31.7.13

Todos temos um amigo do bitoque


Quando se trata de convívios que envolvem refeições, isto que vou dizer é quase científico – poucas são as pessoas que não têm um amigo que torce sempre o nariz a restaurantes que não sejam de comida portuguesa e, lá chegados, em 90% das vezes escolhem o denominador universal lusitano de comida – o bitoque.



Escusado será dizer que nas vezes restantes resolvem diversificar, escolhendo um bife e pedindo ao empregado “pode trazer um ovo estrelado para acompanhar, se faz favor”.

Não tenho nada contra jogar pelo seguro em ambientes difíceis, proporcionados por restaurantes ou companhias duvidosas mas, o amigo do bitoque não está apenas a jogar pelo seguro, está a jogar como sabe. A escolha é um processo que o confunde e o arriscar põe em causa um prazer garantido ou perto disso e vai daí, utiliza o lugar comum para a substituir. Jogar pelo seguro é como uma senhora de avançada idade que eu conhecia e que quando a família queria ir jantar ao chinês lá fazia um ar resignado, antes de ir à cozinha e seguir caminho com eles. Uma vez perguntei-lhe, “Dona Maria, já não é a primeira vez que venho cá a casa e quando se fala em ir ao chinês, vai logo à cozinha. Vai benzer-se ou coisa assim?”. E ela, a rir-se, dizia-me sempre “Não filho, é para jogar pelo seguro, que eu a comida chinesa até como, mas tenho que levar um ou dois pães na mala porque lá nunca têm pão para aproveitar o molho”.

Nunca tinha pensado nisso e, explicado assim, faz todo o sentido. Não duvido que o meu amigo do bitoque também tenha uma explicação científica para a sua escolha, mas para mim é um conforto melhor, até porque não deve haver pior do que escolher um bitoque pela segurança e pelo conforto e nem isso estar alguma coisa de jeito.

Só que um bitoque, não é apenas um bitoque para quem só tem o bitoque como solução. Há toda uma ciência e questões éticas a verificar: deve ter picles ou não? batatas fritas às rodelas ou só em palito? Arroz em forma de taça ou solto? Deve-se comer o ovo logo a abrir ou só no fim? Molham-se as batatas, encharca-se o arroz ou a gema deve ser aviada com pão? E por aí em diante...

O amigo do bitoque, a ser verdadeiro, será um entendido no mesmo. Caso contrário é apenas um calão no que a ementas diz respeito.

Na esquina, entre a rua das mulheres e a dos livros




Firmino era um observador mas, dada a matéria sensível da sua observação, a discrição era algo que cultivava, pois se havia coisa que não queria era ser tomado por tarado.



Duas eram as coisas que Firmino gostava de observar mas, antes de mais, faça-se aqui uma pausa para que não se retire do seu nome a ilação de qualquer toque rural ou desdém. Um homem, independentemente dos seus gostos, não escolhe o nome com que nasce ou o tipo de humor perverso que povoa a cabeça de alguns pais na altura de dar nome ao seu filho.



Mulheres e livros, eram esses os dois focos da observação de Firmino, mas esta observação tinha as suas particularidades, pois gostava de observar a forma como os dois universos se conjugavam na rua. Para esse efeito, escolhia uma esquina movimentada, na zona central da cidade e lá ficava o dia inteiro, bem aprumado para que não o confundissem com qualquer indigente e discreto o suficiente para que não levantasse suspeitas.



Mais do que belezas cultas ou belas obras, a Firmino interessava a relação entre formas. E havia muito a dizer sobre a relação física entre mulheres e livros. Havia as que agarravam o livro com força, junto ao coração, como se este valesse mais que a carteira. Havia também as que o usavam como acessório, a peça que faltava para completar o seu look e as que optavam pelo contraste entre um visual descontraído e a preocupação de sobrepor uma capa protectora ao objecto da sua leitura. Não faltava também quem andasse e lesse ao mesmo tempo, consumida pela obra, sem tempo para grandes toilettes. Às vezes a obra escondia-se na ponta da mala ou de um saco, deixando entrever pouco mais que um decote ponderado faria, noutros casos o cigarro numa mão completava o dedo a marcar o capítulo na outra. Chegara até a ver livros que as mulheres usavam como muro através do qual espreitavam para os homens na sua companhia. Firmino poderia ter escrito um livro sobre isso se quisesse, mas nunca o fez, essencialmente por ter medo de ver uma mulher a pegar-lhe com o desprezo de um qualquer gratuito à espera do próximo encontro com um caixote do lixo.



A trágica nota final é que Firmino morreu ontem, aos 38 anos, na mesma esquina onde passava dias a fio. Foi vítima de um condutor distraído, que perdeu o controlo do carro nas curvas de uma morena de vestido curto estampado. E ironicamente assim se estampou, levando Firmino à frente, não sem que este pensasse segundos antes de seguir viagem para outras esquinas e outros lugares “Segura no livro como se estivesse a colher flores para o seu vestido”.

30.7.13

Ideia para mudar a vida de quem anda de bicicleta


Quem por aqui passa, sabe que corro mais do que ando de bicicleta, o que não significa que não a admire enquanto meio de transporte urbano. Tendo a facilidade de poder fazer o percurso casa-trabalho-casa de variadas formas, incluindo o luxo que é poder fazê-lo a pé, a minha questão com bicicletas nas avenidas mais movimentadas de Lisboa continua a ser a mesma: segurança e civismo.

Aplico essas duas variáveis tanto a ciclistas como a condutores, isto numa altura em que aumenta cada vez mais o número de gente que utiliza bicicletas, quer em dias de trabalho, quer em lazer. Há um sem número de questões logísticas e não só a melhorar, quem conduz um carro está muitas vezes longe do patamar de entendimento necessário para compreender a dinâmica da coexistência com outros veículos de locomoção e ao ciclista também falta por vezes a noção que a sua bicicleta não é uma bolha Actimel que lhe confere imunidade, direitos divinos e um conjunto de regras que só a ele se aplica. Quando te sentas numa bicicleta também estás a conduzir um veículo, já não és um peão e isso muda as regras do jogo.

Ainda assim, quando todos nos portarmos melhor prevejo um bom futuro com mais bicicletas na estrada. E ideias destas, só podiam vir da cabeça de gente que gosta muito, mas mesmo muito, de pedalar pela vida fora.


Publicidade e mamas, um episódio para corações solitários



Já se sabe que há partes da anatomia feminina que são mais exploradas em certos imaginários do que a mão de obra mexicana nos EUA. Há quem o consiga fazer com elegância, mas também há quem não se esforce com subtilezas e siga a máxima “É em grande, como se estivesse a ver a dobrar”.



No mundo interessante dos Facebook Ads, aqueles anúncios pequenitos na barra direita da vossa conta, joga-se num território curto, com uma pequena imagem e 25 caracteres de título, pouco mais no desenvolvimento e a url do site. A grande e teórica vantagem deste meio é a capacidade de segmentação. Um serviço que pague um anúncio no Facebook pode dizer que quer chegar a homens entre x e x idade, com a formação y, a morar nas cidades Z e que tenham status de relationship a,b,c ou d.



Foi assim que o be2.pt deve ter chegado até mim e chegou em força. Esta espécie de serviço de singles tem apostado na rotatividade dos anúncios, mas mantendo um par de coerências pelo caminho. A coisa tem obviamente origem fora de Portugal, é ligeiramente ridícula mas é divertido ver o esforço.









Não só as senhoras usadas têm um ar muito real e totalmente “girl next door”, desde que vivamos num aldeamento porno, como o biótipo aposta unicamente na rebarba do utilizador (e não está em causa a sua eficácia). No entanto, fica um aviso ao cidadão cego pelo choque frontal, duas delas – Maria e Rafaela, são definidas como “solteiros” e noutro anúncio também se fala em “mulheres solteiros”. Arrisca-se o cidadão incauto, cujo coração sofre apenas por ser domingo à noite e estar sozinho, a ir parar a um clube kinder surpresa, onde para além do que salta à vista, se escondem outras ferramentas para o surpreender.



Ah, a bela publicidade no Facebook, como isso me rouba tanto tempo à leitura...

29.7.13

Seitas religiosas vs Street Fighter



Desde que me mostraram este vídeo que todos os dias tento passar mais um nível de riso parvo. Eu jogava Street Fighter, mas esta sobreposição é deliciosa e é bem melhor que o jogo. Para quem não jogava o jogo, isto vai ser apenas um vídeo parvo, o que na realidade continua a não andar muito longe da verdade.


A minha genealogia de Gelados Olá


Há quem diga que em genealogia de gelados comuns, também se deve ter em conta a Camy. Para mim, gelado Camy que sobreviva ao tempo só o MaxiBon, portanto nem vou por aí. Na minha longa relação com a a Olá, descontando as variantes de restaurante, de gelados soft e porcarias pós-modernas, para mim o que conta é o que está na carta de cafés normais e quiosques.



Esta primeira imagem é de 1982 não é bem do meu campeonato, mas já tem alguns gelados míticos que eu sempre comi e alguns ódios que sobreviveram em cartazes posteriores.



Esta segunda imagem, como comprova o cabelo e o penteado da jovem deve ser de algures no meio/final dos anos 90 e tem alguns clássicos e experiências horríveis que nunca deviam ter existido.



Finalmente, esta é uma carta actual ou anda perto disso. Muita modernidade, muita escolha, mas nem sempre “muito” é sinónimo de bom. Mas vamos lá então, à minha genealogia:

Comido através dos tempos

Perna de Pau (clássico, a versão Mega mais moderna só marcha se não houver o tradicional)
Fizz (fora versão temporária de morango ou coisa parecida, que também não durou)
Cornetto Morango
Rol (já teve várias versões e o actual Magnum Caramel & Nuts para mim é um Rol e não um Magnum)

Comi mas agora é raro comer

Calippo (chupar gelo, no meu livro, tem o seu tempo)
Aqueles de gelo que não têm nome – Houve uma versão recente Abacaxi / Maracujá que despertou o meu interesse.
Epá (um clássico nostálgico, mas quando mexeram na pastilha, mataram parte da mística)
Mini Milk (tens pouco dinheiro e não queres gelo? Era a solução mas quando chegas a uma certa idade, dá-te um toque meio pedófilo)
Cornetos Fresh (Limão e Frutos Silvestres) foram descontinuados, mas o Limão está de volta e portanto está de novo no menu.
Solero – Gostava, tirando na versão pepitas manhosas, mas agora não me puxa.
Supermaxi – Foi sempre o parente pobre do Perna de Pau, a mesma coisa, sem morango.
Magnum – É muita experiência, muito marketing, os clássicos que ficam, aborrecem-me um pouco.


Não como e já disse que não como

Dedo e Pé (gelados a puxar ao fetichista que nunca me seduziram)
Cornetto Moka (café, essa não loucura para mim)
Twister e merdas em espiral que surgem periodicamente
Big Milk (cena pós-moderna, equivalente a um gajo de barba rija pedir um copo de leite num bar)
Perna de Pau em bolacha redonda (lixo e formatos semelhantes, lixo são)
Feast – Nunca houve empatia entre nós.
Super Mário (nunca me opeteceu comer operários fabris de consolas)
Palhaço – Não como gelados com conotação política.


De certeza que me estou a esquecer de coisas, mas se me surgirem acrescento. Agora vou lá abaixo tratar da saúde a um pirata e já volto.

Perguntas pós fim de semana - Análise de "brilhantismo" social


Num novo estudo da Universidade de Badmington, desta vez do departamento de Sociologia e Imbecilidade ambulante, eis uma amostra de questões-tipo que surgem frequentemente depois de um fim de semana, por parte de gente que quer ser mais engaging na utilização dos seus skills sociais com colegas:

“Então, como foi, ele já faz cócó duro?”
(infantilismo associado ou pet friending)

“Ouve lá, estiveste no bairro? É que vi um gajo todo f”#%”% caído no chão parecias mesmo tu, ainda era para dizer alguma coisa mas se fosses tu também nem ias perceber que era eu...”
(o social antisocial)

“Com que então é aquilo que andas a comer?”
(nutricionismo ou canibalismo social)

“Bem, estás branquérrima e essas olheiras, não descansaste? O fim de semana, foi bom?”
(bipolaridade inquisitiva)

“Estou que nem posso, estou pior que sexta feira, mas pronto. Queres saber como foi o meu fim de semana?”
(egocentrismo participativo)

“Tão, que tal?”
(minimalismo contributivo)

“Passei o fim de semana a pensar no trabalho x e na proposta z. A dada altura estava com os pés na piscina e ocorreu-me que tu devias estar a pensar no mesmo, não é?”
(sabujismo corporate e bullshitting aplicado)

“Sua porca não disseste nada porquê?”
(farmvilling inquisitivo)

“Fim de semana, cinco estrelas não  é verdade? Então bora lá ao que interessa.”
(abruptismo terminal com arranque)

28.7.13

Um Legend, 5 horas de sono e 24kms depois





Notas breves sobre o concerto do John Legend ontem em Oeiras:



Sou um pseudo radical pelintra, como a foto comprova, desafiando as regras do lado dos pobres.



Comprar lugares sentados num concerto dançável só se for de VIP para cima. Caso contrário, vi gente que passou dois terços do concerto de pé, a dois passos de mim, mas com menos 10 ou 15€ nos bolsos.



O Cool Jazz Fest tem uma fauna mais in e mais familiar. Ontem combinaram-se os dreads, os chiques familiares e o tipo que gosta de mostrar sentimentos à sua parceira. Ah e uns quantos que gostam de R&B moderno.



Não vou bater no ceguinho, como já fiz aqui, mas desta vez ainda vi melhor – gaja a filmar amigas de costas para o palco durante músicas inteiras – uma espécie de operadora de câmara amigucha.



O John não é produto de laboratório, safa-se bem ao vivo.



As pessoas continuam a ter azia em relação a gente com mais de 1,80m que chegou mais cedo que elas e está numa posição natural a que se chama “estar em pé a ver um concerto”.



Este pertencia ao estilo de concertos “micro-ondas”, ou seja, um tipo que estivesse à saída com uma rosa na mão e um cartaz foleiro do género “Estive à espera de ti a vida inteira” tendencialmente não iria para casa sozinho. (dramatização básica)



Já não fazia um pequeno percurso de carro com gente a mais do que a lotação legal há algum tempo. Não encolhi de forma a que fosse mais confortável, mas percebi que por volta dos trinta anos começam a aumentar as discussões sobre o facto de alguém dever ir na bagageira.



Concertos, dormir cinco horas e insistir que correr 24kms  de manhã vai ser como de costume não é bravura. É estupidez e eu estou a pagá-la em prestações.

Pés de Mak, na última vez que foram vistos, depois do concerto a conviver com uma lata de refrigerante da linha de Cascais, O último relatório informa que foram vistos em formato carcaça ardente, insultando o seu proprietário hoje de manhã junto ao vale do Jamor. Paz à sua alma.