14.3.14

Dona Clarinda e a epidemia de chibos nos transportes públicos


Não sei onde andava com os olhos que só tomei conhecimento desta “belíssima” campanha anti-fraude do Metro e da Carris quando a minha vizinha de 82 anos, a Dona Clarinda, me alertou para a mesma:




“Já viu aquilo dos cartazes do Metro, por causa das aldrabices?”
“Ouvi qualquer coisa, mas não tenho bem presente a coisa...é uma campanha?”
“Diga-me você, que é um tipo do meio...”

(Dona Clarinda saca do smartphone, pelo menos é assim que eu quero pintar a realidade, mesmo que vocês me digam que a coisa não é real. Vai à galeria e, depois de duas selfies – uma a fazer caldo verde e outra nos bailes da Junta, lá vem a foto do cartaz)

“Pois é Dona Clarinda, já estamos nisto, no apelo à denúncia disfarçada de consciência cívica.”
“Eu fico é a pensar naqueles olhos, filho, ali escancarados a olhar para mim...”
“ A coisa é de facto um pouco assustadora, tanto a campanha como a imagem.”
“Então não é, olha-me aquilo, parece um cartaz de um filme do Wes Craven ou de um livro tipo Chuck Palahniuk ou Stephen King”
“Xiii, a Dona Clarinda vê filmes do Wes Craven e lê livros dessa malta? Sim senhor, muito à frente...”
“Ó filho, mas és tu que estás a escrever isto não é verdade, eu até posso ter dito que parecia a Alexandra Lencastre na capa da Nova Gente ou aquela do programa do Goucha, que tu ias adaptar isto à mesma para as referências que te dão jeito.”
“Pois...faz sentido...eeehhr... mas já viu a campanha, por um lado é um alerta, mas depois é meio ameaçadora, do género, “falta de validações” nunca é personalizado e, tendo em conta que o abrir os olhos também visa comportamentos alheios...não sei não”
“Ai filho, vê-se mesmo que tiveste Semiologia na faculdade, não tarda nada vens com coisas do Saussure e do Chomsky e olha que na minha idade já não tenho paciência para isso. Sabes o que te digo – As pessoas falam muito e apontam o dedo para o ar, mas quando é preciso falar calam a boca com quem de direito, assobiam para o lado. A minha neta, que está na Alemanha, diz-me que lá nem torniquetes no Metro têm e que, em vez de campanhas, o que lá têm é civismo filho, civismo.”

“Então a Dona Clarinda concorda com esta política de desresponsabilização da estrutura e passar das responsabilidades para utentes?”
“Olha, não me venhas com politiquices, que eu agora quando vou votar tenho quase tanta fé nas cruzes que faço como naquelas que ponho no boletim do Euromilhões. Sabes que eu fui professora não sabes filho? Quando os meninos me vinham com queixinhas de coisas de outros meninos, eu punha-os a falar uns com os outros e, só se não se entendessem depois disso é que eu intervinha...”
“Muito salomónica Dona Clarinda...”
“Mau...olha que ainda tenho força para te puxar essas orelhas. Eu não sei se essa história nos transportes funciona, mas o que te posso dizer é que na mercearia ali do fundo está a resultar. Já são três vezes que apanho a Gertrudes do 28 a calcar fruta, não é apalpar a ver se está boa é mesmo a calcar com aquelas mãos sapudas, como se estivesse a amassar pão. E depois, deixa-a lá toda calcada, para que outros a levem. Ontem não fui de modas, virei-me para ela e disse-lhe que já não tinha idade para andar aos apalpões – a partir de uma certa idade já não se apalpa, pega-se, come-se o que há e pronto.”
“ E ela?”
“Olha, ela meteu a fruta calcadinha no saco, bufou em direcção à caixa e parecia dez anos mais nova, de tão rápida que foi a sair...”
“Ah Dona Clarinda, o problema no autocarro é que me ponho com essa conversa e quem leva umas frutas sou eu...”
“Olha filho, se não comes de um lado, comem-te do outro, é o que se dizia lá na terra... e assim as pessoas vão continuar a fazer aquilo que sempre fazem – nada pela frente, a apontar o dedo de lado e a pôr as culpas no vazio.”
“Bem, nem tanto ao mar, nem tanto à terra, o que não me agrada é o apelo à cultura de chibos e bufos de ocasião”.

Dona Clarinda subiu um degrau, mas voltou-se para trás com um sorriso nos lábios.

“Dizem que o mundo é dos espertos, mas isso não significa que os outros se tenham que vestir com pele de burro...”

E lá continuou a subir as escadas, fazendo de cada degrau a sua próxima prioridade.

7 comentários:

  1. também pensei nisso, quando vi aqueles cartazes. Aliás, eles primeiro fizeram um teaser (acho que é assim que se chama) em que só apareciam os olhos e mais tarde acrescentaram a mensagem de combater a fraude. Isto deve alguma nova doutrina nas cúpulas do poder. Em tudo semelhante ao prémio do carro de luxo por pedires factura. Uma substituição dos deveres do estado pelo próprio cidadão. O Estado em vez de fiscalizar os comerciantes, não, põe o cidadão a fazer de polícia dos outros concidadãos. Para mim é ignóbil, mas não surpreendente. Nada do que este governo faz já nos devia surpreender, não passam de um bando de gente sem qualquer noção de ética. (desculpa o quase manifesto político)

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    1. *deve ser alguma nova doutrina

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    2. Isto é a bela salada de frutas do desenrasca. Uma espécie de tentativa de salto em frente mas, em vez de salto, o avanço é a pontapé.

      As pessoas que não compram bilhete, etc, não o fazem a pensar nos danos que causam na estrutura, fazem-no por falta de civismo e porque se preocupam unicamente com as suas circunstâncias pessoais.

      Isso não se resolve com a cultura de denúncia, embora cada um possa olhar à sua volta e não pactuar com certas coisas. Outro dia uma amiga minha, ao passar os torniquetes do Metro, sentiu uma tipa a tentar colar-se a ela para passar. Parou e recusou-se a deixar passá-la - foi ameaçada de porrada e, na plataforma foi alvo de insultos que se prolongaram durante a viagem na carruagem...

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    3. Sim, a mim também já me aconteceu um mânfio qualquer pedir-me para o deixar passar com o meu cartão e eu recusei com a maior polidez que consegui. Mas a questão é mesmo esta: parte de cada um de nós ter civismo. Embora certamente muitas das pessoas que andam de transportes sem pagar o fazem porque não têm dinheiro mesmo. Um bilhete de autocarro nestes momento custa quase dois euros. E de metro penso que é 1,5 euros. Isto claro que não pode ser desculpa, porque haverá quem não pague, não porque não pode, mas porque quer aproveitar-se do sistema e dos outros. Mas ainda assim, nada disso justifica uma campanha de denúncias, como esta. A campanha devia era estar direccionada para convencer as pessoas de que o não pagarem hoje, significa o aumentos dos bilhetes amanhã. Uma sensibilização para o civismo.

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  2. Nas estações de metro onde passo normalmente é frequente ver gente a colar-se para passarem sem pagar e ás vezes até a saltar os torniquetes. Tanto os seguranças como as pessoas que estão dentro lá das "montras" do próprio metro não passam cartão. Querem que os próprios utentes façam o que?

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  3. "Big brother is watching you" - 1984
    G. Orwell

    E a avaliar pelas câmaras espalhadas por aí, mais as escutas, mais a fibra óptica - e isto tudo nessa cidade - só faltava mesmo um cartaz a recordar-nos disso a toda a hora.

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