28.2.14

Isto sou eu no Carnaval

Quando se é meio palhaço o ano inteiro, o Carnaval torna-se algo trivial. No entanto, se tivesse que escolher umas máscaras de categoria, creio que andaria algures por aqui.









27.2.14

Nunca é tarde demais para deixar de dizer que já é tarde demais

Como se precisasse de refrescar a memória, isto é o que me tem ensinado a dupla de veteranos que vi nas duas últimas manhãs ao atravessar o jardim a caminho do Metro. Na casa dos 50, um deles está, ao que tudo indica, a ensinar o outro a andar de bicicleta, por mais estranho que possa parecer a quem pense que isso é daquelas coisas que ou aprendes enquanto és miúdo ou então já não faz sentido.

No primeiro dia o professor, com a sua bicicleta encostada a um banquinho de madeira, corria atrás do primeiro dando-lhe dicas, empurrando-o e alertando “Zé, não inclines o guiador, olha que te espalhas pá”. Sem medos, sem rodinhas, sem vergonha, lá ia o Zé a caminho de mais cinco segundos a abrir.

No segundo dia vi o mestre sozinho, com ar preocupado. Pensei que se calhar o Zé, de tanto pedalar, tinha perdido a pedalada e a coragem. Enganei-me. Mais vinte passos e lá vinha o artista transformado em ciclista, meio tosco, caminho pouco a direito, mas rumo bem definido. O amigo continuava a gritar com ele, mas do alto da sua bicicleta o Zé já se ria. Como se tivesse 10 anos ou como se a cada pedalada lhe tirassem 10 anos de cima.

Sem ser de propósito, o Zé veio ter comigo e de repente tive que saltar para o lado, de forma a continuar apenas narrador e não parte da história, encaixado entre o entusiasmo do Zé e a sua roda dianteira.
Segui caminho a pé e o Zé pedalou no seu, o amigo a gritar lá ao fundo, mas rindo-se pelo meio. Quem dera a muita gente que pensar que nunca é tarde demais para fazer coisas novas fosse tão fácil como andar de bicicleta.

26.2.14

Sete argumentos para explicar a vida que tens


Uma coisa que eu gosto na história do cinema e do estudo da mesma é a abordagem que nos diz que só existem sete argumentos genéricos para todas as histórias contadas. As coisas podem variar um bocadinho, mas traço geral estes sete argumentos são:

“Vencer o monstro” – Há uma criatura/mal que aterroriza o mundo à tua volta e a missão do herói é superá-lo/vencê-lo.

“Do nada ao estrelato” – Alguém a quem não é dado valor e é ridicularizado, supera tudo e todos, transformando-se no herói/figura de referência bem sucedida.

“A demanda” – Para alcançar um determinado objectivo/recuperar algo/descobrir não sei quê, um tipo lança-se à aventura, por norma com um conjunto de companheiros que o vão ajudar/inimigos que o vão tentar impedir de alcançar o objectivo.

“Ida e volta” – Há um projecto/processo que o herói precisa de passar, por norma cheio de picos e vales (metaforicamente), para que no fim possa voltar/evoluir para uma nova versão de si mesmo, mais madura/sábia/completa.

“Comédia” – O acaso e o imprevisto inundam uma história em que um ou mais personagens tentam chegar a algo/encontrar-se e que numa sucessão de episódios cómicos só no fim chega a uma conclusão. Por norma, quando envolve romance funde-se no género “Comédia romântica”.

“Tragédia” – Neste caso o protagonista é uma figura/vilão ou alguém que irá cair em tentação/será corrompido num processo que se rodeia de característica negras/trágicas e nos faz acompanhar esse processo até uma conclusão que não inclui salvação.

“Renascimento” – Processo semelhante ao da tragédia, mas em que a acção conduz a um renascimento com uma lição aprendida e o sentimento de salvação.

Obviamente, muitas vezes um argumento foca vários destes aspectos, mas na sua generalidade encaixa-se numa determinada categoria. O engraçado é tentar encaixar a nossa vida como se de um argumento se tratasse (como o desconto óbvio de ser uma história inacabada da qual só temos uma visão parcial e subjectiva) num destes plots gerais. Se pudesse, diria que a minha é uma comédia de ida e volta, que me vai levar do nada ao estrelato, mas temo que essa bazófia me leve a uma tragédia sem renascimento porque o monstro sou eu.

Enfim, fitas, coisa que eu sei fazer e bem.

Nota – Também gosto muito da teoria que indica que nas novelas a coisa ainda é mais simples e tudo se resume a três ângulos: “Dois rivais que se odeiam”, “Amores impossíveis” e “Estranho numa terra estranha”.

25.2.14

Cada um wasabe de si

Almoçar no japonês que é japonês e não chinês disfarçado de japonês, mas que não esconde ser chinês.

Glamour e pseudo-cagança gourmet?

Nem tanto, quando a dita fonte de sushi ocupa um cubículo num determinado centro comercial.

Como se destacar dos demais comensais?

a) Fazer habilidades com pauzinhos e esperar que ninguém fique cego na sequência do processo?
b) Pedir os ingredientes em separado e "montar" o próprio sushi à frente do resto da malta como se de um técnico da IKEA se tratasse?
c) Pedir uma litrosa de sake (não me obriguem a escrever saquê, que me faz lembrar alguém que não saiba quem é o Sá Pessoa)

"Sá quem?"

d) Optar por uma dose extra-supra de wasabe-especial-de-corrida-amigo-olhe-que-isto-por-si-só-já-levou-japongas-à-Lua e passar boa parte da tarde a bufar do nariz, tal a intensidade e o exagero de picante, com um ardor que faria do Minotauro um tipo invejoso, mais focado na raiva e não tanto no facto de ser um cornudo que tem a vida feita num labirinto.


Vocês podem escolher uma das opções, que eu já escolhi e já estou a dançar um belo breakdance à conta disso.

Revistas de machos que valem pelos “artigos”




Há um longo historial na história da “literatura” masculina de revistas que só se compram “por causa dos artigos”. Lembro-me de ser puto, um amigo meu estar a mostrar-me uma dessas revistas e a mãe dele entrar de repente no quarto e perguntar “Que revista é essa?” e ele “Ahh...uhhh...tem aqui um artigo muito fixe sobre o mundial de futebol, é francesa...”. Ela riu-se, como só as mães que sabem que os filhos mentem muito mal sabem rir, isto quando a coisa não é muito importante.

A internet mudou muita coisa e, em muitos casos, as revistas que só se compravam por causa dos “artigos”, passaram à categoria de sites. A Sports Illustrated Swimsuit Edition é um desses casos e, apesar de nunca ter visto um gajo com a revista na mão, não conheço poucos que sabem a url do site de cor ou sorriem que nem crianças quando ouvem as palavras "Kate Upton" (um artigo demasiado ostensivo, posso acrescentar de minha modesta opinião).

Em 2014 há uma boneca entre as modelos, há sessões fotográficas em gravidade zero e há muitos “artigos” interessantes cheios de Photoshop e que na realidade aposto que têm os olhos tortos e mais casca de laranja que bolos rei de quinta categoria.

Desde já afirmo que não é por causa disso que calhei a visitar o site. Eu gosto mesmo é de ver fotografias de praias paradisíacas.

24.2.14

Tira as mãos do telefone, se conseguires

Desafio-vos.

24 horas sem telefone, smartphone, tablet e afins. Ainda será possível?
Fisicamente, sei que sim, mentalmente, talvez não.

Acredito que a dependência do "always on" seja maior do que às vezes damos conta. Então e as pessoas que querem falar connosco? E os mails que se acumulam? E selfies tão boas para tirar? E aquela senhora ali à frente que tem uma perna de pau e era tão fixe para colocar um post no Facebook a dizer que já chegou a carta da Olá para 2014 e o Perna de pau vai ter versão feminina?

Podem esperar. Sim, podem sempre esperar ou ser consultados em dispositivos fixos que permitam fazer o mesmo. Talvez não consigamos nós, mas é possível.

Amanhã não dá jeito? Experimentem no fim de semana.
Ou num fim de semana.
De 2014, se der para orientar.
Ou então um dia destes, quando acabar a bateria.


Carta ao amigo ciclista do mealheiro





Não sei se vais emigrar. Em boa verdade não sei sequer o teu nome ou que expectativas tens para a vida. Talvez sonhes em retirar-te para uma comunidade piscatória onde te tratem simplesmente por Zé do Anzol ou, quem sabe, vender a ideia para um reality show com pessoas que adorem gatos e fazer fortuna com isso.


Tudo isto são especulações mas a impressão que causaste em mim durante os trinta minutos em que os nossos caminhos se cruzaram, essa sim foi bem real.


Vinha eu a exercitar essa nobre arte de colocar um pé à frente do outro de forma rápida e alternada, obviamente munido de lycra de boa cepa, quando tu surgiste na minha visão periférica. Não estranhei, junto ao rio é comum ciclistas e corredores partilharem vias, nem sempre de bom de bom grado é certo, mas no teu caso vi que não era essa a tua mentalidade.


Arrisco a dizer que não és um “pro” da bicicleta, daqueles que se equipam a rigor e saem para rolar em estilo. Agarraste numa tshirt, pegaste naquela calça de fato de treino que te tornou quase famoso em 2002, sacaste da bicicleta e saiste à rua. E naquele instante, o céu azul e o sol que nos tem fugido para ti foi mais que suficiente.


Passaste por mim e não foi a grande velocidade, digo eu que já levava 10kms no bucho e fiquei lado a lado contigo por alguns segundos. No entanto quando me ultrapassaste vi que estavas feliz a olhar para o céu, para o lado, para as miúdas lá mais à frente, basicamente para tudo menos para a via. Alguns ciclistas levaram isso a mal, porque o teu percurso estilo zigue-zague era pouco compatível com discípulos do sprint velocipédico, mas para te ser franco não foi isso que me perturbou.


Deixaste de pedalar, aproveitando apenas o balanço que já tinhas e, ao fazê-lo, a tua calça de fato de treino cedeu e a tua postura revelaram o teu mealheiro mesmo no meu campo de visão. Não foi bonito e nem uns goles de bebida isotónica ajudaram a recuperar a quebra de energia. Fiz das tripas coração e acelerei, passando de novo por ti sem que desses por mim mas, como que por magia negra, cinco minutos depois ultrapassaste-me de novo e ficaste novamente a deslizar à minha frente. Olhei para o chão, para o relógio e tentei até olhar apenas para os ténis mas eu sabia que esse mealheiro felpudo estava lá, à distância de um olhar. Maldito sejas.


Brincaste comigo durante mais dois ou três quilómetros. Eu passava por ti, tu davas-me uns minutos de paz e voltavas a ultrapassar-me de mealheiro em riste. Meu amigo, para ti era só felicidade, para mim era terror psicológico. Decisões tinham que ser tomadas e depressa.


Fechei os olhos, inspirei fundo e olhei para a direita - ou subia quase três quilómetros ou continuava a ser mealheirizado durante mais meia hora. A opção era fácil, subir rumo ao esquecimento. O meu olhar desviou-se uma última vez para o mealheiro zigue-zagueante que espalhava alegria e terror a cada pedalada. A felicidade de uns pode ser mesmo a agonia de outros.


Subi e depois subi mais. Nem uma modelo de bikinis à minha frente na subida. Nem sequer um tipo com bebidas frescas e palavras de incentivo.



 Continuei a subir meu amigo, mas podes crer que vai passar muito tempo até me esquecer de ti.

23.2.14

A invenção da mentira



Calhei este fim de semana a rever este filme.



Para além de gostar do Ricky Gervais (sem ser devoto do The Office), o que me agrada aqui é o conceito explorado – ninguém saber mentir, pelo facto da mentira nem sequer fazer parte do nosso ADN. Obviamente, num mundo em que toda a gente diz o que pensa, mas sem constrangimentos, a coisa tende a ter piada.

Filme à parte, muito possivelmente as convenções sociais e os nossos próprios constrangimentos, “educação” e filtros politicamente correctos fazem com que a realidade esteja porventura mais próxima do facto de toda a gente mentir (ok, nem sempre, nem todos e sujeito as excepções). Contudo, não é raro ver na nossa própria realidade episódios como aquele em que o Ricky compreende que é o único que sabe mentir e o espanto honesto de gente que acredita nele como se da sua boca só viesse a mais pura das verdades.
Pena que nem sempre a coisa tenha tanta piada como no filme...

21.2.14

Imaginação "à Stephen King"

Gosto do Stephen King, mesmo sabendo que está longe do Olimpo da literatura consagrada pelos eruditos. Creio que a coisa tem a ver com a abrangência da sua imaginação e dos caminhos que ela percorre, o que talvez possa indicar que tenho mais aspirações a nível de imaginação do que a nível literário. Pensando bem, a coisa é capaz de fazer sentido e, aproveitando para pensar ainda melhor, vou escrever um livro de poemas sobre isso...

Há quem associe apenas o Stephen King a terror e a fantástico, mas a coisa vai bem para além disso. Senão vejamos:






Os três primeiros são parte do livro "Different Seasons".

Junte-se a isso, dentro de um arsenal do fantástico a la Dark Tower, coisas como "The Shining", "Christine", "Carrie", "From a Buick 8" ou "The Cell" (indo só por aqueles que tenho ou li, até porque as adaptações em filme também são às dúzias) e a lista é vasta. No fim de rever estes títulos, só me resta ficar uma vez mais saudavelmente invejoso da "imaginação à Stephen King" e pensar em fazer treinos específicos à dita cuja.

Qual é a fronteira da dívida?

Há vários tipos de dívidas e ainda mais tipos de devedores. Se nos esquecermos que vivemos numa era de consumo exponencial, em que "ficar a dever" ou "estar a pagar" são expressões quase tão triviais como "bom dia" ou "muito obrigado", emprestar dinheiro ainda é uma actividade capaz de gerar muitas divisões, discussões e debates mais ou menos pseudo científicos.

Cada pessoa tem a sua política e a sabedoria popular está cheia de avisos: "Se queres perder um amigo, empresta-lhe dinheiro", "Quem não deve, não teme", "Isso são desculpas de mau pagador" e por aí em diante.

A minha curiosidade é saber onde se traça um limite entre aquilo que é uma dívida e o chamado desenrascanço ou empréstimo a fundo perdido sobre o qual a expectativa de retorno é nula. Da minha parte, se for a pensar bem, acho que devem ser para aí 10€, em situação controlada e sem abusos de repetição.

Mais de 10€ e já terei que reunir a minha Comissão de Ética para o Empréstimo a Malta, Pessoal e Gente em Geral. Tudo é possível, mas o Cobrador de Lycra pode ser exigente.


Suponho que existam políticas mais austeras, gente mais mãos largas e um conjunto de considerações a fazer:

É possível emprestar dinheiro a namorado(as), cônjuges, companheiro(as) ou a partir de um determinado nível a economia é comum e isso não faz sentido?

Família e dinheiro, misturam-se? Só vale em linha directa e lateral ou descendente? Adoptados e apostadores inveterados têm regras especiais?



E nem quero avançar com as questões que tenham que ver com "memória selectiva", "desgovernados orçamentais" ou "campeões das catástrofes",  porque isso já nem tem que ver com dívidas, mas sim com natureza humana e aquele mito a que alguns chamam "consciência".

20.2.14

Rituais macabros em WCs de empresas


Em recintos empresariais e outro tipo de recantos profissionais com WC partilhado (seja misto ou com divisão por sexo) há todo um folclore de mitos urbanos que fariam corar de inveja o monstro do Lago Ness.

Sendo um curioso da fenomenologia mítica dos WCs nas empresas, já vi e já ouvi de tudo. Empregadas da limpeza agredidas com sapatos na cabeça só para não conseguirem identificar um dado casal envolvido em regabofe não oficial às tantas da matina. Tipos que foram dormir sestas e se esqueceram de trancar a porta. Relatos de cenas sanitárias dantescas geradas por meninas com cara de princesa. Gajos a tentarem disfarçar vómito puxando o autoclismo mais de dez vezes seguidas, mas a sairem com a camisa salpicada. Artistas do urinol que, quando chamados por alguém nas suas costas, se voltaram em pleno acto de Manneken Pis, bombardeando o interlocutor. Pessoas que apanharam o chefe máximo sentado na sanita, calças em baixo, charuto na boca e revista de moças descascadas na mão.

Isto são apenas alguns exemplos.

No entanto, há um mistério que ainda não consegui perceber bem e que acontece ciclicamente no WC que frequento em horário profissional – há um tipo de outra empresa que, sempre que vai a um dos cubículos e se tranca lá por bons minutos, deixa pousados no lavatório uma garrafa de água e o seu relógio de pulso. Sim, o relógio não entra...

Será por questões de salpicos? Ou há ali questões do foro capilar íntimo? Não gosta da pressão do tempo? A maquinaria será sensível ao odor?

Não sei, mas já estive mais longe de perguntar...

Pamela plenamente pelada pela PETA

Podia ser um trava línguas inovador com toque de chavascal pós-moderno. Mas não, é só um anúncio da PETA sobre a sua nova campanha. Ao que parece, a mesma tem por objectivo alertar a população canina para a necessidade de maior responsabilidade e consciência na hora de escolher o seu parceiro sexual.



Já estive a ver o making of, o cão não ficou traumatizado.

A nata em pessoa

Certas pessoas são como as natas, parecem frescas mas azedam com facilidade. Não será por isso que devemos batê-las, mas é natural que muita gente ande a cortar nelas.

19.2.14

Ontem à noite o meu coração saltou



É verdade, tenho tanta literatura em casa, tanto filme alternativo e séries de valor, uma obra por escrever, fragmentos da minha alma para varrer e outros para colar, mas ontem falou mais alto o pequeno boysbandeiro que há dentro de mim.

Tirei a minha melhor calça branca de linho do armário e desabotoei a camisa até perto do umbigo, sem medo, a pneumonia não sai à noite comigo. Levei perto de meia hora a despentear-me e segui rumo ao Campo Pequeno.

Não acredito em magia, mas há noites que se tornam mágicas só para que não crentes como eu engulam as palavras.

BSB, um sonho que acordou do passado.

18.2.14

aXXL Rose





Pelo andar da carruagem, a biografia de Axl Rose podia certamente ter como título “Guns, Roses & Entrecosto à discrição”. Mas, se formos a ver bem a questão, um problema que qualquer vedeta da música/desporto e por aí em diante tem é a forma como o seu envelhecimento se conjuga com a figura que projectaram no auge da sua carreira.

Alguns convivem bem com isso, outros têm problemas e há quem descarrile por completo. Se formos justos, em certos casos é difícil saber o impacto que o cocktail drogas, álcool e lifestyle tem a médio/longo prazo nesta malta. Há quem diga que é isto que os conserva e se largam a receita afundam em dois tempos, por outro lado há quem defenda que quando se deixa o auge, depois é sempre a descer e esse cocktail acelera a coisa nas horas.

No caso do Axl, de quem nunca fui mega fã, o meu semi-choque não tem que ver com o envelhegordecimento que se observa, mas mais pela espécie de mutação de personalidade que se adapta a essa nova figura. Não se trata agora do rocker decadente, mas sim de alguém que podia fazer parte do corpo docente da C+S do Harry Potter, apresentar shows de circo a meias com o Cardinalli ou ter um reality show do género “Pimp my guitar” (ou só “Pimp”).

Eis uma curta “evolução”:










E não se riam os fãs do Slash. Longe vão os tempos da guitarrada à porta da igreja no “November Rain”, apenas com um casaco rockeiro e o disfarce do costume. Neste momento o senhor, ao nível de look, está um cruzamento entre um futebolista colombiano retirado, uma cantora brasileira já entradota ou uma senhora cabo-verdiana que vem aqui ao estaminé dar um jeitinho na limpeza à hora de almoço.


17.2.14

True


 Por aquilo que já vi, é capaz de haver aqui qualquer coisa.

Tive um encontro com uma Avenida



Aqui há dias uma Avenida convidou-me para sair e disse-me que ia ser porreiro, até porque domingo não ia chover. Ora eu que na minha natureza tenho uns toques de desconfiado fico sempre de pé atrás quando sou contactado por avenidas, especialmente quando se chamam Infante Santo.

Em primeiro lugar, o género feminino avenida entra em contraste com o masculino infante (santinho ainda por cima e, segundo consta, Fernando) o que só por si já é um alerta. Será um convívio másculo, de rapaziada valente, ou aquilo tem qualquer coisa suspeita pelo meio? Logo aí já fico a pensar porque é que nunca sou contactado pela Avenida Modelo Voluptuosa ou pela Praça Actriz Sedutora...



Falei com uns amigos que conhecem de perto a Infante Santo e as referências foram todas positivas “Ah, tem coisas muito engraçadas, com a Estrela ali tão perto”, “Epá, vais ver que a descer a vista é linda”. Resolvi aceitar o convite mas, ainda assim, levei o telemóvel e pedi para me ligarem a uma hora que iria coincidir com o meio do encontro. Se a coisa corresse mal nada como a desculpa “Estão-me a ligar porque a minha avó se engasgou com entrecosto outra vez e lá tenho eu de ir tirar aquilo de lá”.



Vesti uma lycra domingueira, uns ténis racing mas sem serem demasiado flashy (não sei o que estou a dizer mas li em sítios que percebem de moda e achei por bem reproduzir) e, apesar de ter composto com uns acessórios tipo boné e cinturão para levar um cantil retro, não fiz a barba só para não dar aquele ar de estar a levar aquilo muito a sério. Preparava-me para sair quando a Avenida me mandou SMS – “Entra pela 24 de Julho, que é para veres o viaduto colorido”. Hmmm, pensei eu, não me digas que para além de Santo, também é decorador...



Saí a correr, mas resolvi ir pelo caminho mais longo só para pensar bem no que me estava a meter – uma Avenida nobre a querer batatinhas ao domingo de manhã... Fui ao Alto de São João, desci até ao rio e, a partir daí fui sempre a contar minutos até chegar à 24 de Julho. Em Santa Apolónia pensei em parar naqueles sítios modernos de comida e levar qualquer coisa para o encontro mas para além de estar ligeiramente transpirado, sei que as avenidas costumam ter sítios próprios com comida e levam a mal quando se traz comida de outras artérias da cidade.



O primeiro sinal de perigo veio na zona de Santos, de uma discoteca que ainda estava aberta. Três tipos falavam em altos berros, como é comum quando se acaba de sair de um sítio barulhento e um deles dizia “Epá, agora vou a pé ali pela Infante Santo” e os outros “Tás maluco pá? Não metas aí que é f#”%”%o”. Mau presságio.



Já com perto de hora e picos de caminho, eis-me chegado à porta da Infante Santo, junto ao viaduto. Uns camones tiravam fotos e riram quando passei – certamente já sabiam o que me esperava. Como a porta estava aberta fui entrando e diga-se de passagem que, vista da parte de baixo, a Infante Santo é bem feia, ou como se diz noutro tipo de avaliações, é "simpática". Um túnel escuro, uns azulejos a precisar de maior cuidado e uma subida íngreme foi o que ela me ofereceu para dar as boas vindas. Quis conversar um pouco e ela moita, com aquela altivez manhosa da nobreza de trazer por casa. Perguntei se podia tirar o boné, que estava com calor e ela encolheu os passeios, como se tanto lhe fizesse. Sem nunca parar de subir, fiz alusão ao facto dela estar um bocado sombria, se porventura não lhe fazia falta um pouco de calor humano. Assobiou com vento e disse que lá mais para cima, quando estivesse mais recta logo se arranjavam uns velhos numas esplanadas.



Resolvi acelerar e começar a pensar em dar por terminado o nosso encontro, o problema é que só tive a noção que ela abusou de mim quando cheguei à parte recta, com as pernas ligeiramente pesadas e a respiração um pouco mais ofegante. Ainda assim disse-lhe à saída “Podes ter a Estrela aqui ao pé, mas tu não passas de uma Avenida de segunda, um ponto de passagem para o que vem a seguir”. Ela não respondeu, como é normal nas avenidas, mas uma família ficou curiosa ao ver um tipo que corre a falar sozinho.



Mandei-me para o Jardim da Estrela, disposto a sair dali bem depressa. Disseram-me que o Marquês de Pombal recebe bem ao domingo...