24.2.14

Carta ao amigo ciclista do mealheiro





Não sei se vais emigrar. Em boa verdade não sei sequer o teu nome ou que expectativas tens para a vida. Talvez sonhes em retirar-te para uma comunidade piscatória onde te tratem simplesmente por Zé do Anzol ou, quem sabe, vender a ideia para um reality show com pessoas que adorem gatos e fazer fortuna com isso.


Tudo isto são especulações mas a impressão que causaste em mim durante os trinta minutos em que os nossos caminhos se cruzaram, essa sim foi bem real.


Vinha eu a exercitar essa nobre arte de colocar um pé à frente do outro de forma rápida e alternada, obviamente munido de lycra de boa cepa, quando tu surgiste na minha visão periférica. Não estranhei, junto ao rio é comum ciclistas e corredores partilharem vias, nem sempre de bom de bom grado é certo, mas no teu caso vi que não era essa a tua mentalidade.


Arrisco a dizer que não és um “pro” da bicicleta, daqueles que se equipam a rigor e saem para rolar em estilo. Agarraste numa tshirt, pegaste naquela calça de fato de treino que te tornou quase famoso em 2002, sacaste da bicicleta e saiste à rua. E naquele instante, o céu azul e o sol que nos tem fugido para ti foi mais que suficiente.


Passaste por mim e não foi a grande velocidade, digo eu que já levava 10kms no bucho e fiquei lado a lado contigo por alguns segundos. No entanto quando me ultrapassaste vi que estavas feliz a olhar para o céu, para o lado, para as miúdas lá mais à frente, basicamente para tudo menos para a via. Alguns ciclistas levaram isso a mal, porque o teu percurso estilo zigue-zague era pouco compatível com discípulos do sprint velocipédico, mas para te ser franco não foi isso que me perturbou.


Deixaste de pedalar, aproveitando apenas o balanço que já tinhas e, ao fazê-lo, a tua calça de fato de treino cedeu e a tua postura revelaram o teu mealheiro mesmo no meu campo de visão. Não foi bonito e nem uns goles de bebida isotónica ajudaram a recuperar a quebra de energia. Fiz das tripas coração e acelerei, passando de novo por ti sem que desses por mim mas, como que por magia negra, cinco minutos depois ultrapassaste-me de novo e ficaste novamente a deslizar à minha frente. Olhei para o chão, para o relógio e tentei até olhar apenas para os ténis mas eu sabia que esse mealheiro felpudo estava lá, à distância de um olhar. Maldito sejas.


Brincaste comigo durante mais dois ou três quilómetros. Eu passava por ti, tu davas-me uns minutos de paz e voltavas a ultrapassar-me de mealheiro em riste. Meu amigo, para ti era só felicidade, para mim era terror psicológico. Decisões tinham que ser tomadas e depressa.


Fechei os olhos, inspirei fundo e olhei para a direita - ou subia quase três quilómetros ou continuava a ser mealheirizado durante mais meia hora. A opção era fácil, subir rumo ao esquecimento. O meu olhar desviou-se uma última vez para o mealheiro zigue-zagueante que espalhava alegria e terror a cada pedalada. A felicidade de uns pode ser mesmo a agonia de outros.


Subi e depois subi mais. Nem uma modelo de bikinis à minha frente na subida. Nem sequer um tipo com bebidas frescas e palavras de incentivo.



 Continuei a subir meu amigo, mas podes crer que vai passar muito tempo até me esquecer de ti.

2 comentários:

  1. AHAHAH! Ser mealheirizado dessa forma roça o terrorismo. É nessas alturas que fico feliz por correr sem as lentes de contacto e perder tantos pormenores da paisagem.

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  2. Visão dos infernos! É por essas e por outras que não ando de bicicleta.

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