mulher feliz tem mais hipóteses de depois vender o Viagra e tratar das questões íntimas de grandeza...

Prodigy, Spam my bitch up

17.9.08

Esquerever, essa arte


Não sou elitista, acho até que toda a gente devia aprender a ler e a escrever, incluindo muitos que já sabem. Tenho inclusive muita pena das pessoas cujas condicionantes da vida, dois garfos espetados nos olhos ou gerações consecutivas de relacionamentos consanguíneos as impediram de atingir um grau de alfabetização mais elevado.

No entanto, não tenho pena nenhuma de quem, tendo a obrigação de saber escrever a um nível mínimo, o faz com a delicadeza com que o Petit trata das canelas a artista da bola nas margens do Reno e afins.
É fácil rir da ementa na porta da tasca que parece vítima de um ataque da Al-Qaeda do terrrorismo ortográfico ou dos miúdos que escrevem no Messenger e nas SMS como se fossem onomatopeias de quem fala com a boca cheia de esparguete. Mas o que se faz quando se vai a um pináculo da elite cultural lisboeta, o cinema King e avistamos um cartaz que diz algo como:

“Avisam-se os ESPETADORES que o ar condicionado nas salas poderá não estar a funcionar correctamente”.

Acompanhado de alguém com um sentido cívico que a minha falência moral não permite ter, chegámos à conclusão que talvez fosse melhor alertar a senhora nas bilheteiras, uma vez que tínhamos dúvidas se a mensagem se destinava a alguns heroinómanos ou auto-mutiladores que apreciem frescura e cinema independente ou se era apenas uma gralha (na melhor das hipóteses).

Resposta da senhora “Ah está? Pois, sabe que nós até estivemos a debater isso, mas como no corrector do computador não deu erro, pareceu-nos bem assim...”

Fechei os olhos, dei meia volta (sem perder o equilíbrio, o que acontece por vezes quando se fazem habilidades de olhos fechados) e fui à minha vida. Dá Deus correctores ortográficos a quem não tem mentes...

ABC, Jackson Five

PS – Para o analfabeito mais interessado e menos informatizado, um corrector no Word e afins só aponta erros de facto e não erros de fato. Se não perceberam esta, então batam à porta no blog ao lado.

15.9.08

A ovelha da família negra

Este filme, que tive a oportunidade de ver ontem, tem um retrato de família bem negro. Aliás, se andam com vontade de matar um parente (ou vários, em fascículos), das duas uma - ou recomendo que o vejam para ganhar coragem ou aconselho a que não o vejam e escolham antes o Wall-E para tentar povoar o vosso imaginário de ideias fofas.

A questão da família sempre foi para mim a prova de que existe uma inteligência superior que nos observa e se gosta de divertir às nossas custas. Porque, como toda a gente sabe, tirando a mulher/marido, a família não se escolhe. E, isso é brincar com a malta.

É certo que para muitos a família é um farol na vida, que apoia nos momentos em que tal é preciso, que dá conselhos válidos, que nunca falha, etc e tal. Para outros, continuando no campo de metáfora marítima, é uma âncora atada às pernas, que nos arrasta para o fundo do mar, com problemas e situações que não toleraríamos em qualquer outro caso se - "Não fizesse parte da família"...

A média deveria andar num número equilibrado entre parentes que nos fazem valorizar a família e parentes que nos fazem valorizar a existência de drogas letais. Mas, como disse, não podemos escolher e, se é certo que há famílias que têm muito orgulho em poder apontar a sua ovelha negra, há muita ovelha que suspira ao pensar na família negra que tem para aturar.

Já que a leis do livre arbítrio não são aceites de base nesta matéria sugiro que se crie, ao estilo dos animais para adoptar, uma espécie de Lares de Adopção para familiares, onde não só se pode deixar aquele Tio que claramente não presta ou a Prima à qual só faltam chifres para ser considerada zoologicamente uma cabra e, quem sabe, trazer um avózinha em 2a mão em relativo bom estado e que saiba fazer bolo de chocolate.

Dessa forma, talvez o que se passa neste filme não pareça poder ser tremendamente real...

Me, Myself and I

O facto de ter sobrevivido aos acontecimentos anunciados no post anterior fez-me aperceber que não podia adiar mais este texto, pois nunca se sabe o que o futuro ou 18 caipiroskas nos reservam. Assim sendo, dado os resultados da sondagem que avaliou o que pensam que eu ando a fazer durante o dia, cabe-me esclarecer o seguinte:

Em todas as opções havia algo de verdade, uma vez que acredito muito mais nas virtudes da mentira diluída face à versão pura. No entanto, devo dizer que a audiência deste pasquim não vive totalmente alienada já que uma das versões mais votadas é sem dúvida a mais verdadeira.

Houve quem se entretivesse a fazer flutuar o voto para garantir o equilíbrio, coisa que acho mal e que é digno de gente com baixos estatutos morais, como eu próprio. No entanto, posso dizer que este espaço não é para mim um escape para um trabalho cinzento diário. Utilizo-o sim para dar vazão à torrente de baboseiras que não consigo canalizar no meu trabalho.

Sei utilizar bem números, nem que seja para aldrabar nas contas ao almoço, mas sempre fui um gajo de letras. A verdade é que inventar é prato do dia e tentar perceber o que vai na cabeça das pessoas para depois as espremer até ao tutano também faz parte do acordo.

Para mais detalhes, aceito que me paguem almoços, mas eu escolho o local. Sei bem que a malta que frequenta este estaminé não é confiança. Começando por mim.


De la Soul - Me, Myself and I

12.9.08

Beat this, Zandinga


Não é preciso ter muitos dotes de vidente para prever o resultado da junção entre as palavras Festa+Empresa+Praia+Álcool+Sabe-se lá o quê...

Resta-me, tal como os cronistas de outras eras, entrar no barco e enfrentar as tormentas com os demais...

10.9.08

Só à chapada

Mudar de hábitos não é fácil. Se fosse, não se chamavam hábitos. Tendo em conta que é muito difícil convencer um idoso de que não é necessário forrar a casa de sacos de plástico para prevenir o fim do mundo, muitas cadeias aproveitaram o filão ecológico para encher a mula à conta da cobrança dos saquinhos de plástico.

Todavia, o fascínio do cariz multiusos do saco de plástico perdura. Afinal, se o saco dura centenas de anos, porque não tentar preservar o ambiente dentro de um?

Fazem falta umas quantas chapadas e sou gajo para ser voluntário a distribuir...

Claques do Além


É certo e sabido que, até agora, os clubes de futebol já eram, em grande parte, cemitérios: cemitérios financeiros, cemitérios de expectativas ou até cemitérios de credibilidade.

Mas, a partir de hoje, na Alemanha, mais precisamente em Hamburgo vai ser possível fazer algo que só os doentes do Boca Juniores na Argentina podiam fazer – não só morrer pelo clube, como também ser enterrado pelo clube.
É certo que em Inglaterra já é possível ser cremado e ter as cinzas espalhadas no relvado do seu clube de sempre, onde se viveram grandes momentos, se marcaram grandes golos e, ocasionalmente, os maiores craques deram uma cuspidela. Mas visto que isso é proibido na Alemanha, este é sem dúvida um passo em frente.

Ser enterrado com as cores do clube, ouvindo o hino do clube, a pouca distância do estádio não é loucura, é um bom negócio, já que com o dinheiro que isso implica, os clubes garantem que, até depois de mortos, os seus adeptos continuam a pagar quotas.

É caso para pensar - quando chegará a moda a Portugal? Os célebres 6 milhões de adeptos certamente teriam muito gosto em dar o corpo, ainda que morto, ao manifesto...



PS - Em relação à votação que decorreu, está a ser ultimado um balanço final.

8.9.08

A verdadeira treta da Verdadeira Treta

Enquanto as horas para o final da votação expiram, urge em mim a vontade de vos falar sobre algumas das iniciativas que ocuparam o meu fim de semana, excluindo obviamente a rasteira passada a um idoso incauto no Pingo Doce.

Para começar, já que o ambiente estava um bocado morto, porque não ir ver um filme a condizer – Diary of the Dead, do ícone George A. Romero. É de louvar a capacidade de adaptar à actualidade (ao longo de 30 anos) a temática dos filme de zombies, que normalmente não vai muito além de gente invulgarmente lenta e invulgarmente morta a perseguir gente invulgarmente estúpida.

Mas, se é um facto que saí do S.Jorge com a clara vontade de não querer comer nada mal passado nos próximos 50 anos, a verdade é que a noite de Domingo trouxe um novo pitéu artístico – o “ensaio geral” da Verdadeira Treta, ou Zézé e Toni strike again. Antes de mais, uma nota – gosto de humor, de muitos trabalhos dos dois artistas, tanto em conjunto como separados, incluindo até outras Tretas. Talvez por isso me custe ver um filão tão explorado até à exaustão e só por fazer uma frase com tanto “ão” já podem avaliar o meu desânimo. Haverá sempre gente a rir de início ao fim, mas também é certo que “Os malucos do riso” são campeões de audiência, o que não abona muito em favor do riso fácil...

O meu problema é ver bons humoristas remetidos a um formato cómodo, de fórmula repetida, em que é mais do mesmo e durante tempo a mais. Há nos diálogos bons apontamentos, mas pouco há que não tivesse já sido visto noutras Tretas. Zézé e Toni estão velhos e precisavam de algo mais do que um lifting de temas para continuarem a fazer sentido. Assim é só garantir um sucesso de blheteira, que ajuda a pagar as contas é verdade, mas também deixa algum vazio em quem quer algo mais do que ver comédia estilo mortos-vivos.

Mas, não vão por mim, dêem lá um saltinho e tirem as vossas conclusões. Se for eu que sou esquisitinho, não perderam nada, se concordarem comigo, pelo menos no Casino de Lisboa ainda podem tentar recuperar o dinheiro do bilhete.

Press Kit, vem me buscar


Escrevo isto antes de ver o resultado da votação, mas sabendo que ao exemplo de boa parte dos iogurtes no frigorífico do meu local de trabalho, estou fora de prazo. No entanto, sei que as estatísticas não me eram favoráveis e duvido que no fim de semana tenham mudado, até porque não tive oportunidade de pôr os meus PR skills (termos anglófonos não é apenas coisa de economista) em acção.

A verdade é que, ironia da vida, passei o meu fim de semana a trabalhar, em assessoria de imprensa é certo. O que prova que não sou acessor em organismos públicos e afins, áreas em que tirando em crises, inaugurações ou festas de algum calibre, é raro ver um espécime da minha raça em trabalho.

O meu trabalho, basicamente, passa por convencer jornalistas que a minha empresa é realmente importante para o trabalho deles, coisa que também tento subliminarmente implantar na vossa cabeça (tentando fazer deste blog uma necessidade diária). O que se torna difícil, visto que há mais de 50 mil jovens a tentar fazer o mesmo e poucos meios para contactar.
Mas, não se pense que bater papo com jornalistas é a única coisa que faço. Também tenho um blog a gerir é certo e há outras tarefas, como por exemplo uma coisa que se chama “comunicação interna”.

Trabalhando num departamento de comunicação, a parte da assessoria é a mais pomposa e, como tal, a que eu vos tentei impingir. Depois há que lidar com a gente que cumprimentamos com sorrisos falsos no nosso dia-à-dia. E, numa empresa de alguma dimensão, é muito Pepsodent que se gasta. É preciso manter esta malta motivada, a pensar que há alguém lá em cima que se preocupa com eles (e não, não trabalho para o Vaticano) e fazê-los perceber o que é que realmente se faz nesta empresa.
É importante saber que a boazona que toma café às 10.38 também é a responsável pelos Recursos Humanos ou que o narigudo que usa chumaços não deve ser alvo de piadas, nem que seja por ser o tipo que nos transfere o salário ao fim do mês. E, acima de tudo é preciso que saibam que o tipo de cabelo encaracolado é bom rapaz e vale a pena pagar-lhe uns almoços de quando em vez. Isto para não falar que é possível que muita gente não saiba o que efectivamente faz esta empresa.

O que é algo que acontece frequentemente nesta sociedade, a malta não sabe o que faz, nem desconfia. E é isso que eu vou ver, mal consulte esta votação...

5.9.08

The Makvertising fundamentals


“Less is more” é um conceito que se aplica muitas vezes à publicidade, nomeadamente em relação a quem redige conteúdos criativos (ou a armar a isso). Por isso, não vou enveredar por conteúdos pastosos e extensos, como em versões anteriores. Simples e directo.

Dêem uma vista de olhos pelo pasquim, vejam esta iniciativa, vejam a estupidez recreativa que é a base do blog. Vejam a escrita em vários registos, os trocadilhos, a mania de que sou engraçado, misturado com pretensões de cultura geral e, quiçá, dominar o mundo.

Se eu não sou publicitário, então é porque levei uma pedrada na cabeça e sou um repolho ambulante. O meu quotidiano passa por ter ideias, dar-lhes forma e, muitas vezes, criar nas pessoas necessidades desnecessárias. Se estiverem a ler isto, é sinal que, votação à parte, fui bem sucedido.

4.9.08

Mak, the Economist – tão certo como 2+2 = 4


É engraçado como os números às vezes falam melhor do que as palavras. Neste caso, ainda eu não escrevi e já os números da sondagem (que vale, o que vale como diz qualquer político) falam a meu favor.

O que poderia ser estranho, um gajo com formação em fórmulas e números a escrever baboseiras como se não houvesse amanhã, acaba por ter uma explicação plausível. O meu pai é um homem ligado claramente à área do cálculo e da matemática, já a minha mãe sempre foi boa em letras, como tal é perfeitamente natural que o filho de ambos seja bom a dar música. É que a Economia, ao contrário do que pensa a malta que foge a sete pés da Matemática como se ela fosse a programação da TVI, não é apenas números e cálculos, é sim interpretá-los e dar-lhes o enquadramento certo. Sendo eu capaz de fazer isso, escrever alarvidades em torno seja do que for é a coisa mais simples do mundo.

Sempre gostei de escrever, mas na faculdade não incentivam a aplicação do humor às teorias económicas, com raras exceepções. O que acaba por ser irónico, já que em Portugal muitas vezes a Economia é o pão nosso de cada dia para muitos humoristas. Agora que trabalho, ou pelo menos disfarço bem, tenho outra disponibilidade. Especialmente depois de ter acordado para a vida e ter descoberto que o futuro se chama Gestão. Ser gestor, desde que não seja de um bar de alterne (e até aí há muito a gerir e com lucro), é como entrar numa fraternidade, onde números, balanços e outras ferramentas como o “reporting” (se não usasse um termo em inglês ninguém ia acreditar em mim) funcionam como uma muralha, atrás da qual muita gente esconde a sua incompetência em termos de gestão. Como é óbvio, não me incluo no grupo, tirando às 5as.

A verdade é que não formei a minha empresa aos 18 anos e não sou milionário. Para ser franco não abri nenhuma empresa, mas também não uso 38 apelidos e 10 parentes como cartão de visita profissional. No entanto, sim, já consegui entrevistas de trabalho graças à contactos de conhecidos (mas atenção, em economia e gestão, às vezes nem nos números se pode confiar), mas se não fosse bom (vá lá, razoável) no que faço não tinha passado da porta de entrada.
Este blog tem alguma coisa a ver com o que eu faço? Tem tudo e tem nada. Tudo porque a vida das pessoas, quer se queira quer não, é feita através de números, probabilidades e análises e eu, de forma pouco respeitável, tenho aqui um espaço para fazer os meus relatórios. Não tem nada a ver, porque nalgumas esferas da economia/gestão o ambiente tradicional de trabalho ainda é tido como sério e respeitável e confunde-se bom humor com falta de profissionalismo. Tirando na hora de receber o ordenado, obviamente.

Posto isto, o balanço final para mim é claro. Os números vão falar por mim e, contra isso, os outros impostores não vão poder fazer nada.

3.9.08

Room, Chambre, Zimmer, Mak


Sei que, o denominador comum, aponta para que o vocabulário de um recepcionista de hotel se limite a “Bom dia/tarde/noite”, “Bem-vindos”, “Boa viagem”, “Tenha uma boa estadia” ou “Consumiu amendoins no mini-bar?”. E não anda longe da verdade, sendo eu uma anomalia (no sentido positivo da palavra, se é que existe), que não só o consegue fazer em cerca de seis línguas diferentes, como ainda consegue conjugar uns quantos vocábulos originais.

Perguntam vocês que, salvo raras excepções, devem ter ficado hospedados em hóteis em Lisboa – Mas alguém estuda para ser recepcionista? Respondo eu, sim se tirarem o curso de Antropologia ou áreas similares.
Foi esse o meu caso, mas posso considerar a experiência positiva. Em vez de ir estudar primatas para o Malawi-de-baixo ou investigar tribos em Tuparaquinaovemchateá, faço quase o mesmo a partir de um estabelecimento com spa, piscina, ginásio e muitas outras comodidades.

A verdade é que eu não planeei a minha vida assim. Mas, a conjuntura, essa grande desvairada, levou-me até aqui e ainda não estou disposto a fazer o check-out. Não se pense que me encontram atrás do balcão da Pensão Zeca ou que o meu conceito de recepção é estar fardado a chamar táxis e abrir portas. Ganha-se bem a partir de um certo nível, especialmente se tivermos em conta que a exigência mental não é assim tão grande. Aliás, estou a treinar um pequeno símio para fazer as minhas folgas, combinando Antropologia e Gestão Hoteleira num só ramo.

Confesso que a parte dos turnos é chata, mas também proporciona liberdades extra, desde que não envolvam fraternização próxima com a clientela feminina. No entanto, o facto do meu local ser frequentado regularmente por malta que acende charutos com notas de 500 euros também faz com que, de quando em vez, umas quantas gorjetas possam chegar quase ao salário mínimo.

Continuem a votar nas profissões aparentemente mais nobres, que eu não me incomodo. Apenas comprova a minha teoria de que, em posições estratégicas como a minha (o acesso à cozinha é rápido) aprende-se muito sobre as pessoas e quase ninguém dá por nós. E depois basta passar por cá e escrever sobre isso.

2.9.08

Cenas da vida de Mak actor


Gostava de dizer que faço parte da geração de “actores” Morangos com Açúcar. Mas, mas ao olhar-me ao espelho e ver que o meu cabelo continua a moldar-se de uma forma natural e não parece ter enfrentado o furacão Gustav, é impossível mentir.
O facto de ter colocado actor à frente de explicador tem a ver mais com o lado aspiracional da coisa, já que o orçamento às vezes é assegurado pelo lado das explicações.

Desde pequeno que tenho gosto pela representação. Talvez seja porque cresci a ver o João Pinto e o Paulinho Santos a fazerem pantomimas nos relvados. Ou então pelo facto de ter um irmão que deve ter quase tantos filmes em casa como a Cinemateca, alguns deles, a cores.

Mas porque sou um tipo esperto, ou pelo menos faço bem o papel, cedo percebi que ser aplaudido em casa pelos familiares (quem resiste a um anjinho de caracolinhos?) não é garantia de futuro profissional. Como tal, a minha formação académica, permite-me, pelo menos, ter uma visão culturalmente enriquecida do mundo do desemprego. O que é sinónimo de dizer que, se não fossem os meus talentos artísticos e a capacidade de ludibriar malta jovem a pensar que vão aprender alguma coisa comigo, estava bem entaladinho.

Desde miúdo fui criando os meus contactos, participando em peças, etc, coisa que fui desenvolvendo, no secundário e na faculdade, incialmente através de figurações. Sim, é verdade, eu já fiz parte do elenco de novelas portuguesas em papeis como “O segurança”, “Pastor na 3a fila a contar da direita” ou “mecânico que só se vêem os pés debaixo do carro”, para não falar em “Juíz Decide”... Mas progredi, hoje em dia pertenço a uma pequena companhia de teatro, os meus papeis já incluem falas nalguns filmes e séries nacionais (poucas, mas boas). Faço anúncios de TV para cá para esse país chamado o Estrangeiro e, ocasionalmente, figuras tristes por dinheiro, embora aqui as faça de borla, assim é a ironia da vida.

Hollywood não está nos meus planos, mas trocava as aulas de ténis e explicações de inglês a miúdos ranhosos por fazer a mesma coisa mas a vedetas de Beverly Hills. E olhem que alguns deles bem precisam.

Termino apelando para o bom senso. Não votem noutras carreiras, porque o actor aqui sou eu e o que há de vir a seguir não passa de encenação.

31.8.08

Cada um é como é e eu sou como vocês quiserem

Existem actualmente em Portugal blogs suficientes para que, mesmo que já não se escrevesse nem mais uma linha, uma pessoa pudesse passar ininterruptamente o resto da sua vida a lê-los. Do íntimo e pessoal ao descontraído e trivial, do elitista ao brejeiro, do teor sexual ao teor angelical, a escolha é infindável.

Com mais ou menos seguidores, a verdade é que cada vez mais pessoas são, hoje em dia, produtores de conteúdos. E, quem produz conteúdos, tenham eles a qualidade que tiverem, tem por norma um objectivo mesmo que não o admita - ter uma audiência.

Chegado a este ponto, é justo que explique o que esta teorização tem a ver com o título do post. É que, tendo também eu o cargo de produtor, decidi que está na hora de dar um novo cunho a esta produção e quero que finalmente a minha audiência (sim, vocês os cinco) me conheça melhor. Até agora, para além de trivialidades, trocadilhos e humor sarcástico de indubitável craveira mundial, creio não ter sido sincero o suficiente, abrindo as portas da minha vida. Como tal, está na altura de vos compensar. Com esta ideia em mente, achei que era pobrezinho chegar aqui e expor-me de uma vez só, com as minhas alegrias e problemas, os meus dilemas e sentimentos. Por isso, visto que também é verdade que cada vez mais são as audiência que determinam o rumo dos conteúdos, vou deixar-vos escolher quem querem que eu seja.

Garanto que uma das opções é verdade, mas na Internet a verdade esconde-se por detrás de um teclado, por isso tudo pode acontecer. Durante uma semana, cada um dos meus eus irá publicar um texto. A votação final ditará a verdade.

I-Sound, Tiga, You gonna want me


PS - Não se fiem nas pessoas que aqui comentam. Nunca vi qualquer um deles mais gordo, até porque os meus amigos de verdade pensam que sou analfabeto.

29.8.08

Itália-Nepal, conflito de garfo e faca

De modo a não ter que suportar algumas companhias indigestas, tenho por hábito procurar restaurantes exóticos para despistar os fieis dos bitoques e febras, sempre que tal é possível.
Nesta vasta procura gastronómica tenho sido alvo de algumas surpresas agradáveis e ocasionais digestões desagradáveis, sempre de espírito (e boca) aberta. No entanto, confesso que me intriga um conceito de restaurante fácil de encontrar em Lisboa, o Italo-indiano ou Italo-nepalês, consoante a zona da pinta na testa da cozinheira.

Quando ouvi falar deles pela primeira vez, fiquei maravilhado. Cozinha de fusão ao mais alto nível pensei eu, Chamuças estilo calzone, Pizza de caril, onion bahji com fusili, madras de mozzarella ou bebinca estilo tiramisu foram logo pratos que me ocorreram. Da primeira vez que lá entrei, a desilusão – menus separados, nem uma experiência de aproximação e nem sequer um mix decorativo, tirando o bigode à mafioso do empregado indiano.

Foi aí que pensei, mas porquê esta junção? A Itália e o Nepal são tão vizinhos como Portugal e o Iraque e eu ainda não vi por cá Cozido à Saddam. O Nepal não tem qualquer história de ocupação italiana e o facto do Marco Polo ter estado na China não significa que tenha ido lanchar ao Nepal e deixado por lá umas receitas.

A resposta tornou-se então óbvia – o italo indiano serve para que os fieis do bitoque e das febras me possam seguir até lá, essencilamente porque uma pizza ou um esparguete à bolonhesa são o limite dos seus desvarios alimentares. E a malta dos Himalaias tem assim uma opção barata para não perder clientes. O que é tudo muito bonito, tirando para mim, que gosto de cada macaco no seu galho ou no seu prato, se preferirem.

Por isso, amiguinhos do Ghandhi que gostam de piscar o olho ao Eros Ramazotti, fica aqui o meu aviso – já tolerei a história da gastronomia italiana, não vou perdoar a inclusão de bitoques no menu.

Fusion Sounds – Panjabi MC, Mundian to Bach Ke (Knight Rider Remix)

28.8.08

O meu Portugal dava um filme

O nosso país tem uma estranha forma de ser, como já dizia a outra senhora. Apesar disso, ainda quero acreditar que noutros países também possam existir fenómenos estranhos semelhantes aos nossos, excluindo obviamente o Fernando Mendes do Preço Certo.
No entanto, todos os dias surgem histórias que não deixam de pensar que a “5a Dimensão” tem uma sucursal em Portugal e que podíamos produzir caixas de DVD's com os melhores episódios. Senão vejamos três exemplos:

- A Justiça está mais pobre – É certo e sabido que o processo judicial em portugal é assim para o pobrezinho e sobrevive com muitas dificuldades. Não era preciso vir um grupo de facínoras (termo também usado esta semana para comentar ténis no Eurosport) e levar para casa a Caixa Multibanco que está DENTRO do tribunal de Cascais, essa zona de alto risco.

- O culto da violência – Ao que parece, a violência doméstica tem aumentado entre licenciados (refira-se que também há mais homens a sentir os efeitos na pele). Isto significa que, para além do desemprego, quem é licenciado enfrenta agora uma forte probabilidade de enfardar porrada como sobremesa num serão a dois. Ao que parece, massa bruta e massa cinzenta afinal podem ser sínónimos.

- Wordjacking – Ninguém resiste a uma moda verbal. Por isso, quando um termo pega, pega de estaca até que surja outro mais apelativo e mais na berra, seja no domínio do calão ou na linguagem corrente. Daí que actualmente já não se assaltem viaturas, mas se faça carjacking ou que grande parte da malta jovem utilize a expressão LOL na escrita, mas não saiba sequer o que quer dizer cada uma das letras, preferindo a resposta simplista “Ah, isso é risos”

Bem, tenho que ir fazer o almoço, porque não há maneira de conseguir abrir a caixa e se ele não está pronto quando a madame chegar a casa levo no trombil com a moldura do canudo. E ir fazer um carjacking no parque com a cara num bolo não é vida para ninguém.

Vampire Weekend, The kids don’t stand a chance

26.8.08

Passando pelas brasas


Fez ontem vinte anos que grande parte do Chiado foi devorada pelas chamas. Lembro-me de ser na altura um puto (agora sou apenas infantil) e pensar: "Epá, normalmente estas desgraças só acontecem noutros países. Será que isso quer dizer que hoje não há desenhos animados?". Como vêem, era uma criança matura, capaz de suavizar uma tragédia recorrendo a outra, neste caso a animação de leste que nos era proporcionada pelo Vasco Granja.

Não pondo em causa os danos e prejuízos de várias ordens que muita gente sofreu por causa do fogo, em certa medida o incêndio foi a "salvação" do Chiado. E isso passou essencialmente pela modernização da arquitectura, combinando fachadas antigas restauradas com uma planificação moderna, recuperando o que era viável e fazendo desaparecer o que já estava moribundo, mesmo antes do incêndio. Isso garantiu-nos que, hoje em dia, o Chiado seja uma zona "viva" rodeada de áreas moribundas, especialmente de noite, com a clara excepção do Bairro Alto, pelas razões óbvias.

O fogo está acima da lei e, tirando o incoveniente de ser o amigo favorito dos pirómanos, fez aquilo que políticos e interesses não permitem - Criar uma base para requalificar áreas fulcrais de Lisboa. Quem viver em Lisboa sabe certamente que, abaixo do Chiado, a Baixa à noite é fantasma onde, na maior parte dos casos, só residem idosos em habitações degradadas e onde não se vê vivalma ou às vezes se deseja que não se visse vivalma.
Lojas, serviços, restaurantes e pastelarias fecham maioritariamente às 20h e a partir daí, o cenário é para esquecer, especialmente no Inverno, em que só as luzes de Natal disfarçam o estado do morto-vivo. Se a baixa ainda é o coração da cidade, então é melhor fazer como em relação à Amy Winehouse e ir escrevendo o obituário, porque o pacemaker do Chiado não serve para tudo.

Puxar um fósforo nunca será uma solução válida, mas que às vezes apetece, apetece.

25.8.08

Atletas modelo

Depois de quinze dias acabou o regabofe. Depois de já se terem começado a formar pelotões de linchamento prontos a fazer “Atleta Português à Pequim”, na sequência de novos recordes nacionais de desculpas esfarrapadas alcançados em catadupa, bastou um salto de categoria para apaziguar as massas e levar de novo ao contentamento nacional.

A grande medalha de ouro do jovem Évora, somada à prata da Vanessa (que só pelo facto de ter o pai a berrar ao longo do percurso olímpico merecia uma medalha) serve para equilibrar a balança dos “Na caminha é que é bom”, “Os estádios cheios bloqueiam-me”, “Este não é o meu tipo de competição”, “Elas pareciam que treinaram só para me lixar” ou “Aviei o tipo que me roubou a namorada, já fiquei satisfeito”. Pelo meio fica gente que deu o litro, mesmo sem ter ganho medalha, e que fica na zona sombreada da fotografia. A malta precisa de herois e vilões, tudo o resto fica sempre para segundo plano.

A mim chateia-me o facto de sermos sempre simpáticos e resignados, mesmo quando perdemos. A satisfação de conhecer a muralha da China e a antecipação de grandes manobras sexuais para compensar uma eliminação precoce não devia anular completamente a sensação de “mau perder”. Ele houve atletas coreanas de andebol a ficarem meia hora em campo em protesto pela derrota, ele houve lutadores suecos a tentarem agredir juízes e a atirarem medalhas ao chão, para não falar do artista do taekwondo que aliviou a sensação de derrota usando a cabeça do árbitro como piñata ou a perseguição a ginastas chinesas de idade duvidosa. Em suma, houve resmas de artistas de gabarito na arte do escasso espírito olímpico. E nós? Só choramingas e bons rapazes e raparigas...

Já que tivemos de nos contentar com um honroso 45º lugar na tabela das medalhas (sim, anda aí gente feliz a usar o termo medalheiro mas para trocadilhos lastimáveis, já me bastam os meus) ao menos podíamos ter atletas destas para compensar a moral – Leryn Franco, paraguaia de 26 anos, competiu no lançamento do dardo. Em vez de fazer a barba, bater no marido ou fazer corar de inveja alguns estivadores graças à sua largura de ombros, Leryn ocupa os seus tempos livres de outra maneira. Uma vez que o Comité Olímpico Paraguaio não nada em dinheiro, esta jovem faz trabalhos de modelo para financiar o seu programa de treino e, ao que parece, a coisa tem resultado. Pelo menos na área da moda, já que infelizmente a jovem não passou das eliminatórias. Mas, verdade seja dita, poucos estavam a olhar para onde caía o dardo...



Mas pronto, a festa acabou e tanto a China como alguns atletas portugueses podem suspirar de alívio porque os focos vão para outro lado. Desta já estão safos, valha o Nélson e a Vanessa a uns e o Beckham aos pontapés a outros.

Triple Sound Jump – Audioslave, Nothing left to say but goodbye

19.8.08

Fosso Olímpico

Continuo a defender que, em termos de JO’s, mais importante do que ganhar é participar. Nem que seja na criação de piadas sobre a comitiva portuguesa.

Sabem porque é que a comitiva portuguesa se vai reunir no Algarve em Setembro?

Porque muitos deles ainda acreditam que é possível chegar ao bronze.

18.8.08

É favor não preencher o vazio


Sou uma pessoa que gosta de combater as suas fobias. Posso dizer até que comecei por vencer o terror de escrever vulgaridades de embarda criando este blog. Creio que me tenho saído bem, Desta forma, sendo eu também Algarvofóbico, haveria melhor maneira de ultrapassar isso, do que passar lá um fim de semana grande em Agosto?

A verdade é que me diverti à grande. E nem é preciso incluir os 4 milhões de amigos que fiz em pouco mais de dois dias de praia, enquanto nos divertíamos a tentar descobrir de que cor era a areia, por entre aquela manta gigante de toalhas coloridas. Ou falar das grandes virtudes do bikini brasileiro, que nos faz ir às lágrimas, quer o 86-60-86 corresponda às medidas ou à faixa etária das utilizadoras. Ou referir até a forma como os espanhois são uns porreiros e a menos de 10 kms de distância põem a gasolina 30 cêntimos mais barata só para terem o prazer de nos dizer um hola.

Em suma, tudo correu às mil maravilhas, sem sequer ter sido preciso falar inglês. É o que dá ir em boa companhia e, neste caso, creio poder falar por todos os que tiveram a sorte de me ter por perto. Mas atenção, tal não invalida que este destino de Verão continue num honroso 203º lugar nas minhas preferências, mesmo entre o Darfour e a Ossétia do Sul.

Mas, o melhor de tudo está no regresso a Lisboa. Verificar que a cidade está assim para o vazia traduz-se numa alegria que quase me faz esquecer que já não tenho férias. Acho que é este vazio em Agosto que torna a existência do Algarve mais compreensível. Ele existe para que pessoas como eu possam apreciar Lisboa sem a sua segunda pior praga a seguir aos pombos – os seus habitantes. E isso, meus caros, vale ouro.

Ecoando nas ruas – The Streets, The Escapist

14.8.08

Dá cá um Beijing, dá cá, dá cá

Uma vez mais esta actualização vem atrasada mas, compreendam-me, entre provas de canoagem, ginástica, luta greco-romana e de vinhos é fácil uma pessoa desnortear-se. Aproveito então a ocasião para terminar a minha análise aos comentadores olímpicos, sempre a anos luz do mítico Gabriel Alves, mas com um brilho muito próprio:

O Tecnicista – Para este comentador, fazer um dicionário sobre a sua modalidade favorita seria coisa fácil. Mais ainda se só se incluissem termos que os espectadores não compreendem. Utilizando um dialecto muito próprio que vai do ginastiquês, ao judoquês, passando pelo badmintoniano, os seus comentários são perceptíveis por cerca de 0.2% da população, composta pelos praticantes e ex-praticantes da modalidade que não sofram de Alzheimer ou falta de pachorra. A sua missão não é tornar o comentário compreensível ao comum mortal, é tornar o nome de um qualquer atleta do Cazaquistão ou da Indonésia a parte mais compreensível de uma frase.

O Intimista – Para bem comentar é preciso conhecer bem os atletas em provas e se há alguém que os conhece é este comentador. Desde pormenores sobre marcas no corpo, às habilitações académicas (incluindo cadeiras em atraso) este profissional está bem informado. Saber que um atleta gosta de gelados é coisa de criança, saber de que sabores gosta e quais os toppings favoritos isso sim é informação relevante. Além disso, tratar o atleta pelo apelido é prova de um distanciamento pouco recomendável para quem está em cima da modalidade. O Sven, a Katrina, o James são resultado de longos períodos de convívio que às vezes se traduzem em cinco segundos na fila de espera para o WC na aldeia olímpica. A este comentador não interessam as medalhas. Valia muito mais ser padrinho de casamento daquele remador norueguês.

O Comentador de Serviço – A este calhou-lhe a fava. Todos os especialistas estavam de férias e ele, que era o último a escolher, tem de trabalhar no mês de Agosto. Habituado a comentar pelota basca, vê-se agora na contingência de ter um convidade e ter de parecer que até percebe de atletismo ou de basquetebol. Não há fora de jogo no basket? Não interessa, serve de apontamento humorístico. O atleta finlandês afinal é queniano? Pronto, o bronzeado engana as pessoas. A prova ainda não acabou agora? Epá, mas devia que eu ainda quero ir meter uma bucha antes do serviço da tarde. Mesmo sem saber, ele serve o ideal olímpico, pois vai sempre mais alto, mais longe, mais forte, nem que seja pelo simples facto de não saber qual é a medida certa.

E em termos de Jogos Olímpicos creio que vou fazer como a prestação de delegação portuguesa até ao momento ou seja, continuar a ver os melhores passarem-me à frente dos olhos.

11.8.08

Comentadores para olímpicos

Confesso que sou um fervoroso adepto dos Jogos Olímpicos, tenham eles lugar em Beijing, Madagascar ou na Rinchoa, já que o desportista que há em mim me dá desejos de praticar diversas das modalidades que observo. Para terem uma ideia, desde sábado até hoje, já tive vontade de praticar remo, natação, esgrima, saltos para a piscina e pelota basca. No entanto, a minha força de vontade ainda só deu para ir até ao frigorífico e voltar para a sala o que, dados os horários das transmissões, pode ser considerado esforço olímpico.

Mas, acima de tudo, o que eu gosto nas transmissões dos Jogos Olímpicos são os comentadores nacionais de modalidades. Oprimidos durante quatro anos pelos modorrentos e pastosos relatadores da bola estes homens e mulheres têm cerca de 15 dias para nos mostrar o que é o verdadeirao espírito olímpico. Tal como os atletas que comentam, também eles estão no melhor palco para mostrarem o seu talento e mostrar que a diferença entre um ippon e um koka pode mudar a vida de uma pessoa. E, apenas em três dias, já consegui diferenciar modalidades de comentário bem diferentes, para fazer as delícias do telespectador:

O Perfeccionista – Nos JO’s não há lugar a complacência. Este comentador não quer saber se o atleta ganhou já três medalhas de ouro, se partiu as duas pernas na véspera ou se acabou de receber um telegrama a dizer que a família morreu toda num churrasco que acabou mal. Se está ali tem que ser perfeito e há sempre algo a corrigir. O público e os juízes são uns facilitistas e é a sua opinião que o espectador deve seguir, pois só esta atinge a perfeição olímpica. Infelizmente para ele, o comentário televisivo não é modalidade olímpica.

O Entusiasta – Para ele, os JO’s são uma festa. A celebração do evento e do comentário traduzem-se na sua felicidade e ele não hesita em nos dizer isso mesmo. O judoca foi eliminado na 1a ronda? Não faz mal, é um atleta de gabarito e não precisa de provar nada a ninguém. O nadador levou três piscinas de avanço? Foi um dia mau, estar ali já é bom e com o tempo dele há 10 anos teria ganho uma medalha de ouro. A alegria da participação sobrepõe-se sempre ao resultado desportivo, mas também este é celebrado com a euforia que merece e um timbre que não deixa o desportista de sofá adormecer quando há medalhas em jogo. Tudo é desculpável, incluindo é claro o seu comentário.

Interrompo para acompanhar uma transmissão de tiro com pistola de tinta a 10m que não quero perder. Amanhã prometo continuar a comentar os comentadores que têm comentado os JO’s.

Olympic sounds - ABBA, The Winner takes it all

8.8.08

Plágio, sinto-me plágio

Evitando dissecar temas que envolvam as palavras BES, Campolide, reféns e assaltos a dependências bancárias que NÃO lidam com dinheiro vivo, aproveito a ocasião para mostrar que sou um tipo tão atento como os malogrados assaltantes.

Descobri, por mero acaso, que uns dizeres concebidos neste espaço foram alvo do chamado copy-paste integral (mais saudável copy-paste normal e com mais fibras) num fórum online, por parte de alguém muito parecido comigo, pelo menos no que toca à falta de bases morais. Contudo, a novidade aqui é o facto de eu ter sabido ontem, visto que a coisa já se deu vai para perto de dois anos. E, devido a isso, levantaram-se em mim sentimentos dúbios. Depois de os ter mandado sentar, pensei um pouco no assunto e cheguei às seguintes conclusões:

- É bom poder utilizar a palavra plágio várias vezes. Não só porque não é minha, como pela sua maleabilidade em frases como “Aprendi a nadar porque tinha medo de ser vítima de um plágio em alto mar” ou “Fiz um plágio de três meses numa empresa lá ao pé de casa”.
- É interessante ver que há pessoas que gostam de viver perigosamente e assumir como suas palavras de indivíduos algo suspeitos. Por exemplo, a mim não me apanham a plagiar o Papa.
- É surpreendente que, para além do autor do dito cujo, houvesse nesse fórum outra pessoa que conhecia este pasquim e daí o artista ter sido confrontado. Quer dizer que, possivelmente, neste momento já é possível fazer um jogo de sueca entre leitores do blog.
- É lamentável que só tenha descoberto plágios em fóruns com o nome “Sexo na banheira”. Almejava algo mais respeitável, como por exemplo o “Fórum dos Onanistas profissionais”ou no “Fórum de Flatulência Desportiva”. Há que continuar a tentar.

O facto é que devo ter ficado perturbado (um pouco acima dos níveis normais). Só assim explico a semelhança entre o meu título e o de uma letra de um tipo que aprecio tanto como a Peste Negra.

Copycat Sounds – FR David, Words (don’t come easy)

7.8.08

RIP Cavalheirismo (Algures no tempo dos contos de fadas-2008)



É certo e sabido que o cavalheirismo foi inventado por um homem. Nós, os machos, temos por hábito criar coisas que não percebemos muito bem e que mais cedo ou mais tarde acabam por se voltar contra nós. Daí que seja justo que seja um homem a desligar a máquina que mantém o dito cujo ligado à vida.

Há muito que o cavalheirismo, no sentido romancista da coisa, deixou fazer sentido numa sociedade que se diz igualitária e em que há pouco tempo a perder. Como é óbvio, há que separar o cavalheirismo do facto de ser educado e da paixão. A educação é válida para todos e a paixão torna os actos mais estúpidos justificáveis, tanto para o homem (incluindo imprimir este texto para mostrar à namorada) como para a mulher.

Homens e, especialmente, mulheres que ainda sejam adeptos intransigentes do cavalheirismo é gente que ficou congelada em glaciares sociais há já algum tempo. A emancipação feminina tornou-a mais sofisticada (embora o bigode não esteja erradicado), com um nível de educação superior (em Portugal há mais mulheres licenciadas do que homens e entre a população empregada com curso superior elas também dominam) e nivelou um pouco mais a balança social. No entanto, curiosamente ou não, as mulheres continuam a considerar um exclusivo masculino o chamado acto cavalheiresco.

Nos dias que correm, enquanto muitas outras coisas seriam consideradas machismos, continua a ser essencialmente dos gajos a responsabilidade de oferecer flores (no hospital não conta e em funerais muito menos), abrir portas de carros, puxar a cadeirinha para sentar ou assegurar o pagamento da conta do restaurante.
Bradarão, indignadas, algumas senhoras - É educado, só te fica bem e aumenta as probabilidades do cavalheiro não adormecer abraçado apenas à almofada (isto para os casos com intenções marotas como pano de fundo).
Concordo plenamente, mas isso devia ser válido para meninos e meninas. Experimentem ser cavalheiras e fazer algumas das coisas que referi anteriormente, nem que seja uma vez (ok, troquem as flores por uma garrafita de vinho) e vão ver como a rapaziada fica reconhecida e, na volta, até cora (antes do efeito do vinho).

Se a coisa não correr bem pelo menos tentaram, e ficam a ter uma pequena amostra das figuras que os homens andam a fazer há séculos só para ficarem bem na fotografia. Da minha parte não vai haver problema, sei muito bem que não há almoços grátis, mas não digo que não a jantares gratuitos.

Gentleman Sounds – Gogol Bordello, Start wearing purple

6.8.08

Mau olhado

Para quem gosta de tomar um lauto pequeno almoço em casa, haverá melhor visão matinal do que subir as escadas do Metro, olhar em frente e ver um ousado fio dental bamboleando-se em perfeita simbiose com um significativo tufo de pelo no fundo das costas?

Afinal, ser cego no Metro tem as suas vantagens.

Shock Soundwaves – Billy Idol, Shock to the system

4.8.08

Caso Sebastião


Faz hoje 430 anos que esta criança de família problemática foi vista pela última vez. As teses do assassinato e da simples e pura estupidez coexistem sem chegarem a qualquer conclusão. Tirando um zarolho que até lhe dedicou um livro e o retrato robot de um marroquino, visto pela última vez em 1601 a vender tâmaras na feira medieval de Mértola, não há sinais de qualquer suspeito.

A polícia marroquina apesar de, alegadamente, ter usado camelos peritos em detectar turistas e jovens monarcas desaparecidos fecha-se em copas e diz que sem novas provas não reabre o processo. A imprensa local, claramente terceiro mundista, insiste que os culpados são os portugueses, que não tinham nada de levar crianças para o campo de batalha, quando até babysitters berberes havia disponíveis em tendas junto a Alcácer Quibir.

O que eles não sabem é que o Gonçalo Amaral, depois da reforma, agora tem tempo de sobra. E eu acredito que ele bem capaz de ir a Marrocos trazer de volta o marialva preso por uma orelha. E o culpado por outra. E os Mccann por mais duas. E o ex-Director da PJ e o tipo que foi forreta a servir-lhe uma chanfana em Oliveira do Hospital idem.

É para verem que com a polícia portuguesa não se brinca, mesmo depois da reforma.

Desculpe, viu um elefante entrar no meu WC?

Para além do discurso de Cavaco Silva, nestas férias tive a oportunidade de observar outro facto realmente perturbante. Ao que parece, de algum tempo para cá, uma daquelas marcas modernas que veio substituir o Brize Alfazema, esse fiel sentinela que tanta gente salvou de odores maléficos que insistem em perturbar a paz dos WC’s.

De facto, para quem nunca acreditou no poder de um simples fósforo, uma golfada de alfazema (ou, vá lá, uma Brisa Marinha) era a salvação perfeita. Que se pode pedir mais depois de uma sensação de alívio, do que poder fechar os olhos no WC e sentir que estamos que estamos num bosque ou numa qualquer praia, mas sem as preocupações de sermos mordidos ou picados pela fauna e flora local. No entanto, tudo isto faz parte do passado.

Nos dias que correm vejo anúncios na TV onde arrogantes pinguins, macacos e até elefantes simulam hábitos humanos tocando piano, jogando cartas e dizendo as maiores barbaridades, clamando seres os detentores do segredo do bom cheiro de uma casa e do seu último reduto, o WC. Para além do absurdo que é ter de levar lições de moral de bicharada que nem nos seus melhores dias se digna a usar papel higiénico, mata-se a segurança que uma simples latinha de spray proporcionava, a troco de uma percentagem insignificante da camada do ozono.

Hoje em dia, quem se atreverá a inundar o seu WC de alfazema sem correr o risco de ser espezinhado pela ideia de um elefante à rasquinha depois de um caril indiano ou de uma macaca a tratar da sua higiene íntima no bidé. Pois é, e depois dizem que em Agosto não surgem temas interessantes.

Eu, por mim vou contentar-me com fósforos e deixar a bicharada no sítio que é suposto lá em casa. No National Geographic e a escrever textos para o blog pois claro.

Sounds of the jungle - Tarzan Boy

28.7.08

Granda vaca

Antes de mais, peço desculpa pela ausência de conteúdos numa base regular. A verdade é que, tendo como companhia os sete pecados mortais, as férias tornam-se um período complicado para exprimir grandes oratórias além de "Mais uma fresquinha, sa'cha vor", "Sim, sou mesmo o campeão do universo das raquetes de praia" ou "Quem é que tirou o Campingaz da sombra?".

No entanto, nos momentos em que combati com bravura a areia quente para chegar até vós, tive de lidar com todo o tipo de fenómenos estranhos. Começando pela empregada que me atendeu na única refeição saudável que a consciência me obrigou a consumir, para disfarçar toda uma panóplia de erros nutricionais de veraneio. Estranhei um pouco o facto de ser roxa às manchas e ter um badalo, mas com o pessoal de fora que vamos acolhendo no ramo da restauração, creio que tudo é possível.

O talão da conta esclareceu a situação e a sua doçura também.

22.7.08

Caso de Verão para o Advogado do Diabo


Antes de mais, quero referir que este post não tem nada a ver com o Dr. Marinho Pinto, bastonário da Ordem dos Advogados. O facto é que não quero ser associado a alguém com uma capacidade de semear discórdia e incendiar ânimos superior à minha. E isto é uma opinião que partilho com o próprio do Demo.

Mas, perguntará o internauta que tenha cá vindo parar ao teclar no Google as palavras “pichote” e “bolso” (muito frequente) – afinal de que Diabo falas tu? É simples, falo da estupidez masculina no sentido genérico da coisa, embora se tivesse de personalizar, o Pepe Rapazote parecer-me-ia um óptimo exemplo. É certo que, sendo eu um membro viril da espécie (reforço isto mesmo cuspindo para o chão enquanto escrevo), não poderia vir para aqui ofender o género sem uma boa razão, especialmente estando eu de férias.

O que me faz vir aqui desabafar é um misto de indignação e vergonha alheia face a uma situação que observei ontem na praia, enquanto pontapeava uns castelos de areia como retaliação a uma criança que me interrompeu a sesta. Ao acabar a tarefa constatei que, seguindo a boa tradição portuguesa da proximidade balnear, um grupo de três estarolas tinha colocado as suas toalhas a cerca de 22,5cm da minha, havendo no entanto largos metros vagos à volta. Identifiquei-os como estarolas e não como miúdos idiotas pelo simples facto de já estarem bem para além da adolescência, não obstante falarem demasiado alto, serem adeptos do chamado riso alarve e levarem consigo uma bola.

Ok, nada de muito extraordinário até aí, eu próprio já tive o gozo de fazer tiro ao idoso na praia com uma bola e compreendo a relevância do artigo para qualquer homem que se diga viril. O que os destaca passa pelo facto de, depois de avaliarem as redondezas e acharem por bem não se meter com o matulão encorpado que vos escreve estas linhas (os calções de banho do Noddy intimidam eu sei), terem optado por jogar o seu charme para cima de uma moça de bons atributos que tentava mimetizar uma torrada sozinha junto às dunas.

Como é certo e sabido, na praia não há nada mais sedutor para uma mulher do que três artistas a dar pontapés numa bola no areal, coroando a sua exibição com palavrões requintados e remates a rasar a sua toalha. O que os torna ainda mais atraentes é dedicação visível na camada de suor e areia que os cobre, já que por amor ao jogo escolheram o areal junto às dunas para jogar às quatro da tarde, quando poderiam ter cedido ao facilitismo e jogado junto à água.
Depois de dez minutos desta brincadeira, o resultado creio que os deixou deveras surpreendidos. A moça, apesar de sozinha, renegou os seus instintos carnais e não convidou nenhum deles ou até mesmo os três para uma sessão de sexo escaldante (muito apropriada para a hora) nas dunas. Cometendo o desplante de nem sequer escrever com baton o seu número de telemóvel, limitou-se a pegar nas coisinhas e a ir-se embora.

O desânimo caiu forte entre as hostes dos três estarolas, tanto que lhes passou logo a vontade de jogar à bola no areal. Compreendi porquê, quando ouvi os seus comentários. “Epá, aquela gaja era esquisita, viste como ela olhava para nós?”, “Era uma gaja ou um gajo? Aquele corpinho tinha ali qualquer coisa que não sei não...”, “Pois, era boa, mas podia ser um homem. Deve ter a mania, foi-se logo embora”.

Correram para a água e, entre bolas de areia atiradas uns aos outros, tentaram afogar aquela sensação estranha. Pior do que três anormais em fase de negação numa praia, só mesmo uma miúda que não sabe reconhecer o que é bom num homem.

Sound from the beach - Mungo Jerry, In the summertime

PS - Tudo bem que a moça foi para as dunas porque eu pus o Now Mix Vol. 19 um bocado alto no meu tijolo. Mas isso não invalida o resto.

17.7.08

Fotos tipo Penso




Há pouco mais de um século, um artista chamado Rodin criou uma estátua a que originalmente chamou “O Poeta”, em alusão a Dante. Certamente que, desde logo, outros artistas (gente maldizente, uma raça que eu condeno) aproveitaram a deixa para lhe tornar a vida num Inferno, insinuando que misturar poesia e estátuas grandes de gajos nus era meio caminho andado para a bichanice.

Ora o Augusto que, apesar de artista, era homem de barba rija e muito possivelmente dado a piropos gaiteiros às suas modelos, deve ter levado a coisa a mal e pensou em como se havia de safar de tal fama. Rapidamente, “O Poeta” passou a “O Pensador” e embora a explicação oficial refira que este é um homem em meditação, numa aparente luta filosófica anterior, para alguns privilegiados (nos quais me incluio) é óbvio que a mesma representa um indivíduo nu que tenta reavivar a memória do forrobodó da noite anterior para saber onde raio está a sua roupa e porque raio tem tatuado no braço o nome Marlene.

O que o Rodin não sabia é que, décadas mais tarde, esta ideia do indivíduo pensador em meditação iria dar origem a uma praga no meio empresarial e intelectual. Soubesse ele de antemão e não só manteria o nome “O Poeta” como ainda lhe acrescentaria “O Poeta Larilas que gosta de compôr todo nu na varanda”. É que esta imagem filosófica, misto de classicismo, introspecção e sono em atraso, representa cerca de 85% das fotos instituicionais de quadros dirigentes e intelectuais que querem passar a imagem que pensar é um acto natural no seu quotidiano.

É certo que existe os mais criativos, que fazem variantes como colocar o polegar e o indicador em L junto ao queixo ou testa, outros preferem juntar as mãos numa mistura prece/reflexão muito indicada para aqueles que, para além de pensantes, também queres passar a ideia de religiosidade/integridade, algo que tem escapado por exemplo aos fundamentalistas islâmicos. Seja qual for a forma, o conceito é o mesmo e é o bom do Rodin que devemos culpar.

Tivesse sido ele um verdadeiro pensador e tinha logo cortado o mal pela raiz. É que em relação a identificar poetas efeminados é difícil ter dúvidas, agora fazer as pessoas acreditar que empresários que mal sabem afiar um lápis sozinhos e intelectuais que repetem doutrinas e teorias como papagaios da América do Sul são pensadores, não é com uma pose que me convencem.

Até porque gajos inteligentes não perdem tempo em sessões fotográficas com poses idiotas para convencer as pessoas que o são. Gajos inteligentes fazem blogs e tentam enganar as pessoas nesse sentido. Se falharem, pelo menos ninguém vai saber que escreveram o post todos nus em profundo conflito interior (culpa do restaurante mexicano).

Soundthinker - Gabriel o Pensador, Tás a ver

15.7.08

Xutos e Pontapés nos Rádio Macau

In Diário Digital

“Xana e Flak protagonizaram uma agressão mútua num concerto recente dos Rádio Macau em Vila Nova da Barquinha.

Tudo começou quando a vocalista modificou a letra de «Anzol»para protestar pelo facto de Flak ter aceite que este fizesse parte de um anúncio a uma instituição bancária.
Depois, durante o solo de harmónica, Flak rasteirou a cantora que caiu desamparada. Xana respondeu com um estalo.
«Teve a ver com a autorização dada a uma instituição bancária. Por princípio, eu sou contra isso», disse Xana ao Correio da Manhã, revelando ainda que o desentendimento está resolvido.
«Ele já me pediu desculpa e eu reconheço que deveria ter feito o concerto de forma profissional e já pedi também desculpa», assumiu também Xana.”

Tentei utilizar o meu arsenal de recursos para melhorar o nível humorístico desta notícia. Não consegui, mas creio que a Xana não chegou a usar o pregão “Agora somos os Rádio Cacau” no meio dos seus protestos. É assim minha cara, deixa as palavras de intervenção para quem domina de caras o cenário. E não me refiro de caras no chão.
Quanto ao parceiro que a rasteirou, faltou ali um flic ó Flak para a coisa ter um mínimo de estilo. Contudo, deverá ser a primeira vez na história em que alguém consegue agredir outra pessoa durante um solo de harmónica.

Para quem quer ver o vídeo, pode ver aqui todo este regabofe de acção em Vila Nova da Barquinha, naquela que deverá ter sido a noite mais agitada desde que o Zeferino da Adélia entrou com a Zundap pela montra da Farmácia.

14.7.08

As regas da moda

Sou uma pessoa muito atenta a certas coisas e muito distraída em relação a outras quantas. Como tal, por um lado tenho argúcia de detective para pequenos pormenores, como por exemplo evitar referir a uma mulher atraente que tem um botão da blusa desapertado, já que isso não só a iria embaraçar, como iria suscitar questões sobre pelos caminhos percorridos pelo meu olhar e estragar aquilo que parece estar a ser um bom dia para os dois. Por outro lado, muitas vezes não consigo perceber outras coisas que certamente são gritantes aos olhos do comum cidadão.

Este último facto, a par da conversa sobre miúdas e roupa, leva-me à questão da moda. Indivíduo primitivo que sou nessa questão, enquadrando-me no estilo “vestido sem nódoas e buracos”, não estou muito atento ao mundo da passerelle. Talvez por isso me tenha surpreendido ao ver mesmo aqui no centro de Lisboa um cartaz no Monumental Dolce Vita. Não é que não tenha já visto cartazes, tendo até tido a oportunidade de privar com alguns ao longo da minha vida. O que me intrigou no referido cartaz foi a combinação a frase-imagem.

Refere a frase que estamos na presença de uma fashion victim, enquanto a imagem nos mostra uma jovem moderna e divertida prestes a levar com dois regadores na cabeça, que entretanto lhe despejam água na cabeça, um pouco ao estilo dos saudosos concursos “Miss T-shirt Molhada”, assumidas referências de moda, pelo menos na Charneca da Caparica.

Embora, como já referi, não perceba muito do assunto, sempre pensei que ser “fashion victim” significava estar sempre atento a novas referências e comprar tudo o que consta dos cânones da moda. Das duas uma, ou posso anunciar em primeira mão a chegada do regador como acessório de moda, ou há algo que me escapa.
Sinceramente, preferia que fosse a primeira, tenho lá em casa um borrifador que fica a matar com um casaco de Verão que comprei.

Sounds from the catwalk - CSS, Alala

10.7.08

It's Alive, it's Alive

Perdoem-me a escassez de palavras, mas estou em economia de esforços para a festança de mais logo. Mais ou menos há 10 anos, lá estava eu prestes a baldar-me a um exame de Matemática no dia seguinte para ver estes meninos em Algés. Valeu a pena, com a limitação de haver quem tenha tido a brilhante ideia de que era melhor pô-los antes de Simple Minds...

Uma década mais tarde, o regresso exactamente no mesmo sítio. Eu sei que envelheci com grande categoria, apenas com ligeiros danos colaterais. Quanto a eles vamos ver.




Consta que até há mais umas bandas engraçadas antes. Não é mal pensado, servem de aquecimento.


Revolution sounds like this - Rage Against the Machine

8.7.08

Com trastes

A vida é realmente uma droga quando a heroína é a má da fita.

Pelo seu efeito costumeiro, a designação certa não deveria ser GameOver Dose?

Será adequado dizer que alguém que tenha deixado a coca chegou ao fim da linha?


Addicted to - Chemical Brothers, One too many morning's

7.7.08

Auto ajudem-me


Ter problemas é normal. Aliás, alguns dos maiores anormais que conheço é gente que parece não ter problemas de qualquer espécie. No entanto, não consigo compreender esta febre dos livros, cursos e teorias de “Auto-ajuda”, que a mim me parecem versões eruditas dos Professores Bambos e afins, mas em que o autor nem se dá ao trabalho de assumir parte da tarefa. Ou fazes tu ou não vais a lado nenhum.

Comecemos pelo nome que é auto-explicativo, embora a mim me faça sempre lembrar uma garagem que havia no bairro onde cresci, forrada a posters de qualidade e requinte que muito me auto-ajudaram a querer descobrir mais sobre o corpo feminino. Divagações à parte, o nome “livro de auto-ajuda” é auto-explicativo na medida em que muito provavelmente o autor escreve o livro para se ajudar a si mesmo.

“O ex-Segredo”, “Gordo é quem te fez as orelhas”, “Passe de rato a leão na cama” ou “Jesus liga-me porque eu não tenho saldo” são exemplos de obras que na sua grande maioria podem ter um fundo de verdade, assente no pensamento positivo e na vontade de lutar por um objectivo, coisas que qualquer amigo com dois dedos de testa vos podia aconselhar. Mas, acima de tudo, esta devoção pelo misticismo e a procura de gurus que têm quase sempre uma história trágica convertida em sucesso (alguém me mostra um autor desses que não tenha sido alcóolico, vivido na miséria ou perdido uma perna a caçar ursos) parece indicar que as pessoas consideram muito mais fácil olhar para o exterior à procura de soluções do que olhar para si próprias. E há sempre alguém com a solução, mesmo ao virar da prateleira.

É certo que nem todos podem ser trastes auto-confiantes como eu, que poderia viver numa barraca forrada a pacotes de leite por causa de dívidas de jogo e, mesmo assim, considerar que foi preciso ter coragem para abdicar da vida mundana com que a maior parte das pessoas se parece contentar. Contudo, procurar nas páginas de um livro que abusa dos pontos de exclamação ou num curso da Alexandra Solnado mais do que uns momentos de relax é um pouco como jogar dardos com os olhos vendados.

Essencialmente, não acredito nestes livros na medida em que também acho que nunca foi preciso alguém ler um livro “Auto lixe-se” ou “Arruine a sua vida em 30 dias” para conseguir isso mesmo. Se temos essa capacidade inata para um lado, também a devíamos ter para o outro.

Agora, auto ajuda a sério é votarem neste espaço de entrenimento ali no concurso da Superbock. Vocês sentem-se bem porque ajudam uma pessoa que sofre e eu sinto-me bem porque vos ajudei a fazer, pelo menos uma vez na vida, uma boa escolha.

Sons motivantes - Depeche Mode, Personal Jesus

4.7.08

2008 - Mau ano de colheita incendiária?

No meio de toda a gente que reclama dos preços do combustível, há uma minoria silenciosa que não aparece nos telejornais, não faz bloqueios nas estradas e nem sequer pode preparar um cocktail molotov em condições para receber amigos em casa. Refiro-me, é claro, aos incendiários do nosso Portugal.

Inicialmente, pensei que tivessem ido a empurrar o Camião da Galp com a Selecção até à Suiça, na expectativa de alguma retribuição em vouchers de desconto no abastecimento. Mas, como a selecção até foi amiga e voltou mais cedo e incêndios de craveira nem vê-los, comecei a estranhar.

Noutros Verões, por esta altura era vê-los já contentes a gravar os melhores momentos dos incêndios nos telejornais, a escolherem pinhais para lanchar com a família e depois incendiar à saída ou a irem ao Google Earth seleccionar matas para carbonizar à moda antiga. O preço do barril de petróleo veio estragar isto tudo, porque se é certo que ainda possível para o incendiário amador usar álcool, fósforos ou até mesmo (para os que frequentaram os escuteiros) dois pauzinhos para tentar criar aquelas labaredas que os excitam para mais que o site da Ana Malhoa (é preciso ser doente), não há dignidade incendiária na coisa.

Vai havendo um incêndio aqui ou ali, muito possivelmente obra de incendiários que têm a possibilidade de ir atestar o bidão a Espanha, mas nada de especialmente efectivo ou espectacular. Toda esta bola de neve, substância que, como se sabe não é propriamente amiga do incendiário, põe em causa o ciclo de verão de muitos portugueses. Para começar os políticos, que normalmente aproveitam o fumo dos incêndios para desaparecer uns meses e depois a malta das televisões, que assim tem de aproveitar para reciclar reportagens sobre um vitelo com duas cabeças que nasceu no Entrocamento ou as vantagens do Queiroz seleccionador com bigode face ao Queirós possível seleccionador sem bigode. Não será de estranhar se qualquer dia for apanhada uma carrinha da TVI a deitar fogo a uma mata qualquer, usando a Manuela Moura Guedes como atiçador. Finalmente, os comandantes de corporações de bombeiros pelo país inteiro vêem os seus minutos de fama ironicamente reduzidos a cinzas, já que o nosso país é pouco reconhecido em relação a acções de salvamento de felinos em árvores e idosos trancados em casa.

É isso mesmo que vos digo, um Verão sem incêndios em Portugal meus amigos é exactamente aquilo que é - uma seca.


Fire in the hole - Bloodhound Gang, The roof is on fire

3.7.08

Descuidados Intensivos

Nunca tive muito medo de hospitais, tive sempre muito mais medo de pessoas. Especialmente de pessoas em hospitais. Quer de pacientes, muitas vezes pessoas alteradas pelo sofrimento, capazes de qualquer tipo de reacção inesperada, quer do pessoal clínico e auxiliar dos hospitais com os quais, sem querer generalizar porque há muitos e bons profissionais, é sempre preciso alguma sorte.

É certo que os hospitais são alvos fáceis, não são como um restaurante onde se o prato não presta, pede-se o livro de reclamações e a coisa está feita. No hospital, quando a coisa corre realmente mal não és tu que pedes o livro de reclamações, essencialmente porque estás demasiado ocupado a preparar-te para o teu funeral.

Neste tipo de ambiente, a expressão todo o cuidado é pouco nunca deveria ser literal. É que as pessoas vêem o ER, o Dr.House ou a Anatomia de Grey e mais quinhentas séries sobre a matéria e ficam com uma visão romântica dos hospitais americanos. Ali, para além de traumatismos e cadeiras de rodas, há amor nos corredores, há médicos que quebram regras para salvar pacientes, há médicos e enfermeiros que não largam a mão da criancinha doente do primeiro ao último minuto, mesmo quando não há salvação.

Nas séries, as pessoas não ficam uma hora inanimadas no chão da sala de espera, enquanto ninguém mexe uma palha e os seguranças espreitam para ver que tapete novo é aquele na sala de espera, sem sequer se aproximarem. Não é suposto as pessoas morrerem assim. A indignidade supera qualquer argumento racional.

Chama-se a isto um reality-check e a realidade às vezes não doi, mata. “Sorte” que haviam câmaras e "sorte" que foi nos EUA, onde os advogados certamente vão fazer dos famíliares daquela senhora pessoas bem mais ricas. Mas nós já sabemos como são as coisas, já estamos habituados a ver séries de advogados há muitos anos.

2.7.08

Meter a colherada



Para quem julga que a política editorial deste blog (termos desconhecidos para o autor) está a ficar muito direccionada para o estômago eis a reacção - Vê-se mesmo que falam de barriga cheia.

Eu e a comida temos uma relação saudável: eu como-a, ela deixa-se comer, sempre sem azias de parte a parte. Como tal, aproveito para fechar com chave de ouro este ciclo de posts de alto valor nutricional com algo que me maravilhou mais do que os restos do Muro de Berlim - o Hamburger de Berlim.

Prestem bem atenção e vão ver que entrámos numa nova era de comida congelada. E eu e todas as crianças do mundo agradecemos.

Chillin - Vanilla Ice, Ice Ice Baby

1.7.08

Degusta São

Dou por mim, quase sempre a meio do dia, a pensar onde vou almoçar. Trabalhando no centro de Lisboa, a solução centros comerciais é sempre fácil e o resultado é quase sempre o mesmo. Como tal, evito-a sempre que posso, tirando se não for eu a pagar. Aí, como bom português o que a pessoa que paga escolher está óptimo.
Mas, o que tenho verificado, quando procuro sítio para encher o bandulho, é que começam as escassear os restaurantes corriqueiros de nome típico ou tradicional.

Cada vez mais a preocupação com a alimentação se confunde com o nome que dás ao teu boteco. Epá não podemos chamar Cantinho da Alice porque as pessoas vão pensar que só servimos bacalhau, dobrada e febras. Chamemos-lhe antes Spice’s Corner e assim servimos tranches de lombo de bacalhau com petit pomme de terre, cous cous de grão e especiarias ou miminhos de porco em cama de folhado de arroz.

Não sei se é isso que atrai a malta trendy empresarial, mas saindo do registo de tasca, nem as típicas foleiradas KomeAki ou PaparoKa parecem ser rivais para a febre dos nomes requintados e muito aspiracionais que muitas vezes revelam mais preocupação com a estética do que com o conteúdo do prato.

Essencialmente, lido bem com a era da imagem em que vivemos, em que mais vale parecer bom do que ser bom, desde que não me lixem a hora da refeição. Por isso, se és um jovem empresário na área da restauração e estás a olhar deliciado para a placa que diz Moods & Foods põe a trampa da placa no lixo e preocupa-te mas é em ter uma ementa com qualidade. E olha que deixares o nome da tua mãezinha na placa não é vergonha nenhuma.