8.1.14

O Metro estava perturbado e eu fui ajudá-lo


Sinto que o Metro sofre. Não raras vezes lá vem uma senhora em tom monocordicamente profissional informar que ele está com perturbações e pode demorar mais do que é habitual ou então, desculpando-o e tratando-o pelo nome completo, lá nos diz que “por circunstâncias alheias ao Metropolitano a circulação encontra-se interrompida”. Não acredito nisso, acho que tem tudo a ver com ele, especialmente quando é certo que ele anda com problemas. Por isso, quando hoje de manhã ouvi uma vez mais que ele se encontrava perturbado, não fui de modas – saltei para a linha e fui falar com ele.

Conforme avancei rumo ao túnel, podia ver as suas luzes a tremer lá à frente e chamei “Metro, estás aí?. A resposta não se fez esperar “Não, quem está aqui é o Nicolau Breyner com dois faróis na cabeça...”. Ah, sentido de humor, um sinal de que nem tudo está perdido.
Chegado ao pé dele, confrontei-o “Muito engraçado Sr.Metro, mas afinal o que se passa? Sempre perturbado, sempre com complicações, isso anda assim tão  mal?”.

Mais que uma resposta, ouvi um desabafo “Epá, se andasses sempre com os cornos espetados por debaixo da terra, a ver se andavas animado. Ainda por cima sempre a passar estações e mais estações, enfim passo mais estações que as passerelles em Paris e sem o glamour de gajas boas a passar por cima. Com sorte levo com uns quantos ceguinhos, o rei dos batuques e a malta do acordeão...”

“Ok, não é fácil, mas pelo menos tens um rumo na vida nem que seja Amadora/Este- Sta.Apolónia, mas sabes sempre para onde vais e de onde vens...tomara muita gente na vida”.
“Isso dizes tu rapazote, agora com greves atrás de greve, às vezes levanto-me e dou por mim trancado cá em baixo, sozinho, sem pequeno almoço nem nada. Sorte que não tenho medo do escuro, senão ainda mais perturbado ficava...”

“Pois, estou a perceber, vida de Metro não é fácil. O cheiro dentro das tuas carruagens às vezes também não é...e depois há aquela malta que se encosta demasiado a ti, porque vai sair daqui a sete estações e acha que tu a vais bloquear de propósito. Isto para não falar no ridículo das pessoas de óculos escuros, as que querem ler os teus livros por cima do teu ombro e as que acham sempre que entrar em ti é mais importante do que deixar sair quem está dentro. Acho que fiquei perturbado...posso ficar aqui contigo?”
“Claro man, sabes que sou um tipo evoluído, até tenho sempre rede para telemóvel e net. Há países em que há Metros que não há nada disto, já viste a sorte...”
“Pois é, tens razão, quere que te tire uma foto, para pôr no Facebook?
“Ok, pode ser, mas não me tagges por favor”

E lá ficámos os dois, quietinhos e perturbados.



10 comentários:

  1. "desculpando-o e tratando-o pelo nome completo"
    Opá, tão bom.
    E o metro lisboeta é lindo, é, tomara muitos.

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    1. Sou utente diário, acho que é um meio agridoce, com tudo o que de bom e de mau isso queira dizer :)

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  2. Estas perturbações já nem com ansioliticos lá vão. O metro tem andado mesmo em baixo.

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    1. Coitado, é o que dá ser puxado para baixo por aqueles que o rodeiam...

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  3. :))) adorei!

    (mas, por favor, não voltes a fazê-lo! não te quero conhecer pelas noticias dos «tipos que se atiram à linha» :b)

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    1. Sou um tipo avisado, já conheci gente que trabalhava nas linhas e me deu as dicas para sobreviver nos túneis. E que também me explicou detalhadamente o que acontece quando as coisas não correm bem...

      ;)

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  4. Isto fez-me lembrar Thomas e Amigos.

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    1. Desconhecia mas fui descobrir. E fiquei maravilhado ao saber que o George Carlin fez parte da série :) http://www.youtube.com/watch?v=kGw7LjB23FE

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  5. Muito bom!
    Do metro prefiro não dizer nada... apenas digo que deixei de o alimentar há um mês. Agora alimento as petrolíferas e contribuo para um clima cada vez mais marado! Teve de ser que esgotaram com a minha compreensão.
    Scheimit

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  6. Eu acho que o problema do Metro é não ser convidado para as festarolas que o pessoal organiza às quartas à noite, implicando a já rotineira greve às quintas de manhã (é a única justificação que vejo para o que é já um ritual).

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