31.3.14

O campino e o cigano



Sinto que não fui correcto para convosco. Tanta merda com histórias e depois fiquei-me pelo teaser. Isso não se faz e já me fustiguei com uns raminhos de oliveira (coisa que não me deu prazer, acrescente-se) em tom de arrependimento. Segue então a história que nasce do post anterior.

Aqui há uns anos, quando entrei para a faculdade, ia fazendo umas figurações em programas de televisão, cinema e afins. Certo dia ligam-me da agência de casting e dizem que precisam que eu vá fazer uma acção de rua, mas que vai ser porreira porque tem personagens de cinema e tudo. Pedem-me também para levar um amigo.

Lá vamos os dois e, quando lá chegámos, informam-nos sobre a acção: “Então isto vai ser assim, é uma acção sobre o cinema em Portugal e vocês vão andar na rua a dar convites às pessoas para a sessão inicial – mas atenção que vão andar vestidos de personagens do cinema”.

A coisa já era duvidosa, mas quando se começa a esclarecer o conceito “personagens de cinema”, é que a coisa se complica. A um gajo dão uma gabardine e um chapéu de feltro e dizem-lhe que vai ser o Humphrey Bogart, a uma miúda dão-lhe uma peruca loira e um vestido branco e dizem-lhe que parece mesmo a Marilyn Monroe (uma consideração quase verídica se a Marilyn fosse uma estaca com um espanador branco na cabeça), ao gordo dão-lhe fato, gravata e chapéu de palha e dizem-lhe que é o Vasco Santana. Quando chega à nossa vez, penso que podemos ter alguma sorte quando ao meu amigo lhe dão um kit completo de Zorro, tirando a espada. Eis quando me dão um kit completo de...campino. Calção acetinado, meia de renda até ao joelho, barrete, colete vermelho, camisa branca, tudo.  E que perguntei o que é que o campino tinha a ver com o cinema e eles responderam “É um personagem clássico de filmes antigos portugueses”... pois, percebi logo que não vale a pena continuar.

Lá me visto e eu e o meu amigo somos colocados no Rato da parte da manhã. Estávamos já em Junho e o calor começou a apertar, coisa boa para dar convites na rua vestido daquela maneira. Do sítio onde estou não vejo o meu amigo, porque ele está para lá esquina. Eis quando vou a dar o convite a uma idosa e ela me diz “Obrigado filho mas já tenho, que o cigano já me deu”. Aquilo não me fez sentido nenhum e comecei a ficar lixado, “Então eu ando aqui vestido de campino e aquele gajo dá os folhetos a um cigano e safa-se do trabalho. Sacana”. Vou ter com o meu amigo, era quase hora de almoço, vejo-o a dar convites, mas não me detenho “Então meu, não é para despachar esta merda para um cigano, temos que ser nós a...”. De repente olho para ele e vejo que, com o calor que estava, tinha tirado a máscara e a capa, e era simplesmente um tipo vestido de preto dos pés à cabeça com barba e um chapéu – vulgo, um cigano.

Desato-me a rir, ele a olhar em volta a ver se via o tal cigano, até que lhe explico a situação e ele se apercebe da figura. Eis quando eu, feito campino sorridente, vejo uma colega minha da faculdade do outro lado da rua a olhar fixamente para mim. Puxo o barrete para os olhos, volto-me de costas e disfarço. Eu e o cigano ainda tínhamos muito trabalho pela frente.

No dia seguinte cruzo-me com ela nas aulas e pergunta-me “Ouve lá, tu não estava ontem no Rato vestido de campino a falar com um cigano ou lá o que era?” Olhei-a com um ar sério “Mas tu és parva ou quê? Vestido de campino no Rato? A que propósito?”. E arranquei logo dali para fora para evitar mais perguntas.

Curiosamente, não tenho nenhuma foto desse dia, apesar de terem sido tiradas. No entanto, na sequência dessa história, ainda hoje esse meu amigo tem a alcunha de “Cigano”, essa figura quase tão icónica como o Campino do cinema português.

Histórias à pressão



Para além de empilhar palavras umas a seguir às outras, tentando que o resultado final seja mais do que uma pilha de palavras, ao vivo e a cores também há um lado em mim que gosta de contar histórias. A questão que se pode colocar é: mas será que sou alguém que até dá algum gozo ouvir ou simplesmente um chato que fala e fala e fala?
Pois, mas essa é daquelas perguntas que nunca poderei ser eu a responder, apesar de ter uma opinião benevolente sobre mim próprio e gostar de um auto-abracinho de quando em vez.

Há poucos dias, num cruzamento ao fim de um corredor onde se esconde trabalho, puseram-me uma mão no ombro e pediram-me - “Sem tempo para ires pensar, conta-me uma história que se tenha passado contigo, nada de dramas ou cenas épicas, apenas algo que dê uma boa história. Mas tem que ser já”. Perdido no inesperado, de tudo o que podia ter ido buscar, do toque de brilho às sortes e azares da vida, até os clássicos homem vs mulher ou relatos de viagem, saiu-me isto:

“Já te contei sobre aquele dia em que andei pelo meio das ruas de Lisboa vestido de campino, com meia de renda, calção de seda, colete e barrete, tudo a rigor?” À minha frente, a curiosidade e o ar incrédulo misturam-se. É tudo o que é preciso para que os três minutos seguintes fossem muito interessantes.

E sim, é verdade, andei mesmo um dia inteiro vestido de campino e posso dizer que as meias de renda favorecem bastante as minhas pernas.

30.3.14

Não há banda sonora para a vida



Hoje, ao ver o “Osage County”, apercebi-me de duas coisas que estão longe de ser epifanias: a primeira é que, se em vez do filme tivesse visto a peça de teatro original com este elenco, o efeito final pouco se alteraria, apesar das paisagens sempre impressionantes do Midwest americano. O foco nas relações humanas e nos conflitos pessoais delas decorrentes é todo o cenário preciso para levar a coisa a bom porto.

O segundo aspecto é mais discutível porque, na verdade, todos temos uma banda sonora pessoal, feita dos temas e da música que ligamos a determinados momentos/fases/episódios/memórias da nossa vida. Contudo, fico a pensar se não nos fariam falta efeitos sonoros dramáticos para nos apercebermos da forma como a música pauta e identifica determinados aspectos. Será que, com a música certa no background, identificaríamos melhor os “vilões” à nossa volta? E se, ao entrarmos numa situação perigosa, surgisse um daqueles trechos típicos que transmitem de imediato essa sensação? Teríamos mais cuidado se, ao magoarmos alguém com as nossas palavras, soasse uma música triste que nos fizesse aperceber disso mesmo?

A música intensifica os sentidos mas, tal como nos filmes, não são os personagens activos que ouvem a mesma, mas sim o observador externo. E, nesse sentido não temos de facto direito a banda sonora para a nossa vida e eu não tenho bem a certeza se ficamos melhor ou pior por causa disso.

28.3.14

Round 10 - Enchido de cansaço

Ficas a saber que o cansaço da semana já te está a dar um enxerto quando alguém te fala num título com a expressão "Sempre juntos" e, na tua cabeça, a coisa só te soa assim: "100 Presuntos".

E assim se termina um post a encher chouriços.

O delicado equilíbrio do “gajo que dança”


Para aqueles homens que não têm uma passado estrutural ou genético associado à dança (cenas de raça e mitos urbanos aqui contam), esta pode ser uma área pantanosa perante um público feminino bem mais dado ao ritmo corporal ao som da música.
 

Esqueçam aulas de danças latinas ou cenas em ginásio feitas ao ritmo de música, isso são esteróides de relacionamento social. Fala-se aqui da (in)capacidade de, em determinado recinto em que haja música, ambiente e espaço para dançar, um gajo acompanhado tomar uma decisão – danço ou não danço?


De um lado da barricada encontramos o mais conservador portador de copos, o rei do encosto ao balcão, que dirá um “rotundo não” à opção dança. Simulará breve interesse, sorrirá ao longe e nunca dará o corpo ao manifesto.


A meio das trincheiras, o oscilador que não compromete. Um suave balanço que não compromete a masculinidade, nem é demasiado sensível. Na categoria “Para lá de Bagdad” estão os que confundem à vontade com epilepsia e, por vezes, rituais aborígenes. O comportamento piora quando em grupos de instintos semelhantes.


Mas o que é afinal o equilíbrio do “gajo que dança”? Diria que é uma receita que combina bom senso e vontade de dançar, sem grandes preocupações para além disso. Ter ritmo ajuda, a companhia certa também e, a seu tempo, a confiança torna-se natural. Com quem é que eu aprendi isto? É fácil, era eu um puto e fui exposto a este cenário. A partir daí os dados (e as ancas) estavam lançados...



Sendo um homem de várias influências, não posso deixar passar em claro os nomes sugeridos pela São João, indo buscar icónicos momentos bailantes dos mesmos.






27.3.14

Realidade alternativa - Late night with Beyoncé

Ela pediu, eu lá estarei. Em palco e vestido a rigor, porque nem podia ser de outra maneira...


Viver com os pais - prisão, opção ou saladadefrutização

 Ultimamente tenho lido mais notícias do que é costume, em parte por questões profissionais, em parte por masoquismo. Deparei com esta notícia sobre jovens europeus que não conseguem sair de casa, abordando também a questão dos portugueses.



Acho sempre bonito generalizar resultados de estudos, misturando critérios económicos, sociais e culturais. Não conseguem? Preferem não o fazer? É uma cena social? A mamã não deixa?

Dizem que a descida de 59 para 55% em Portugal se poderá dever a emigração jovem mas, com dados de 2011, a coisa aumenta no "especulation mode", especialmente quando se analisam hoje resultados com três anos numa área social bastante dinâmica.

Tudo bem que é um estudo europeu mas, a partir de 1000 e poucas entrevistas em Portugal, chega-se a respostas como "Manter a casa quente, comprar carne ou peixe ou comprar roupas novas são luxos para quase 40% dos jovens portugueses".


Conheço exemplos para vários "gostos", desde os que efectivamente não conseguem sair de casa, por falta de emprego estável, condição económica, mercado imobiliário desfasado da realidade, etc (ao que acresce que, sem dividir casa com alguém, o factor complicação duplica), até aos que preferem não fazê-lo, amealhando algum dinheiro para o futuro e podendo até ter uma vida mais folgada, pois reduzem as depesas graças ao esforço dos pais. Mas, quando se diz que 40% dos jovens não compram roupa nova porque isso é um luxo na mesma frase que comprar carne ou peixe ou manter a casa quente, há algo que me confunde, pois parece-me que estamos a misturar realidades distintas e eu tenho dificuldades em reconhecer estes "jovens". Estamos a falar de meios urbanos? Que tipo de educação? Trabalhadores ou estudantes? Não ter este tipo de dados ou escondê-los é uma coisa que me enerva quando vejo notícias que exploram resultados de estudos do género.

Mas adiante, não negando que essa realidade exista, olho com desconfiança para certos resultados vendidos por atacado. Há mais jovens portugueses a viver com os pais? Tudo bem, vamos saber mais sobre isso, mas não em comparação com os jovens eslovenos, ingleses, gregos ou do Turquemenistão.

26.3.14

O Zoo que abatia pessoas


- Sôr António, peço imensa desculpa mas vamos ter que abatê-lo.

- Epá, não estava nada a contar com isso. Então eu que tenho andado tão saudável, ainda na semana passada procriei ali com a Dona Palmira do lote ao lado...não me dava jeito nenhum.

- Pois, é uma maçada Sôr António, mas sabe que isto não depende só de nós...

- Então mas depende de quem? Pelo que tenho visto aqui o Zoo Humano de Xabregas tem tido muitas visitas, ainda a semana passada cá estiveram os tipos do programa do Goucha e tudo... Por acaso até pensei que alguns desses viessem para ficar cá, mas pronto.



- São directivas Sôr António, não tem que ver com finanças, a verdade é que vamos ter outro macho rústico e há risco que o Sôr António leve uns enxertos valentes dele, na volta ele ainda o mata por um pratinho de tremoços e nós não podemos deixar isso ao acaso.

- Outro macho rústico?

- Sim, o Sôr António não dá muito trabalho, mas esse ventre proeminente começa a notar-se e o Cajó, que é um jovem macho fã de tuning, bodybuilding e kizomba tem outras potencialidades...

- Pois...estou a ver...então e a Palmira, quem é que vai procriar com ela? E os putos, a Vanessa e o Vando, como é que ficam?



- É assim sôr António, nós vamos ter outra fêmea, a Andrea que ia ser abatida por um reality show e nós pronto, acedemos a ficar com ela desde que não tenha doenças venéreas. Mas não se preocupe, nós já falámos com a Dona Palmira, mostrámos-lhe umas selfies do Cajó e ela acedeu a também procriar com ele depois do Sôr António ir à vida.

- Olha-me esta...ainda hoje de manhã nós...e ela não diz nada. Francamente...
 - Quanto aos miúdos, não se preocupe, há uma escola de futebol que aceita o Vando e, se não resultar, a gente troca-o para o reality show, que a coisa é uma parceria. Quanto à Vanessa, o Museu de História Natural de Rameiras está a fazer uma exposição com modelos reais e, pelo menos durante o próximo ano, vai ser uma verdadeira estrela. Além disso, é o melhor para evitarmos consanguinidades e danos maiores, que nós temos visto como o Vando olha para a irmã, isto apesar da proximidade que a Dona Palmira tem com alguns elementos da Aldeia dos Advogados, o que torna provável que nem sejam mesmo irmãos...
Portanto, sôr António, até ao final da próxima semana veja lá quando é que lhe dá jeito ser abatido.

- Pronto, pois, se não há outra hipótese. Dá para ser depois do fim de semana, é que tinha combinado ali com a malta da jaula do pessoal das obras vermos a bola...

-Não há problema sôr António.

- Vai doer?

- Vai doer menos do que o final da época passada do seu Benfica sôr António. E ainda por cima é uma injecção com um cocktail de imperial, coratos, aguardente velha e um veneno indolor, quase tipo programação de alguns canais nacionais.

- Valha-me isso, valha-me isso...






Vagamente baseado num determinado Zoo de Copenhaga que, por motivos diversos, depois de abater uma girafa saudável, abateu agora quatro leões saudáveis. É certo que animais em cativeiro obedecem a regras que o público desconhece (riscos de consanguinidade, etc), mas parece-me sempre que faltam soluções mais humanas para lidar com problemas decorrentes de um mal necessário – zoos.

25.3.14

No intervalo do cavalo dado e da cena dos dentes

Mais facilmente sorrio para quem não conheça de lado nenhum, do que para alguns que conheço bem demais. Paradoxalmente, é mais desconfiado quem "seja sorrido" por alguém que desconheça do que quem, por reflexo plastificado, esteja habituado a ver na boca dos outros o reflexo do sorriso vazio que emite.


Pelo sim, pelo não, nunca faças do teu sorriso o lar temporário de espinafres e cinismos. Os primeiros ficam mal na fotografia, os segundos estragam-te a personalidade.

O destino de quem gosta de queijo



Basicamente, é isto. Mas também, a par de todos os outros, quem enfardar um "full fat soft cheese in salted water" nunca pode esperar um prenúncio de algo melhor.

Eu este dispenso, mas tenho muitos outros amigos do género. Espero bem não ser apanhado um dia destes por um gang de colesterol numa artéria escura e levar um enxerto de porrada venosa. Só admito isso daqui a 30 a 40 anos.

24.3.14

Correr com ritmo em português

Este fim de semana corri com música, coisa que nem sempre faço nos dias de distâncias maiores porque ao fim de um certo tempo satura-me estar de phones. 

Pelo meio de playlists longas com sugestivos nomes como "Corre palhaço corre", "The sovaco files" ou "Arrebenta-me à bruta", encontrei uma outra com uma panóplia de música portuguesa/em português. Tudo bem que isto da música depende dos gostos mas, no meu caso, estas são uma boa companhia para calcar uns quilómetros:



O ananás que acabou com o meu sonho de trabalhar "na noite"


Houve uma altura na minha vida, ali no cruzamento entre o final da adolescência e a entrada para a faculdade, em que achava que “trabalhar na noite” é que havia de ser uma cena para lá de Shangri-la. É certo que para alguém entre os 18-20 anos, gajas-música-álcool-factor cool são uma espécie de combinação mística que compensa tudo o que o lado racional não aconselha, mas durante uns tempos experimentei a coisa numa versão light.


Esta versão light era composta de serviço de bar em festas da faculdade, semanas académicas, and soi on. Rapidamente me apercebi que o conceito de “trabalhar onde os outros se divertem” tem os seus contratempos e que, em certa medida, os amigos (e amigas) que se aproximam podem afinal de contas ser mais amigos do acesso fácil a bebidas do que da tua personalidade magnética.

"Não man, não é por causa de uns shots à borla...elas curtem mesmo o teu mohawk"

 Resolvi atribuir este lado menos glamouroso ao facto de não estar a trabalhar em “bares/discos a sério” e fui falar com um amigo meu uns anos mais velho que já tinha essa rodagem toda e era um ícone da vida nocturna e da experiência em bares. Quando lhe perguntei se não me orientava um trabalhito part-time num spot daqueles potentes em que ele conhecia malta, a resposta foi pronta:

“Puto, mas tu tens merda na cabeça? Deixa-te lá de histórias e vai mas é estudar. Nas férias depois fala comigo, mas não te metas nisso, porque nem sonhas no cambalacho em que te vais meter...”

Tentei argumentar com a história do cenário, do lado cool e pronto, as miúdas e tal. Olhou para mim, acenou com a cabeça em tom de gozo e seguiram-se algumas horas de conversa em que descobri todo o lado gorduroso, tétrico, manhoso e horripilante da noite. E aquilo fez algum efeito em mim e não foi dos bons.

Curiosamente, a história que ainda hoje retenho na cabeça não é a mais hardcore, mas é emblemática – é o conto dos três ananases. Disse-me ele que trabalhou num bar que não era muito longe da praia mas ficava longíssimo do patamar de “bar de praia” que se vê nos filmes. A clientela não era a melhor e, segundo o que fiquei a saber, o dono era um culturista que gostava era de clientes a provocar desacatos para lhes poder malhar com legitimidade.

 Uma das melhores cenas de auto-porrada em bares

Certo dia, o dono achou por bem fazer um “especial” que ia ser uma sangria tropical – a coisa lá se fez e deu para uns quantos alguidares de sangria, para a qual contribuíram muitos “restos” da casa. À última da hora, já bem de noite, lembrou-se que o ideal era que essa sangria fosse servida dentro de um ananás, escavado por dentro. Lá foi o meu amigo correr a região à procura de ananases e, quase por milagre, conseguiu comprar três.

Os problemas começaram quando a sangria tropical que, segundo ordens directas do chefe só podia ser servida no ananás, começou a ter muita saída. As pessoas pediam, o ananás cheio de sangria ia para a mesa e lá ficava até o esvaziarem. Só que, com apenas três ananases e muita gente a pedir, o meu amigo começou a ter que fazer truques de ananás, esvaziando-os o mais depressa que possível para ir buscá-los, enchê-los e levá-los a uma nova mesa.

Conforme a noite avançou, o critério de “ananás reciclado cheio de álcool” foi piorando – havia gente a fazer do ananás cinzeiro e o tempo para passá-los por água não era muito. A coisa descambou de tal maneira que numa mesa houve uma gaja que vomitou para dentro de um ananás e, mesmo assim, continuaram os três em circulação. O meu amigo não tem a certeza mas a gota de água poderá ter sido quando uma mesa, cheia de gajos estupidamente bêbados, recebeu da mão de um empregado que tinha sido maltratado a noite inteira um ananás “aditivado” e não me peçam para clarificar o termo “aditivado”.
Como seria de esperar a noite não acabou sem porrada, mas aqui com o extra de três belos ananases a serem também usados como arma de arremesso.


Depois dessa conversa continuei, aqui e ali, em sítios que não eram “a sério”, a safar uma ou outra noite, mas o glamour da noite morreu ali às mãos de um ananás.