28.4.14

A vida é feita de altos e baixos. Os trails também.



Ia aproveitar a ponta final aqui do tasco para falar sobre mim mas, no entanto, isso causa um dilema - é suposto a coisa terminar em alta e não com um bocejo.
Portanto, para tornar a coisa mais suportável, vamos falar antes de corridas e de cenas da vida – duas coisas que, tal como as hamburgarias gourmet, são trendy e podem causar irritação aos outros.

Sexta feira, dia de revoluções, resolvi também revolucionar a minha experiência de corrida, inscrevendo-me num trail lá para os lados de Alhandra, desconhecendo completamente o terreno/relevo para além do que os mapas de corrida mostravam. E os mapas de corrida são como certas senhoras maquilhadas, podem ser algo enganadores.

Para a pessoa normal, alheia aos dramas dos maluquinhos da corrida, correr junto ao rio ou fazer subidas no meio da cidade pode parecer pouco diferente de ir correr noutra paisagem qualquer. Mas isso é como alguém que tem um corte num dedo dizer que aquilo é exactamente igual a partir a cabeça ou alguém que está triste confundir a coisa com depressão. Tudo muda.
Longe de dezenas de milhar, como por exemplo na meia maratona da ponte 25 de Abril, aqui os corredores não chegavam a 200. Logo à partida o sentimento de comunhão é bem maior, mesmo que depois da partida saibas que cada qual lidará com os seus problemas à sua maneira. Era fácil perceber que a organização era constituída pelo núcleo duro das pessoas daquela pequena localidade e que para elas não se tratava de um frete, era um evento que levava à sua terra pessoas de vários sítios e, ao seu jeito natural, tratava-se da arte de receber bem, tantas vezes esquecida em tantos sítios.

Dá-se a partida e, menos de cinco minutos depois, estás a deixar a localidade para trás. E, no meio de uma prova, estás a andar, porque as subidas iniciais são tão íngremes que correr não faz sentido e não é só para ti, é para 98% dos participantes, Aguentar nas subidas, correr quando a elevação deixar e rezar. Rezar ao que te apetecer, nem que seja ao deus das temperaturas, para que a coisa não aqueça e junte calor a um percurso que, só por si, te deixa em brasa. Ah, mas se sobes, também deves ter o benefício de descer, voar entre canaviais.
Em teoria sim, na prática, se a descida for técnica, cheia de calhaus, buracos, lama, curvas, escarpas, descer é tão desafiante como subir, porque a velocidade que  atinges tem que ser controlada e reduzida, para não ficares feito num molho de brócolos.
Pelo meio, água, espinhos nas mãos, abastecimentos de categoria e a vontade de lá ficar sentado uns minutos só para ver essa vontade domada pela consciência de “És tão estúpido. Se parares aqui nunca mais te levantas.” E lá bebes uma água, trincas uma fruta e adeus até à próxima.

Conforme os quilómetros vão passando, a tua noção de distâncias vai sofrendo alterações – uma subida de 400 metros passa a “aquilo era praticamente o Everest” e uma descida moderada com algumas pedras ao longo de 1km passa tecnicamente a “Epá, aquilo era um Grand Canyon, um passo em falso e era morte certa”. Quando te aproximas novamente da localidade e da meta, o pessoal da organização tenta motivar-te e, apesar de ter tido a sorte de ter ido com um amigo por perto até ao fim, já nem queres saber de incentivos – queres acabar e queres pisar alcatrão, plano e previsível.

Nos últimos metros, lá consegues a maior proeza – sorrir e dizer uma graçola ao amigo que te segue. És inteligente o suficiente para saber que és masoquista o suficiente para voltar a fazer uma destas.




1 comentário:

  1. Qualquer dia também reúno o meu masoquismo à minha inconsciência e faço uma coisa dessas. Na pior das hipóteses, ganho um novo respeito ao alcatrão.

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