31.10.13

Esgotou-se-me a indignação em pleno Halloween




Pelo meio de greves, o desgoverno que nos governa, as injúrias ao Ronaldo, alguma mediocridade publicitária, os cortes em budgets de comunicação, o início da época na NBA com os americanos a insistirem em jogos de madrugada no horário de Portugal, ter uns ténis de corrida espectaculares mas que me obrigam a correr com pensos nos dedos, ter ficado de fora no sorteio das inscrições na maratona de Berlim em 2014, ter material desenvolvido que não avança por circunstâncias que me escapam, a situação do Manuel Maria e da Babá e, acima de tudo, os trinta e oito cães, dez gatos, doze castores (para produção de essência de baunilha) e vinte boas (as cobras, não as modelos finlandesas) que tenho em casa em situação de possível ilegalidade, esgotou-se-me a indignação que estava a guardar para o Halloween.



E agora, se me batem à porta o que é que eu faço? E se me perguntam sobre tradições americanas importadas pelo consumismo, como posso reagir? Uso a pouca perplexidade que me resta ou tomo suplementos de indiferença? Encolho os ombros ou passo uma esponja de cozinha pelo assunto?



Enfim, resta-me sorver interrogação e desânimo enquanto espero...

Fui à boca ao meu computador

O c!"#%!"#% do computador é lesto a pedir-me relatórios quando crasha e me f#"$! parte do trabalho depois de me ter vindo com a tanga "Bebé, tem auto-save, vais ver que não dói nada".

Lá faço o restart só para descobrir que o c$!"$ão do crash me levou metade das pratas e o texto que sobreviveu tem um problema que fica algures entre paralisia de caracteres e uma possessão pelo espírito de um trovador do Azerbeijão.

Eu nem sou de dar vida a objectos inanimados mas se pudesse, querido computadorzinho, fazia de ti gente e ia-me a ti que nem um Carrilho em noite de Babá a nadar em piscinas de tinto e arrancava-te os tomates de RAM a pontapé enquanto te dizia "Faz lá auto-save desta m#"$#a bandalho, a ver se isso te ajuda a tonificar a memória".



Dois minutos sobre...madrugar



Madrugar é ter os meus sonhos a acordar-me antes do relógio, deixar o alarme dormir mais um bocadinho e sair da cama antes da minha vontade. Por vezes é por dever, outras por prazer, mas o prazer ainda deve estar a dormir quando madrugo porque só aparece um bocado mais tarde. Quando corro deixo o equipamento pronto para, de olhos fechados e ainda de noite, me enfiar nele rumo ao despertar. Quando escrevo de madrugada as primeiras palavras suspiram pela cama e a primeira frase serve apenas para acordar o resto do texto.

(da série “dois minutos sobre...”, em que enfrento a primeira palavra ou pensamento que me surge à frente num dado momento e escrevo sobre isso nos dois minutos a seguir)

A fé de olhos pregados



Ironia é passar a noite a rezar para não ter insónias.


Maldade é agendar um post a pensar em quem o possa ler em tempo quase real.

30.10.13

À espera do verde para os peões

Paro à esquina e guardo a corrida para o sítio certo, outro que não o tejadilho de um carro. Passam depressa, já é noite mas primeiro que tudo já é hora de ponta, o acumular de horas no dia traduz-se no pé que se afunda no acelerador.
A equação não bate certo com o resultado final que é o regresso a casa. Cara crispada a passar, outro rosto fechado no carro ao lado, será aquilo um sorriso ou um esgar de sofrimento a olhar para o verde que não tarda nada fica laranja? Ou será o resultado final que não bate certo porque o regresso a casa não é o que se quer, mas sim o que se pode?

Cai o laranja e eles dividem-se entre os que não se importam de esperar e aqueles para quem esperar não é opção, seguindo-se uma última aceleração. Caras felizes com sinal amarelo, menos ainda.
Cai o vermelho, mas não para todos. Há sempre um dois que preferem passar e esperar no semáforo a seguir, porque não há tempo a perder tirando todo aquele que se perde sem dar por isso.

Finalmente o verde para os peões, que me faz sorrir sem que saiba bem porquê, talvez seja porque sem carro tenho mais tempo para conduzir o meu sorriso. O miúdo no banco de trás do carro à minha frente também se ri, não sei se para mim se para o boneco que tem na mão.

Ao volante, a mãe não se ri, não pestaneja, não mexe um músculo. Olhar fixo no semáforo à espera do sinal verde. Ele há-de chegar e tudo fará sentido, pelo menos até ao próximo cruzamento.

E aqueles filmes das instruções nos aviões...


Desde que ando de avião (para aí desde os cinco anos, se contarmos com o avião para os putos brincarem que creio eu que ainda existe no Parque do Alvito) que sempre me fascinaram as instruções de segurança a bordo.

Das primeiras vezes achava aquilo muito interessante e conjecturava sobre possíveis cenários do género “Então e se o avião cair de lado no mar e as saídas não estiverem à esquerda e à direito, mas sim em baixo e em cima?” (sempre fui uma criança com tendências apocalípticas). Prestava atenção ao manuseamento de cintos, coletes, máscaras, mangas insufláveis e afins, sempre com aquela secreta esperança de os poder vir a utilizar, sem saber que isso possivelmente era capaz de não ser boa ideia.

Mais tarde, mais maduro e mais alto, a par de lutar em voos low costs para poder ficar na fila junto à saída de emergência do meio porque a distância entre filas é maior, o foco da minha atenção virou-se para os performers, vulgo assistentes de bordo, durante a demonstração de procedimentos de segurança. É curioso verificar os diferentes graus de mecanização de um exercício que lhes é trivial, já que alguns fazem aquilo em modo zombie, outros naquela espécie de ritual plástico de professor de vídeos de aeróbica, com sorriso falso e há quem tenha ali naqueles minutos uma certa nuance de arte de palco, com toques de dramatismo na hora de colocar a máscara de oxigénio antes de salvar a criança.

Hoje em dia estou demasiado ocupado e demasiado rotinado para me preocupar com mais do que com os meus dispositivos electrónicos e o seu modo de voo e de tentar adivinhar se estarei rodeado de gente civilizada ou de matéria prima para próximos posts.

Ainda assim, noto que nos últimos anos as companhias aéreas têm investido nos vídeos de demonstração, como forma de tentar captar a atenção a um público que não está nem aí. Surgem cenas criativas, surgem cenas assim a armar ao malucas, surgem elfos, hobbits e anões e surgem até gajos que apesar de não serem um vídeo, mandam cenário nomicrofone.
Por cá a TAP também fez uma cena “engraçadinha” num estilo próximo que envolve o público no vídeo, até funciona para o comum cidadão, mostrando os takes com as falhas e tudo. Não é a loucura, é uma espécie de bitoque que não compromete mas também não deslumbra, mas pronto, diria que cumpre.

E depois, há isto.




Mostrem-me um destes num voo e juro que me lanço a deslizar de joelhos pelo corredor, para acabar com um sorriso de palco e os braços abertos, pronto a receber o vosso aplauso.

29.10.13

Sobre e sob pressão


Comecemos com um vídeo educacional com espadartes que pretende ser também uma metáfora sobre pressão.



Reparem no indivíduo que basicamente só está ali a adular o cliente, virando a cadeirinha, dizendo-lhe palavras de incentivo, enquanto o seu colega está a dar no duro. Quando a coisa dá para o torto, a reacção do cromo é típica de quem não reage bem sob pressão ou, pior ainda, alguém que sabe exactamente o que deve fazer quando as coisas correm mal e o “eu” vem antes do “nós”.

Vistas bem as coisas, em qualquer ambiente profissional (e na vida em geral) há quem lide mal e quem lide bem com a pressão e embora ela seja uma constante em certas áreas, lidar bem com ela não deveria (a meu ver) ser algo que seja considerado um factor positivo só por si.

Para quem como eu trabalha em áreas ligadas à criatividade, a pressão é sempre relativa, porque não há uma fórmula que garanta o sucesso de alguma coisa e é extremamente subjectivo o ideal de “as melhores soluções surgem sob pressão”, até porque quando a mesma é uma constante o seu efeito esbate-se no quotidiano, pois torna-se mais do mesmo.
Acredito que saber lidar com a pressão é um factor que ajuda a distinguir algum tipo de talento em certas áreas, mas que isso ganha relevo quando a pressão não é uma arma de arremesso que se usa sem qualquer critério, tipo chicote para manter o ritmo na galera de escravos.

Neste artigo, embora de forma leve e descomprometida, aborda-se um pouco da questão e entendo que a mesma deve também ser enquadrada num “bolo” que não inclui por exemplo profissões de desgaste rápido (ex: controladores de tráfego aéreo), onde o factor pressão já está incluído muitas vezes na situação contratual e não é surpresa para quem se mete naquilo. É interessante verificar a solução de compromisso, embora também tenha a clara noção que no mundo real os compromissos trocam-se muitas vezes por realidades bem mais negras. E vai daí, já vi gente a perder quilos nas casas das dezenas ou a ficar com os nervos em franja a ponto de ouvir sempre o “My way” do Sinatra antes de ter que ir aprovar trabalhos. E nesses casos extremos, fica difícil perceber onde é que a culpa é da pressão ou do conflito entre outros aspectos, alguns deles pessoais, que se mascaram como isso mesmo.

Já vi falta de educação mascarada de pressão, já vi preguiça a motor a causar pressão, já vi casos de “a pessoa errada no local errado” a gerar pressão, já vi até animosidades pessoais descambarem em pressão e excesso de consciência dar à luz auto-pressão. Feitas as contas, se formos a ver bem a coisa, cada vez mais vivemos numa panela de pressão e o mais “engraçado” é que muitas vezes somos nós que nos fechamos lá dentro.

Nota adicional: Vejo umas carrinhas comerciais da Super Bock aí a circular, com a assinatura “Trabalhamos sobre pressão”. Quero pensar que são uma piada fraquita e não um erro que confunde “sobre” e “sob”, mas eu não sou de pressionar pessoas.

Uma questão de números favoritos


Poucas são as pessoas que não têm números favoritos, números da sorte, números especiais e por aí em diante. Para alguns são indicadores fortes quando se trata de escolher alguma coisa em que os mesmos possam ter influência, para outros são apenas o que fica mais à mão para preencher o boletim do Euromilhões e depois, quando sai a chave, ficar a dizer “Epá, mas sai sempre ao lado, não percebo”.

Há quem aponte especialmente para números primos, mesmo que inconscientemente e há quem tenha ponha os ímpares acima dos pares ou vice-versa. Embora não seja dogmático, também tenho as minhas preferências e se para alguns deles tenho explicações quase lógicas, noutros a coisa está ao nível do “é assim, porque é assim”.

23 – É o dia em que nasci, o número da porta do prédio em que cresci e o número utilizado por possivelmente o melhor jogador de sempre da NBA.

13 – Número que se liga a mim de várias formas, quer em datas muito significativas, quer pelo facto de ter sido o número que usei durante mais épocas enquanto jogador (e ainda uso, a nível amador) e também pelo facto de ser do contra em relação a essa história do azar já que, se for a ligar a isso, para mim é exactamente o inverso.

32 – Número do meu ídolo no basket e de um autocarro mítico da minha juventude.

11/15 – Para além do 13, este foram os outros números que usei quando este por algum motivo me foi negado ou não estava disponível.

42 – Por ser a resposta a tudo no Universo e por também estar ligado à minha carreira de utente de transportes públicos.

A par disso, prefiro ímpares a pares,  daí que de zero a dez me fique quase sempre pelo 3 ou pelo 7. Gosto também de combinações em duplicado, do género 22, 55, 77 e por aí em diante. Não ponho o alarme a horas certas, do género 7.30, 8.00, prefiro 7.27, 8.03 e tenho uma certa raiva a preços do género 13,99€ ou 1499,97€, apesar de saber que é o tipo de arredondamentos a que as pessoas reagem psicologicamente melhor.

Gosto da expressão tenho a cabeça feita num oito, gosto de títulos de livros e filmes que são só números, sudoku tem dias, se não desse chatices não me importava de estar metido num 31 e acho que números privados ao telemóvel são desprezíveis, mas em relação a números em privado isso são outros 500.


E posto isto, aposto que há quem tenha razões muito mais inteligentes do que eu para escolher os seus números, mas se eu fosse um gajo inteligente não estava para aqui a escrever posts para fazer número...