22.1.14

A onda


A onda era gigante mas não era feita de água. Formou-se a partir do vexame e da tacanhez que envolveram durante anos a fio, dentro de capas e batinas, gritos e rituais que alguns diziam ser de tradição mas mais não eram do que ecos deformados do tempo longínquo em que trajes ocultavam diferenças em vez de as exporem.

E essa onda ganhou força no medo de alguns, na falta de informação de outros e na necessidade de integração de uma maioria acabada de chegar a um lugar novo e que, a troco de punições impostas por falsas autoridades, deixou que a humilhação fosse a norma e a diversão um esboço ressequido fruto de mentes que tomam por gozo coisas que, fora do meio em que gravitam, seriam consideradas aquilo que realmente são – exemplos de que a maldade humana e o gosto pela miséria alheia andam mais vezes de mãos dadas com a realidade do que aquilo que gostaríamos de imaginar.

Cheia de força e mais que furiosa, durante anos a onda varreu bom senso e varreu palavras e actos para debaixo do tapete da irresponsabilidade permitida porque faz parte do costume. Alimentando-se de velhos hábitos e dos maus brandos costumes, colocou rótulos de queixinhas, inadaptados e fraquinhos aos que dela fugiam e deu sensações de poder que deviam ser falsas, mas que acabam por ser reais, aos que nela surfaram e lhe deram ainda mais força. Aparentemente, o descontrolo está sempre controlado até ao momento em que deixa de estar.

E um dia a onda desabou com estrondo e com estrago. Como seria de esperar, por tudo o que define aquilo que lhe deu força, a onda que foi de tanta gente passou a ser de ninguém. No entanto, as ondas não morrem sozinhas, nem no mar, nem em lado nenhum.
E esta devia afogar em culpa e desejo de mudança, todos os que fizeram dela aquilo que é e tudo aquilo que não devia ser.

2 comentários:

  1. O controlo é uma ilusão perigosa. Pobres daqueles que julgam deter semelhante habilidade.

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