6.2.14

Eu corro, tu não corres, eles estão-se a cagar para a corrida


Já repeti várias vezes – não sou um evangelista da corrida. Se gostas de correr e vieres falar comigo, terei todo o gosto em partilhar aquilo que fui aprendendo, pelo meio de erros e quilómetros acumulados. Se estás a pensar correr, posso dizer-te alguns dos passos que percorri até ficar neste lindo estado de gajo que por acaso correu duas ou três maratonas (quatro, seu falso modesto), mas está longe de ser um atleta de elite ou um profissional dos papa-distâncias.

Contudo, não convenço ninguém que correr é o melhor para eles e muito menos penso que a minha experiência me fez ver a luz e se calçares os ténis e artilhares o teu corpo de lycra isso vai dar o rumo certo à tua vida. Obviamente, falo do que gosto, como posso falar de cinema, de basket, de escrita, de publicidade, de música ou de quartetos de cordas da Polinésia, mas isso é o meu prisma de interesse e torna-se falível na realidade alheia.

O curioso é ver gente que antagoniza a corrida por não gostar, não ter empatia com esse tipo de actividade ou, melhor ainda, por ver que há outros que andam entusiasmados com a coisa. É certo que tudo o que se torna viciante (e a adrenalina quando bate num coração que foi sedentário por vezes resulta em vícios rápidos) se pode tornar irritante, mas às tantas é como não ter conta no Facebook e ficar irritado por haver quem lá perca muito tempo. Se não me interessa, porque dou relevância?


Aliás, se eu andasse a rogar pragas a gente que só fala de tópicos noticiosos, de crianças ou que promove aquilo que lhe interessa como aquilo que genericamente devia interessar a todos, já tinha que ter subcontratado metade dos bruxos e bruxas na área de Lisboa. E isso a mim não me dá jeito, porque os bruxos hoje em dia esticam-se nos orçamentos e se pedir factura são capazes de me amaldiçoar.

Sendo assim, se não apreciam corrida, apenas debater e rebater positivos e negativos de falar sobre isso, podem ficar por aqui.

Os restantes, fiquem a saber, fui correr ontem à noite e não chovia. Depois de duas semanas de gripe, tenho noção que os meus treinos andaram para trás para aí mês e meio. No jardim do Campo Grande, desde que metade está melhor iluminada, há mais mulheres a correr à noite. A Avenida do Brasil tem um problema na ciclovia, já que a mesma passa por detrás de paragens e pessoas à espera de autocarro tendem a ter pouca paciência ao fim do dia. Os carros estacionados na Avenida Gago Coutinho, lado direito de quem desce, deviam ser obrigados a ser coerentes em relação à posição no passeio – alguns estão encostados aos muros das vivendas, outros estão junto à estrada, um gajo que ali pelo meio parece um estúpido a fazer slalom. Velhas e mulheres não tão velhas do bairro de Alvalade tomem nota: homens que correm com a respiração algo pesada não devem ser encarados com excessiva alegria ou medo – eles não estão assim por vossa causa. Às vezes gosto de ter uma outer-body experience e olhar para mim mesmo a pensar enquanto corro – mesmo que não pense nada de jeito. Estou indeciso sobre se corro uma ou duas maratonas este ano, porque mentalmente não estou a ver como encaixar isso no meu plano para a primeira metade do ano.

6 comentários:

  1. Temos todos um laivo elitista dentro de nós. Há muita gente que despreza a corrida e quem fala dela com paixão porque "agora toda a gente faz, é uma moda", logo, deve ser mau. Está democratizado, já não presta. Conheço este comportamento de ginjeira, aliás sou assim com tanta coisa. Mas é um preconceito horrível e extremamente snob.

    É como dizes, se a pessoa gosta daquilo, vai falar sobre aquilo, como podia falar de qualquer outro gosto qualquer...

    (revi-me muito na parte da adrenalina no coração se tornar um vício para ex-batatas de sofá :) )

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    1. Tudo o que mete adrenalina pode gerar vício :) e embora nunca tenha atingido o estatuto de couch batatinha, compreendo perfeitamente a antítese de estados.

      Boas corridas ;)

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  2. Quando te cruzares com o inimigo a vir de bici pela ciclovia da Av. do Brasil, muita atenção para ver se o gajo não se parece com o Eli Wallach. Just sayin'.

    (por falar nisso, há dois dias revi o clássico que nos une "if you're gonna shoot, shoot, don't talk" ... já não se fazem filmes com balas a sair pela espuma do banho, pá)

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    1. Ah meu caro, mas um tipo de bici nunca é meu inimigo até declarar esse estatuto. Até essa altura é só tipo num cavalo de ferro ;)

      (tenho agendada uma revisão da trilogia dos dólares, só para não deixar esmorecer a moral das tropas)

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  3. Duas criaturas de 5 e 6 anos em casa Mak. Com excesso de adrenalina. Maratonas é todos os dias. Duas num ano é para meninos.

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    1. Isso são preparativos para Jogos Olímpicos e eu nem estou nesse patamar :)

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