31.1.14

Vou arranjar um disco para a minha memória de concertos

Já tive a sorte de ver muito concerto, desde os bons aos épicos, passando pelos mais ou menos e não é conveniente esquecer os maus. Nos primeiros a que fui ainda não se tinha massificado a Internet, os telemóveis e o nosso comportamento social virtual e isso faz com que dê ainda mais valor à minha memória e a queira colocar numa caixinha à prova de Alzheimer, não vá o bicho morder daqui a 30 ou 40 anos.

Vi concertos da mesma banda com 12 anos de intervalo pelo meio (1996 e 2008), como no caso dos Rage Against The Machine e pareceu-me que nada tinha mudado. Estive anos à espera de ver os Beastie Boys e depois, no espaço de três dias vi-os duas vezes em Lisboa (Alive e Aula Magna). Vi três vezes os Faith No More, incluindo o seu último concerto antes de "acabarem" em 1998 e voltei a vê-los em modo ressureição dez anos depois.

Podia continuar a lista, conforme me vou lembrando das coisas, mas a tarde foi de freestyle surfing no Youtube, a apanhar playlists do ar e pequenos segmentos que me deixam satisfeito por me lembrar de certas coisas tão bem.



E por aí em diante...

Enchidos e fóruns de opinião pública na TV


Primeiro que tudo é impossível começar qualquer texto onde esteja a palavra enchidos e não referir que, depois do êxito em anos anteriores, a Feira do Fumeiro de Montalegre volta a presentear-nos com um belo presunto em forma de spot.*



Posto isto, em não podendo ir a Montalegre, um dos maiores enchidos da televisão nacional pode ser visto nos formatos de opinião pública em que os ouvintes ligam a debitar sentenças sobre o tema do dia e os comentadores convidados fazem sapateado a tentar que tudo aquilo faça sentido.

Ah, a impressionante riqueza de análise táctica de um engenheiro d Santo António dos Cavaleiros...

Na rádio, a coisa faz sentido, na televisão... é só um tipo de laxante menor face aos programas da manhã e da tarde, onde nunca falta “animação”, “galhofa” e uma constante lavagem ao cérebro com a repetição do número de telefone que as pessoas podem ligar para ganhar uns cobres.

É certo que o taradãoque ligou uma vez a dizer que fazia e acontecia não sei quê à apresentadora do fórum na Sic Notícias ou as chamadas que um personagem criado pelo Jel ligava para os fóruns e tentava enrolar sobre qualquer tema até conseguir puxar a conversa para o Benfica são mais valias de entretenimento mas, num mundo em que toda a gente tem uma opinião e meios para a partilhar, este formato pura e simplesmente tresanda a mofo.

Isto enquanto não estrearem programas de culinária na rádio...


* Nota 1 - Pronunciar "tchouriça" é algo de extremo valor.
* Nota 2 - É curioso ver que há um tendência para a fumeirização a nível mundial.

30.1.14

Momentos mudos

Hoje tive a oportunidade de ver um pianista no Atrium a tocar furiosamente "música" do Paulo Gonzo. O negrume dentro do meu ser levou-me a pensar que ter um cego a tocar assim música de um coxo, me deu vontade de ficar surdo.

Andamos a googlificar a nossa vida?


O imediatismo é meu vizinho. Ambos moramos num bairro decorado com “é para ontens”, “no momentos” e “asaps”. Somos daqueles vizinhos que se falam bem, embora tenha sempre a noção de que ele tenta meter-se na minha casa mais vezes do que eu gostaria.

Apesar disso, lido bem com ele e, aqui entre nós, sei que ele é só assim porque é daqueles que estão sempre demasiado presos às últimas tendências do mundo em que vivemos. Na casa do imediatismo, sejamos justos, não há grandes discussões e, quando as há, chama-se logo o Google para acabar com elas. Se fosse na minha casa, outro galo cantaria, que por lá gosta-se mais de deixar viajar as histórias e os debates do que fazer aterrar rapidamente as conclusões.
O imediatismo diz-me que não tem paciência para isso, histórias e discussões, não levam a lado nenhum se não for para saber quem tem razão e o Google é justo e imparcial na matéria.

Pergunto ao imediatismo se isso não será um problema, se não andamos a transformar a nossa vida em Google mais do devíamos? Queremos respostas para tudo e queremo-las rapidamente, como se para isso fosse apenas preciso carregar num botão.

O imediatismo ri-se logo e tem resposta pronta, como seria de esperar “O Google é um motor de busca. Não encontra nada que não exista já previamente...”. E eu fico a pensar, se não é isso que contribui tantas vezes para tanto lamento e frustração – querermos respostas no imediato para coisas que são impossíveis de responder no presente.

O perigo é depositar esperanças no vazio e esperar que as mesmas voltem preenchidas. A sorte é fazer isso mesmo e ter resultados. Não sei se gerir a vida e a ansiedade voltando sempre as dúvidas para fora e depositando-as em factores que não controlamos não é mais do que um sinal de que confiamos cada vez menos em nós.
Por alguma razão o poder da recomendação está cada vez mais em alta e a tendência para acreditar/confiar na opinião de estranhos (especialmente online) acentua-se, mesmo até em relação à família e aos amigos. Seja na procura de soluções triviais, na necessidade de analisar algo porque estamos a passar do ponto de vista de outros ou na procura do melhor caminho (figurativa e metaforicamente), não é raro que desejemos que a resposta esteja a distância de um botão.

O que a meu ver não está errado, se tivermos sempre presente a noção de que às vezes a resposta não vai estar lá. E que vamos ter que ser nós a criá-la de alguma maneira...

29.1.14

A menina que levou na boca nos Grammys

Posso não ser grande fã da Taylor Swift que, discussão sobre talento à parte, tendo a enquadrar na categoria sonsinha. E tudo bem que os Grammys, nos dias que correm, poderão não ser mais do que o repositório do mainstream e daquilo que as massas gostam de consumir em termos de música.

Para alguns isso é arrepiante, para outros pode ser das poucas oportunidades em que vemos a Yoko Ono e o Steven Tyler a dançar de forma curiosa ao som de Daft Punk + Pharrell + Stevie Wonder + músicos do catatau.




Agora, não deixa de ser vergonhoso que estas cenas de agressões aconteçam em palco, em especial num evento com a gradiosidade que os Grammys pretendem ter...


Uma nova era no arrombamento de soutiens



Filosofia fofinhas e soutiens são coisas que nem sempre combinam. Aquelas discussões etéreas sobre o que é o amor, sobre o que fazer quando se encontra o amor ou até sobre os melhores locais para amar o amor esbarram muitas vezes em questões práticas e dúvidas pertinentes, às quais os soutiens não são alheios.

Ora os japoneses são um povo sempre atento a coisas práticas que não lembram ao demónio e os soutiens continuam a ser merecedores da sua atenção. Estamos muito para além da questão de, em determinado momento, o homem ser hábil a manusear esse artigo ou do debate sobre se o soutien representa algo mais do que a peça que se nos apresenta à frente.

O que estes amigos japoneses desenvolveram é, ao que tudo indica, um soutien com trinco electrónico que mede o estado de excitação da mulher e, se tudo bater certo, abre por si só quando a coisa está no bom caminho. Coisa que ninguém tinha pensado até agora, deixando nas mãos das mulheres a capacidade de fazerem isso por si, perante parceiros mais inaptos. De forma a ilustrar o poder desta peça, há um vídeo de demonstração...



Realmente, se eu podia ter algumas dúvidas, onde é que elas já vão. Para além dos tipificados vilões masculinos (o Animal, o Técnico-Táctico e o Gabarolas), ficamos a saber que apesar de se distinguir à légua que são umas bestas, ainda vão ter oportunidade de ver as miúdas em soutien numa segunda fase. Pensei que o bom senso iria evitar isso...Depois, levanta-se a dúvida do soutien ser em kevlar ou outro material hardcore, tal a resistência que oferece a marmanjões que não respeitem as regras do amor. Depois de todas as opiniões técnicas de peritos na matéria, verificamos finalmente o poder libertador do amor verdadeiro. Pena que o cavalheiro eleito pareça estar prestes a desfalecer de fome (e é muito parecido com o Técnico-Táctico, haverá alguma moral da história aqui escondida?). O toque final é dado pela aplicação de telemóvel, que indica o índice de excitação, com a mesma precisão que o micro-ondas nos alerta para o facto do frango já estar descongelado.


No entanto, parece que isto é só para encher o olho e o produto não será comercializado. É a marca a piscar o olho e a dizer “Vocês não têm mãozinhas para isto, mas olha se tivessem...”. E isto é uma pena, porque já vai fazendo falta lingerie futurista que ao menos faça updates em redes sociais, ao melhor estilo FourSquare e Instagram...

28.1.14

A cena de falar com animais


Sou um gajo democrático que gosta de privar tanto com animais, como com pessoas. Acredito na possibilidade comunicar com animais (e não apenas no sentido lato da expressão), embora tenha a noção de que nem sempre esta comunicação é feita de forma equilibrada por parte do ser humano.
Acho que não raras vezes, pelos mais diversos motivos, as pessoas que gostam de animais podem tender a personificar os mesmos, em termos de comunicação, sem que isso signifique que estejam a tentar comunicar de forma eficaz.

Neste ponto de vista os animais, especialmente os domésticos, tornam-se receptores nos quais depositamos vontades, desejos, frustrações, desabafos, com a expectativa de que nos oiçam, mas sem que a coisa seja propriamente um diálogo.

Por exemplo, conheço o caso de uma pessoa de uma certa idade que tinha uma afeição extrema por um pequeno roedor que foi parar a sua casa por intermédio de um neto. Falava imenso com ele, divertia-se com as suas actividades, etc. Até que um dia, um infeliz acidente matou o roedor e a família, sem saber o que fazer, para poupar a pessoa em causa à pessoa arranjou um outro roedor idêntico. A pessoa não deu por nada, continua feliz da vida a tratar o novo pelo nome do antigo, desabafando e “conversando” com ele. Não vou especular sobre se isto é condenável ou não, o que me interessa ilustrar é que o acto de falar com o animal era libertador por si só, mas não era um diálogo.

E isto pode ser um padrão para muita conversa com bicharada, embora haja quem defenda níveis de comunicação mais próximos. Por vezes, nestas matéria, sou bastante céptico e sou daquelas pessoas que torce o nariz a quem vá abraçar árvores e afins, embora respeite a sua necessidade de comunhão com a Natureza e por aí em diante.

Mas depois vejo exemplos como o deste vídeo e fico a pensar se, tal como matemáticos brilhantes e outras mentes geniais em determinadas áreas conseguem fazer algo diferente com a mesma matéria prima que os restantes, se isso não é possível ao nível de comunicação com animais?



Sem entrar em “crazy cat lady stunts” ou cenas do paranormal, a minha dúvida fica ali a pairar, mas com a vontade de acreditar latente. Num mundo dominado pelo Homem, os animais já têm tão pouco para os fazer sentir melhor que a perspectiva de haver quem mais do que falar, dialogue com eles, se torna algo de muito positivo. O documentário completo pode ser visto aqui.

As pequenas delícias da auto-humilhação

Por oposição ao "coitadidismo" e à autocomiseração deluxe, a capacidade de auto-humilhação é simplesmente deliciosa, quando bem aplicada.

E se juntar Ricky Gervais e David Bowie, mesmo que já com uns aninhos, melhor.


27.1.14

As modas passam a correr


E aqueles que hoje gozam com quem corre, amanhã gozam com quem faz zumba.
E aqueles que hoje correm sem grande gozo, amanhã se calhar dançam zumba.
E aqueles que hoje não percebem o gozo de subir a Serra de Sintra à força da pata, amanhã vão continuar sem perceber, até porque é um gozo esquisito.
E aqueles que hoje não se levantam mais cedo por nada, amanhã também vão achar que é demasiado tarde para o fazer.
E aqueles que hoje dão ouvidos aos outros antes de se ouvirem a si mesmos, amanhã estarão surdos de tanta dúvida.
E aqueles que hoje procuram esvaziar o que preenche as vidas alheias, amanhã vão continuar a remexer no seu próprio vazio.

E aqueles que continuarem a colocar um pé à frente do outro, seguindo o seu próprio rumo, amanhã podem ter apenas uma certeza – vão estar um bocadinho mais próximos do destino que ambicionam.
Se isso lhes for suficiente, estarão no bom caminho.

Conjugação entre homem, mezinhas, mato e muco


O fim de semana dividiu-se em duas fases: a eloquente e a transpirante. Tanto numa como na outra não faltaram altos e baixos, fruto da fase de recuperação de gripe em que me encontro.



Primeiro que tudo, tendo em conta mezinhas que me foram aqui sugeridas, a par de outras recomendadas por familiares e amigos, eis alguns dos truques a que recorri nos últimos dias:



Xarope caseiro de cenoura

Xarope de ervanária com cenas da floresta

Chá de gengibre fresco e limão (ou citronela)

Chá de limão com mel e canela

Gargarejos de água morna e sal

Cebolas estilo headphones na mesa de cabeceira para reduzir a tosse durante a noite (...)

Pastilhas Strepsils



Em relação à parte eloquente de sábado, em termos de voz a coisa não descambou como previa no pior cenário. Consegui falar ao longo das quatro horas, conforme previsto, mas tentei fazê-lo de forma pausada, nem que fosse para a audiência não perceber o quão desinteressante é o meu paleio. Além disso, nem cheguei bem a Barry White, nem me atirei para Alvin e os Esquilos. Fiquei basicamente entre estes dois patamares, em termos de voz:




A segunda parte foi mais complicada, pois implicou madrugar no domingo e rumar a Sintra, onde a cacimba era de tal ordem que parecia chuva. Para um gajo com o nariz e os pulmões ainda bastante congestionados, não eram propriamente os 17kms até ao cabo da Roca que assustavam, mas a necessidade de respirar durante os mesmos.



Com direito a subir que nem um leão logo de início, percebi rapidamente que o passeio pelo meio da serra ia ter que ser bem ponderado. As pernas aguentaram bem, mas a respiração foi bastante complicada nas partes mais íngremes e só o facto de estar bem rodado em distâncias largas é que me permitiu gerir o esforço da melhor maneira, de forma a guardar energias. Não deu para o ritmo Speedy Gonzalez, mas também não foi preciso chegar ao ritmo Walking Dead.

Os últimos 4/5 kms da prova foram sempre a descer, da Peninha à Azóia e daí ao Cabo da Roca e como nesse registo o esforço respiratório é menor, ainda deu para apanhar um ou dois amigos que tinham arrancado enquanto eu raspava os pulmões na primeira fase da prova.

O facto inteligente de ter despachado uma muda de roupa para o fim da prova (a contrapor a possível estupidez que foi ter ido correr com este tempo sem estar a 100%), a par de chá quente e líquidos à disposição na meta, ajudaram a que não tivesse piorado, embora também não esteja propriamente melhor.



Não sei se o mesmo se aplica a esta jovem  que fez a prova (ou parte dela) nos preparos que podem ver...

24.1.14

A perder a voz em 3,2,1....

Estando já na curva ascendente de recuperação de uma semi-gripe, não é o meu estado físico geral que me preocupa, mesmo tendo em conta que no domingo irei para o meio de Sintra andar a correr feito artista até ao Cabo da Roca e treinei cerca de zero vezes durante a semana.

O que me preocupa é que hoje me atacou uma rouquidão daquelas de altos e baixos, em que tão depressa falamos como o Barry White, como a seguir parecemos o Alvin e os Esquilos. O que seria divertido se hoje fosse noite de karaoke esquizofrénico, mas o facto é que amanhã pela fresquinha avizinham-se quatro horas de parlapié da minha parte (e não, não sou convidado na Igreja do Pastor Tadeu nem nada semelhante).

Alguém tem uma receita caseira de elevado nível para contornar isso e evitar ter que ir alugar agora um fato de mimo para prevenir o pior?

O interior da tua cabeça visto a partir da tua mesa de trabalho

E um dia dá-te para arrumar a tua mesa de trabalho e gavetas adjacentes, só para descobrires um bocadinho mais sobre a tua teoria do caos organizado e te aperceberes de como (não) funciona a tua cabeça. Que me perguntem agora "de onde surgem essas ideias malucas?" que, pelos vistos, a resposta é fácil - devem vir de um cruzamento entre as cenas estranhíssimas que tenho na minha mesa e as outras do mesmo género que existem na minha marmeleira.


23.1.14

Filmes que assustam sei lá, o Homem

Neste trailer, a dada altura, uma mulher diz a um homem que ele foi um paliativo. Mantendo o estilo da linguagem, em salas onde isto seja exibido deviam ser facilitados cuidados paliativos a quem arrisque.



Sim, é um bombardeamento de clichés e sim, é uma adaptação de uma "obra" dessa sempre tão requisitada senhora. Mas o meu problema é que olho para isto como uma laranja sem sumo que, depois de já ter sido espremida ao máximo, alguém ainda se lembra de a servir como sobremesa.

Estas fórmulas, estes diálogos, o bitoque da Guerra dos Sexos nas Cidades à portuguesa, meu Deus. Não houve uma série na SIC sobre relações, traições e confusões que era este filme, mas há 4 ou 5 anos atrás?

Se é para fazer cinema em português, sem necessidade de o fazer intelectual e elitista, não deveria haver a vontade de o fazer original? Se é para falar de mulheres e homens, só faz sentido neste tom, para ser descomplexado, moderno e divertido, mas a cheirar a plástico?


A nobre e difícil arte de “emprestar”



Quando se trata de emprestar coisas não tenho qualquer vergonha em confessar que sou um pouco esquisitinho. Se não confiar no cuidado que a pessoa vai dispensar ao que lhe estou a emprestar, o mais provável é que me negue a fazê-lo logo à partida. Porém, em minha defesa, quando estou à vontade com alguém não tenho qualquer problema em fazê-lo.



Livros, jogos, CDs e DVDs (vou deixar dinheiro na categoria de “empréstimos perigosos”, a par de carros e outros bens de grande porte) são provavelmente as coisas que mais emprestei até hoje. É certo que as duas últimas categorias estão em declínio a nível de empréstimo, embora o “empresta-me aí uma pen drive” seja um modo aglutinador pós-moderno para música e filmes.

O facto de eu considerar “emprestar” uma nobre arte tem que ver com o exercício que depois pode surgir entre as duas pessoas – a que empresta e a que leva emprestado. Há um prazo acordado? Não há? E quando aquilo que consideramos um prazo razoável já foi às malvas há muito tempo? Pior ainda, e quando vemos aquilo que emprestámos calmamente metido em prateleiras alheias como se delas fizesse parte?

Para quem empresta é importante um método de controlo, que para certos artistas é um ficheiro organizado com todos os empréstimos a decorrer, para outros é um post-it e para tipos como eu é uma confiança inabalável na sua memória, o que muitas vezes pode resultar em ficar a arder que nem as virilhas de um obeso mórbido depois de tentar correr 5kms. Além disso, se formos gente que empresta à bruta, para nossa segurança é importante categorizar aquilo que emprestamos, desde artigos "Holy Graal" até cenas do género "Se desaparecer, é uma sorte".



Do lado de quem recebe, só podemos esperar moral e bons costumes. Há quem seja diligente e há quem seja displicente e o pior é que muitas vezes, personalidade e empréstimos não combinam de antemão. Já tive amigos super correctos e certinhos que foi preciso quase arrombar-lhes a porta de casa para forçar devoluções e os maiores mitras já me apareceram em casa a devolver artigos que eu próprio já não tinha bem a certeza de quem os tinha.


A devolução é outra parte sensível na arte de emprestar – Recebemos de volta algo que vem meio quinado ou pior do que foi, sem que a pessoa que devolve mencione o que quer que seja – é melhor reclamar ou calar e riscar a pessoa da lista de futuros empréstimos? Anos depois, descobrimos na nossa posse algo que jurámos já ter devolvido quando nos perguntaram isso mesmo – assume-se a vergonha ou omite-se e amplia-se o espólio, uma vez que o dano já está feito? Ter três coisas emprestadas, devolver uma e pedir mais duas é lícito ou um novo empréstimo só deve ser viabilizado depois de tudo devolvido?

 
O momento em que descobres as tuas iniciais escritas de forma discreta no verso de capa de um livro que o teu amigo jura que comprou numa livraria na Baixa...

O meu lado esquisitinho leva-me sempre a posturas mais defensivas e, feito o balanço, creio que me tem servido bem mas suponho que emprestar sem medo e confiar no melhor das pessoas também seja uma atitude otária positiva.

Mas eu também sou o gajo que acha que as pessoas deviam trocar boa parte dos livros que têm e nunca vão ler mais do que uma vez na vida, para que não morram nas prateleiras, por isso a coerência nem sempre é o meu forte...

22.1.14

Deserto por uma ilha de música


Hoje, a propósito de um trabalho que estava a desenvolver, isolei-me numa ilha de música. Esse  método permite-me revisitar algumas discografias que aprecio mas nem sempre revisito com regularidade, através do exercício conhecido por “colocar headphones de forma a garantir concentração e sobrevivência num open space em que tão depressa estão briefings e estratégias de comunicação em cima da mesa, como o futuro do cinema, Gervásio o macaco ou a enciclopédia das viroses infantis abordados de forma trendy”.

Outro dia descobri que os Soundgarden tinham lançado um álbum no final de 2012 e eu não tinha dado por isso, desta vez rumei ao arquipélago de Massive Attack. E que bela estadia tive, revisitando o toque diferente que cada vocalista convidado deu aos temas que já nem me lembrava de gostar bastante e a uma sonoridade a meio caminho entre o dark e o introspectivo, sem cair na espiral da depressão.

É a prova de que vale a pena sacrificar a sociabilidade, nem que seja por um dia.

A onda


A onda era gigante mas não era feita de água. Formou-se a partir do vexame e da tacanhez que envolveram durante anos a fio, dentro de capas e batinas, gritos e rituais que alguns diziam ser de tradição mas mais não eram do que ecos deformados do tempo longínquo em que trajes ocultavam diferenças em vez de as exporem.

E essa onda ganhou força no medo de alguns, na falta de informação de outros e na necessidade de integração de uma maioria acabada de chegar a um lugar novo e que, a troco de punições impostas por falsas autoridades, deixou que a humilhação fosse a norma e a diversão um esboço ressequido fruto de mentes que tomam por gozo coisas que, fora do meio em que gravitam, seriam consideradas aquilo que realmente são – exemplos de que a maldade humana e o gosto pela miséria alheia andam mais vezes de mãos dadas com a realidade do que aquilo que gostaríamos de imaginar.

Cheia de força e mais que furiosa, durante anos a onda varreu bom senso e varreu palavras e actos para debaixo do tapete da irresponsabilidade permitida porque faz parte do costume. Alimentando-se de velhos hábitos e dos maus brandos costumes, colocou rótulos de queixinhas, inadaptados e fraquinhos aos que dela fugiam e deu sensações de poder que deviam ser falsas, mas que acabam por ser reais, aos que nela surfaram e lhe deram ainda mais força. Aparentemente, o descontrolo está sempre controlado até ao momento em que deixa de estar.

E um dia a onda desabou com estrondo e com estrago. Como seria de esperar, por tudo o que define aquilo que lhe deu força, a onda que foi de tanta gente passou a ser de ninguém. No entanto, as ondas não morrem sozinhas, nem no mar, nem em lado nenhum.
E esta devia afogar em culpa e desejo de mudança, todos os que fizeram dela aquilo que é e tudo aquilo que não devia ser.

21.1.14

Marco Paulo e cenas de alinhamento cósmico


 Quando era puto, o meu cabelo era mais encaracolado, a ponto de alguns exagerados alegarem que eu tinha "cabelo à Marco Paulo". Mais tarde, de forma a acabar com esses rumores, na minha fase rebelde do hip hop adoptei o chamado penteado estilo “cone de gelado”.

Mais tarde, na faculdade, o meu programa na rádio da Universidade chamou-se durante um ou dois anos “What happened to Marco Paulo?”, uma viagem em busca do desaparecimento desse personagem com música pelo meio. Ou então, pura e simplesmente uma viagem.

Na minha única presença num concurso televisivo, o anfitrião foi o Malato. Fui obrigado a trocar umas piadolas com ele e surpreendeu-me o facto do artista assumir na boa a cena em que foi apanhado em vídeo na net num bar bear madrileno.

Hoje, todo este alinhamento cósmico que se andava a cozinhar há anos deu nisto:



Por breves instantes, vi Marco Paulo aproximar-se do Malato por detrás e a surpreendê-lo à bruta, pelo meio de espanto e galhofa máscula.
Como a vida ganha outro significado quando estamos à hora certa no local exacto…

Copo meio coiso e tal, copo meio tal e coiso

Dizem nas notícias que as 85 pessoas mais ricas do mundo têm tanto dinheiro quanto a metade mais pobre da população mundial.

E pelo meio da indignação e do que devia ser mas não é, a minha mente viaja para outro paralelo estatístico - Será que as 85 pessoas mais estúpidas do mundo são tão idiotas quanto a metade mais estúpida da população mundial?

20.1.14

Ouve o teu corpo antes que ele te faça a folha


O meu corpo tende a falar comigo, Isto não significa que sejam vozes na minha cabeça (mais do que o habitual) ou efeitos dignos dos Malucos do Riso, mas em certas situações ou expondo-o a certos limites, ele fala. O problema é que eu e o meu corpo já nos conhecemos há algum tempo e às vezes acontece-nos o mesmo que a alguns casais que estão juntos há anos – um fala, o outro diz que está a ouvir e na realidade nada acontece, até porque o segundo não ouviu o primeiro e o primeiro não teve paciência para fazer com que ele o ouvisse a sério.

Tal como nesses casais, a situação só passa a ser algo sério em que ambas as partes estão a tomar atenção quando a coisa dá para o torto e, mais do que conversa, é preciso acção.

Foi assim connosco – sábado o meu corpo alertou-me sobre algo que não estava bem “Epá, não estou a 100%, há aqui qualquer coisa que não está a bater certo, mas não sei bem o quê...”. E eu, que já o conheço, lá disse “Certo, hum-hum...” enquanto pensava que era bom que descansasse hoje, amanhã já estaria fino. Estes corpos estão cada vez mais refilões, dormem menos umas horinhas, fazem mais um bocadinho de exercício e ficam logo todos sensíveis.

De sábado para domingo o sacana acordou-me algumas vezes “Ouve lá, se calhar amanhã ficávamos a descansar na caminha, não?”, e eu “Dorme pá e deixa-me dormir que logo vemos isso”.

Obviamente que de manhã lhe resolvi fazer uma surpresa e, ainda ele não estava à espera e já estávamos a sair de casa em corrida a caminho da Expo, para daí ir até Algés. O gajo aguentou-se sem uma palavra na parte inicial, mas eu percebi que estava amuado. Tentei fazer conversa e nada, só o caminho da passada. A meio do percurso percebi que algo não estava bem, era ele a reclamar como nunca antes visto, a dizer que eu nunca lhe dava atenção quando era preciso e eu a tentar chegar ao fim rapidamente, para pôr fim ao tormento. Acelerei o que podia e o que não podia, com a consciência que não era o ideal mas o necessário. Lá cheguei ao fim, o ponto de encontro com a minha boleia e, mal parei, levei a maior descompostura do meu corpo dos últimos tempos e não me restou senão sentar-me no carro de rastos e acabrunhado.

Basicamente, parecia um rissol engripado, se é que isso existe. Mas foi assim que me senti depois de ignorar os avisos e fazer as coisas à minha maneira. Recuperando um pouco, fomos ao cinema à tarde, mas sinto que ele passou o domingo a punir-me e ainda hoje está bastante chateado. Já lhe prometi descanso, drogas e momentos de qualidade a dois durante a semana.
Até porque no próximo domingo gostava de o levar a passear a correr até ao Cabo da Roca...

17.1.14

A minha opinião sobre o reverendo


O problema são as expectativas e o auto-conhecimento. Quando o segundo descarrila ou é desproporcional em relação à realidade (normalmente no pior sentido), aparecem os Randy Watson da nossa vida. Pessoas com um equilíbrio delicado entre o patamar em que julgam estar e o patamar em que as pessoas os colocam no mundo real. E pouco atreitas a lidar com as contrariedades.

As expectativas do Reverendo Brown mais não são do que o cruzamento entre a teoria de que devemos acreditar e defender o sucesso daqueles que nos são próximos e o resultado prático que é saber que há coisas que nunca passam de desejo à realidade.



E quando começo a fazer análise sociológica a partir do Coming to America, é sinal que não só é sexta feira como também que sinto falta da Whitney Houston.


PS – Sobre o referendo lá do mundo real. já fiz um post no Facebook. A minha complexa estratégia de social media impede-me de o duplicar aqui, antes que isto se torne um espaço relevante.

Coisas idiotas em que este temporal me faz pensar


Dou por mim a caminhar pela rua, olhando para as poças, tentando interpretar o sentido das correntes junto aos passeios. Arrisco atravessar agora e tomar banho ou espero junto à berma e deixo que seja o banho a vir até mim? Irá o Metro ter observação de espécies exóticas do mar ou apenas as espécies exóticas do costume?
Será que, ao chegar ao trabalho estará um gajo a secar as meias no secador de mãos do WC? (esta nem é uma suposição, é mesmo uma antevisão)

Tudo isto me distrai do barulho das ambulâncias, das constantes buzinadelas que tentam ingloriamente afastar água e carros ao estilo de Moisés e dos trovões que me fazem lembrar do tempo em que vivia numa casa em que às vezes a vizinha de cima recebia o seu ex-marido para fazerem as pazes durante uma hora ou duas.

Mas, bem vistas as coisas, do que este tempo me faz mesmo ter saudades é de um bom parque aquático, coisa que neste país é inexistente, pelo menos na versão "Isto mete água e tu vais gostar de andar por aqui a escorregar à bruta".

Não podendo ser desses, pode ser deste tipo, que também são bem agradáveis.


16.1.14

Youtube, divórcios e inteligência











Isto sim, é inteligência e criatividade (mesmo que ninguém me convença que isto vai dar um boost de clientes à firma), explorando um meio já muito batido. 
E bem melhor do que a obtusa publicidade invasiva que antecede vídeos que queremos ver no Youtube, a qual gera o chamado efeito Ano Novo (5,4,3,2,1....SKIP AD).

O homem que não ligava a carros


Foi a meio de um projecto que tenho em mãos sobre uma marca automóvel (apontamento que fica sempre bem para mostrar que se é um profissional ocupado) que me apercebi de uma falha grave que ostento em termos de masculinidade tradicional – não ligo grande coisa a carros.

Percebo as razões que levam gajos a babar sobre os mesmos, não me é difícil compreender o entusiasmo gerado por motores, marcas, velocidade, segurança, estilo e sei a diferença entre o Fast&Furious e a Aston Martin. No entanto, nunca entrei num stand, nunca fiz um test drive, nunca comprei um carro novo e nunca melhorei os carros que tive com mais do que tapetes, escovas e auto-rádios.

Desde adolescente sempre tive à minha volta entusiastas do mundo automóvel, ainda hoje tenho à minha volta malta que delira com o Top Gear, que discute acaloradamente o futuro da Audi, da BMW e da Mercedes enquanto estatuto dos que, não sendo ricos, querem que o seu carro mostre que nesse capítulo não são pobres. E eu, que não vejo no carro algo mais do que um veículo útil para ir de A para B, meto o pisca e saio na próxima saída sempre que tais debates começam.

Pode ser por, tendo morado sempre em Lisboa, nunca ter tido necessidade de usar o carro diariamente, nem depender dele por motivos profissionais. Pode ser, mas não tenho a certeza.
Acho que não nasci com injecção electrónica para arrancar com a minha paixão automóvel.

Se atenuar a minha falha, pelo menos tenho um amigo que tem uma oficina. Mas não percebo metade do que ele diz quando entra em detalhes sobre o que faz...