9.4.14

Duelos nos passeios de Lisboa


Sou um gajo que anda a pé pela cidade e, pelo que vejo numa dedução brilhante, não sou o único. É certo que tenho o privilégio de, quando tal é viável, conseguir fazer o percurso casa-emprego e vice-versa dessa forma, mas há quem também faça o mesmo e não sinta a necessidade de escrever sobre a matéria.



No entanto, mais interessante descobrir do que descobrir as motivações das pessoas para andar, o que eu gosto mesmo é de duelos não oficiais de peões. Imaginem-se com a Avenida da República toda pela frente, lado a lado com uma tipa de perna longa – não pode estar de saltos, isso é desvantagem para ela, mas pode tentar. Será que tem passada larga? Será que aguenta até ao Saldanha? O primeiro a curvar perde?



Não é raro eu fazer isto, escolher uma pessoa/grupo que se desloca no mesmo passeio que eu e tornar a coisa numa corrida não oficial. Se corres, estás fora. Se aceleras de forma anormal, estás fora. Se me tentas vender timesharing, fazer inquéritos ou dar folhetos sobre a vida do Senhor, não só estás fora como te rosno. A partida pode ser o arranque num semáforo, alguns passos a par ou a largada que vem do Metro – quando alguém curva, entra num prédio, resolve dançar breakdance ou algo similar, o duelo acaba.



Dentro disto, existem duas nuances curiosas – os telemóveis vieram baralhar os duelos – grandes atletas do passeio podem ver a sua performance arruinada por um telefonema inoportuno ou beleza do duelo ir às malvas por via de um nível de Candy Crush jogado em andamento. Um poste ou um duelo em direcção oposta podem causar acidentes não propriamente espectaculares, mas socialmente divertidos.



O outro aspecto é um certo desconforto latente que algumas pessoas demonstram quando notam que alguém anda ao lado delas, ao mesmo ritmo, num passeio. Talvez seja inconsciente, talvez desconfiem de uma intencionalidade que pode não existir, talvez seja uma espécie de invasão subjectiva de um ritual habitual. Não sei, mas é uma boa razão para começar um duelo.

Vão dizer que são pessoas normais e nunca fizeram isto? Ou são apenas pequenos pulhas burgueses que não andam pelos passeios da vida?
 



Enquanto pensam nisso, querem saber o melhor deste post? Descobrir que há gajos a pensar como eu que fazem vídeos catitas para ilustrar isto mesmo.


T -22 dias

8 comentários:

  1. Revi-me tanto, mas tanto neste texto ahah

    Beijinho
    http://socorro-mudeioblog.blogspot.com

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    1. Então é espalhar a palavra por esses passeios fora.

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  2. Vai contra todo o protocolo pedonal caminhar ao mesmo ritmo junto a um desconhecido. Além de que desalinha o feng shui das ruas, bloqueando fluxos energéticos essenciais.
    Isso e é capaz de assustar as tais mulheres pernilongas, que se julgarão perseguidas.

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    1. Eu acho que, pura e simplesmente, "faz espécie" ;)

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  3. Em miúda fazia uma coisa semelhante com uma amiga minha (inspirado no vídeo "bittersweet symphony" dos the verve). Tínhamos de subir a avenida ao lado uma da outra sem nos desviarmos das pessoas que vinham em sentido contrário. A primeira a desviar-se perdia.

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    1. Espero que tivessem (e ainda tenham) uma dentição melhor que o Richard Ashcroft. E também cantavam?

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    2. Não cantávamos, mas fazíamos um ar muito sério. A nossa dentição era bem melhor, não andávamos "a cavalo". Já os antigos diziam "a cavalo dado, não lhe olhes os dentes".

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  4. Sim, sou normal.
    Disso nunca fiz. No máximo quero ultrapassar alguém que ocupa o espaço todo, acelera e desacelera, vai aos ziguezagues enfim, irritantemente não sabe andar!

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