10.2.14

O cemitério de chapéus de chuva





Mantive o passo firme, apesar da chuva e do vento que faziam da rua o seu recreio, castigando quem se atrevia a ir brincar com eles. O meu castigo recebi-o eu três passos depois de sair de casa, na forma de uma real molha que o boné e o impermeável mais não fizeram do que atenuar, isto descontando o selo de parvo de todo aquele que sai de casa para correr lado a lado com Noé, a sua arca e o dilúvio.

A diferença entre quem sai à rua pronto para ficar encharcado e quem sai à rua a tentar evitá-lo é a forma como se abraça essa molhada circunstância. E um abraço é muito mais fácil de dar quando não se tem um guarda-chuva nas mãos.

Conforme me aproximava da rotunda onde as passadeiras alternadamente deixavam ensopar um boneco dos semáforos de cor diferente, vi logo que o vento e a chuva tinham mudado as coisas de sítio. Aquilo já não era uma rotunda, era um cemitério de chapéus de chuva. Uma velhinha, de setenta ou oitenta anos, mas muito menos curvada do que o seu guarda-chuva, tentava que este resistisse mais uns metros. Não conseguiu e, pelo meio de tanta chuva, pareceu-me que lhe corria uma ou duas lágrimas na cara, ao depositá-lo num canto, onde três ou quatro como ele já repousavam. Se calhar tinha sido uma prenda especial da filha ou do neto, mas na volta também podia ser do chinês e as lágrimas se deverem ao facto de nunca mais irem ao café juntos, passando no Minipreço a caminho de casa. Quem sabe?
O vento e a chuva é que não queriam saber e empurraram a velhinha rua abaixo, já sem chapéu, apenas com a memória do mesmo e já se sabe, memórias não protegem da chuva.

Sem parar, para que a chuva não pensasse que me estava a desanimar o passo, olhei para os quatro, seis, sete chapéus de chuva ali depositados na esquina. Que história os teria levado até ali? Teria sido um final imprevisto e trágico ou uma morte anunciada?

“C”#%lho, mais a p”$a da ventania. C#na da mãe para tanta chuva e um gajo aqui no meio.”

As minhas dúvidas encharcado-filosóficas não foram interrompidas pelo lamento de um guarda-chuva moribundo, nem por um São Pedro em dia não. Foi mesmo um velhote lançado a reboque de um chapéu já invertido, mas que ainda tem força, fazendo do seu dono uma espécie de Mary Poppins sem magia, só com muita água e má disposição em cima.

Ri-me e senti água na cara, o que é bem melhor do que fazer cara feia e levar com água na cara, pois não podendo mudar a constante, que ao menos a variável seja positiva. Afastei-me deste cemitério dos chapéus de chuva e lá fui eu a correr pelo meio de Lisboa. Vi outros lugares iguais, cantos e cruzamentos onde os chapéus de chuva deram o seu último suspiro, no Marquês de Pombal, Príncipe Real, Bairro Alto, Cais Sodré e Santa Apolónia, vi-os até ironicamente ao pé do cemitério do Alto de São João. Fico sempre a pensar na história que os levou até ali, apesar de saber que esses são mistérios que nunca terão resposta.

E depois penso que só depois de desaparecerem é que muito provavelmente alguém sentiu a sua falta. Nem que seja durante cinco minutos, enquanto a p#”5a da chuva e o c#%ão do vento nos fustigam o corpo e a alma.

2 comentários:

  1. Sempre quis saber o que acontecia aos guarda-chuvas destruidos pelas intempéries. Teriam um cemitério, como o que tantas vezes se pensou dos elefantes?

    R.

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  2. Por entre os pingos da chuva, como nos espaços por entre o que não é nem pode ser dito, é que reside o mistério. O resto é redutível à phrase que discorre da braçalidade, das mais oportunas que já li.

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