14.4.14

A sedutora arte de cuspir numa mulher e ser convidado a sair


Na sequência de um nostálgico Agora Escolha versão mitra, eis o episódio escolhido – o dia em que cuspi numa miúda e saí com ela.
 

Filosofia no 12º ano não é mesma coisa que a filosofia de putos que estão no segundo ano. É um estado de semi-adolescência armada ao adulta, em que momentos de grande seriedade se cruzam com a estupidez natural de quem não sabe o que faz.
Numa aula, grupo de trabalho, eu e três donzelas, proporção natural em áreas de Letras. Uma dela gostava de me provocar, brincalhona pensava eu, mas sem o toque sedutor de outras damas na mesma idade. Isso ou então era eu que lhe despertava instintos mais infantis.
Sentada à minha frente, o nosso grupo é convidado a ler umas passagens sobre Kierkegaard, Feuerbach ou um qualquer tipo alemão com teorias morais. Ela lê, mas olha para mim durante as frases e, fingindo ser sopinha de massa, enche-me de “gafanhotos”. A chamada sedução à National Geographic. Eu aparo o golpe, mas faço má cara, digo entredentes “Vá lá, acaba com isso”, sem qualquer resultado. Há uma pausa para debate sobre o que é lido e eu digo “Não voltes a fazer isso, vai dar mau resultado”. A professora manda continuar a ler, ela faz a mesma brincadeira, eu interrompo.

“Se é para cuspir, bem podes fazer isso de uma só vez”.  Vejo tudo negro, mas só porque fecho os olhos no momento em que lhe cuspo para cima. Numa aula de Filosofia. No 12º ano. Com tudo calado.

A professora diz que não tolera. Ela chama-me nomes. Eu abano a cabeça, mais de vergonha do que de arrependimento, se é que isso é possível. Pedem-nos aos dois para nos levantarmos, “Vão lá para fora acalmar-se. Já.” – a porta bate-se nas nossas costas. Olhamos um para o outro, há raiva, depois há riso. Os pedidos de desculpa têm a forma de “És tão estúpido” e “Tu é que és mesmo estúpida”.

Passam dez minutos. Bato à porta da sala de aula e a professora abre “Posso entrar? Já estou calmo...”. A professora ri-se, “Para rapaz perspicaz estás um bocado lento. Acalmar era figura de estilo, já te marquei falta”. Encolho os ombros e volto as costas. “És tão estúpido” diz ela outra vez.

Anos mais tarde estamos casados e já não cuspimos um no outro, mas ainda vamos tendo vontade de chamar estúpido um ao outro pelos melhores motivos...











ACHAM MESMO? Nunca mais vi a rapariga depois do 12º ano e também nunca mais cuspi em nenhuma mulher. No entanto, continuam a chamar-me estúpido com alguma frequência.

2 comentários:

  1. Se não me tivesse esquecido de escolher a história no outro post, teria votado nesta... e agora passei a não gramar muito o gajo da área da publicidade... enganosa! A interpretação literal do "convidado a sair com ela" escapou-me e já estava a fazer grandes filmes na minha cabeça (que é fértil em imaginação). És mesmo estúpido... e mau :)
    Espero que o "novo blog" mantenha o nível de parvoíce deste!
    Scheimit

    ResponderEliminar
  2. Eu uma vez dei um tabefe a um que me espetou uma lapiseira de metal no pescoço a meio de uma aula de inglês. Ainda hoje somos dos melhores amigos.

    ResponderEliminar

Se vais dizer alguma coisa, escreve, não fiques para aí a olhar.