6.3.14

Nunca se esqueçam do vosso pior emprego


Até à posição que detenho actualmente, se fizer a conta entre estágios e projectos temporários, desde que saí da faculdade já tive oito empregos. Isto pode parecer muito para quem tenha uma perspectiva mais conservadora, mas a verdade é que para muita gente entre os 30 e os 40 anos (com tendência a agravar em gerações futuras), a estabilidade profissional é um conceito bastante periclitante.

Da minha parte, sabendo que é sempre possível estar bastante melhor ou bastante pior porque tudo é relativo, parte deste percurso foi ponderado e, com os altos e baixos que houve, tudo contribuiu para ter hoje uma boa noção do que quero mas, melhor do que isso, do que não quero em termos profissionais.

Tendo tirado um curso na área de Comunicação, ao entrar no mercado quis experimentar o máximo possível dentro de áreas relacionadas para saber em qual me daria melhor, sem esquecer que viver do ar só é um conceito possível em desenhos animados e obras ficcionais. Em todos os sítios, das Relações Públicas, ao Marketing, passando pelo Jornalismo e pela Publicidade, aprendi sempre alguma coisa mas, a meu ver, há sempre uma experiência determinante para te acertar o rumo ou fazer mudar o mesmo – e que se traduz normalmente no pior emprego que já tiveste.

No meu caso, foi na área editorial, numa empresa focada em publicações técnicas e com uma estrutura familiar. A minha experiência e as minhas funções eram atractivas do ponto de vista inicial, mas o factor “familiar” tornou-se rapidamente o motor para o meu afundamento. A pessoa com a posição acima da minha era mais jovem e menos experiente, mas compensava isso sendo parente tanto do nosso director, como do manda chuva mor. A sua insegurança traduzia-se em minar qualquer solução ou projecto inovador que eu tentasse avançar e, quando não chegávamos a um consenso, o desempate era feito pela direcção, ou seja, a coisa ficava quase sempre em família. A par disso, o ambiente era muito pouco estimulante visto que as pessoas com quem trabalhava directamente eram bastante desinteressantes e as que achava porreiras trabalhavam fisicamente a uma distância que me impedia contactar com elas regularmente. Para ajudar à festa, quando se sentiu ameaçada, a minha chefia começou a delegar-me as chamadas tarefas “âncora”, coisas que te prendem, tiram tempo e não te levam a lado nenhum,

Resumindo, durante seis meses a minha vida foi uma espécie de inferno, não tendo nenhum dos três factores que valorizo num emprego (gozo no trabalho, bom ambiente ou compensação uau), a ponto de me dar gozo ir almoçar sozinho só para limpar a cabeça e tentar encarar o resto do dia com uma réstia de positivismo. A cerca de um mês do final do contrato aconteceu-me aquilo que se chama uma intervenção divina dolorosa – a pior lesão que já tive a jogar basket, na forma de um ombro deslocado.

Apesar de ter condições para ir trabalhar, se assim o desejasse, meti baixa e sabendo que isso iria ser determinante para a não renovação do meu vínculo, rapidamente fiz saber que estava mais preocupado em recuperar da lesão do que voltar a um ambiente com zero expectativas de futuro. E foi assim que se escreveu o último capítulo desta experiência.

Obviamente, pelo meio, fui tentando alargar os meus horizontes para outras áreas, simplesmente porque não acredito em ficar refém de um emprego que dá gozo zero e investir apenas no chamado refilismo-estátua, em que falamos muito e não fazemos nada. A coisa acabou por compensar e, pouco tempo depois de sair, comecei na área em que hoje ainda estou, mas que não se pense que foi com passadeira vermelha – pois houve muito pãozinho que o diabo amassou para comer ao início. Aliás, hoje ainda há, mas simplesmente já sei fazer umas sandes melhores com ele e umas bruschettas com estilo.

Contudo, sei perfeitamente que aquele pior emprego fez falta e muita. Porque às vezes só batendo no fundo é que se ganha impulso para começar a subir.




Nota: Sei que é certamente angustiante para quem ainda está nesse “pior emprego” ter que pensar nisso todos os dias. Há muitas razões para que não aconteçam contos de fadas todos os dias mas, enquanto ele não fizer parte do passado, há pelo menos motivos para pensar o que ainda podem vir a desfrutar no futuro e, se isso ajudar, começar a tentar mudar o presente.

9 comentários:

  1. A mesma perspetiva que me faz continuar a comprar laranjas, apesar de as comer com o olho esquerdo a piscar descontroladamente e com a boca retorcida em forma de oito. Nunca esqueci a que comi em 2007 e que me proporcionou revisitar toda a nutrição da semana anterior.
    Com isso em mente, não há sumo ácido, fios metidos nos dentes e caroços colados ao fundo da garganta, que não me saibam a favos de mel.

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    1. Nunca mais vou olhar para as laranjas na mesma perspectiva. Mas a analogia está lá ;)

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    2. Satisfeita por trazer novas perspetivas.
      E a propósito, sem ter nada a ver, já só me falta ver o último episódio do True Detective. Estará disponível na próxima semana e eu estarei colada ao écran como a patética groupie que sou.

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  2. ainda mais angustiante é não saber para onde se vai... essa tal instabilidade. Estar apaixonada pelo trabalho e saber que não se vai continuar a trabalhar no mesmo. Sou flexível, tenho formação em várias coisas... Mas choca-me como vou ganhar mais num emprego para o qual nem precisava de ter estudado do que trabalhar na minha área. Tenho só o estrangeiro como solução... opção que não me agrada muito pois já mudei uma vez de país... Nunca tive desempregada, mas como se lida com isso? Com o estar a procura? E quando se acredita e nada acontece? Há finais felizes mas assim tantos? De resto a minha mãe sempre me disse "viver é sofrer, temos é de levar o sofrimento com humor"

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    1. O problema não é não haver garantias de finais felizes, mas cada vez mais certezas que nem tudo o que se deseja se torna realidade (ou tem perspectiva de vir a acontecer).

      Desconfio sempre de "empregos para a vida" e mesmo onde estou, numa área bastante cobiçada, estou longe de o imaginar como tal. Creio que a armadilha (e, por vezes o conformismo) se instalam quando deixamos de acreditar que há algo mais para além do que fazemos.

      Mas, vivem-se tempos complicados e, quando assim é, as perguntas vão sempre ser mais do que as respostas...

      No entanto, sem ser tão determinista há aí nos conselhos maternos uma grande ponta de verdade.

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  3. "Porque às vezes só batendo no fundo é que se ganha impulso para começar a subir".

    A mais profunda verdade.

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    1. Mas que infelizmente muitas vezes só se torna "uma verdade" quando se passa por ela na primeira pessoa.

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  4. Já me despedi 3 vezes porque sempre quis mudar e na realidade nunca consegui, apenas conquistei algum gosto por fazer o que me tira o sono em metade do tempo e agora sim, aprendi a gostar do que faço ;)

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    1. Todos os percursos têm as suas nuances e o que para uns pode ser amor à primeira vista, para outros pode ser uma rota com muitos desvios, obsctáculos e contratempos. Nem tudo é evidente na vida...

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