4.3.14

Tragédia no Carnaval de São Bernardino dos Telhais


Chegou até mim um comunicado de Raimundo Morais, responsável pelo Carnaval em São Bernardino dos Telhais, que diz mais sobre o Carnaval do que eu alguma vez conseguiria fazer. Talvez já seja tarde, mas ajudar está ao nosso alcance:


“Caros amigos,

É chegada uma vez mais a altura do bonito Carnaval, uma ocasião sincera para fingir sem segundos sentidos. Enquanto Alto Comissário do Corso de São Bernardino dos Telhais, permitam que vos passe um apelo que visa a não deixar morrer uma tradição importante:

O Carnaval permite ao ser humano fingir à vista desarmada, evitando a condenação e a maledicência. Se o filho do Zé do Talho gosta de se vestir de mulher, porque não permitir-lhe um dia em que isso não o torne apenas igual a tantos outros.
Se o Honorato e os seus três irmãos já são uns palhaços no resto do ano, porque não aproveitar que estão maquilhados a rigor para lhes dizer isso na cara. Isto para não falar da Celeste, que todos os dias se veste que nem uma pega e, durante três dias, se restringe ao hábito de freira. Quem somos nós para questionar os desígnios do Senhor?

Mas não chego até vós para falar das gentes da minha terra, pois na vossa não faltarão certamente matrafonas, palhaços e pegas de igual ou superior gabarito. Do fundo do coração, o que me traz aqui é a salvação, não só do Carnaval, mas das tradições de toda uma terra.

São Bernardino dos Telhais é uma terra pequena, são três ruas no centro, descontando as casas do Monte do Onofre e as quintas espalhadas. Assim sendo, temos um corso pequeno e tolerância de ponto à grande, até porque a vila tem apenas dois funcionários públicos. O problema é que tivemos umas grandes chuvadas e o pai do Américo, que é por norma a figura de proa do único carro alegórico, apanhou pneumonia. O problema nem é esse, só que ele é paraplégico e as chuvadas levaram-lhe também a cadeira de rodas e não há forma de o empoleirar convenientemente no topo do carro. Isto para não falar que, estando sempre a tossir, abafa por completo a nossa escola de samba. Assim, estamos com um grave problema, pois não temos nenhuma figura de proa e procuramos alguém compatível, sem que estar paralisado seja uma condição essencial, apesar da tradição.

A escola de samba é outra questão. Ela é composta pela dona Esmeralda e pela Dona Cesaltina. A dona Esmeralda é muda e limita-se a bater numa pandeireta, sendo Dona Cesaltina a grande dinamizadora das cantigas ao estilo brasileiro do samba. Nos últimos 38 anos ela tem feito um grande sucesso, adaptando diálogos de novelas brasileiras como se fossem músicas mas, infelizmente, aos 84 anos a demência tem progredido a largos passos e o facto de ter sido apanhada três vezes na última semana a cantar na rua pormenores da intimidade da sua filha, a Celeste, ainda que com sotaque brasileiro, isso não nos retira a preocupação que a coisa possa descambar. Como tal, estamos necessitados de um cantautor de inspiração brasileira, mas que possa adaptar coisas mais próximas da nossa realidade, como diálogos das Tardes da Júlia ou do Preço Certo.

Finalmente, pedindo desculpa por aquilo que devia ser um cortejo de alegria, mas que se está a transformar num rosário de pedidos, há a problemática das dançarinas – São Bernardino dos Telhais é uma terra do interior e o clima não tem ajudado. Só tínhamos cinco dançarinas oficiais, mas duas eram as netas do Manel Ferreiro e que só cá vinham nos últimos anos para ver se lhes pingava alguma coisa na herança e agora que o velho bateu a bota, nem vê-las. A Gertrudes do Honório, que foi a Rainha dos últimos 23 Carnavais ia-se afogando a tentar salvar a cadeira de rodas do pai do Américo, que é o seu tio avô e agora está com uma espécie de problema nos pulmões que a obriga a andar curvadinha, parece uma ferradura coitadinha. A Esmeralda, para além de bater na pandeireta, também dançava, só que ela agora anda a ver umas coisas naqueles canais de vendas e insiste que vai desfilar semi-nua embrulhada em celofane. Ora nós que temos uma parte de público jovem, quer-se dizer não são bem crianças, mas são vitelas e a coisa pode perturbar a ponto de ficarmos com carne rija e leite azedo só de ver isso. Sobra-nos a Alcina, só que ela é hipocondríaca e a Farmácia fica a 23 kms, o Posto Médico a 45 e o Hospital a 98 – como nos últimos anos ela depois de desfilar ficou com queimaduras de frio, hipotermia e alucinações a ponto de querer fazer canja com a própria pele de galinha, este ano diz que só participa se tivermos suporte médico e canja quente. A gente da canja consegue tratar, mas precisávamos mesmo era de umas enfermeiras ou coisa parecida. Se forem roliças e de boa anca, melhor ainda, podia ser que também quisessem desfilar.

E pronto amigos, era isto, se puderem partilhar nos Facebookes da vida, agradecíamos, ou então se quiserem mesmo fazer alguma coisa de jeito, bom bom era ajudarem com o que precisamos ou contactando-me para ver o que se pode fazer para salvar o Carnaval de São Bernardino dos Telhais.

Da minha parte, votos de muita folia e um bem hajam,

Raimundo Morais”

1 comentário:

  1. este carnaval não se pode perder!...este ano já não posso participar, mas para o próximo ano preciso mais coordenadas (geográficas)e estarei disposta a contribuir com o que tenho, ou não tenho, para o carnaval do S. Bernardino dos Telhais!

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