30.3.14

Não há banda sonora para a vida



Hoje, ao ver o “Osage County”, apercebi-me de duas coisas que estão longe de ser epifanias: a primeira é que, se em vez do filme tivesse visto a peça de teatro original com este elenco, o efeito final pouco se alteraria, apesar das paisagens sempre impressionantes do Midwest americano. O foco nas relações humanas e nos conflitos pessoais delas decorrentes é todo o cenário preciso para levar a coisa a bom porto.

O segundo aspecto é mais discutível porque, na verdade, todos temos uma banda sonora pessoal, feita dos temas e da música que ligamos a determinados momentos/fases/episódios/memórias da nossa vida. Contudo, fico a pensar se não nos fariam falta efeitos sonoros dramáticos para nos apercebermos da forma como a música pauta e identifica determinados aspectos. Será que, com a música certa no background, identificaríamos melhor os “vilões” à nossa volta? E se, ao entrarmos numa situação perigosa, surgisse um daqueles trechos típicos que transmitem de imediato essa sensação? Teríamos mais cuidado se, ao magoarmos alguém com as nossas palavras, soasse uma música triste que nos fizesse aperceber disso mesmo?

A música intensifica os sentidos mas, tal como nos filmes, não são os personagens activos que ouvem a mesma, mas sim o observador externo. E, nesse sentido não temos de facto direito a banda sonora para a nossa vida e eu não tenho bem a certeza se ficamos melhor ou pior por causa disso.

3 comentários:

  1. Alguém me dizia ontem que a música dos filmes é feita para não se notar. Eu diria que, posto isto, a banda sonora na nossa vida seria um jogo de soma zero.

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    1. Não é mal visto, embora a minha ideia seja que a música dos filmes (não tanto ao nível de "canções") não seja para ser ouvida mas para ser sentida. Psicologicamente, não lhe escapamos e basta ver um filme sem som, para se perder grande parte da carga dramática...

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    2. Hmmm. Depende dos filmes... Vejamos obras como o Kill Bill, ou o Senhor dos Aneis.
      Na nossa vida, acho que temos um misto de ambos os tipos de banda sonora: a que é para ser notada, e aquela que está lá, faz tudo, mas acaba por passar ao lado.

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