30.6.08

Euro2008 - Os comentários fora de jogo


O meu elitismo intelectual, cultivado ao longo de anos nas ruas da Brandoa, não me permite alinhar pelo diapasão daqueles que consideram horrendo gostar de futebol. Eu gosto, eu vejo e ontem quase que comi um croissant com tortilla e pimentos (sim, vende-se disso no Corte Inglês) em honra de Espanha. No entanto, o único sofrimento que me atingiu ao longo destas semanas não foi o excesso de jogos de futebol na TVI, nem muito menos ver a nossa selecção cometer hara kiri futebolístico. O que me deu a volta ao estômago, para além do supracitado croissant, foi a praga verborreica do comentador/relatador de televisão.

Imaginem que entram numa padaria. É normal que aí se fale de pão, bolos e, ocasionalmente, do facto da Dona Laurinda insistir em fazer compras usando apenas um avental. Anormal seria que o padeiro vos dissesse que aquele pão de centeio é 85% das vezes usado para barrar com manteiga ou que na história da broa de milho, só por duas vezes foi utilizada como arma do crime. Para não falar da carcaça, que se tornou no último ano o pão mais representado de sempre em padarias nacionais e do pão da avó, que 88 anos depois da sua criação conseguiu finalmente ser usado para tostas mistas. É tudo informação muito interessante, mas satura facilmente quem só queria comprar um pão de Mafra e pôr-se a andar.

O problema dos comentadores deste Euro foi isso mesmo, a gula do conhecimento. A malta quer é ver pontapés no esférico, nas costas do adversário ou até na gramática por parte dos jogadores, temperado com alguns dados, mas ao de leve. A febre da estatística, do mostrar que se sabe que o Fernando Torres só usa cueca Abanderado e usa um champô com manteiga de karité (isto dava outro tema) 3 vezes por semana ou que o Ballack costuma tirar 7,5 macacos do nariz nos jogos da primeira fase e apenas 2,5 nas eliminatórias não leva a lado nenhum, tirando ao ridículo.

Teóricos do futebol comentado sempre houve, saravá ao Gabriel Alves, mas actualmente a febre estatística e pormenorizada leva a que compense muito mais ver o jogo ao som do último álbum do Quim Barreiros (tentando perceber se ainda é possível inventar mais alguma rima com inuendos sexuais) do que a descobrir que o Platini pesa agora mais 38 quilos do que no dia em que deu uma palmadinha no traseiro do Jordão, em 1984.

E assim cai o mito que futebol não é cultura. Pena que seja à custa da paciência de quem já vê estatísticas muito bonitas ao final do mês no saldo da conta.

Fora de jogo - The sounds of silence, Paul Simon

27.6.08

Deves, deves

Vivemos tempos difíceis e em Portugal muitas são as pessoas que vivem com a corda na garganta. Mais seriam ainda, se muitas delas não tivessem aproveitado para empenhar também a corda, sobrando agora apenas os atacadores dos sapatos para o efeito.
Mas, crise financeira conjuntural financeira á parte, estou para descobrir uma só pessoa, mas uma mesmo que diga – “Gosto de pedir dinheiro emprestado” ou “Não me importo nada de ficar a dever dinheiro”. É que, não havendo dinheiro, poderia ao menos sobrar honestidade. No entanto, com qualquer pessoas que me cruze, e tenho no meu portfólio de conhecimentos alguns cravas/caloteiros de gabarito, o ódio pela dívida, por quem deve dinheiro faz sempre parte do discurso. Já a prática, diz algo diferente, não podendo lixar bancos e instituições semelhantes, é sempre bem mais fácil lixar amigos e conhecidos…
Caso estejam a pensar que devo ter sido alvo de algum calote recente enganam-se, caso isso tivesse acontecido as minhas mãos não estariam agora no teclado, mas sim no pescoço do artista em causa. Esta é apenas uma situação que me irrita.

Notas no ar – Bros, I owe you nothing (sim, é castigo)

24.6.08

Muro das conclusões


Terminando o meu périplo por terras berlinenses, gostava de vos dizer que guardei o melhor para o fim. Infelizmente não o fiz, guardei apenas o fim para o fim. Tendo isso em conta, vou debitar sem demora o que resta para dizer da minha passagem por pequena localidade, que segundo o que consta tem apenas quatro vezes o tamanho de Paris.
Sossegando as mentes mais perversas, começarei pela oferta cultural mais alternativa de Berlim - a prostituição de rua. Já me tinha constado que era legal (esta última palavra tem um sentido exclusivamente jurídico), mas surpreendeu-me o facto de ter lugar em ruas movimentadas da cidade, lado a lado com restaurantes distintos e o facto das senhoras terem um ar respeitável e muito bem cuidado. De facto, só me apercebi efectivamente do seu ramo profissional quando achei que era demasiada coincidência que de 20 em 20 metros estivesse uma jovem sozinha à espera de alguém à entrada de um prédio entre dois restaurantes. Ora, por muito saudável que isso seja, acho que é algo enganador para com o consumidor que cá, pela mini-saia estrategicamente colocada dois palmos abaixo do pescoço, pelo ar de quem foi atropelada duas vezes e os tamancos certificados pelo Chapitô, não tem qualquer dificuldade em reconhecer a profissional do amor em qualquer rua.

A minha viagem também me deixou perceber quão injusta é a informação de que os velhos em Portugal às vezes são piores que os jovens. Na verdade, os velhos podem ser piores que os jovens em qualquer parte do mundo e Berlim serviu-me de exemplo. Sabendo eu que não faltariam voltas por museus e locais públicos altamente frequentados, descuidei-me e não levei na bolsa de férias o repelente de idosos mal-educados. Episódio de referência nesta matéria passou-se no Reichstag, o parlamento lá da terra, onde as filas para entrar, apesar de extensas escoavam com alguma rapidez. No entanto, um grupo excursionista de 6 ou 8 idosos possivelmente de Klingenhoffen Unter den Linden (o nosso equivalente a Valadares da Beira) achou que filas são coisa de papalvos e toca de trepar a escadaria com a agilidade de pequenos saguins até uma zona onde se lia em vários idiomas “ENTRADA PROIBIDA”. Dissuadidos pelo segurança que controlava a entrada, acharam que o percurso de regresso ao fim da fila era demasiado penoso e pensaram “Que tal descermos apenas dois degraus e ficarmos ao pé destes jovens com ar de campónios”. Apesar de ter o bigode feito, senti-me ofendido pela alegação mental dos idosos e pela sua atitude fasc…(resolvi ficar a meio da expressão, para não ferir susceptibilidades na zona). Por isso mesmo, tomei como missão impedir que vissem o que quer que seja à minha frente naquele edifício. O que se passou a seguir foi aquilo que o Paulo Ferreira devia ter feito ao Ballack, em vez de se ter limitado a ser empurrado como uma menina. Cenas de marcação intensa com idosos a tentarem passar à frente nas mais diversas áreas do edifício e eu a mostrar-lhe que há formas viris de bloquear passagens, mantendo algum graciosismo. Sim, sou infantil, mas com 1,85m posso dar-me a esses luxos.

Finalmente, uma breve palavra (para evitar imagens mentais aterrorizadoras) sobre o pessoal de cabine seleccionado pela Easy Jet em solo germânico. Não havia mais ninguém disponível ou o Carnaval na Alemanha tem lugar em Junho? É que o meu conceito de assistentes de bordo, embora lato, não inclui personagens saídos directamente da Passagem do Terror e do Clube de Fãs do Liberace.

E, por agora, de Berlim é tudo.(tirando a música, que fica pelo menos até amanhã)

23.6.08

Muro das satisfações



É verdade, estou de volta. Pensei sinceramente que sobreviviam mais de cinco dias sem mim mas, depois de verificar que haviam camionistas a fazer bloqueios na estrada, que as gasolineiras aumentavam os preços de embarda em sinal de protesto, que o Ronaldo ameçava tentar falar castelhano e que a selecção portuguesa ficou tão afectada que abandonou o Euro antes de tempo, resolvi acabar este pequeno interregno veraneante. Assim, se esta bandalheira continuar, pelo menos não me podem culpar a mim.
No entanto, resolvi aguardar uns dias antes de publicar este post pro-germânico, para deixar acalmar os cromos da bola. Essa sensatez só prova que a minha passagem por Berlim me deu novas perspectivas sobre muitas coisas, como por exemplo:

- Eles criaram as bolas, nós aperfeiçoámos a coisa. De facto, a bola de Berlim em Berlim não tem o mesmo encanto que a Bola de Berlim na Costa da Caparica. Podem mudar-lhe a cobertura, o recheio, mas falta-lhes o sol para lhe dar aquele toque gostoso, que faz a ASAE levar as mãos à cabeça.

- Seria de pensar que, entre um povo que levou pancada da grossa em duas Guerras Mundiais e numa cidade fatiada durante perto de 30 anos (coisas que convenhamos são ligeiramente piores do que ficar chateado quando o nosso clube perde), conseguisse descortinar aquela frieza que dizem ser típica do povo alemão. Nem vê-la, gente simpática e prestável por todo o lado (mesmo que respondessem em alemão a perguntas feitas em inglês), de tal modo que por uns dias até me senti como se fosse um estrangeiro no Algarve.

- Metro sem torniquetes – Nós evoluímos na tecnologia, eles evoluiram na sociedade. Coisa inconcebível por estas bandas, confiar que as pessoas compram os bilhetes, sem ter que pôr torniquetes, cancelas, sistemas de prevenção, etc. Não vi um revisor uma única vez, mas ao que parece os berlinenses acreditam que só têm a ganhar se pagarem, em vez de serem trafulhas. Faz sentido, a rede de transportes deles é um luxo, em termos de eficiência. Pelo sim, pelo não, como bom português que sou descobri um esquema lucrativo: a multa por viajar sem bilhete é cerca de 60€, a denúncia de alguém que viaje pode dar uma recompensa até 500€. O resto do esquema, partindo do princípio de que são duas pessoas é fácil…

- Custo de vida – Vendo o custo de vida em Berlim, a ideia de que é em Lisboa que se vive muito a custo sai reforçada. Uma casa no centro da cidade é mais barata do que em Lisboa (e não estamos a falar de uma barraca forrada a pacotes de leite), quer em termos de arrendamento, quer de compra. O preçário de restaurantes, desde o mais gourmet para o turista à roulotte das Bratwursts é mais barato. As compras de supermercado são ligeiramente mais caras, mas apenas em certos artigos, isto ao nível de bens essenciais. Não cheguei à parte do Tide e da cinta ergonómica, fica para uma próxima oportunidade. Consegui bater o meu recorde na relação preço-quantidade em visitas a museus. Para além de um dia em que os museus estão abertos até às 22h (sim, dez da noite) e a partir das 18h são à borla, a zona onde estão alguns dos principais museus disponibiliza um passe combinado de 12€= 6 museus. É overdose, mas é em conta. Por cá, não consegui ainda descobrir oferta semelhante, até porque como trabalho tenho dificuldade em, primeiro que tudo, encontrar museus abertos.

(continua, com temas tão interessantes como, prostituição de rua, velhos em Berlin, Low costs fazem mal à vista)

Sons do Muro (Porque com uma banda chamada Berlin estavam a pedi-las) Berlin, Take my breath away

10.6.08

Eu sou uma bola

Não me atrevendo a explanar o meu germânico com a fluidez aqui do jovem, mas esperando um aplauso idêntico aos que ele recebeu, então vou ali comer um pouco do muro e ver os restos da bola e já volto.

É só até final da semana, mas visto que nas Bermudas não era possível descobrir a diferença entre o mundo livre e o comunismo, tenho mesmo de ir aqui.

Sim, eu sei abandonar o país em tempo de Euro, sem ser para a Suiça/Austria é crime, mas eu sou assim, rebelde.

5.6.08

A Bíblia é uma pedra

Há uma dúvida que, a par das gasolineiras, me tem assaltado nos últimos dias. Sendo uma pessoa profundamente espiritual, dada à meditação e a outras desculpas válidas para não trabalhar, surgiu em mim uma interrogação de proporções bíblicas que passo a partilhar convosco, apesar de saber que há entre bloggers e voyeurs cibernéticos uma grande percentagem de hereges e excomungados.

Porque raio é que no âmbito da “mitologia” cristã nos referimos às Tábuas dos 10 Mandamentos, quando ao que tudo indica o jovem Moisés terá vindo da sua consulta com Deus munido de duas lajes de PEDRA com apontamentos e a barba chamuscada?

Estava a pensar nisso de olhos fechados ontem à noite, quando de repente senti um chamamento e vi uma luz. Ao que parece, já estava a ressonar e isso incomoda quem não consegue meditar tão profundamente. Resolvi então consultar o oráculo da sabedoria moderna, que dá pelo nome de Wikipedia, para resolver o que poderia ser uma má interpretação da minha parte. Na versão inglesa tudo certinho, a história de não cobiçar mulher alheia (e ao que parece o burro e outros animais de companhia) estaria inscrita em “stone tablets”.

Eis que converto o texto para a versão portuguesa e vejo “tábuas de pedra”. Apesar de não dominar as disciplinas de trabalhos manuais, vivi até hoje convicto de que tábuas eram sempre de madeira. Com o dicionário à mão, confirmo – tábua = madeira. Descobri, no entanto, outro dicionário onde à cautela também admitem tábuas como escrituras gravadas em madeira ou pedra. Yeah sure, vendidos...

Sabendo que Moisés era um tipo de recursos que, através de truques como as Pragas do Egipto ou a separação do Mar Vermelho (tendo inclusive inspirado Luís de Matos a seguir uma carreira como ilusionista em vez de revisor da Carris), acredito que fosse capaz de transformar pedra em madeira, mas dá-me ideia que o homem só gostava de números grandiosos, tipo transformar o CCB na Cabana do Pai Tomás.

Até ver, a minha opinião mantém-se. Tábuas de madeira é bonito, mas só se o tradutor abusou do vinho da missa.

Sons bíblicos – dEUS, Little Arithmetics

3.6.08

Informação Extra-ordinária

Na sequência do post anterior, eis outra prova de que o excesso de informação às vezes resvala rapidamente para o conceito “what the fuck?”.

Chopin afinal morreu de fibrose quística e não de tuberculose.

Não percebo a relevância desta notícia fora do círculo científico, da família de Chopin, da Associação de Pacientes de Fibrose Quística e de gente com tempo a mais, como eu. No entanto, creio que a Associação de Vítimas Célebres da Tuberculose já pediu uma contra análise ao coração do senhor, depois de saber da desfeita.

Clássicos do Som – Chopin, Opus pré-fibrose

2.6.08

Onde está Portugally?

Estou deveras preocupado. Há mais de 1 minuto e 18 segundos que não vejo nada na televisão sobre o que está a fazer a selecção portuguesa.
Será que o Cristiano Ronaldo conseguiu acabar de se assoar sem problema? Será que o Murtosa já descobriu que Sudoku e Euromilhões não se preenchem da mesma maneira? Será que o Deco cuspiu aquela grainha de uva que tinha presa na cavidade junto ao 2º molar?
Mas, acima de tudo, será que os portugueses que ainda não têm TV Cabo e afins se suicidaram em massa depois da tarde de ontem? Ou será que não estava em casa, porque andavam de cachecol e bandeirinha aos pulos?

Som de outra dimensão -Twilight Zone

30.5.08

Eu não vou dizer que não vou

Bastou eu começar com a habitual bazófia do “Ah, tu vais?” em tom desdenhoso, do “Epá, vai tu que eu não” em toada jocosa ou do brejeiro “Vai andando, que eu não vou lá ter” que as entidades superiores que controlam o Universo decidiram reunir-se para deliberar o seguinte: “Este ano, este palhaço vai”.

Vai daí, a minha vida mudou. Para onde quer que me vire há um bilhete que insiste em aninhar-se no meu bolso. Seja de prenda, oferta, brinde, sorteio, herança ou de castigo não há escapatória. É porque a tia vai ficar ofendida, ou a prima que não tem companhia e mais as dez crianças ucranianas cegas que precisam de um guia para poderem ir ouvir Boss AC & Vitorino; de todo o lado surgem imperativos morais que, conjuntamente com esta ideia de conspiração do destino, me levam a pensar que pode não haver outra solução.

Ainda hoje ao almoço, depois de ter fintado em corrida dois parentes de bilhete em punho apenas para ir parar aos braços de uma colega, que me veio dizer que tinha sido um dos premiados com um bilhete num sorteio interno, me virei para os céus e gritei: “Porquê eu?”, apenas para abrir os olhos e ver as nuvens formarem a frase “Porque sim”. Visto isso e dado que sempre fui um espírito rebelde respondi mentalmente em tom de desafio: “Ok, tudo bem, vocês é que mandam”.
Ia jurar que ouvi risos ribombantes algures.

No ir - Amy Winehouse, Back to black

29.5.08

How do you Phil?

Li algures que o Phil Collins ia deixar a música. Dizia ele que se vão acabar os concertos, os novos álbuns e as coisas do género. Vale a intenção Phil, mas parece-me que estás em clara fase de negação.

Para além de te agradecer o gesto, ainda que tardio, queria esclarecer-te acerca de um aspecto. É que, caso não tenhas percebido, foi a música que te deixou a ti e olha que já foi há uns bons anos.

E isso até um macaco percebe.




Monkey business - Phil Collins, In the air tonight.

27.5.08

A segunda dimensão


Para além de uma panóplia de benefícios, as minhas funções profissionais permitem-me, de quando em quando, ver o pôr e o nascer do Sol sem sair do sítio. A par dessa experiência divertida que é lidar com a privação do sono, estes episódios permitem-me descobrir alguns fenómenos interessantes, como aquele que passo a relatar.

Por volta das sete da manhã, resolvendo que talvez fosse altura de ir para casa, eu e o meu parceiro de trabalho decidimos fazer esse caminho a pé. Talvez pelo cansaço, ele não percebeu que essa decisão me favorecia, já que moro a vinte minutos do trabalho, ao passo que ele reside para lá daquela aglomeração de água a que se convencionou chamar Tejo.
De qualquer forma, a nossa primeira grande surpresa deu-se quando chegámos à rua - de facto, pessoas que fazem uma directa ficam com um aspecto muito pior quando vistas à luz do sol. A segunda surpresa surgiu com o facto de o meu colega conseguir andar, dormir e falar ao mesmo tempo fora dos cenários clássicos do sonambulismo. Pelo que me contou no dia seguinte também é capaz de o fazer a surfar, mas isso já me parece patranha.

Mas, o que me surpreendeu mais às sete da manhã, enquanto fazia calmamente o caminho inverso ao das muitas pessoas que já se encontravam na rua foi constatar que a fauna urbana é muito diferente às sete do que é às nove e picos, a minha hora habitual. Às sete da manhã há menos maquilhagem e glamour, menos estilo, menos ar de quem domina o mundo a partir do seu fatinho, menos ipods e menos óculos escuros de marca. Há mais olheiras, mais cansaço, mais feições crispadas, menos perfume e mais cheiro a produtos de limpeza. Se calhar, o que há mesmo mais é gente que realmente trabalha.
Sorte que o meu aspecto era enganador o suficiente para não desconfiarem. Sabe-se lá o que podia ter acontecido.

26.5.08

Rise and shine

Quando o elevador que nos leva até ao andar em que trabalhamos rejubila de alegria ao som de Venga Boys e o seu “We’re going to Ibiza”, pode-se esperar o pior do resto do dia…

Mute – Ainda a recuperar do choque matinal.

21.5.08

Flat Screen, Fat People

Não sei se já repararam mas, traço geral, as televisões tendem a ser cada vez mais magras e as pessoas cada vez mais gordas.

Non Stop - REM, Drive

19.5.08

Vinho eu, vinho eu…

Regressei agora de uma palestra formativa onde descobri que existem cada vez mais maneiras inovadoras de sacar informações às pessoas para as vender às empresas que, por sua vez, as usam para vender de tudo às pessoas (notam aqui um padrão?). No entanto, no meio de tanta técnica valiosa e metodologia futurista, houve algo que me pareceu destoar do cenário.

Não é que o ilustre orador avança com uma suposta “inovação” em que, por exemplo, uma garrafa de vinho num dado lugar interage com a pessoa que passa por ela, iniciando uma comunicação entre ambas. Se é certo que o propósito comercial da coisa possa ser recente, há muito que o diálogo entre os homens e as garrafas de vinho acontece, por vezes com consequências gravosas para os primeiros.

Quantas vezes não houve já quem chegasse a casa a horas tardias da madrugada, justificando o seu estado lastimoso à sua cara metade com “Eu vinha directo para casa, mas duas garrafas meteram conversa comigo e eu, sem saber bem como, acabei neste lindo estado”. Ou quantas relações homem-garrafa de vinho não acabaram já por falta de diálogo, deixando um vazio no homem que o obriga a contratar os serviços de uma bebida de leste.

Por isso meus amigos, não me venham com teorias. Modernidade tudo bem, garrafas de vinho que falam com a malta, isso é chão que já deu uvas…

Som de qualidade, naturalmente – Nat King Cole, Nature Boy

15.5.08

Tiro ao chefe

É certo e garantido em que não há um dia em que a figura do chefe não leve uns açoites. Não é caso dramático, muitas vezes é mais a figura do que o próprio chefe a ficar amolgada. No entanto, seja em que contexto for, o chefe é um alvo fácil, acima de tudo porque é isso mesmo "o chefe". Contudo, o conceito de autoridade, ao contrário do que os chefes pensam, foi feito para que os não-chefes (uma clara maioria, apesar de muita mania) tivessem um escape condizente com as frustrações do dia-a-dia.

Ter um chefe à mão de semear, para além de tudo o resto, é ter uma boa desculpa, uma óptima razão ou um excelente pretexto para fazer uma pausa e aproveitar para descarregar um pouco do que nos vai incomodando na companhia de outro não chefe, seja trabalho, conhaque ou um cocktail de ambos. Até o chefe mais virtuoso não está imune, pois junto com a chefia é atribuído um íman que, num dia mau, tem a capacidade de atrair um defeito a mais de 2Kms de distância.

Sendo não chefe, não posso obviamente deixar que esta prosa se torne chefe-friendly ou até pro-chefe, até porque na verdade não tenho pena nenhuma dos chefes. Todos eles, salvo raras excepções, foram algures no tempo não chefes e, se me é permitido um paralelismo starwariano, cederam ao lado negro da força. Ora tendo isso em conta, não podem agora esperar que tenhamos pena deles e achemos que nada mudou e continuam a ser um dos nossos, com a pequena diferença de que agora mandam em nós. Balelas, se nada tiver mudado então é porque não são realmente chefes.

Diz a lenda que dos não chefes não reza a história, o que é certamente uma frase inventada por chefes. E que os não chefes deixaram passar, apenas para depois poderem dizer "Já viste, fomos nós que fizemos a história toda e agora não só nos chamam fracos, como ainda por cima nem sequer vamos ter qualquer reconhecimento. É sempre a mesma coisa". De outra forma, não faz qualquer sentido. E podem dizer isto ao chefe.

13.5.08

Deus é informático


Diz-se que o Senhor criou o Mundo (e a Amadora) em seis dias, tendo descansado ao sétimo. Ora, apesar de omnisciente, certamente que Deus gostava de fazer os seus downloads, quiçá ver alguns videos da Beyoncé no Youtube e, como tal, nada melhor que uma tarde livre para isso.

Serve o prelúdio bíblico para falar de algo que reforça esta visão Deus-Informática: o facto de em muitas empresas/instituições (e não me refiro às de saúde mental) haver(em) informático(s) que age(m) como se fosse(m) Deus.O seu conhecimento técnico e a importância que os meios informáticos têm no dia-a-dia de uma empresa conferiu-lhes um tal estatuto que sem uma alimentação saudável e excesso de horas em frente ao monitor pode conduzir ao delírio.

O comum mortal é tratado com desprezo/condescendência quando obrigado a solicitar os seus serviços já que a máquina (computador em português normal) não reage sequer a insultos para voltar ao normal. Além disso, enunciam sempre um ror de tarefas cruciais para o destino da empresa, talvez da Humanidade que os vão ocupar nos próximos três dias e que só depois disso (com sorte) vão ter tempo para tratar de nós. Muitas vezes, quando confrontados com o facto de estarem a ler o “Record”, respondem através da linguagem encriptada, descodificável apenas com password de administrador.

Emails, tal como as tábuas de Moisés, chegam a nós com PROCEDIMENTOS QUE DEVEM SER CUMPRIDOS PARA A SEGURANÇA (os informáticos pensam que a letra grande facilita a compreensão do sentido da vida) e vêem no servidor um filho que vão sacrificar para redenção da humanidade, tal é o fervor com que o defendem e a tristeza com que documentam o seu sofrimento. O demo é visto atrás de cada email com anexos, de cada aplicação não validada, de cada ficheiro importado de outro computador. Cada utilizador é feito à imagem do seu programador, mas nunca alcançando a perfeição do mesmo.

Vendo bem, só há por norma numa empresa/instituição outra pessoa com tais responsabilidades e trabalho hercúleo, nada mais nada menos que o responsável financeiro, que ama cada nota como seu filho e sobre o qual se poderia escrever também uma bíblia.

Infelizmente, para muitos deles, a carreira como pianista de hotel em destino paradisíaco é um sonho que há muito ficou para trás.

Som divino – The Coasters, Down in Mexico

11.5.08

As fitas da queima

Este fim de semana decidi que era tempo de de analisar erros passados e telefonar a todas as pessoas que ofendi nos últimos anos, de forma a ficar de consciência tranquila. Depois de consultar o saldo do telemóvel e constatar que na realidade não tenho consciência nenhuma, em vez diss optei por ir passear a Coimbra.

Coincidiu esta viagem com a chamada Queima das Fitas, mais precisamente com o seu encerramento. Apesar de, a seu devido tempo, ter aproveitado todo o regabofe universitário a que tinha direito, nunca fui grande entusiasta de tunas, fardas de Conde Drácula e o chamado espírito académico tradicional, coisas que me aceleram tanto o ritmo como o Leonard Cohen.

Mas, Coimbra é Coimbra e dois dias depois posso dizer que retirei ilações valiosas deste périplo ao auge da festança estudantil. Por exemplo, a ideia de que as pessoas não investem na educação e largam cedo os estudos é errada, já que me cruzei com diversos "estudantes" trajados a rigor que me davam a ideia de já o serem na altura em que passou na televisão o original da Vila Faia. Um bem hajam por investirem quer no estudo, quer na recuperação da economia através da dinamização da indústria cervejeira.

Um aspecto que também considerei importante é que é muito mais fácil viver experiências como a Queima com o devido distanciamento da fase da vida em que somos estudantes. As vantagens de hotel vs dormir no banco de um carro com três pessoas em versão tétris humano ou jantar de faca e garfo vs comer trampa no recinto ou optar por não comer trampa e gastar tudo em álcool constituem não só um simpático burguesismo como um oportuno retoque na arrogância com que devemos olhar para qualquer biltre que se vire para nós e diga "Mas tu tens que trabalhar e eu não".

No entanto, posso sinceramente acrescentar que o momento mais emocional desta visita aconteceu não ao descobrir que os James ainda estão vivos e até lançam álbuns novos, mas ao resistir à tentação de revisitar o Portugal dos Pequenitos e estragar assim a memória do tempo em que eu visitava várias casas sem a agonia de ter de pensar em áreas, empréstimos e expressões fajutas como "cachet".

O som da tradição a sério - Carlos Paredes, Verdes Anos

8.5.08

Ponto de v(m)iragem

Quando uma jovem, aparentemente pouco mais nova do que eu, numa situação que dispensa formalidades se dirige a mim com os termos “O senhor isto”, “O senhor aquilo”, quer dizer que alguns cabelos brancos e a capacidade de articular um discurso correcto e palavras com mais de três sílabas me confere uma aparente maturidade?

Ou, por outro lado, deverei entender isto como um sinal que o meu potencial de enganar pessoas atingiu uma tal respeitabilidade que está no ponto certo para me poder começar a dirigir a bancos e instituições semelhantes ou até enveredar por uma carreira política?

É difícil ser cínico, quando as pessoas não são explícitas.


Conferindo (pouca) maturidade sonora – Violent Femmes, Gone Daddy Gone

5.5.08

LegoKea

Já muito se falou sobre o Ikea. Desde o conceito, à pronunciação do nome da firma, passando pelas procissões ao estabelecimento, pelos momentos de diversão proporcionados pela montagem de mobília chez nous ou até pelo facto do velhadas sueco que se lembrou de juntar as palavras design, mobília e barato estar nos 10 primeiros entre os mais ricos do mundo.
No entanto, aproveitando este fim de semana grande, resolvi conhecer melhor a localidade de Alfragide e descobri que não é preciso entrar no IKEA para experienciar a essência do humor nórdico.

Para quem não sabe, é no parque de estacionamento desta serralharia sueca que se passam grandes momentos. E com esta expressão não me refiro a vidros embaciados e espectáculos de contorcionismo. Tem tudo a ver com a junção entre dois símbolos da Escandinávia: Lego e IKEA.

Comprem pipocas, escolham um bom lugar e depois vejam como famílias inteiras tentam dobrar a avó em três para caber no banco de trás junto ao aparador Svandall. Ou como os pais explicam ao filho de 4 anos porque razão vai ter de ir de autocarro até ao Prior Velho, pois as cadeiras Monstrig e a mesa Olofund não sabem comprar módulos.

Esperem mais um pouco e a emoção não pára. Um jovem com dotes de matemático/engenheiro tenta convencer a namorada, de que o Clio tem espaço suficiente para levar toda a mobília de quarto que compraram. Infelizmente, ela não responde, já que o seu crânio foi perfurado por umas calhas Dimvig que o moço tentou enfiar através da bagageira. Apenas a 10 metros de distância, a estante Porkfund mostra toda a sua versatilidade, servindo de maca para o avô Fagundes, que tentou mostrar a sua boa forma e força para encaixá-la entre o andarilho da esposa e o tejadilho do Fiat Uno e falhou miserávelmente.

Finalmente, depois de tanto tempo, percebi que essa história do “Vá para for a cá dentro” pode realmente ser divertida. E nem sequer é preciso passar da porta.

Ecoando nos Fiordes - Royksopp, Remind me

30.4.08

Falo agora ou calo-me para sempre?


Quando alguém que conhecemos bem nos aborda e nos diz: "Epá, tu que até escreves bem umas merdas, não me queres safar o convite de casamento?", qual a atitude correcta a tomar:

a) Dado que ele é mais baixinho, devo intimidá-lo e forçá-lo a clarificar a expressão "umas merdas".

b) Dado que ele é mais baixinho, devo intimidá-lo e forçá-lo a clarificar a expressão "casamento".

c) Sorrir cinicamente, agradecer o elogio e, sem querer, falar com a noiva sobre a conotação merdas-casamento.

d) Aceitar na hora, a troco de poder usar um bigode falso e teclar músicas rústicas um Casio durante a boda.


São dilemas como este que podem estragar o meu fim de semana de 4 dias, mesmo aqui à porta.


Animando o casório - Kaiser Chiefs, Everyday i love you less and less