31.8.13

Verdes, vermelhos e piropos



Tenho amigos do Sporting e tenho amigos do Benfica. Não tenho nenhum amigo árbitro.
Já conheci uma mão cheia de jogadores da bola. Nunca conheci a mãe de nenhum deles, nem a de qualquer árbitro. No entanto, conheci uma senhora que dizia ter tomado conta do Figo, quando ele puto e veio para o Sporting.

Conheço muitas mulheres, não conheço quase nenhum trolha.

Ainda assim, arrisco a dizer que nas próximas duas horas não vai haver grande margem para piropos. A bola é mais pródiga em insultos, muitos deles indirectamente relacionados com as progenitoras dos protagonistas e emitidos por trolhas e doutores, homens, mulheres e crianças. Se há coisa que a bola preza, é a democracia ao nível do insulto, há para todos os gostos e servido em iguais doses por todas as classes e géneros.

A bola é também um espelho curioso do ser humano, do ponto de vista do espectador. Pena que normalmente não estejamos a olhar para o reflexo.

E agora, vamos lá mergulhar na selva, a uma distância segura, que o jogo vai começar.

O homem, a obra e o homem que podia ser ilustrado como a obra



O homem, vulgo Alan Moore.



A obra, vulgo Watchmen.




Cada vez que leio este comic, penso sempre que o autor bem podia ter pedido ao Dave Gibbons para também o ilustrar na realidade. Já se sabe que um gajo que escreve, mesmo que se diga mágico, nem sempre tem o melhor discernimento para cuidar da sua aparência.

30.8.13

A Ordem do Mamilo Sangrento



Desiluda-se o adepto de pornografia gore ou o maçon apostado em mudar de loja para algo mais entusiasmante, isto é uma questão desportivo-friccionante. No estaminé desta senhora, abordou-se uma questão importante para o ser masculino entusiasta dascorridas: o efeito nefasto do atrito nos mamilos quando não são tomadas as devidas precauções.

Primeiro, uma parábola: Em tempos, um amigo meu gozou quando referi esta situação e lhe aconselhei os devidos cuidados. Ele tinha passado de corridas curtas, nunca mais de 10kms, para treinos para meia maratona, isto em tempo quente. Admitiu-me apenas uma vez um ardorzinho depois de um treino mais longo, a tomar banho.

Quis o destino que fizéssemos juntos aquela que foi a sua primeira meia maratona. Tendo acabado a prova dois/três minutos antes dele, voltei um pouco atrás para o incentivar na recta da meta e lá o vi chegar. “Caramba, o homem está a suar que nem um animal...aquela tshirt azul clara está em papa..” Conforme ele se aproximou, apercebi-me de algo estranho porque aquilo não era suor, tinha uma cor mais escura – era uma mistura entre sangue e água.

Na altura desdramatizou a coisa, dizendo que tinha sentido o atrito mas não grande dor. Eu disse-lhe para esperar pelo banho. Horas mais tarde, recebi a SMS de dor mais gráfica de sempre. Nunca mais voltou a repetir a brincadeira.

Segundo, os factos à volta da Ordem do Mamilo Sangrento:

- Por experiência e relatos de outros, só a partir dos 10kms é que a coisa tende a ficar perigosa. A distância pode diminuir em caso de equipamento desajustado ou desproporcional.

- Material técnico (dry-fit, etc) ajuda mas não previne em distâncias maiores. Algodão é convite ao mau resultado. Quando o material técnico não é grande coisa, a distância para o atrito começar a fazer efeito por norma reduz.
- Inverno, em tempo de chuva, é pior que Verão. A chuva cola o equipamento ao corpo mais rapidamente e aumenta a fricção, face ao efeito do calor e do suor em épocas mais quentes.

- Pensos ou adesivos vs cremes/vaselina – Embora haja quem opte pelos primeiros com bons resultados, não me deixam muito confiante. O atrito também funciona sobre eles, podem descolar-se, etc. Há quem vá pela vaselina, é das prevenções mais standard, eu safei-me com creme Nivea (outros cremes gordos também resultam) em doses generosas e sem esfregar muito.

- Depois do dano causado, qualquer contacto com água (especialmente corrente) vai ser mais ou menos penoso. Se a coisa tiver chegado ao nível do sangue (que felizmente nunca me aconteceu), é bom evitar os banhos de praia nesse dia ou então preparar-se para sensações de regabofe ao contrário.

E não, isto não é uma raridade, muito gajo que pareça normal pode já ter pertencido a esta Ordem, embora nem sempre goste de o admitir.

Jesus e o furo jornalístico

A televisão prometeu e não desiludiu, aí está uma revelação bombástica que ninguém esperava:



Pouco depois Jorge Jesus acabou por confirmar a notícia, falando, embora este deva ser um termo entendido no sentido lato. Aguarda-se com algum entusiasmo outras possíveis descobertas como "Jesus respira" ou até mesmo "Jesus mastiga pastilha elástica de boca aberta".


Quando questionado sobre a veracidade da muito frequente alegação "Jesus te ama", o próprio revelou-se demasiado ocupado a falar, negando-se a mais do que uma revelação bombástica por peça.

O som e a (não) fúria



Seria interessante dizer que, nas últimas horas foi ao som de “Einstein on the Beach”, essa obra experimental de Philip Glass, que teclei furiosamente a história de um gato preto que dava sorte.



Mas ao Glass falta um certo toque de “suspiro ao luar, enquanto a noite dança lá fora”. Aproveitando a referência, talvez fosse bonito dizer que foi quase na penumbra, enquanto se ouvia em loop a “Suite Bergamasque” de Debussy, que nasceu um homem que se visita a si próprio num hospital.



Por outro lado, o classicismo não é algo que me assente assim tão bem, porventura faria mais sentido citar uns Dead Can Dance, recordando o álbum ao vivo “Toward the within” e em especial o tema “Rakim”, que faria sempre parte da minha banda sonora ideal para uma visita à Índia. Além disso, isso ligaria na perfeição com um conto em que uma mulher sonha em sair de uma praia sem saída.



Só que ainda não estou num patamar tão alternativo, não pondero sequer abraçar árvores, apesar de isso já me ter sido recomendado.



Deixando-me de rendilhados, a verdade é que personagens já eu cá tenho à espera, uma fila de fazer inveja a qualquer centro de emprego nos dias de hoje. Por isso, o que eu sou é um gajo de calções que esteve a falar da vida com um amigo que só quem conheça mal é que pode pensar que é “apenas” o dono de uma oficina de automóveis e não, entre outras coisas, uma das pessoas que percebe mais de comics por cá. Já o que estou a ouvir é nada mais nada menos que um grupo de gangster rappers da Samoa, a propósito de uma banda sonora de grande nível com cerca de 20 anos.





A página seguinte diz-me que ou resolvo um guião para uma cena de um trabalho ou desembrulho os problemas de um castelo de cartas em que a dama de ouros e o valete de espadas se chateiam, causando escândalo entre naipes. Creio que a solução adequada é ir dormir.



Mas não ao ritmo desta rapaziada volumosa.

29.8.13

Casais, animais e ai, ai, ais


As relações entre pessoas e as relações entre pessoas e animais não são uma e a mesma coisa. Há gente que cresceu habituada a ter animais de estimação, há gente que cresceu a sonhar ter animais e a gente que cresceu a viver bem sem animais. A decisão depende de cada um, obviamente.

Quando a história envolve a entidade múltipla conhecida como “casal”, é bom que a coisa seja bem debatida. Pessoas com andamentos diferentes nessa matéria podem gerar situações complicadas, em que quem pagará será o bicho, seja ele qual for, desde que não seja o Iran Costa.

Tenho um casal amigo em que ela queria muito ter um animal, fosse cão ou gato. Ele dizia-lhe que sim, que era uma questão a ver, mas percebia-se que a vontade era pouca e que era só um jogo de adiamento. Não chegou ao drama, mas ela percebeu que ele ainda não estava pronto para isso e adiou essa questão. Fez bem? Fez mal? Ter o animal lá em casa iria fazer mudar a opinião dele? Não sei, mas nesta fase acho que foi talvez a melhor solução, especialmente do ponto de vista do potencial animal (e não me refiro ao rapaz, que até é um tipo porreiro).

Noutro registo, que também mete animais, esta situação é deliciosa.





Tirado desta mina, que mostra trocas de mensagens surreais, a partir de anúncios.

Se pudesse, sonhava por capítulos



Sou eternamente insatisfeito em relação ao que escrevo e, quando não estou a escrever, muitas vezes estou a pensar no que podia ter escrito ou na melhor forma de escrever algo. Chego ao ponto de às vezes, mesmo antes de adormecer, tentar criar o efeito de sugestão aos meus sonhos, pensando em coisas que ando a tentar escrever, para ver se ideias e soluções surgem durante o sono.



No entanto, sou comedido naquilo que tento projectar, nunca se trata de “saca lá aí um sonho que tenha um enredo deslumbrante para um romance” ou “porreiro, porreiro era sonhar com uma série de sketches que dessem origem a um novo capítulo do humor em Portugal”. São sempre coisas de pormenor, de alavanca, de toque na engrenagem, porque não é raro estar a pensar em vários campos ao mesmo tempo, indo de projectos profissionais a pessoais e chegar ao fim do dia sem ter tido o tempo que queria para pensar em tudo o que precisava.



A verdade é eficácia desta técnica está ao nível de um mimo a bater o coro a uma ceguinha, ou seja, normalmente não se vê nada de jeito ou então fico com a vaga sensação de que algo aconteceu e eu não dei por isso.



Possivelmente, os meus sonhos também gostariam que eu escrevesse sobre eles e, nos breves momentos antes de acordar, tentam projectar em mim esse conceito. Mas é raro isso acontecer, acho até que a minha imaginação consciente é demasiado convencida e egoísta para lhes ceder protagonismo. Incluindo ao espectacular sonho que em tempos tive duas ou três vezes em que voava num carrinho de choque por cima da Avenida Infante Santo, depois de ter vindo a ganhar balanço desde a Estrela.



Sem desanimar, ontem voltei a pedir ajuda aos meus sonhos. Expus-lhe várias ideias, vários caminhos e fi-lo um pouco mais cedo, antes de me ir deitar. O mesmo processo, uma técnica diferente, que incluiu um post agendado a falar sobre isso. Assim sendo, quando lerem isto eu já terei acordado, o post já terá sido publicado e eu já saberei se desta vez os sonhos ajudaram a fazer história.



Seria uma realidade tornada um sonho que se tornou realidade. E depois ainda me queixo que não tenho tempo para pensar no que realmente interessa...


PS - Sonhei com patins em linha. Sim, continuem a gozar comigo.