30.1.14

Andamos a googlificar a nossa vida?


O imediatismo é meu vizinho. Ambos moramos num bairro decorado com “é para ontens”, “no momentos” e “asaps”. Somos daqueles vizinhos que se falam bem, embora tenha sempre a noção de que ele tenta meter-se na minha casa mais vezes do que eu gostaria.

Apesar disso, lido bem com ele e, aqui entre nós, sei que ele é só assim porque é daqueles que estão sempre demasiado presos às últimas tendências do mundo em que vivemos. Na casa do imediatismo, sejamos justos, não há grandes discussões e, quando as há, chama-se logo o Google para acabar com elas. Se fosse na minha casa, outro galo cantaria, que por lá gosta-se mais de deixar viajar as histórias e os debates do que fazer aterrar rapidamente as conclusões.
O imediatismo diz-me que não tem paciência para isso, histórias e discussões, não levam a lado nenhum se não for para saber quem tem razão e o Google é justo e imparcial na matéria.

Pergunto ao imediatismo se isso não será um problema, se não andamos a transformar a nossa vida em Google mais do devíamos? Queremos respostas para tudo e queremo-las rapidamente, como se para isso fosse apenas preciso carregar num botão.

O imediatismo ri-se logo e tem resposta pronta, como seria de esperar “O Google é um motor de busca. Não encontra nada que não exista já previamente...”. E eu fico a pensar, se não é isso que contribui tantas vezes para tanto lamento e frustração – querermos respostas no imediato para coisas que são impossíveis de responder no presente.

O perigo é depositar esperanças no vazio e esperar que as mesmas voltem preenchidas. A sorte é fazer isso mesmo e ter resultados. Não sei se gerir a vida e a ansiedade voltando sempre as dúvidas para fora e depositando-as em factores que não controlamos não é mais do que um sinal de que confiamos cada vez menos em nós.
Por alguma razão o poder da recomendação está cada vez mais em alta e a tendência para acreditar/confiar na opinião de estranhos (especialmente online) acentua-se, mesmo até em relação à família e aos amigos. Seja na procura de soluções triviais, na necessidade de analisar algo porque estamos a passar do ponto de vista de outros ou na procura do melhor caminho (figurativa e metaforicamente), não é raro que desejemos que a resposta esteja a distância de um botão.

O que a meu ver não está errado, se tivermos sempre presente a noção de que às vezes a resposta não vai estar lá. E que vamos ter que ser nós a criá-la de alguma maneira...

Sem comentários:

Enviar um comentário

Se vais dizer alguma coisa, escreve, não fiques para aí a olhar.