30.4.14

Why don't you do right, like some other men do

Hoje, a Jessica veste de preto.



Adeuzinho Bob, o Roger manda saudades.

(não tenho nenhuma citação ou experiência de vida mais sapiente para partilhar. Estou a guardá-las para o Morgan Freeman e o Tenzin Gyatso)

Racismo, bananas, bananas racistas e outras coisas que mexem comigo









Vistas bem as coisas, para além do que é sempre positivo numa campanha que fala contra algo que continua a minar a sociedade, aprendi duas coisas:



A)

O racismo continua a merecer derrota pesada, mas a espontaneidade viu um golo anulado:



1-0 para algo muito bem aproveitado e com um fim útil

0-1 para quem ainda acredita cegamente na espontaneidade das coisas







B) Posso estar a alucinar mas há parecenças entre o Daniel Alves e o Robbie Williams








Contudo, ao nível de racismo, para um tipo que como eu é fã de basket, esta foi a notícia que deu o exemplo de como, às vezes, os americanos sabem como tratar das coisas:





- No final da semana passada o dono de uma equipa da NBA foi apanhado ao telefone a fazer comentários extremamente racistas, pedindo à namorada para não trazer "pretos" aos jogos da equipa dele and so on. A juntar a isso, o senhor já tem um passado conturbado na matéria.



- Em poucos dias, com a sua equipa envolvida nos playoff (onde do treinador a 90% da equipa é tudo black), a coisa espalhou-se de tal forma que até o Obama comentou e condenou a situação.



- Ontem, menos de uma semana depois, a NBA já se pronunciou sobre o assunto, banindo-o para a vida de qualquer associação/presença em eventos/jogos da liga, incluindo os da equipa de que é dono. E toma lá mais 2,5milhões de multa, que revertem para associações de combate ao preconceito/racismo. E, se tudo correr como previsto, será tomada uma decisão no sentido de o forçar por vias legais a vender a equipa.



Justiça célere e eficaz numa matéria sempre complicada. Ora aí está algo que, desta vez em bom, também se pode dizer "Só na América"...



Para quem como foi o meu caso teve uma boa carga académica de ciências sociais, acaba por ser triste ver que a realidade continua muito separada do campo teórico, em que ciências baseadas em desigualdades raciais se extinguiram pelo facto do seu próprio campo de acção não existir tirando na cabeça de quem os defendia. O problema é que a realidade está longe de ser científica e o racismo continua vivo em todos os corações e cabeças que acreditam que é o exterior que diferencia as pessoas e não o que vai lá dentro. Seja na América ou muitas vezes, numa sala onde estamos rodeados de gente que pensamos conhecer.

29.4.14

Por um futuro menos gourmet



Lembro-me de em tempos ter recebido um briefing para um trabalho em que se posicionava uma dada marca se posicionava como “Fashion, trendy e sofisticada” e isso, só por si, causou-me azia. É difícil acreditar em valores auto-reconhecidos a partir de factores que são atribuídos por terceiros. Quanto mais projectados, mais cheira a snobismo de trazer por casa.

Não é à toa que é comum a teoria que diz que uma marca/serviço/personalidade não é aquilo que ela diz ser, mas sim o que o Google diz que ela é.

Partindo daí, mesmo que ele exista, já não consigo conceber mercado para mais uma hamburgaria gourmet, para mais um quiosque que tem algo que é “o melhor do mundo”, mas que é feito da forma mais tosca possível e um qualquer conceito que já foi replicado mais vezes que a Academia de Polícia.

Gourmet e Tradicional já rodaram mais que certas veteranas ali na zona do Técnico mas, enquanto a clientela for encostando, porquê parar?

Fico à espera dos toques originais que vão quebrando o marasmo. Mesmo que já só faltem três dias de festa trendy, salpicada de laivos gourmet em cama de sofisticação rústico-tradicional.

Sou alérgico a diminutivos e à loucura da roupa técnica


Creio que já referi que não tenho segundo nome, nem no BI nem na versão blogger. Portanto, é natural que não me chamem Mak Manuel ou Mak Alexandre ou até mesmo Mak Maria, isto em versão blogger beto.
Acrescentando outra informação, tenho uma certa aversão a diminutivos, não é trauma de infância nem desgosto amoroso recalcado, é mesmo uma reacção alérgica. Portanto, qual não é o meu espanto quando hoje, depois de correr, retiro a minha tshirt técnica (mais sobre isto adiante) e vejo isto...



É basicamente o destino a roçar-se na minha pele e a gozar comigo. Lidarei com isto com calma e com uma tesoura. Makito é coisa de urso de peluche, não de corredor barbudo.

Quanto à roupa técnica, como em tudo em que há especialização, a loucura apresenta-se como uma opção óbvia. Vi ontem à venda um corta vento todo kitado para a chuva. Segundo os senhores da marca que se fazia cobrar, tinha uma técnica de impermeabilidade inovadora, uma leveza extraordinária e um interior criado para aumentar a circulação do ar. Ah e custava 129€. Resumindo, excelente texto sobre vantagens teóricas condensado na etiqueta, péssimo preço para a carteira. Se há vontade de correr à chuva, investir em grande para evitar a máxima “Quem anda à chuva molha-se” parece-me um desperdício.

Ainda por cima a etiqueta nem sequer tinha um diminutivo...

28.4.14

Colher rosas à meia noite

O jardim está lá atrás. Fiquei a dever umas aspas ao jardim, porque a sua dimensão não lhe permite ser levado a sério como tal. O tratamento que tem também não, tal o desleixo que faz com que os cuidados devidos de hoje se tornem nos cuidados em atraso de amanhã.

Ainda assim, o jardim a quem deviam crescer aspas vê, em vez disso, crescerem-lhe rosas. De várias cores, em vários sítios, como se a natureza se risse por cada vez que a um jardineiro inapto calha um quinhão de terra.

Inapto serei, jardineiro ainda menos do que isso mas, quando a situação assim sugere, não há como descer as escadas já a noite vai avançada, colher algumas rosas e transformar inépcia num dado terreno em resultados que dão frutos noutro.

A vida é feita de altos e baixos. Os trails também.



Ia aproveitar a ponta final aqui do tasco para falar sobre mim mas, no entanto, isso causa um dilema - é suposto a coisa terminar em alta e não com um bocejo.
Portanto, para tornar a coisa mais suportável, vamos falar antes de corridas e de cenas da vida – duas coisas que, tal como as hamburgarias gourmet, são trendy e podem causar irritação aos outros.

Sexta feira, dia de revoluções, resolvi também revolucionar a minha experiência de corrida, inscrevendo-me num trail lá para os lados de Alhandra, desconhecendo completamente o terreno/relevo para além do que os mapas de corrida mostravam. E os mapas de corrida são como certas senhoras maquilhadas, podem ser algo enganadores.

Para a pessoa normal, alheia aos dramas dos maluquinhos da corrida, correr junto ao rio ou fazer subidas no meio da cidade pode parecer pouco diferente de ir correr noutra paisagem qualquer. Mas isso é como alguém que tem um corte num dedo dizer que aquilo é exactamente igual a partir a cabeça ou alguém que está triste confundir a coisa com depressão. Tudo muda.
Longe de dezenas de milhar, como por exemplo na meia maratona da ponte 25 de Abril, aqui os corredores não chegavam a 200. Logo à partida o sentimento de comunhão é bem maior, mesmo que depois da partida saibas que cada qual lidará com os seus problemas à sua maneira. Era fácil perceber que a organização era constituída pelo núcleo duro das pessoas daquela pequena localidade e que para elas não se tratava de um frete, era um evento que levava à sua terra pessoas de vários sítios e, ao seu jeito natural, tratava-se da arte de receber bem, tantas vezes esquecida em tantos sítios.

Dá-se a partida e, menos de cinco minutos depois, estás a deixar a localidade para trás. E, no meio de uma prova, estás a andar, porque as subidas iniciais são tão íngremes que correr não faz sentido e não é só para ti, é para 98% dos participantes, Aguentar nas subidas, correr quando a elevação deixar e rezar. Rezar ao que te apetecer, nem que seja ao deus das temperaturas, para que a coisa não aqueça e junte calor a um percurso que, só por si, te deixa em brasa. Ah, mas se sobes, também deves ter o benefício de descer, voar entre canaviais.
Em teoria sim, na prática, se a descida for técnica, cheia de calhaus, buracos, lama, curvas, escarpas, descer é tão desafiante como subir, porque a velocidade que  atinges tem que ser controlada e reduzida, para não ficares feito num molho de brócolos.
Pelo meio, água, espinhos nas mãos, abastecimentos de categoria e a vontade de lá ficar sentado uns minutos só para ver essa vontade domada pela consciência de “És tão estúpido. Se parares aqui nunca mais te levantas.” E lá bebes uma água, trincas uma fruta e adeus até à próxima.

Conforme os quilómetros vão passando, a tua noção de distâncias vai sofrendo alterações – uma subida de 400 metros passa a “aquilo era praticamente o Everest” e uma descida moderada com algumas pedras ao longo de 1km passa tecnicamente a “Epá, aquilo era um Grand Canyon, um passo em falso e era morte certa”. Quando te aproximas novamente da localidade e da meta, o pessoal da organização tenta motivar-te e, apesar de ter tido a sorte de ter ido com um amigo por perto até ao fim, já nem queres saber de incentivos – queres acabar e queres pisar alcatrão, plano e previsível.

Nos últimos metros, lá consegues a maior proeza – sorrir e dizer uma graçola ao amigo que te segue. És inteligente o suficiente para saber que és masoquista o suficiente para voltar a fazer uma destas.




27.4.14

Seis números, zero estrelas



6 era o número de irmãos que tinha, embora só dois fossem de sangue. 13 o seu número da sorte, já que não acreditava no azar, 28 o número da porta da casa onde um dia ia morar, 33 a idade que queria ter para sempre, 37 o número que a sua Cinderela calçava e 42 o autocarro que o atropelou quando ia a caminho de entregar a combinação vencedora daquela semana.


26.4.14

E depois do adeus ao espírito de ontem

Para além do mato todo, das serras feitas de encostas onde até mentalmente era difícil subi-las e das descidas onde não havia medo porque ia mais depressa do que ele, nem só de trail foi feito o dia de ontem. (apesar de hoje as minhas pernas me dizerem que o dia de ontem foi todinho sobre isso)

Vi muito revolucionário por aí, alguns nas ruas é certo, mas aí a coisa é pouco futurista e digna de quem vive o presente com um olho no passado. Onde os vi mais foi nas redes sociais e, não questionando o espírito de muitos, questiono alguns dos que conheço em pessoa e nunca os vi mais próximos do 25 de Abril do que, por exemplo, de um 30 de Junho ou de um 24 de Agosto. No mundo virtual palavras bonitas, citações airosas e um cheirinho a cravo nas fotografias que desfilavam na avenida das redes sociais. No mundo real, pouco desse espírito vive para além do momento e as preocupações do povo desaparecem num mar de lugares comuns e de personalidades bem longe do que o espelho mental apregoa.

Não sou eu o melhor exemplo, mas também não tento passar por isso. Afinal de contas, hoje também não estou preocupado com o "espírito" que fica melhor tentar transmitir a 26 de Abril, a 27 e por aí em diante até à efeméride seguinte.

24.4.14

Guia prático para identificação de bairros perigosos antes de entrar neles




São muitos anos a palmilhar as ruas, a identificar perigos, a fugir de cães e a fugir de pessoas que vão a fugir de cães. Até o velho truque dos tempos de puto - se estão dez gajos a vir na minha direcção, vou já desatar a correr e assim, mesmo que não seja nada de mal, já vou lançado.



Já testemunhei assaltos que começaram com “Ouve lá, queres trocar de ténis comigo?” “Eu? Não...”, “Ok, então passa para cá os teus e vais descalço”. Já fui a bairros com “salvo-condutos” dados por amigos, mas também já fui a bairros com um “salve-se quem puder” colado nas costas. Ouvi testemunhos de bairros onde as pizzas não eram entregues porque as motas eram roubadas mal paravam e onde o tráfico de droga era tão comum que quando batiam à porta havia já quem respondesse: "Se é para comprar droga, é no 1º Esquerdo, este é o Direito".

Estas e outras histórias são como as ruas estreitas de certos bairros, nunca se sabe o que vai acontecer a seguir e, a cada curva, o perigo ou a noção do mesmo espreita.



Apesar dos tempos mudarem, as urbanizações crescerem e o que hoje é verdade amanhã é terraplanado para dar lugar a outra empreitada, deixo no entanto importantes dicas sobre como identificar bairros perigosos sem ter necessariamente que entrar neles – analisando a sua nomenclatura.



Sinais de perigo:





Bairros com nomes de animais, em especial aves – Sejam Pica-paus, Mochos, Cabras Cegas ou Cães de Loiça, um bairro com nome de animal não augura nada de bom, tirando confusão e macacada.



Bairros com cores no nome – Sim, o Bairro Azul é bonito em Lisboa, mas em vários sítios Amarelo, Laranja, Preto, Vermelho não são apenas nomes conjugados, podem ser o espelho de que vamos borrar a pintura se nos aventurarmos se as devidas precauções.



Bairros com datas no nome – 13 de Janeiro, 2 de Maio, 31 de Julho ou 5 de Dezembro não são apenas datas que assinalam efemérides, são muitas vezes um alerta sobre como o dia em que lá passarmos vai passar a ser outra data que não esquecemos tão depressa.



Charnecas sobreviventes – É certo que esforços imobiliários têm contribuído para a extinção de Charnecas a torto e a direito mas, onde há uma charneca, há potencial para confusão. O que nos leva ao ponto seguinte.



Bairros que descrevem no nome a topografia do local onde se situam – Falamos portanto de Altos, Colinas, Morros, Pedreiras, Mina, Covas e por aí em diante. O interesse pelo relevo nacional é de louvar, mas será que compensa fazer disso um acidente no nosso percurso?







Nota1: Obviamente, quando um bairro cruza várias destas características, o potencial de perigo pode aumentar exponencialmente.



Nota2: Existem excepções, algumas delas óbvias. O meu conselho, em caso de dúvida, é contornar primeiro e comprovar depois.

Nota3: Falta uma semana de festa.

23.4.14

Da falta de água, à falta de atenção, à falta de noção

Comecemos por ver um projecto que, embora já não seja recente, vale a pena tanto pelo objectivo final, como pelo raciocínio por detrás do mesmo (embora seja ligeiramente triste que o exercício respresente um esforço, prova de que o nosso foco está a mudar):




Agora pensemos na realidade - será que, a par do álcool e do tabaco, telemóveis/gadgets também já entram na categoria de vícios legais? 
A fixação revela-se a meio de reuniões de família, almoços de amigos, desabafos de casais, apresentações onde a nossa atenção, mesmo que falsa, é bem mais válida do que uma cabeça ligeiramente curvada, em busca de algo mais num pequeno visor. Preterimos a companhia presente em função do mundo à distância, da suposta actualização que pode nunca acontecer. Vive-se em scroll mental infinito.

Se eu pudesse, fazia uma app que gerasse um shutdown/bloqueio de conectividade à minha volta em cenários sociais, estilo bunker de altas patentes, em versão light. Talvez nem tudo fosse melhor, mas seria um exercício sociológico deveras interessante.

Hoje vim assim

Misturar um casaquinho felpudo, um penteado irreverente e uma actividade altamente cool.


22.4.14

As realidades paralelas do teu nome

No exercício narcisista do dia pesquisei o meu nome no Google, só para ver como paravam as modas. Fiquei a saber que se o resultado de topo tivesse realmente a ver comigo, faz já algum tempo que fechei um acordo milionário, vendendo o meu negócio de família a uma multinacional na área da alimentação.

Parece que o meu irmão ficou ligeiramente chateado comigo, mas pouco havia a fazer, até porque eu já tinha comprado a parte dele há alguns anos. No mundo dos negócios das realidades paralelas é assim, o dinheiro fala primeiro, a família fala depois. De repente, fiquei preocupado, tenho que aprender a jogar golfe rapidamente, pois posso ter envelhecido mais de trinta anos em menos de dez linhas, mas fiquei com muito tempo de qualidade para gastar.

Decidi também pesquisar este nick que vos escreve. Levei com o meu Facebook e com o blog logo a abrir. A minha realidade paralela é mais verdadeira comigo do que a realidade paralela a partir do meu nome verdadeiro. Ainda bem que não sou dado a psicoses.

O elixir da eterna juventude da tanga


Tenho-me deparado recentemente com vários anúncios deste género:




Isto é a clássica fórmula Antes/Depois, que há tanto tempo faz parte da doutrina da publicidade manhosa. A diferença é que agora, em pequenas versões online, a coisas assume proporções (ainda mais) disparatadas.

A senhora do antes, por muito que tentem, não parece ter 57 anos. Parece em mau estado, é certo, mas a verdade é que foi fotografada com má luz e lhe realçaram tudo o que havia para piorar o cenário. Não me surpreendia que tivesse andado a beber minis até às tantas no Marquês e tivesse batido umas chapas no dia seguinte.
A senhora da direita, independentemente de poder ser ou não a mesma, também não parece ter 37. Tenho algumas amigas nesse escalão etário que parecem ter menos dez anos e não me refiro à idade mental, nem a fãs do fitness-spa pós-moderno. E não se trata da cena do cabelo cinza, nem do foco de luz e do efeito blur para “amaciar” nuances da pele. É todo um certo ar de conformismo e dor contida, mesmo com uma seta vermelha espetada na testa.

Mas a parte da imagem é apenas divertida, uma espécie de “descubra as diferenças” com um twist. Quando chegamos ao texto, é todo um exercício de motores de tradução automática, português professorbambesco e incoerência de substâncias ilícitas na corrente sanguínea.

“O truque que descobriu uma ama de casa vai surpreender-te”

De repente percebi tudo, isto é um alerta para mães – não se trata de um creme mágico, uma pomada milagrosa ou uma dieta suprema – é tão simples como descobrir uma ama para tomar conta dos miúdos. Tiram-te logo 20 anos de cima.

Será? E se foi um truque descoberto por uma ama de casa, algo bem mais respeitável do que uma ama de rua, que a torna bem menos caseirinha e mais fã de regabofe? Mas, será um truque de Photoshop, em que na realidade ela continua tão apagada como dantes, mas sendo uma ama com competências cibernéticas, disfarça tudo em casa para conseguir mais entrevistas de emprego?

Mais do que surpreendido, fico baralhado. Especialmente quando depois de já sermos amigos, de já nos tratarmos por tu e de eu querer efectivamente saber mais sobre um truque de uma ama de casa que passa a ferro caras como se fossem lençóis de flanela, de repente entra a frieza do “clique aqui”.

Um distanciamento que me faz pensar se isto afinal é um esquema de sedução, para que o meu clique tire anos de vida à senhora e mos aumente a mim, via falta de paciência. Na dúvida não clico, prefiro ir ao outro banner bem mais fidedigno que me pergunta com que idade acho que vou morrer. Espero bem que a ama de casa não faça também biscates como vidente.

21.4.14

Simbolismo kardashiano

Há quem saiba explorar as imperfeições do sistema, convertendo falhas em vantagens próprias. A troupe Kardashian é, por si só, um exemplo disso e Kim é o expoente maior dentro do clã. Podemos gostar mais ou menos, comentar atributos, exaltar defeitos ou simplesmente não estar nem aí. Não creio que isso seja algo que choque a própria, já que o mediatismo que gera é o dínamo da sua própria “ascensão”. Reza a lenda que, ainda longe do reality show familiar, a jovem Kim gravou uma sex-tape com o seu namorado da altura já a pensar no possível benefício mediático que daí podia advir. 

Quem pensa assim pode ser muita coisa, mas tolo não é de certeza. No entanto, numa produção fotográfica recente, li que Kim foi convidada a replicar uma cena icónica de uma das mais idolatradas e esteticamente referenciadas figuras de sempre – Audrey Hepburn. Não é sacrilégio, mas é como dizer que Cristiano Ronaldo de smoking é tal e qual Cary Grant. 





 E sendo assim, é aí que eu perco as referências e invisto nas analogias idiotas a la carte, porque o melhor rissol de leitão, por mais retocado e cuidado que seja, nunca será magret de pato. E cada um terá o seu papel e os seus apreciadores, deixando apenas de fazer sentido se nos tentarem fazer passar um pelo outro.

Um furacão que desaparece, uma história que continua viva





Não sou o maior fã de Bob Dylan, sem que isso belisque minimamente o seu papel no mundo da música e da cultura. Contudo, ao saber hoje do desaparecimento de Rubin “Hurricane” Carter, pensei imediatamente na música que lhe é dedicada pelo Dylan.

Só tomei consciência do caso de “Hurricane” Carter quando vi o filme homónimo com o Denzel Washington, que lhe valeu nomeação para Melhor Actor. Para quem não conheça, resumidamente, é a história de um pugilista relativamente famoso que é incriminado injustamente num incidente com homicídios múltiplos e vai parar com os costados à prisão, onde passa anos a fio. Ao longo desse período, num processo criminal pleno de incongruências, é culpado, depois absolvido, novamente culpado até finalmente ser libertado. Pelo meio, lá se vai uma boa fatia da sua vida.

Para além do processo de vida e evolução da personalidade de “Hurricane” perante aquilo que é para mim das maiores injustiças que se pode cometer perante alguém – tirar-lhe a liberdade de forma indevida, a verdade é que assistimos à transformação de Rubin Carter em alguém em paz consigo mesmo, sem espírito de vingança mas disposto a lutar para evitar que erros assim se voltassem a cometer.

E quando vemos um artista como Bob Dylan, que chama a atenção para esta injustiça com uma música onde, com as letrinhas todas explica o que se passou, não é preciso ser fã do músico para lhe reconhecer o mérito de saber que a música, enquanto veículo cultural, pode também ajudar a promover uma mensagem e a não deixar que certas coisas possam cair no esquecimento.

Não se trata de apenas fazer concertos de apoio, de grandes dedicatórias de encher o olho ou de empatia de trazer por casa. É acreditar e ter convicções que vão para além de encher estádios e ganhar prémios. E assim, mesmo daqui a muitos anos, quando o desaparecimento de Rubin Carter já fizer parte do esquecimento, a sua memória e o que a sua história representa ainda continuarão vivas por via desta música.




Bob Dylan - Hurricane - 1975 Live por movisfree



20.4.14

Barba, 25 de Abril e cenas lá para o lado da Luz

A minha mãe hoje contou-me o que fez no dia 25 de Abril de 1974, uma história simples, mas a qual nunca tinha ouvido. Depois disse-me que a minha barba estava tipo a dos franceses que foram libertados na Síria.

Gosto sempre da envolvência histórica familiar que leva a uma consideração capilar ligeiramente exagerada.

 Hoje, ao correr, passei pela Estrada da Luz, pelo Largo da Luz e pela Igreja da Luz. Não passei pelo Estádio, deixei isso para os vários e múltiplos amigos que ansiavam por festa mais tarde. Divirtam-se, que o meu Marquês de hoje é ver até que ponto o Watchmen filme faz jus ao livro.
Nem só de literatura clássica vive o homem.


19.4.14

Correr é só um capítulo de algo bem maior


Não foi uma febre tardia de desporto e combate à servidão do sofá, da rotina e da vida que podia ser mas não é. Talvez por uma certa natureza irrequieta, que precisava de ser canalizada de forma positiva também na vertente física, cedo fui levado pela minha mãe a descobrir a ginástica desportiva numa colectividade perto de onde vivia. Com seis anos de idade não foi nada de hiper-sério mas, durante três anos foi algo que me deu algum gozo, enquanto começava a descobrir aquilo que mais me interessava no desporto.
 

Apesar do meu pai sempre ter tido ligações próximas com desporto, nunca foi determinante nas minhas escolhas nessa matéria. Não sei se foi algo ponderado ou não, mas quando aos nove/dez anos decidi que o futsal é que era, fui mais motivado pelos amigos que tinha do que por outra coisa. Mais uma vez tive a sorte de viver numa zona de Lisboa onde abundavam colectividades com escalões de formação em pequenas modalidades e lá fui eu. Tinha o jeito, sem ser craque, mas percebi que nos desportos colectivos a inteligência e a visão global da coisa ajuda a superar um ou outro aspecto individual menos forte. Diverti-me imenso durante três anos, ganhei histórias que ainda hoje conto e, prestes a entrar na adolescência, já sabia que o desporto era algo que fazia parte do meu equilíbrio enquanto pessoa ou, na altura, enquanto puto estúpido à procura de afirmação.  

Então e o futebol “a sério”, já que aqui há alguns anos, o futsal não tinha a atenção que tem hoje? Bem, depois de uma época de futsal cheguei a ir aos treinos de captação do Belenenses, o meu clube de eleição e passei algumas fases de escolha. Só que depois não fui aos treinos finais – não sei bem porquê, mas houve algo em mim que me disse que não seria por aí e se calhar, sem a motivação certa, simplesmente não fazia sentido ir lá levar um “não” final. Mas a resposta também não estava no futsal. Com treze anos, gostava de jogar, tinha algum futuro na modalidade (pelo menos no médio prazo), mas tinha crescido em altura e na vontade de experimentar algo que me deixava deliciado na vertente amadora e sempre que ligava a TV para ver jogos da NBA – o basket. Também se pode dizer que não gostava de passar o inverno a jogar para o campeonato em ringues ao ar livre, pelo meio de chuva e manhãs cinzentas, mas esse tipo de "entrave" foi sempre algo secundário.
 
Querendo experimentar basket e já numa idade “semi-avançada” para começar numa modalidade, uma vez mais não pude ir pelo meu clube do coração, o local de treinos não era compatível com o meu horário na escola e, com os meus pais já separados, gerir boleias não era coisa simples. Foi um tio meu, devoto de Alcântara e do Atlético que disse à minha mãe para me levar à Tapadinha – o local era acessível, seria fácil ir sozinho de transportes se fosse preciso e não faltavam boleias no regresso. E assim começaram cerca de oito anos que não trocava por nada.

Descobri no basket o meu jogo colectivo preferido e no conceito de equipa, através de bons e maus momentos, mas muito mais bons do que maus, que há coisas que falam de perto com a nossa essência. À distância pode não parecer fácil, em sete dias da semana, treinar quatro vezes ao fim do dia e jogar ao fim de semana, isto nas doses mínimas – lá mais para a frente chegaram a duas sessões diárias, com ginásios e partes físicas pelo meio. A coisa fica particularmente complicada quando chegamos aos 16 e por aí em diante, em que interesses, escola, miúdas e tudo o mais competem pelo nosso tempo. E, ainda assim, vais treinar.
Entre amigos, rivais, jogar numa equipa pequena mas com tradição, ir a fases finais, jogar e ganhar a futuros campeões nacionais (creio que só nunca ganhámos ao Benfica enquanto lá joguei), foram tantos momentos que ainda hoje, quando me perguntam “Então mas ganhaste algum dinheiro a jogar?” posso dizer que ganhei ZERO em dinheiro, mas muito mais do que me poderiam pagar nessa idade.

Foi já no início da faculdade que, ainda a jogar, percebi que o esforço não era viável e que nunca faria carreira a jogar basket. Sem problemas em admitir que a conjugação de não ser excepcional e o basket não ser como futebol, em que mesmo jogando em divisões secundárias consegues ser recompensado financeiramente pelo teu sacrifício de outras coisas. E foi no dia seguinte a tomar consciência plena do que pensava, que foi falar com os responsáveis dos sub21 e disse que não dava para continuar. A oferta milionária que me faria reconsiderar não surgiu. Damn it.

Na semana seguinte estava a jogar pela equipa da faculdade, por via de um ex-colega de equipa que andava na mesma faculdade que eu. Com exigência menor é certo, mas uma vez mais com a sorte de conhecer pessoas que ajudaram a continuar que este caminho valesse a pena. Além disso, anos de pré-épocas de preparação física, já tinham deixado o gosto pela corrida a germinar, indo fazer provas de 10kms e mini maratonas regularmente. Quando acabei o curso, o mesmo grupo com que jogava na universidade convidou-me para jogar no Campeonato do Inatel de Basquetebol. Quando eles deixaram de jogar, amigos do Atlético que também jogavam no Inatel chamaram-me. E quando estes também deixaram de jogar, outros amigos que conheci disseram-me para experimentar ir jogar com eles. E assim continuo a jogar, gerindo o meu tempo e o meu corpo o melhor que posso. É certo que quando a minha mãe me diz “Mas o que é que o basket te deu para além de mazelas?” nunca posso concordar e respostas como “Bem, podia ter-me metido na droga...” são sempre um bom argumentário. Mas também sei que depois dos trinta todos os dias o teu corpo te explica o que mudou quando te aleijas ou porque é que não te lembras de ficar assim tão podre no dia seguinte quando tinhas vinte anos.

E, paralelamente, foi assim que comecei a correr mais, para continuar a ouvir o meu corpo a falar comigo e o meu espírito a puxar pela vontade que tenho sempre de me superar e descobrir novos limites. Se é certo que com a escrita posso fazer o que quiser, viajar onde me apetecer e criar mundos à minha vontade, através do desporto descubro sempre algo novo com que me motivar e que me sai do corpinho. Faz parte da minha maneira de ser, não o recomendo como solução de vida para ninguém que não se sinta da mesma maneira. E é exactamente isso que digo aos amigos que por vezes falam comigo à procura de ver no desporto uma tábua de salvação para algo que não está a funcionar nas suas vidas, à medida que os anos passam.

Faltam 12 dias de regabofe e talvez seja altura de falar um pouco mais sobre mim.