19.4.14

Correr é só um capítulo de algo bem maior


Não foi uma febre tardia de desporto e combate à servidão do sofá, da rotina e da vida que podia ser mas não é. Talvez por uma certa natureza irrequieta, que precisava de ser canalizada de forma positiva também na vertente física, cedo fui levado pela minha mãe a descobrir a ginástica desportiva numa colectividade perto de onde vivia. Com seis anos de idade não foi nada de hiper-sério mas, durante três anos foi algo que me deu algum gozo, enquanto começava a descobrir aquilo que mais me interessava no desporto.
 

Apesar do meu pai sempre ter tido ligações próximas com desporto, nunca foi determinante nas minhas escolhas nessa matéria. Não sei se foi algo ponderado ou não, mas quando aos nove/dez anos decidi que o futsal é que era, fui mais motivado pelos amigos que tinha do que por outra coisa. Mais uma vez tive a sorte de viver numa zona de Lisboa onde abundavam colectividades com escalões de formação em pequenas modalidades e lá fui eu. Tinha o jeito, sem ser craque, mas percebi que nos desportos colectivos a inteligência e a visão global da coisa ajuda a superar um ou outro aspecto individual menos forte. Diverti-me imenso durante três anos, ganhei histórias que ainda hoje conto e, prestes a entrar na adolescência, já sabia que o desporto era algo que fazia parte do meu equilíbrio enquanto pessoa ou, na altura, enquanto puto estúpido à procura de afirmação.  

Então e o futebol “a sério”, já que aqui há alguns anos, o futsal não tinha a atenção que tem hoje? Bem, depois de uma época de futsal cheguei a ir aos treinos de captação do Belenenses, o meu clube de eleição e passei algumas fases de escolha. Só que depois não fui aos treinos finais – não sei bem porquê, mas houve algo em mim que me disse que não seria por aí e se calhar, sem a motivação certa, simplesmente não fazia sentido ir lá levar um “não” final. Mas a resposta também não estava no futsal. Com treze anos, gostava de jogar, tinha algum futuro na modalidade (pelo menos no médio prazo), mas tinha crescido em altura e na vontade de experimentar algo que me deixava deliciado na vertente amadora e sempre que ligava a TV para ver jogos da NBA – o basket. Também se pode dizer que não gostava de passar o inverno a jogar para o campeonato em ringues ao ar livre, pelo meio de chuva e manhãs cinzentas, mas esse tipo de "entrave" foi sempre algo secundário.
 
Querendo experimentar basket e já numa idade “semi-avançada” para começar numa modalidade, uma vez mais não pude ir pelo meu clube do coração, o local de treinos não era compatível com o meu horário na escola e, com os meus pais já separados, gerir boleias não era coisa simples. Foi um tio meu, devoto de Alcântara e do Atlético que disse à minha mãe para me levar à Tapadinha – o local era acessível, seria fácil ir sozinho de transportes se fosse preciso e não faltavam boleias no regresso. E assim começaram cerca de oito anos que não trocava por nada.

Descobri no basket o meu jogo colectivo preferido e no conceito de equipa, através de bons e maus momentos, mas muito mais bons do que maus, que há coisas que falam de perto com a nossa essência. À distância pode não parecer fácil, em sete dias da semana, treinar quatro vezes ao fim do dia e jogar ao fim de semana, isto nas doses mínimas – lá mais para a frente chegaram a duas sessões diárias, com ginásios e partes físicas pelo meio. A coisa fica particularmente complicada quando chegamos aos 16 e por aí em diante, em que interesses, escola, miúdas e tudo o mais competem pelo nosso tempo. E, ainda assim, vais treinar.
Entre amigos, rivais, jogar numa equipa pequena mas com tradição, ir a fases finais, jogar e ganhar a futuros campeões nacionais (creio que só nunca ganhámos ao Benfica enquanto lá joguei), foram tantos momentos que ainda hoje, quando me perguntam “Então mas ganhaste algum dinheiro a jogar?” posso dizer que ganhei ZERO em dinheiro, mas muito mais do que me poderiam pagar nessa idade.

Foi já no início da faculdade que, ainda a jogar, percebi que o esforço não era viável e que nunca faria carreira a jogar basket. Sem problemas em admitir que a conjugação de não ser excepcional e o basket não ser como futebol, em que mesmo jogando em divisões secundárias consegues ser recompensado financeiramente pelo teu sacrifício de outras coisas. E foi no dia seguinte a tomar consciência plena do que pensava, que foi falar com os responsáveis dos sub21 e disse que não dava para continuar. A oferta milionária que me faria reconsiderar não surgiu. Damn it.

Na semana seguinte estava a jogar pela equipa da faculdade, por via de um ex-colega de equipa que andava na mesma faculdade que eu. Com exigência menor é certo, mas uma vez mais com a sorte de conhecer pessoas que ajudaram a continuar que este caminho valesse a pena. Além disso, anos de pré-épocas de preparação física, já tinham deixado o gosto pela corrida a germinar, indo fazer provas de 10kms e mini maratonas regularmente. Quando acabei o curso, o mesmo grupo com que jogava na universidade convidou-me para jogar no Campeonato do Inatel de Basquetebol. Quando eles deixaram de jogar, amigos do Atlético que também jogavam no Inatel chamaram-me. E quando estes também deixaram de jogar, outros amigos que conheci disseram-me para experimentar ir jogar com eles. E assim continuo a jogar, gerindo o meu tempo e o meu corpo o melhor que posso. É certo que quando a minha mãe me diz “Mas o que é que o basket te deu para além de mazelas?” nunca posso concordar e respostas como “Bem, podia ter-me metido na droga...” são sempre um bom argumentário. Mas também sei que depois dos trinta todos os dias o teu corpo te explica o que mudou quando te aleijas ou porque é que não te lembras de ficar assim tão podre no dia seguinte quando tinhas vinte anos.

E, paralelamente, foi assim que comecei a correr mais, para continuar a ouvir o meu corpo a falar comigo e o meu espírito a puxar pela vontade que tenho sempre de me superar e descobrir novos limites. Se é certo que com a escrita posso fazer o que quiser, viajar onde me apetecer e criar mundos à minha vontade, através do desporto descubro sempre algo novo com que me motivar e que me sai do corpinho. Faz parte da minha maneira de ser, não o recomendo como solução de vida para ninguém que não se sinta da mesma maneira. E é exactamente isso que digo aos amigos que por vezes falam comigo à procura de ver no desporto uma tábua de salvação para algo que não está a funcionar nas suas vidas, à medida que os anos passam.

Faltam 12 dias de regabofe e talvez seja altura de falar um pouco mais sobre mim.

2 comentários:

  1. Vou, a título de excepção, largar o meu alter ego. Este blog é daqueles que deveria durar para sempre, é o que de bom, de criativo, de divertido e de excepcional o mundo dos blogs tem.
    Foram poucos os posts que não (me) surpreenderam pelo grau de loucura saudável. É um dos poucos que suscita curiosidade e dá vontade de conhecer um pouquinho. Seja feliz, Mak, seja muito feliz.
    (percebo bem o que diz, fiz desporto toda a vida, alguma competição, não muito a sério, mas foi, e ainda é, determinante na pessoa que sou hoje, o desporto faz surgir o que de melhor há em nós)

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    1. Agradeço as palavras e, dentro dessa receita de loucura saudável, que não sei bem o que será, mas que sigo religiosamente, tenho uma teoria sobre experiências criativas.

      Quantas mais, melhor, dentro daquilo que nos dá gozo. Há 10 anos era a mesma pessoa que sou hoje, mas não era igual. O blog nunca foi suposto ser mais do que é e tudo o que me deu, desde o mais surpreendente ao mais previsível é algo que retenho com satisfação

      O que virá a seguir? Logo se verá. Até lá, vemo-nos por aí :)

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