17.2.14

Tive um encontro com uma Avenida



Aqui há dias uma Avenida convidou-me para sair e disse-me que ia ser porreiro, até porque domingo não ia chover. Ora eu que na minha natureza tenho uns toques de desconfiado fico sempre de pé atrás quando sou contactado por avenidas, especialmente quando se chamam Infante Santo.

Em primeiro lugar, o género feminino avenida entra em contraste com o masculino infante (santinho ainda por cima e, segundo consta, Fernando) o que só por si já é um alerta. Será um convívio másculo, de rapaziada valente, ou aquilo tem qualquer coisa suspeita pelo meio? Logo aí já fico a pensar porque é que nunca sou contactado pela Avenida Modelo Voluptuosa ou pela Praça Actriz Sedutora...



Falei com uns amigos que conhecem de perto a Infante Santo e as referências foram todas positivas “Ah, tem coisas muito engraçadas, com a Estrela ali tão perto”, “Epá, vais ver que a descer a vista é linda”. Resolvi aceitar o convite mas, ainda assim, levei o telemóvel e pedi para me ligarem a uma hora que iria coincidir com o meio do encontro. Se a coisa corresse mal nada como a desculpa “Estão-me a ligar porque a minha avó se engasgou com entrecosto outra vez e lá tenho eu de ir tirar aquilo de lá”.



Vesti uma lycra domingueira, uns ténis racing mas sem serem demasiado flashy (não sei o que estou a dizer mas li em sítios que percebem de moda e achei por bem reproduzir) e, apesar de ter composto com uns acessórios tipo boné e cinturão para levar um cantil retro, não fiz a barba só para não dar aquele ar de estar a levar aquilo muito a sério. Preparava-me para sair quando a Avenida me mandou SMS – “Entra pela 24 de Julho, que é para veres o viaduto colorido”. Hmmm, pensei eu, não me digas que para além de Santo, também é decorador...



Saí a correr, mas resolvi ir pelo caminho mais longo só para pensar bem no que me estava a meter – uma Avenida nobre a querer batatinhas ao domingo de manhã... Fui ao Alto de São João, desci até ao rio e, a partir daí fui sempre a contar minutos até chegar à 24 de Julho. Em Santa Apolónia pensei em parar naqueles sítios modernos de comida e levar qualquer coisa para o encontro mas para além de estar ligeiramente transpirado, sei que as avenidas costumam ter sítios próprios com comida e levam a mal quando se traz comida de outras artérias da cidade.



O primeiro sinal de perigo veio na zona de Santos, de uma discoteca que ainda estava aberta. Três tipos falavam em altos berros, como é comum quando se acaba de sair de um sítio barulhento e um deles dizia “Epá, agora vou a pé ali pela Infante Santo” e os outros “Tás maluco pá? Não metas aí que é f#”%”%o”. Mau presságio.



Já com perto de hora e picos de caminho, eis-me chegado à porta da Infante Santo, junto ao viaduto. Uns camones tiravam fotos e riram quando passei – certamente já sabiam o que me esperava. Como a porta estava aberta fui entrando e diga-se de passagem que, vista da parte de baixo, a Infante Santo é bem feia, ou como se diz noutro tipo de avaliações, é "simpática". Um túnel escuro, uns azulejos a precisar de maior cuidado e uma subida íngreme foi o que ela me ofereceu para dar as boas vindas. Quis conversar um pouco e ela moita, com aquela altivez manhosa da nobreza de trazer por casa. Perguntei se podia tirar o boné, que estava com calor e ela encolheu os passeios, como se tanto lhe fizesse. Sem nunca parar de subir, fiz alusão ao facto dela estar um bocado sombria, se porventura não lhe fazia falta um pouco de calor humano. Assobiou com vento e disse que lá mais para cima, quando estivesse mais recta logo se arranjavam uns velhos numas esplanadas.



Resolvi acelerar e começar a pensar em dar por terminado o nosso encontro, o problema é que só tive a noção que ela abusou de mim quando cheguei à parte recta, com as pernas ligeiramente pesadas e a respiração um pouco mais ofegante. Ainda assim disse-lhe à saída “Podes ter a Estrela aqui ao pé, mas tu não passas de uma Avenida de segunda, um ponto de passagem para o que vem a seguir”. Ela não respondeu, como é normal nas avenidas, mas uma família ficou curiosa ao ver um tipo que corre a falar sozinho.



Mandei-me para o Jardim da Estrela, disposto a sair dali bem depressa. Disseram-me que o Marquês de Pombal recebe bem ao domingo...

7 comentários:

  1. a Avª Infanto Santo vista com bons olhos é bem bonita!

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    1. Sei que é perfeitamente possível vê-la com outros olhos, mas ontem não houve aquele click ;)

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  2. Se era para sofrer, mais valia ir do Campo das Cebolas ao castelo, escolhendo as vielas mais apertadas de Alfama. Em Junho, de preferência.

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    1. Já experimentei muita subida manhosa em Lisboa. As vielas do Castelo só são de evitar por causa do piso, ainda que seja melhor subi-las que ir por ali sem travões a descer.

      Também recomendo:

      Pastéis de Belém - Monsanto (via Calçada do Galvão)
      Palácio de Belém - Residência Oficial do Presidente da Câmara (Monsanto)
      Largo do Calvário - Parque do Alvito (e por aí acima até à Serafina)
      McDonalds de Santos - Rato (e depois Parque Eduardo VII acima)
      Cais Sodré - Jardim Príncipe Real

      (avenida da liberdade e almirante reis dou de borla porque são menos tricky)

      A Mouzinho de Albuquerque só "tem piada" se depois de chegares à Paiva Couceiro te mandares ali pelo meio por uma subidinha marota até às Olaias.

      Expo Sul subindo Marechal Gomes da Costa toda até à Rotunda do Relógio.

      Isto assim só em caminhos "normais" :)

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  3. Para teres uma ideia, o viaduto colorido, é da autoria do grande artista plástico Eduardo Nery, recentemente falecido. Se fores pesquisar pelo nome, vais ver a obra dele e talvez das próxima vez que passes na simpatica Avenida te lembres que nela ficou o legado de um dos maiores artistas da Optical Art que Portugal teve a honra de conhecer. Não perdeste tudo. É afinal uma Avenida de primeira já que a obra deste artista está só em locais muito específicos e de importância.

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    1. Desconhecia, embora soubesse que aquilo tinha valor arquitectónico (apesar de me parecer que aquilo não tem a conservação necessária, porventura por ser uma via com muito trânsito).

      É como teres as obras do Nadir Afonso em estações de Metro como na dos Restauradores, em que grande parte da malta não faz ideia do que lá está.

      Sempre a aprender :)

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  4. É, esta coisa dos blogues, vai-se a ver, e até é de valor...

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