24.3.14

O ananás que acabou com o meu sonho de trabalhar "na noite"


Houve uma altura na minha vida, ali no cruzamento entre o final da adolescência e a entrada para a faculdade, em que achava que “trabalhar na noite” é que havia de ser uma cena para lá de Shangri-la. É certo que para alguém entre os 18-20 anos, gajas-música-álcool-factor cool são uma espécie de combinação mística que compensa tudo o que o lado racional não aconselha, mas durante uns tempos experimentei a coisa numa versão light.


Esta versão light era composta de serviço de bar em festas da faculdade, semanas académicas, and soi on. Rapidamente me apercebi que o conceito de “trabalhar onde os outros se divertem” tem os seus contratempos e que, em certa medida, os amigos (e amigas) que se aproximam podem afinal de contas ser mais amigos do acesso fácil a bebidas do que da tua personalidade magnética.

"Não man, não é por causa de uns shots à borla...elas curtem mesmo o teu mohawk"

 Resolvi atribuir este lado menos glamouroso ao facto de não estar a trabalhar em “bares/discos a sério” e fui falar com um amigo meu uns anos mais velho que já tinha essa rodagem toda e era um ícone da vida nocturna e da experiência em bares. Quando lhe perguntei se não me orientava um trabalhito part-time num spot daqueles potentes em que ele conhecia malta, a resposta foi pronta:

“Puto, mas tu tens merda na cabeça? Deixa-te lá de histórias e vai mas é estudar. Nas férias depois fala comigo, mas não te metas nisso, porque nem sonhas no cambalacho em que te vais meter...”

Tentei argumentar com a história do cenário, do lado cool e pronto, as miúdas e tal. Olhou para mim, acenou com a cabeça em tom de gozo e seguiram-se algumas horas de conversa em que descobri todo o lado gorduroso, tétrico, manhoso e horripilante da noite. E aquilo fez algum efeito em mim e não foi dos bons.

Curiosamente, a história que ainda hoje retenho na cabeça não é a mais hardcore, mas é emblemática – é o conto dos três ananases. Disse-me ele que trabalhou num bar que não era muito longe da praia mas ficava longíssimo do patamar de “bar de praia” que se vê nos filmes. A clientela não era a melhor e, segundo o que fiquei a saber, o dono era um culturista que gostava era de clientes a provocar desacatos para lhes poder malhar com legitimidade.

 Uma das melhores cenas de auto-porrada em bares

Certo dia, o dono achou por bem fazer um “especial” que ia ser uma sangria tropical – a coisa lá se fez e deu para uns quantos alguidares de sangria, para a qual contribuíram muitos “restos” da casa. À última da hora, já bem de noite, lembrou-se que o ideal era que essa sangria fosse servida dentro de um ananás, escavado por dentro. Lá foi o meu amigo correr a região à procura de ananases e, quase por milagre, conseguiu comprar três.

Os problemas começaram quando a sangria tropical que, segundo ordens directas do chefe só podia ser servida no ananás, começou a ter muita saída. As pessoas pediam, o ananás cheio de sangria ia para a mesa e lá ficava até o esvaziarem. Só que, com apenas três ananases e muita gente a pedir, o meu amigo começou a ter que fazer truques de ananás, esvaziando-os o mais depressa que possível para ir buscá-los, enchê-los e levá-los a uma nova mesa.

Conforme a noite avançou, o critério de “ananás reciclado cheio de álcool” foi piorando – havia gente a fazer do ananás cinzeiro e o tempo para passá-los por água não era muito. A coisa descambou de tal maneira que numa mesa houve uma gaja que vomitou para dentro de um ananás e, mesmo assim, continuaram os três em circulação. O meu amigo não tem a certeza mas a gota de água poderá ter sido quando uma mesa, cheia de gajos estupidamente bêbados, recebeu da mão de um empregado que tinha sido maltratado a noite inteira um ananás “aditivado” e não me peçam para clarificar o termo “aditivado”.
Como seria de esperar a noite não acabou sem porrada, mas aqui com o extra de três belos ananases a serem também usados como arma de arremesso.


Depois dessa conversa continuei, aqui e ali, em sítios que não eram “a sério”, a safar uma ou outra noite, mas o glamour da noite morreu ali às mãos de um ananás. 



 

3 comentários:

  1. É mais ou menos como os médicos ginecologistas.

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  2. e pufff.. foi-se o glamour das bebidas dentro de ananases.

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  3. Eu já trabalhei e ainda trabalho de vez em quando na noite, a nível académico mas já não a brincar, uma coisa assim mais a sério e que envolve organização de eventos. O problema é que só acha cool trabalhar na noite quem não trabalha! A diversão é inversamente proporcional à responsabilidade. Conhecer pessoas na noite é sempre à cautela, posso-te dizer que nunca lá fiz nenhum amigo muito menos namorado! É uma experiência gira e aprendem-se uma coisas mas nunca faria disto vida.

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