6.1.14

Sem Nélson o romantismo fica mais pequeno


Domingo à tarde não foi apenas uma data marcada pela minha descoberta do desaparecimento de Eusébio. Foi também nessa altura que descobri que Nélson Ned, esse pequeno grande cantor romântico, deixou de estar entre nós. 


Poderíamos dizer que, dadas as circunstâncias, foi um acontecimento menor, uma questão de somenos mas, para além de todos os trocadilhos de baixo nível que eu poderia fazer, a questão é que Nélson Ned já há muito tinha reclamado para si o território de domingo à tarde.

No campo do romantismo cantado, Nélson pode não ter combatido com as mesmas armas de tantos ícones do género, pois não tinha o visual sedutor com que muitos deslumbravam plateias, sendo forçado a voar abaixo do radar nessa matéria. Contudo, a sua capacidade vocal e a forma como projectava a sua mensagem romântica iam muito para além da sua altura. Tanto é que, no seu auge, “ombreou” com Roberto Carlos em termos do protagonismo em termos de êxitos românticos e nem o título de “brega” com que alguns o tentaram diminuir o impediu de ser um dos mais bem sucedidos cantores na América do Sul durante os anos 60/70, num percurso com mais de 45 milhões de cópias vendidas.



Se nos debruçarmos sobre as suas letras, em “Domingo à tarde” Nélson agiganta-se e tenta combater sem medo a solidão e as pressões sociais que levam ao “acasalamento” durante o fim de semana. Aquilo não é só romantismo, é um estudo sobre o sobe-e-desce na vida das pessoas que se encontram sozinhas ao fim de semana.
Já em “Tudo passará”, para além de um excelente ping-pong com tempos verbais, Nélson Ned é mestre a fazer crescer a angústia entre a procura da felicidade e a inconformidade confirmada pela necessidade de sofrer para tentar ser feliz.



É certo que, em pleno último adeus ao King, se pode criar a falsa noção de que esta mítica figura saiu pela porta pequena mas, esteja onde estiver, Nélson Ned sabe que tudo passará. E ainda assim, o seu lugar no coração de românticos de todos os tamanhos pelo mundo inteiro será para sempre intocável.

2 comentários:

  1. O gajo era teimoso. Tinha mesmo de morrer num Domingo.

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  2. Sair pela porta pequena não tem de ser necessariamente uma coisa má. Vide Portugal dos Pequeninos, onde tudo é minúsculo e não deixa de ser um espaço icónico. Tamanho não é tudo. Dizem......dizem....

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