29.11.13

Humor vítreo

Ele perguntou-lhe se acreditava em amor à primeira vista. 
Ela respondeu-lhe estava dividida, tendo um olho no burro e outro no cigano. 
Não sendo cigano, ele sentiu-se ofendido. 
Não sendo burra, ela sentiu-se cigana.
Continuaram a passear de mãos dadas.

Restaurantes "bem" que cómónicam "mal"

Sou um tipo bastante tolerante no que à ortografia diz respeito até porque ninguém é isento de falhas, começando por mim. Não raras vezes publico coisas sem reler devidamente e arrisco a gralhar que nem um leão (a errar também, mas em dose menor).

É certo que a Internet em modo social também criou a polícia do erro mas, em boa parte dos casos, o que acho mal em quem corrige alguém é quando faz disso um espectáculo ou fogueira em praça pública, quando há formas mais privadas de o fazer. Uma coisa é ajudar os outros a melhorar, outra é apenas mostrar que se é melhor.

No entanto, tudo isto que acabei de dizer é algo que aplico à comunicação informal. Quando se trata do campo profissional sou bem menos tolerante, começando novamente por mim. E nada me irrita mais do que empresas/negócios/serviços que comunicam mal, tratando o português com os pés. A meu ver, por norma isso é um reflexo da atenção que dão aos detalhes do seu negócio e, por vezes, de falta de humildade perante a necessidade de passar os conteúdos que produzem por alguém competente na matéria ou, no limite, por mais do que um par de olhos.

Eis um exemplo:

Acabo de ser abordado digitalmente por um restaurante armado ao moderno, daqueles que têm uma palavra em inglês no seu nome e terminam o mesmo com uma cena de status tipo Bar, Grill, Club ou coisa que o valha. A comunicação foi feita para várias empresas e dizem-me que se estiver a pensar fazer um jantar de Natal, eles devem ser tidos em conta. E eu, que também como com os olhos, fui ler.

No meio da oferta toda, em que inclusive o nome dos DJ's residentes me é avançado como se fossem os meus vizinhos de baixo, a minha curiosidade fica em alerta em relação ao método proposto de bebidas "á" "descrição".

Será um divertido método em que eu descrevo uma bebida como a imagino e eles me servem a dita cuja ou trata-se apenas uma variante gráfica do clássico serviço de bar à discrição?

Na dúvida, vou telefonar e esclarecer a coisa, até porque eles prometem "profissionalismos" e, tendo muitos, não devem ter qualquer problema em dispensar-me um bocadinho.

28.11.13

A “escolha” entre a mulher ou o futebol


Calhei hoje a rever este vídeo, que é um exercício interessante que confronta adeptos ferrenhos do Newcastle com uma pergunta “E se tivessem de escolher entre a vossa cara metade o vosso clube?”. A coisa é promovida pela Puma, em conjunto com o Departamento de Psicologia da Universidade de Bristol e o vídeo, apesar dos seus nove minutos, vale a pena ver, quer pelos resultados, quer pelas reacções dos adeptos, que vão do velhinho casado com a sua senhora há 200 anos até ao semi-hooligan, passando também pelo entusiasta pai de família.






Desde bonecos de vodu (muito na moda) com a figura da mulher e do jogador favorito e agulhas à espera ou o corte de fotografias de estimação, a forma como as pessoas reagem dá que pensar – é possível gostar tanto de futebol a ponto da dúvida ser dilacerante perante estas escolhas?



Gosto muito de futebol, já sofri pelo meu clube, mas nunca estive perto da clubite fervilhante (aguda em certos casos), daquela que sofrem os que vão religiosamente ao estádio, que criam ódios por clubes rivais e cujos principais desaires e vitórias do clube são candidatos imediatos a marcos importantes na sua vida. Será que quando se desenvolve um amor “real” por um clube, por futebol, isso rivaliza mesmo com uma relação com uma pessoa?



Suponho que a partir de algum limite a coisa passe do patamar saudável, tal como é possível isso acontecer numa relação com uma pessoa. No entanto, um adepto no estudo dizia “Ah, mas eu já gostava do clube antes de gostar dela...”, o que a mim me indica que é perfeitamente possível em certas cabeças clube e parceiro disputarem atenção em pé de igualdade. Não será preciso chegar ao patamar “quando o Benfica perde, alguém apanha lá em casa...”, mas é assim que nascem essas mito-realidades urbanas.



Na minha cabeça, essa escolha não existe. Na táctica que escolhi para a vida, o futebol por muitas alegrias que traga pode ficar sempre no banco. Se calhar o meu coração sofre de insuficiência futebolística, mas não é grave.



Agora, se estivesse em causa assistir a uma final da NBA....

27.11.13

Planeamento vs Estacionamento


No meu trabalho, o fluxo do mesmo é estabelecido através de um planeamento. E eu, que gosto bastante de metáforas a la carte, gosto de comparar o planeamento com o acto de estacionar um carro.

No mundo ideal, esse planeamento é bem estruturado e as tarefas que nele constam ocupam o tempo que a sua importância e complexidade assim exigirem. Nesse mesmo mundo ideal, as pessoas compreendem também que as dimensões do veículo que pretendem estacionar não se adequam a qualquer espaço livre que encontram e agem em conformidade com essa noção.



No mundo real, esse planeamento é estruturado “ongoing”, com boa parte dos trabalhos que entram a serem muito escorregadios em termos do prazos propostos e muita coisa pendente que, conforme vai sendo resolvida, acaba por comprovar que os prazos só são cumpridos com muita engenharia criativa e muito deadline quase a cheirar a queimado. Nesse mesmo mundo real a ideia de muita gente que estaciona, independentemente do tamanho do seu carro ou do espaço disponível, é que “cabe” ou “vai dar”. Mesmo quando toda a gente vê que será necessário um milagre ou desafio arriscado às leis da física.



No lado mais negro do mundo que temos, o planeamento está armadilhado. Nada do que lá vem corresponde à realidade do que as coisas exigem, mas está disfarçado de maneira a que só te apercebas disso quando tens a tarefa em mãos. Os prazos não esticam, as tarefas agigantam-se e entram em mutação e, quando dás por isso, o planeamento é um gigantesco choque em cadeia, em que cada tarefa e cada prazo com que lidas se empurram, sobrepõem-se, atropelam-se e a tua tarefa é apenas sobreviver. O descontrolo pode surgir a cada esquina.



26.11.13

Cenas que duram 24 horas

Creio que já passei o devido tempo a ver este videoclip/acção digital do Pharrell Williams que dura 24 horas. Para as três pessoas que possivelmente não saibam do que estou a falar, podem saber mais sobre o que este senhor anda a fazer, aqui.

"É o bicho, é o bicho e tenho 24 horas para te devorar, sou um gajo cool pois souuuu"


Agora vou dedicar-me a pensar em coisas que podia fazer durante 24 horas para ver qual daria o melhor vídeo do género. Até agora estou indeciso entre 24 horas de trocadilhos ininterruptos, 24 horas a mexer as orelhas sem lhes tocar ou 24 horas a correr enquanto giro uma bola de basket na ponta de um dedo indicador.

Seja qual for o caminho, antecipo um conteúdo capaz de gerar engagement de elevada qualidade.

Vítima de humor rural

Depois desta conversa toda sobre humor, trabalho e teorias sobre o sucesso nesta área (destaco um belo ping pong na área de comentários), quero apenas dizer que me demito de opinador na matéria. Mas só no fim do post



Não pondo em causa a construção dos personagens, que já rendem há algum tempo desde a sua primeira presença televisiva, a minha questão é apenas - que sumo se pode tirar de uma longa metragem deste tipo de humor?

Vendo o trailer e conhecendo a área de intervenção dos personagens, faz-me lembrar a sequência de gags e alusões ao estilo mais brejeiro de uma Academia de Polícia ou um Porkys, mas com um delay de mais de 20 anos. Já face aquele estilo de humor europeu do "Bem-vindos ao Norte", parece-me a milhas em termos da riqueza do diálogo, construção de um enredo e por aí em diante. 
Estes "Sete Pecados Rurais" ou foram muito prejudicados pelo trailer ou são aquilo que são, uma extensão gigante do Tele Rural, mas em que a poção caseirinha de muita insinuação e truques de revista ganha todo o protagonismo.

No entanto, é um filme, é português e é uma comédia. Chegou onde muitos projectos não chegam. É certo que tal não o torna necessariamente bom, mas aconteceu e isso prova a expectativa de público para o mesmo.

Suponho que sejam boas notícias para esse público. Pena que eu não consiga perceber porquê ou, pior ainda, não o queira fazer.


25.11.13

O Bardem é que sabe





Nada como escolher papéis que te façam parecer melhor na realidade.


A vida no campo minado da arrogância

Poucas pessoas se têm como arrogantes. Diria até que até boa parte dos que, sem qualquer sombra de dúvida, são arrogantes (avaliação exterior, obviamente) escolhem sempre outra palavra para se definir nessa matéria seja ela autoconfiança, assertividade, saber de experiência feito, um “bocadinho convencido” ou coisa mais pitoresca.

Confesso que não tenho muita paciência para gente arrogante, especialmente o lote de “arrogantes com pés de barro” que constituem uma boa parte dos arrogantes que conheço. Para mim, o “arrogante com pés de barro” é alguém que constrói essa posição com base numa falsa noção de superioridade ou cuja postura circunstancial lhe permite esse comportamento. Descascando a questão, seja numa conversa, num tema, ou em tudo o que faz, este tipo de arrogante é apenas uma pessoa com falhas ao nível de educação e que tenta capitalizar qualquer trunfo como forma de intimidação ou soberba perante quem se deixe iludir (ou quem não tenha grande escapatória) com comportamentos ostensivos do género.

Dentro de um grupo que estou longe de adorar ou bater palmas, só tolero o verdadeiro arrogante, quando nele vejo as qualidades, talento ou capacidades que lhe permitem exibir esse comportamento (mesmo que politicamente incorrecto). Caso contrário, é só mais um otário/a com complexo de pavão.

Já trabalhei com / conheci tipos que eram verdadeiras bestas como pessoas, arrogantes ao máximo, mas cujo trabalho desenvolvido e talento permitiam, no limite, tolerar um pouco a atitude. Também já trabalhei com / conheci tipos que eram verdadeiras bestas e não tinham nada que permitisse ou deixasse vislumbrar as capacidades que lhe poderia dar margem de manobra para o seu comportamento. Eram tristes imitações de arrogantes a sério e só as pessoas mais complacentes e os que estão presos pelas circunstâncias iam amochando perante tal gente.

A arrogância é uma questão comportamental, não só de quem a ostenta, mas sim de quem a tolera, pois não raras vezes vi esse comportamento a ganhar preponderância perante quem não o desarma ou com ele contemporiza. Se calhar deviam haver também aulas de defesa pessoal contra a arrogância.

Por outro lado, nos dias que correm, até para ser arrogantes as pessoas estão cada vez mais mal preparadas. Fazem falta mais arrogantes a sério, dos da tanga já temos com fartura...

23.11.13

O que dizem as tuas tatuagens



Sou um admirador de tatuagens enquanto obras de arte que se relacionam (ou se deviam relacionar) de forma intimamente próxima com quem as tem. Acrescente-se ainda que não possuo qualquer tatuagem, mais por ser um compromisso comigo mesmo que até agora não desejei assumir, do que por medos, rótulos ou outro tipo de pressão social. Se este tipo de coisas me preocupassem, nunca tinha furado as orelhas para aí há 20 anos, numa altura em que isso ainda não era algo tão trivial como é hoje.

No entanto, sempre fui um bocadinho crítico, para não dizer gozão ou simplesmente irritante em relação à moda das tatuagens com mensagens em caracteres japoneses ou árabes feitas por gente que desconhece por completo os idiomas, não tem qualquer relação directa com essa realidade ou quando a mensagem não está directamente relacionada com a caligrafia.

Será que diz "Tu és eternamente responsável por aquilo que cativas" ou "Sopa de frango e camarão"?




O pequeno cínico que vive em mim diz-me o seguinte nessa matéria: “Se é verdade que cada um faz o que quer com o seu corpo, e isso não está em causa, se eu quero escrever o nome da minha filha, ou distinguir os valores que me guiam na vida, porque raio não o faço em português e opto por um idioma que desconheço em absoluto?”

A resposta parece-me que andará por este registo – porque caracteres japoneses ou árabes são cool e reforçam uma certa irreverência que porventura se queira projectar.
Já vi muita gente gozar com caixas de supermercado que têm o nome dos filhos tatuados nos braços. Vi até ou disseram-me algures a piada que trabalhar no Pingo Doce faz tanto mal à cabeça que quem lá trabalha tem que tatuar o nome dos filhos para não se esquecer deles.

Gostos à parte, em querendo avançar com a coisa, num processo que é delicado eu diria que o essencial é ter a certeza daquilo que se está a tatuar. Ora eu não quero apostar em % mas temo que uma boa parte de quem vai por esse caminho, finalizada a tatuagem, não terá a certeza absoluta do que tem escrito.

E aí entra o caso deste tatuador tailandês que foi preso em São Paulo e entra o potencial vidente do meu humor negro. Em tempos já tinha pensado que um tatuador que fizesse este tipo de trabalho podia perfeitamente andar a divertir-se às custas de quem tatua, de forma totalmente condenável é certo mas, ainda assim, trágico-divertida.

Agora, ao que parece o tipo, desde insultos a receitas, passando por piadas duvidosas, andou a curtir à grande nos últimos tempos. E a coisa só foi detectada porque alguém arranjou problemas no emprego à conta de um dos seus trabalhos.

A piada é de mau gosto volto a dizer e podia até ser uma notícia falsa mas, voltando à história das %, a minha questão volta a ser: quantas pessoas não poderão andar por aí com uma receita de bacalhau à Gomes Sá nas costas, a pensar que tatuaram “O amor é uma eternidade que se perde num segundo” ou coisa que o valha.

22.11.13

Chuva, indignação de caca e Filipinas




Gostava de materializar nas Filipinas, para aí meia hora antes da catástrofe que por lá se deu, todas as alminhas que hoje ouvi indignadas contra o tempo que faz, o frio que está ou  a chuva que cai.

Portugal, por muitos defeitos que tenha, tem dos melhores climas que já vi e eu costumo ir bastante ao shopping dos climas, só para ver as montras. Pena que, ao que parece, o nosso clima também seja muito bom para o cultivo do queixume metereológico e da indignação temporal.

Arrependimento a pontapé


O arrependimento, enquanto algo que se diz em vez de algo que se sente, é um bocadinho como o consumo de vinho – só faz bem se for feito com moderação.

A propósito disso, eis uma espécie de parábola dos tempos modernos sobre o tema, conforme me foi contada por um amigo meu com passado de jogador da bola, não profissional, mas daqueles que toda a semana tem dois ou três jogos em torneios, etc. Dizia ele:

“Sabes, sempre fui um gajo que gosta de dar umas cacetadas em campo. Nada de coisas maldosas para aleijar a sério, mas aquele tipo de cacetada, vá lá umas pancadinhas que mostravam que não estava ali para brincar, mas sem entrar no campo do rufia.

Só que, fossem jogos a brincar ou não, eu gostava sempre de fazer o seguinte – cada vez que molhava a sopa, era o primeiro a tentar ajudar o tipo em quem malhei a levantar-se, punha logo o braço no ombro dele e pedia-lhe imediatamente desculpa, perguntava se estava bem e tal.
As pessoas são sempre mais compreensivas quando um gajo se mostra arrependido.

Passados alguns minutos, quando o jogo assim o proporcionava, malhava-lhe outra vez, repetindo novamente o ritual a seguir. A reacção por vezes era menos compreensiva, mas a tendência continuava a ser  muito melhor do que se não dissesse nada.

Havia jogos em que dava castanhada ou tempo todo e os adversários eram sempre condescendentes com o meu arrependimento. Creio que muitas vezes achavam que eu era apenas trapalhão, apesar de saber perfeitamente o que estava a fazer...”

Então e quando a coisa corria mal?

“Obviamente, havia malta que se picava e se virava contra mim, às vezes para me tentar fazer o mesmo ou pior. Só que, sendo eu um tipo tão simpático em campo e sempre pronto a pedir desculpa, era fácil que fossem eles a passar por maus da fita ou que tivessem uma reacção considerada desadequada. E aí, era novamente eu que ficava por cima...”

Mas ninguém te mancava o esquema?

“Sim, alguns chegavam lá, normalmente os que faziam o mesmo que eu. E como é que eu sabia isso? Normalmente dava por mim no chão e alguém a estender-me o braço e a pedir-me imensa desculpa com um sorriso nos lábios...”

21.11.13

Às vezes falo através dos ténis

Há dias em que quando vou correr não me apetece ouvir música, nem sequer combinar ir com ninguém. Durante alguns quilómetros, por norma nas voltas maiores, apetece-me ir apenas a ouvir os meus pés. Seja na calçada, na estrada, na terra batida ou passando pelo meio de poças, ervas ou seja lá o que for, deixo que seja o ritmo da minha passada a falar por mim.

A verdade é que, não raras vezes, ele diz mais sobre o meu estado de espírito do que poderia pensar. E vai daí meto conversa com os meus ténis e a coisa fica mais animada do que se fosse apenas a ouvir música. Só tenho pena de uma coisa, tão distraído vou, que nem dou pela paisagem e a conversa chega a ser tão longa que dou por mim e já estou outra vez em casa.

Falam muito os meus ténis e é quase sempre sobre mim.

Selfie e o Hall of Fame das palavras da moda


Para a malta dos dicionários Oxford, “Selfie” é a palavra do ano em 2013. Faz sentido, o pessoal anglófono sempre foi bom a sintetizar e por cá tenho a certeza que a expressão será bem adoptada ou adaptada, já que sendo assim continuarmos a chamar à coisa “aquelas auto-fotos que as pessoas tiram a si mesmas por vezes em situações ridículas, mas que são publicadas cedo demais antes de terem tempo de se arrepender” deixa de fazer muito sentido.



Mas a coisa fez-me pensar um pouco nos semideuses do nosso léxico, aquelas palavras que surgiram do nada, ganharam relevo e uso corrente durante uns anos e depois tiveram a má sorte de cair em desuso ou, pura e simplesmente, terem sido substituídas por novos ídolos.

Acho até que devia haver um Hall of Fame, tal como em muitos desportos americanos, em que todos os anos é eleito um grupo de candidatos de entre os quais alguns são escolhidos para o Hall of Fame.

Sim, brincar com palavras é um divertimento ligeiramente geek
Assim sendo, deixo aqui pendentes cinco palavras/expressões que, para mim, são concorrentes ao Hall of Fame, por já praticamente se terem retirado de circulação e terem o mérito de terem sido usadas a torto e a direito. Se tiverem alguma sugestão adicional eu amplio a lista, mas atenção que linguagem técnico-profissional não conta, senão isto era uma selvajaria.




Candidatos ao Hall of Fame de Palavras e Expressões que em tempos deram show



Malaico (como em “aquilo era muita malaico”, ou seja, algo muito esquisito/maluco)



Prá Frentex (como em algo moderno)



Escanifobético / Escaganifobético (como em algo estranho ou de estrutura esquisita)



Tótil (como em suplemento que reforça o fixe que algo é)



Nóia (como em aborrecimento, chatice, cena marada, incómodo)







Cenas que estão em voga mas deviam levar uma cura de emagrecimento de utilização:



Gourmet (como em querer passar qualidade a qualquer coisa, atribuindo-lhe valor acrescentado e cariz refinado, só de nome)


Vintage (maneira fixe e cool de dizer que algo velho tem valor, mesmo que seja lixo)

"A sério meu, vamos abrir um negócio espectacular de cenas vintage que são gourmet..."

20.11.13

Da intencionalidade da piada seca

Em termos de humor, tenho a mania que sou um gajo exigente. Mas atenção, que não se confunda exigência com snobismo até porque, comparando humor com comida, digo que tal como se pode comer maravilhosamente em restaurantes em que se gastem centenas de Euros isso também é possível em verdadeiras tascas onde as palavras gourmet e vintage fiquem à porta.

Voltando ao humor, o que a comparação anterior pretende traduzir é que tanto gosto de humor inteligente, como da piada mais seca (vulgaridade não, obrigado). Se o primeiro é obviamente mais complexo e depende de uma interpretação de sentidos e situações (que, quando mal executados podem derivar em humor elitista, de nicho ou, pura e simplesmente em algo descontextualizado), o segundo a meu ver depende da intencionalidade ponderada.
“E isso quer dizer o quê, meu palhaço?”, diria eu se fosse leitor deste blog e tivesse pouca paciência para o meu slow build up.

Quer dizer que eu gosto de quem usa o poder de uma piada seca de forma intencional, seja através de um trocadilho manhoso jogado de peito aberto ou aquela frase que causa humor incómodo estilo Office (onde se explorou bastante o conceito de vergonha alheia), sem que isso se deva confundir com pseudo humor negro, em que a pessoa usa apenas o choque e a exploração de áreas sensíveis sem qualquer critério, apenas como forma de criar desconforto..
Quer também dizer que não aprecio quem não usa a piada seca de forma sem saber o que está a fazer ou apenas porque não sabe fazer outra coisa, mesmo que inconscientemente. E o mundo está cheio de gente que pensa ser engraçada...

Não raras vezes vejo "comediantes" da nossa praça irem por um ou por outro caminho desta via do humor, sem que eu lhes reconheça grande mérito tirando o da coragem ou da exposição, porque não é fácil assumir directamente que se quer fazer rir alguém. Aliás, os melhores comediantes não "querem" fazer rir, é algo que por norma já lhes é natural e que, obviamente, trabalham e refinam quando o começam a fazer de forma profissional.

É certo que as análises são sempre suspeitas, porque se cinco mil pessoas fizerem like numa piada aparentemente seca de um comediante nacional sem que eu veja ponta de piada na coisa, a falha será do observador? É o conteúdo que conta mais ou a figura que o emite? Até que ponto o estatuto do emissor define o valor de uma piada? (neste campo podíamos alargar a coisa ao facto de uma anedota contada por um director causar sempre mais gargalhadas do que a mesma anedota contada por um paquete, mas isso já é outro campo minado).

 


 

19.11.13

Frases rústico-épico-básico-memoráveis

"Ó Onofre, vai lá pedir a bola do jogo"

Coisas bonitas que se podem fazer com o Batman

Existem de facto, coisas muito bonitas que se podem fazer em que a figura do Batman serve de inspiração. Melhor ainda quando, ao que tudo indica, é uma história com final feliz.


Por outro lado, aquilo a que se chama livre arbítrio ou falta de bom senso, utilizando exactamente a mesma inspiração também pode levar a coisas como esta.




É o que o mundo em que vivemos tem de interessante e assustador ao mesmo tempo.

18.11.13

As passwords depois da vida ou a vida depois das passwords?


A nossa vida, especialmente o nosso eu digital, é cada vez mais um acumular de passwords e “logins”. Temos emails, passwords das Finanças, códigos alfanuméricos de Internet banking, paypal, passwords de redes sociais, contas em clouds e a tendência é para aumentar.



Somos muito ciosos da nossa privacidade, são-nos recomendadas diversas medidas para reforço da nossa segurança e é comum que, em nome da privacidade, muitas vezes nem as pessoas que connosco vivem saibam sequer metade das nossas passwords.



E quando desaparecemos?



O mundo está a mudar e, como por exemplo neste interessante artigo, expressões como testamento digital ou herança de social media são coisas que vão começar cada vez mais a entrar na nossa realidade. Já existem até um conjunto de ferramentas a pensar nessas situações e muitas marcas que actuam neste campo da nossa vida começam a ter políticas muito precisas nessa matéria.



Mais do que a parte cinzentona de desactivar contas e encerrar perfis, será que receber um blog de herança será um dia algo comum e um gesto bonito? E um acervo fotográfico digital deixado em legado, pode ser uma nova forma de perpetuar boas memórias?



Será que o eu digital que vive para além do eu real é apenas uma nova forma de assombração ou será uma nova maneira de ajudar a diluir o negrume com que naturalmente carregamos estes momentos?















PS - Perdoem-me os que acharem a temática demasiado tétrica mas, nos últimos dias, tem sido difícil não deixar a mente pairar um pouco sobre esses campos. Melhores dias e melhores escritas virão.

17.11.13

O fim não tem princípios



Aprendi este fim de semana mais uma triste lição sobre o fim, daquelas que todos já sabemos, mas que custam sempre a aprender como se fosse a primeira vez.
Aprendi que o fim pode surgir depois de um abraço e um sorriso, de uma noite regada a boa disposição e da sensação etérea de que há sempre espaço para coisas boas no meio do cinzento dos dias.

Fiquei uma vez mais a saber que o fim não tem princípios porque interrompe a vida quando quer e bem lhe apetece, sem perguntar se pode, não só porque efectivamente pode, mas porque deixa os porquês, os “ses” e as dúvidas nas nossas mãos, sem que nada possamos fazer a não ser ficar mergulhados neles.
O fim não é triste por ser o fim, é triste porque interrompe histórias que ainda tinham muito para contar, porque deixa de ser um intervalo, uma pausa ou um até já, para passar a ser aquilo que é – um fim que chega muito antes do seu tempo, apesar de todos sabermos que o fim não tem tempo, apesar de todo o tempo chegar ao fim.

Meu caro A. partilhámos tantas horas, daquelas a que alguns chamam apenas trabalho e nunca nos faltou espaço para brincar, para aprender algo mais, para uma curiosidade ao fim da tarde e para tornar uma vez mais verdade o facto de que há pessoas que não deixam apenas os locais mais vazios quando desaparecem.

Por estas horas não me preocupam, rótulos, categorizações de amigos ou colegas, nem sequer os adjectivos que se usam nestas ocasiões. Estou ocupado a tentar lixar o fim e a mostrar-lhe que, por mais finitos que todos sejamos, há histórias que se continuam a contar para além dele.

Despedi-me de ti lá dentro, na festa. Voltei a despedir-me de ti lá fora e perguntei-te se tinhas feito algum truque de magia para passar á minha frente sem eu ver. Sorriste e deste-me uma pancadinha no ombro, este truque não é para todos miúdo.
Nem penses que me vou despedir uma terceira vez. Só quando me ensinares o truque.