30.1.17

A velha e raquítica história do 'porque leio blogs'

Enquanto este perfil dormia, confesso que me afastei de grande parte do mundo dos blogs, seguindo a tendência de velhos conhecidos e pessoas com as quais interagia mais regularmente. Restaram alguns bastiões, a par de um ou outro ponto de nostalgia e revival.

No geral, conforme a convivência com o digital e a existência de novos formatos e redes sociais florescem, assistiu-se ao que é comum assistir nestes meios: os modelos ‘comercialmente’ mais viáveis são replicados à bruta, as novas áreas de interesse criam novas temáticas e os nichos continuam a lutar para continuarem nichos.

Contudo, ao atracar em alguns portos resistentes, entre a conversa de nostalgia a remeter para quando a blogosfera era um bar alternativo, em vez do centro comercial que é agora, ou a apologia de que se está a perder a noção do que é isto ou aquilo ao nível de teor de um blog, parece que estamos numa festa de cegos a queixar-nos de que a decoração é péssima. Sim, há razões de queixa, mas provavelmente o ponto essencial não é esse.

Sem merdas, nem metáforas, as três principais razões pelas quais as pessoas visitam blogs são, sem nenhuma ordem específica:


Voyeurismo – Quando se diz ‘ai, gostava tanto de ser uma mosca, para ver isto, aquilo e aqueloutro’, na versão digital diz-se ‘eu leio blogs’ (ou na versão café da esquina, ‘estive ali a espreitar no Face’. A distância que um ecrã cria, assim como a sua proximidade, fazem com que autores e voyeurs tenham nos blogs uma bela plataforma. Tudo bem que a verdade e a fantasia se entrelaçam muitas vezes, que voyeurismo, cusquisce e ‘schadenfreude’ se misturam tipo sangria mas, da mesma forma que as pessoas partilham coisas de si, da sua vida (muitas vezes sem noção do bom senso), as pessoas procuram isso, mesmo que assumam que é só numa perspectiva crítica, que antigamente era bom, mas agora já não vale nada, etc. Eu quando vou a um restaurante e sou mal servido, posso lá voltar mais uma vez para ver se foi azar. Se volto lá mais outra vez, das duas uma – ou ando a comer de borla ou estou interessado na vida de quem lá trabalha.

Capacidade de escrita (seja pela qualidade ou pelo tom) – Há pessoas que escrevem bem, há pessoas que julgam que escrevem bem e há quem, não escrevendo propriamente bem, pelo seu tom ou personalidade, consegue tornar um texto apelativo. Quem é que decide o que é boa escrita ou má escrita? Bem, os puristas podem dizer que isto não é uma decisão e que as pessoas não gostam de críticos, basta olhar para os de cinema. Também não se pode dizer que o público é que decide o que tem ou não qualidade, porque muitas vezes, razões de afecto e devoção fazem com que não actuemos de forma racional sobre determinados assuntos. Portanto, é difícil definir, mas acreditem, há muito que quem escreve bem se safa nas redes sociais e para além disso, sem que isso signifique riqueza de conteúdo, basta olhar para o Chagas Freitas.

Identificação de interesses – Se eu gostar de correr, há uma maior probabilidade de me identificar com um blog em que se descrevem as diatribes de quem corre. Se eu curtir enchidos, é muito natural que procure blogs onde se enchem chouriços. Se o meu mundo girar à volta de um deus-bebé, é provável que a maternidade possa constar entre temas blogosféricos da minha preferência. E por aí em diante, que a internet e esta conversa podem não ter fim. O que resumidamente se pode traduzir no facto de que o tema pode ser um fluxo de procura bem maior do que saber se a escrita é melhor ou pior. Obviamente, como em tudo, quanto melhor o produto for vendido, maior o seu consumo.

Podia ainda colocar-me com teorias sobre se uma maior predominância feminina domina ou não os blogs e afins, mas isso é outra cartilha que agora não me apetece desenvolver.

Basicamente, enquanto tudo à nossa volta muda, as bases são as mesmas e compõem-se dos ingredientes acima descritos, mesmo que em proporções diferentes para cada um. Dizer que agora é assim, mas antes era assado, que só se encontra cinzento quando se encontrava arco-íris antigamente é estar discutir toppings quando os sabores dos gelados não mudaram grande coisa.


Eu, de vez em quando, continuo a ler blogs, porque posso e se calhar gasto o tempo onde não devo. Mas isso, com um lençol de texto destes, já vocês tinham percebido.

26.1.17

Quando te batem à porta e é o Sr. Faz Favor



Não gosto que me batam à porta. Não é uma fobia, nem nada que me prejudique a vida, mas é uma antipatia, especialmente quando se trata da porta da rua e não estou à espera de ninguém.

Qual a pior coisa que me podem fazer depois de me baterem à porta e eu perguntar 'Quem é?'?
Responderem 'Faz favor', em tom de prolongamento de algo que nem sequer teve início.

Faz favor? Querem que eu abra a porta ao Sr. ou à Sra. Faz Favor? Querem que eu abdique da porta que nos separa por algum motivo e dê azo a uma conversa certamente desinteressante com esse argumento? Fico com pena de já não se fazerem portas com orifícios que permitam despejar azeite a ferver em visitantes inoportunos.

Mais disposto a, pelo menos, sorrir e dizer 'boa tentativa' se me batessem à porta, eu fizesse a pergunta mais comum do mundo e a resposta fosse 'Amigo, sou um mitra que lhe vai tentar extorquir alguns cobres com uma história mal conjugada e pouco credível. Vamos ajudar-nos mutuamente, poupar tempo e uma moedinha de 1Euro metida por debaixo da porta já não é um mau saldo para a nossa conversa'.

Mas não, seja para vender a palavra do Senhor, adesões à Fibra ou contribuir para o equilíbrio na balança comercial de estupefacientes, os batedores de portas continuam a apoiar-se no 'Faz favor'.
E eu continuo a suspirar do outro lado da porta.

25.1.17

Reencarnação é coisa pós-moderna

Não sei se acredito na reencarnação ou não. Por um lado, não quero saber se numa vida anterior fui um pastor que andava a afagar indevidamente ovelhas nas montanhas nos tempos de Viriato mas, por outro lado, não quero que as minhas acções contribuam para que um dia destes reencarne numa ovelha que ande a ser afagada indevidamente.

O que fazer?

Por todo o lado vejo palavras a reencarnar, uma padaria já não é uma padaria, apesar de ainda ser uma padaria, gourmet deixou de ser gourmet porque se tudo é gourmet então nada é gourmet. Por todo o lado vejo pessoas a reencarnar nas redes sociais, em blogs e em existências que se interligam em sucessão. Por todo o lado vejo o dito por não dito virar veredicto da incoerência coerente.

E se eu reencarnar sem deixar de ser aquilo que continuei a ser noutros lados?

Bela merda de ideia arranjaste tu para divagar numa quarta-feira de inverno que já cheira a chuva. E nem o palavrão que usaste para a temperar a torna mais atraente.