23.1.14

A nobre e difícil arte de “emprestar”



Quando se trata de emprestar coisas não tenho qualquer vergonha em confessar que sou um pouco esquisitinho. Se não confiar no cuidado que a pessoa vai dispensar ao que lhe estou a emprestar, o mais provável é que me negue a fazê-lo logo à partida. Porém, em minha defesa, quando estou à vontade com alguém não tenho qualquer problema em fazê-lo.



Livros, jogos, CDs e DVDs (vou deixar dinheiro na categoria de “empréstimos perigosos”, a par de carros e outros bens de grande porte) são provavelmente as coisas que mais emprestei até hoje. É certo que as duas últimas categorias estão em declínio a nível de empréstimo, embora o “empresta-me aí uma pen drive” seja um modo aglutinador pós-moderno para música e filmes.

O facto de eu considerar “emprestar” uma nobre arte tem que ver com o exercício que depois pode surgir entre as duas pessoas – a que empresta e a que leva emprestado. Há um prazo acordado? Não há? E quando aquilo que consideramos um prazo razoável já foi às malvas há muito tempo? Pior ainda, e quando vemos aquilo que emprestámos calmamente metido em prateleiras alheias como se delas fizesse parte?

Para quem empresta é importante um método de controlo, que para certos artistas é um ficheiro organizado com todos os empréstimos a decorrer, para outros é um post-it e para tipos como eu é uma confiança inabalável na sua memória, o que muitas vezes pode resultar em ficar a arder que nem as virilhas de um obeso mórbido depois de tentar correr 5kms. Além disso, se formos gente que empresta à bruta, para nossa segurança é importante categorizar aquilo que emprestamos, desde artigos "Holy Graal" até cenas do género "Se desaparecer, é uma sorte".



Do lado de quem recebe, só podemos esperar moral e bons costumes. Há quem seja diligente e há quem seja displicente e o pior é que muitas vezes, personalidade e empréstimos não combinam de antemão. Já tive amigos super correctos e certinhos que foi preciso quase arrombar-lhes a porta de casa para forçar devoluções e os maiores mitras já me apareceram em casa a devolver artigos que eu próprio já não tinha bem a certeza de quem os tinha.


A devolução é outra parte sensível na arte de emprestar – Recebemos de volta algo que vem meio quinado ou pior do que foi, sem que a pessoa que devolve mencione o que quer que seja – é melhor reclamar ou calar e riscar a pessoa da lista de futuros empréstimos? Anos depois, descobrimos na nossa posse algo que jurámos já ter devolvido quando nos perguntaram isso mesmo – assume-se a vergonha ou omite-se e amplia-se o espólio, uma vez que o dano já está feito? Ter três coisas emprestadas, devolver uma e pedir mais duas é lícito ou um novo empréstimo só deve ser viabilizado depois de tudo devolvido?

 
O momento em que descobres as tuas iniciais escritas de forma discreta no verso de capa de um livro que o teu amigo jura que comprou numa livraria na Baixa...

O meu lado esquisitinho leva-me sempre a posturas mais defensivas e, feito o balanço, creio que me tem servido bem mas suponho que emprestar sem medo e confiar no melhor das pessoas também seja uma atitude otária positiva.

Mas eu também sou o gajo que acha que as pessoas deviam trocar boa parte dos livros que têm e nunca vão ler mais do que uma vez na vida, para que não morram nas prateleiras, por isso a coerência nem sempre é o meu forte...

10 comentários:

  1. Já pensei em comprar um livro de rifas, dar o talão a quem empresto e ficar com o canhoto com o nome do indivíduo e da coisa emprestada.

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    1. Não é má essa, mas se for para estimular o regresso dos empréstimos tens mesmo de sortear alguma cena...

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  2. Eu acho que só faltou referir aí um aspecto que para mim faz toda a diferença: o valor afectivo do bem emprestado. Se forem coisas que não me sejam particularmente queridas, sou uma baldas. Rapidamente me esqueço a quem emprestei o quê. Se forem coisas de que goste mesmo muito só empresto a quem confio e sou capaz de fazer marcação cerrada para conseguir a devolução.

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    1. Isso coloquei na categorização dos empréstimos, que como referi vão desde o sagrado ao "pode ser que com sorte não voltes..."

      ;)

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  3. Acho que não há ninguém mais picuinhas que eu a emprestar livros e dvds. Quando emprestava dvds, apontava num ficheiro. Livros às vezes empresto mas estou sempre em cima para mos devolverem.

    Concordo com essa ideia da troca de livros. Acho excelente.

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  4. Não empresto livros a ninguém. Bastou-me ficar sem um para aprender a lição.

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  5. Cheguei à conclusão que os meus pertences devem ser realmente fabulosos: tudo o que empresto, inclusive o que não empresto, torna-se misteriosamente propriedade de outrem. Mesmo quando peço de volta à descaradona, juram e juram que não é meu porque compraram (mas nunca conseguem dizer onde)! É algo que não consigo entender: que raio de educação tiveram essas pessoas!!?
    Scheimit

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  6. Quando estou prestes a emprestar, seja o que for, penso assim: eu daria isto a esta pessoa? Se a resposta for não, então paciência, não há nada para ninguém. A maior parte das vezes o objecto não é devolvido ou vem danificado. Exceptuam-se aqui aqueles em quem podemos confiar a 100%, sabemos que nos vão devolver o objecto, no mesmo estado em que foi emprestado e em tempo útil. Coisa rara, claro.

    Já fiquei sem livros, cd's e até uma bicicleta. Numa das vezes, e após mais de um ano após o empréstimo de um cd, virei-me para um amigo e disse-lhe: "Sabes aquele cd que te emprestei da banda tal? Ofereço-te, fica com ele." E ele ficou :) Pelo menos, deixei de pensar nisso...

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  7. Penso muitas vezes nisso de trocar os livros que tenho. Quando olho prás prateleiras lá de casa, cheias com tantos livros que nunca vou voltar a ler, dá-me pena morrerem ali.

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  8. Podíamos criar uma iniciativa dessas de troca de livros.

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