11.3.14

O problema de voltar as costas ao Tejo


O rio Tejo faz parte da minha vida por muitas razões, mas uma das principais tem que ver com o facto de ter crescido a olhar para ele. Da janela da cozinha a vista abarcava tudo o que ia da ponte 25 de Abril, passando pelo Cristo Rei, chegando até quase à Trafaria. Quando aqui há alguns anos me mudei para uma zona da cidade em que a visão do rio não é imediata, o choque não foi tão grande como pensei que iria ser mas, para além da facilidade que temos em ver o rio se assim desejarmos sem ter que fazer grandes deslocações, também ajudou que nessa fase de transição estivesse a trabalhar num local em que me bastava olhar para o lado e ver toda a extensão de rio que é vizinha da Expo, com a Ponte Vasco da Gama lá ao fundo a espreitar.



Quando comecei a correr distâncias maiores, numa fase inicial gostava de correr sempre parte do percurso lado a lado com o rio, tendo ali companhia suficiente para quando ia sozinho ou sem música. No entanto, sem sombra de elitismo de corredor de quinta categoria, quanto mais corro e me entretenho a fazer percursos pelo meio de Lisboa e arredores, mais me afasto dos circuitos típicos de quem corre à beira rio.

(esta é uma verdadeira falsa, porque não é deste domingo, mas foi feita durante uma corrida)




Gosto de ir descobrindo pontos onde espreito o Tejo a meio de uma corrida sem saber de antemão onde é que eles estão ou em que parte exacta é que vou ter direito a vista de rio. Às vezes são vistas que conhecia mas já nem me lembrava delas, outras são de sítios pelos quais nunca passei. E as vistas são boas, quer façam parte da turma da corrida, do gang da bicicleta ou simplesmente gostem de espairecer com uma caminhada.



No domingo atravessei a cidade via Monsanto, partindo do Jardim do Campo Grande e, pouco depois do “despique” saudável entre corredor e ciclista domingueiro na subida da Serafina até à antena da PT, primeiro ponto de observação – um miradouro semi escondido no meio da mata, por cima do anfiteatro Keil do Amaral. Segue-se caminho porque a viagem ainda nem vai a meio e mais à frente, na Ajuda que bem conheço não chego a ir um dos meus pontos favoritos, na Alameda dos Pinheiros que liga a Calçada da Ajuda ao Palácio da Ajuda. No entanto, no topo da Calçada do Galvão, acima do cemitério e já a ver o Jardim Botânico, eis um ângulo que me tinha escapado, mas em que sai melhor na fotografia o rio que eu, já suado que nem um javardo.



Mais à frente, a clássica vista de postal que é descer a Avenida da Torre de Belém e segue-se até ao Jamor. Os problemas começam quando viro as costas ao rio e desato a subir rumo a Linda-a-Velha, zona que estou longe de dominar, ainda por cima já com perto de duas horas nas pernas. Passo por um tipo igualmente a subir, os bons dias já saem em registo sofrido e semi-murmurado e, na parte final da subida, o erro – fiz um zig onde devia ter feito um zag.



Perdido por ruas paralelas e quarteirões desconhecidos, só tinha dois pontos que me iriam ajudar – a A5, pela qual tinha de passar por baixo e o rio, só para ver até que ponto já estava desviado. Toca de subir até ao morro mais próximo, perto de uma placa que dizia Hotel e, começando a ganhar orientação tudo começa a entrar nos eixos. Tempo ainda para uma magnífica vista do Vale do Jamor e do Tejo, antes de voltar uma vez mais a voltar-lhe costas e pôr os calcantes já de si atrasados em bom uso rumo à vizinhança dos estúdios da SIC.




Não me importo de me perder neste tipo de ambientes controlados, mas nunca recorro ao telemóvel quando o levo. O que é muito bonito para mim, mas pouco lírico para quem espera por nós e que, perante atrasos consideráveis, mais do que apreciar vistas do Tejo tem na cabeça a visão do corredor linchado com requintes de malvadez.

2 comentários:

  1. Belo passeio :-)

    Já agora, a vista do rio e da entrada do mesmo do Alto de Santa Catarina (o tal morro com um hotel?) é muito boa, e à noite, espantosa.

    R.

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    1. É possível, é uma colina com relva, o hotel está lá no topo e ao lado tem um bairro de ar relativamente recente que, quando o começas a descer ficando com o hotel à tua direita vai dar a coisas tão espantosas como o Museu dos Bombeiros do Dafundo...

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