2.5.14

Obrigado por terem vindo, adeus e até à próxima



Sonhei que tinha ido a uma festa de despedida, daquelas onde mesmo quando a lua já vai alta não há horas perdidas. Podem pensar que tenho macaquinhos no sotão mas às vezes as coisas são mesmo assim, um desassossego constante, esteja acordado ou a dormir.


A essa festa fui de fato de treino mas esse facto não me impediu de debater livros com quem deles percebe, mesmo com o ruído surdo da música que transforma toda a conversa numa festa numa sequência de gritos bem intencionados. Também falei de futebol, mesmo que por vezes pareça coxo na matéria, há sempre alguém que escuta e isso é bom. Mesmo durante um sonho não seria uma festa se não fossem servidos acepipes, embora quando um tipo se apresenta ao meu estilo não pode desconfiar quando lhe servem pipocas de todos os gostos e feitios e o empregado, fã de gourmet, diz que se reparar, machos e fêmeas da espécie têm sabor diferente. Felizmente, para o povo, também havia caju, amendoim e refrigerantes com gás, para sermos todos muita malucos.


Não faltaram figuras históricas, algumas grandes e com raízes na Macedónia do lado da mãe e houve até quem me pedisse desculpa por se apresentar à paisana, coisa que perdoei na hora, visto que na festa havia quem se apresentasse em roupa interior rosa ou até de saltos altos. Apenas de saltos altos acrescente-se. E não me estou a referir ao meu irmão gémeo, que esse é sacana, mas não chega a esse extremo.


Piratas também foram avistados, tal como outras criaturas míticas, ao exemplo de trolls e outros seres que, perdidos pela cidade, vieram ter ao sonho mais badalado do dia. Certamente não eram alérgicos a feno, porque comeram toda a decoração feita desse material e não ficaram com febre o que, por momentos, me levou a querer gritar “Oh my dog!!”. Felizmente, não sou uma lady e também não me comeram o cão, o que foi uma vantagem, porque é de loiça.


Muitos dos que vieram preferiram manter o anonimato, brindei com eles à mesma, porque essas pequenas coisas não estragam grandes momentos. No sonho estavam mulheres, homens de vários tipos, incluindo D. Havia quem corresse para ver a próxima animação e quem corresse só porque sim, até porque nos sonhos se tudo fizer sentido a coisa não tem tanta piada.


A minha única angústia, ao longo de todo o sonho, foi saber que haveria sempre gente na festa que eu quereria cumprimentar e me havia de esquecer ou não conseguir chegar até elas. Portanto, projectei um raio de sol a partir da minha testa, aproveitando o facto de ter comprado o Pack Sonho Mirabolante e agradeci-lhes por terem vindo. Espero que soubessem ler, senão foi dinheiro mal gasto, que aquilo estava escrito em gótico flamejante.


Ainda assim, fiquei sempre com a certeza que este era daqueles sonhos que dava para editar, se houvesse necessidade, até porque sonhos recorrentes é coisa que dá para conversa de bar e de sofá de psicanálise. Acenei para a multidão e disse-lhes para experimentarem enviar-me mails se lhes apetecesse para ver se o servidor do subconsciente estava a funcionar. Pensei em soltar uma lagriminha, mas o pack mirabolante não inclui finais dramático-sensíveis.


E, sendo assim, depois acordei e fui-me embora.

1.5.14

As pequenas coisas do meu eu



Acredito que não nascemos para saber tudo, porque se assim fosse seríamos sempre absolutamente e aborrecidamente confiantes e, pior do que isso, teríamos boas razões para isso. No entanto, há a tendência para que me esqueça regularmente dessa crença quando dou por mim a pensar que sei tudo sobre determinado assunto.

Sou expansivo, mas defensivo, algo que é natural porque também acredito que não devemos presumir que as pessoas são boas até prova em contrário. Prefiro a teoria da tábua neutra, em que o comportamento e atitude das pessoas ditará o lado da fronteira para que irão. Perderei um pouco por ser assim, ganharei outro tanto, faz parte do jogo.

Quando corro, sou o meu maior apoiante e o meu maior adversário. Faz parte da minha natureza competitiva, mas também do reconhecimento das minhas falhas. Ainda assim, sempre preferi desportos de equipas, por achar fascinante que partes que não são as melhores individualmente podem superar a soma do seu valor quando actuam juntas.

Plantação de árvores à parte, ainda não escrevi um livro nem tive um filho. Como tenho a mania dos épicos, se calhar tento fazer as duas coisas num só dia. Nos entretantos, fiz outras coisas que nem toda a gente se pode gabar. Mas não me vou gabar disso, para não ser como toda a gente. Modéstia, eis outra das minha virtudes.

Não gosto de dizer que antes é que era. Prefiro acreditar que amanhã é que vai ser. Assim, pelo menos fico com o dia de hoje livre. E ainda são uns belos 10 minutos.


Hoje é o último de festa mas nada bate uma despedida ao jeito de ressaca do dia seguinte.
 

Idiossincrasia galopante

No dia em que um gajo está para correr daqui para fora, começa por ir lá fora correr e vem falar disso cá dentro.

Nada bate uma corrida do 1º de Maio, para andar a correr pelo meio de Lisboa a destilar com o calor e continuar a achar tão refrescante a raiva alucinada que tanta gente tem para com esses demónios que correm e lhes fecham as ruas, não deixando que os seus popós circulem livremente durante umas horitas.