27.2.14

Nunca é tarde demais para deixar de dizer que já é tarde demais

Como se precisasse de refrescar a memória, isto é o que me tem ensinado a dupla de veteranos que vi nas duas últimas manhãs ao atravessar o jardim a caminho do Metro. Na casa dos 50, um deles está, ao que tudo indica, a ensinar o outro a andar de bicicleta, por mais estranho que possa parecer a quem pense que isso é daquelas coisas que ou aprendes enquanto és miúdo ou então já não faz sentido.

No primeiro dia o professor, com a sua bicicleta encostada a um banquinho de madeira, corria atrás do primeiro dando-lhe dicas, empurrando-o e alertando “Zé, não inclines o guiador, olha que te espalhas pá”. Sem medos, sem rodinhas, sem vergonha, lá ia o Zé a caminho de mais cinco segundos a abrir.

No segundo dia vi o mestre sozinho, com ar preocupado. Pensei que se calhar o Zé, de tanto pedalar, tinha perdido a pedalada e a coragem. Enganei-me. Mais vinte passos e lá vinha o artista transformado em ciclista, meio tosco, caminho pouco a direito, mas rumo bem definido. O amigo continuava a gritar com ele, mas do alto da sua bicicleta o Zé já se ria. Como se tivesse 10 anos ou como se a cada pedalada lhe tirassem 10 anos de cima.

Sem ser de propósito, o Zé veio ter comigo e de repente tive que saltar para o lado, de forma a continuar apenas narrador e não parte da história, encaixado entre o entusiasmo do Zé e a sua roda dianteira.
Segui caminho a pé e o Zé pedalou no seu, o amigo a gritar lá ao fundo, mas rindo-se pelo meio. Quem dera a muita gente que pensar que nunca é tarde demais para fazer coisas novas fosse tão fácil como andar de bicicleta.

4 comentários:

  1. Que história tão fantástica! É daqueles episódios que acontecem na rua que, pelo menos a mim, me deixam com um sorriso na cara... e só reparo nele quando, mais à frente, vejo alguém sorrir de volta (possivelmente a pensar: de que é que aquele totó se está a rir?).
    Viva o Zé! E que hajam mais Zés!

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  2. Isto Mak, pela saúde dos meus filhos, deixou.me tanto de sorriso na cara como de lágrima no olho. Coisa bonita meu. Força aí Zé!! Exemplo de vida filho da mãe!!! ("Força aí Zé", se calhar, tem tudo para ser mal interpretado, não??)

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  3. Os Zés desta vida são inspiradores, sem dúvida!! obrigada pela partilha dessa estória fantástica

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