30.6.13

Sonho de uma tarde de Verão



Há algo no dia a seguir a uma corrida que deixa tudo ligeiramente em slow motion. O calor transforma-se na cereja no topo do bolo da preguiça.



O derradeiro esforço é arrastar a carcaça até ao local certo.

O almoço fica para trás.

O gelado depois do almoço fica para trás.

E naquele pátio, a brisa que corre faz com que feches os olhos.

Sentado na cadeira, sentes que a conversa fica lá ao fundo.

De repente, sentes o cão da casa a tocar-te na mão.

Ele quer que atires a bola.

Tentas fazê-lo o mais longe que possível, para o fundo do jardim.

Esqueces-te da piscina.

Vês o cão lançar-se em corrida e travar mesmo junto à beira.

Sorris, vais fazer tu a vez do cão.

Tiras a camisa, corres em direcção à piscina.

Lanças-te em mergulho, antecipando a frescura do mergulho.



Percebes que toda a gente está a gritar.

A piscina ainda não foi limpa para o Verão.



Os limos sorriem para ti. Muitos organismos vivos acolhem-te de braços abertos.



Entras de cabeça.

Acordas com o cão a tocar-te na mão.

29.6.13

O menino a correr à volta da fogueira



Para quem quiser saber onde é que vai ser a volta hoje à noite, lá para as 21.30, desde já fica uma pista: não passa por nenhum concerto do Paulo de Carvalho.

E porque não é um plano que mereça grande suspense, ficam até com um mapa detalhado.



Foi o ano passado que tive a oportunidade de fazer esta prova pela primeira vez e, dentro daquilo que pode parecer maluquice de quem corre, posso dizer que foi uma bela experiência. Correr de noite, numa terra que se “junta” à volta desta prova, com o toque cinco estrelas das fogueiras e o espírito de quem lá vai não só para galgar 15kms à bruta, mas também para conviver.

Portanto, este ano repete-se a dose e, apesar da expressão “amigos de Peniche” não ser das mais favoráveis, vou passar-lhe um pano por cima e levar daqui uns quantos e encontrar outros tantos por lá.

Não será para muitos uma loucura de programa, mas encaixa-se bem numa espécie de programa de loucura.

28.6.13

Banda sonora com pés e cabeça


Quando corro nem sempre oiço música, o que é justo, porque quando oiço música nem sempre corro. Embora três em cada quatro vezes corra sozinho, em muitos casos nem gosto de levar headphones. Seja para me ouvir a pensar ou simplesmente para ouvir a cidade à minha volta, prefiro assim e quando corro acompanhado, aí a questão da música nem se põe.

No entanto, tenho sempre duas playlists preparadas – uma delas construída ao pormenor para um máximo de quatro horas, com picos de energia, os clássicos, mais relax quando é preciso, o rtimo adequado para um maior desgaste, etc. Na outra, vou à descoberta, e carrego com o que não conheço e com o que me sugerem, deixando que a coisa role. Em correndo muito bem, ganham um lugar na primeira playlist.

Foi assim que esta faixa lá chegou há algum tempo. Antes mesmo de saber que era um projecto português. Tem o ritmo certo para funcionar como mantra, tanto para quem corre, como para quem se habilite a dois dias de regabofe já de seguida.


Os tempos de plantar uma árvore, escrever um livro e ter um filho já eram?


Cresci a ouvir que, numa perspectiva generalista, cumprindo estes princípios trazíamos uma sensação de dever cumprido à nossa vida. A questão que se põe é: com tanta coisa e tantos valores em mudança, isto ainda faz sentido assim ou é tempo de alterar alguma coisa?

Fazendo de advogado do Diabo (como se não fossem todos):

Plantar uma árvore – Consciência ambiental é uma cena trendy. O problema é que é algo que também é muito fácil de fingir e se eu recebesse 1 Euro por cada empresa que já lançou acções do género “Vamos plantar árvores”, já tinha dinheiro para lançar uma empresa cuja única função era plantar árvores para outras empresas. O problema, tanto a nível empresarial como pessoal é que rapidamente isto se pode tornar uma cena inconsequente, se as nossas políticas/métodos em relação ao ambiente não forem coerentes com esta atitude.
Nas empresas mais avançadas a este nível, o green thinking já é substituído por algo estilo blue thinking, que implica o repensar de procedimentos a um nível geral, em vez de acções de charme ambiental. E se eu me sentir mais realizado por separar todos os resíduos em casa, em vez de plantar uma árvore, pode ser menos lírico, mas tornar-se mais útil.

Escrever um livro – É uma cena intelectual. Antigamente, os meios de produção eram escassos, tal como ter um curso universitário era raro na população portuguesa de há 50 anos. Hoje, de uma forma ou de outra, da mesma maneira que uma crescente maioria da população já tem formação superior, todos nós somos produtores de conteúdos. E entre edições de autor, blogs, receitas, experiência de vida, experiências espirituais e, ocasionalmente, boas histórias, qualquer um pode publicar um livro. Creio que a ideia de escrever um livro, como era formulada nos três princípios, não tinha a ver com sucesso comercial, mas sim deixar registada uma história que se queira contar e com a qual quiséssemos tocar os outros.

E, embora exista uma barreira invisível entre o mundo intelectual dos “escritores a sério” e esta realidade que menciono de qualquer um poder publicar um livro, nesta realidade a duas velocidades o ponto que eu deixo é: será que o livro ainda é o formato certo para exprimir esta realização ou “ter uma boa história para contar” serviria melhor a nossa realização?

Ter um filho – Aqui é complicado, porque ter um filho mexe com sentimentos profundos. Só que, por vezes, a ideia de ter um filho “cega” os pais em termos da realidade do que é ter um filho, que obviamente vai muito para além do acto físico. Cada vez mais os colégios e afins, os psicólogos e um conjunto de factores que trazemos para a equação “substituem” os pais na tarefa da educação e ajuda na superação de obstáculos que os filhos naturalmente enfrentam ao crescerem. E, na realidade de hoje, os pais lutam também cada vez mais com o factor tempo, devido à exigente multidimensionalidade da vida actual, que nos obriga a ser exímios na arte de conjugar tudo aquilo para que gostávamos de ter tempo com tudo aquilo que temos obrigatoriamente de ter tempo.

E eu, que não o tenho, acredito que “ter um filho” hoje, não é a mesma coisa que ter um filho há 30/40 anos. Não tendo certezas acho que, a reformular este princípio, não tirando o filho da equação (mas não sentindo que é um obrigatoriedade para uma vida que nos preenche e achando que é muito perigoso o lado inverso, ter um filho para ajudar a preencher vazios), passará talvez por “ter sempre tempo para o teu filho” ou, misturar princípios como “fazer da tua ligação com o teu filho algo tão forte como uma árvore e uma boa história para contar num livro”.


Gostava de saber se há quem mantenha estes princípios como algo idílico e inalterável ou se ajustavam alguma coisa no vosso tridente de realização.

27.6.13

A boa publicidade somos nós

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Quando bem feita, a publicidade é o acto de contar uma história com um propósito que vai para além da história em si. O problema é que aos nossos olhos chegam todos os dias versões pobres da publicidade, em que o propósito perdeu a história e ficou ali sozinho, a atirar-nos areia para os olhos.



Seja um propósito comercial, institucional ou social, se nos esquecemos de contar a história, é como contar o enredo de um filme ou de um livro sem qualquer emoção ou envolvência. E mesmo um bom livro, se for descrito da pior maneira, tem mais dificuldade em atrair leitores.



Acredito que a boa publicidade somos nós porque ela reflecte aquilo que somos, virtudes e defeitos, mas através de uma boa história contada de uma forma que a maior parte das pessoas  não é capaz de contar. E para o fazer não são precisos meios extraordinários, técnicas avançadas de cinema ou celebridades. Basta usar o poder de surpreender as pessoas, mostrando-lhes como são todos os dias, de uma forma única.



Todos estes filmes foram premiados no Festival de Publicidade de Cannes.

As razões porque te desaparecem os amigos


Em mais um estudo levado a cabo pelo departamento de Especulação Avançada da Universidade de Badmington, a que tenho a honra de presidir, eis um excerto do top5 de razões que levam ao desaparecimento de amigos (que é algo diferente das razões porque cortamos com alguns amigos):


Mudança de habitação para um sítio que, segundo eles, fica a 15-20 minutos do centro da cidade onde moras. O mais certo é passares a vê-los com a regularidade de eclipses lunares e, se tentares ir ter com eles, ou te dão um complexo croquis ou é qualquer coisa do género “Depois quando chegares ao lugar Y, esperas por mim e eu vou lá buscar-te. É mais fácil assim…”. Basicamente, entram no registo em que é preciso tirar férias para os encontrar.

Têm um filho – Aqui o grau varia e pode ir desde o desaparecimento parcial, em que passas a revê-los em sistema speed-friend-dating ou ao clássico “Temos de combinar um jantar sem os miúdos”, em que depois 97% da conversa ao jantar é sobre….miúdos. Nos casos mais graves é o chamado identity hijacking, em que a criança toma conta da conta das redes sociais do pai/mãe, lhes controla as chamadas, os emails e, mais importante, o cérebro. E depois há o problema de não negociarmos com terroristas, mesmo que sejam pequenitos e fofinhos.

Entraram na máquina do tempo sentimental – Antigamente, isto era conhecido como a “crise da meia idade”, só que qualquer idade passou a ser válida, porque em muitos casos, há sempre tempo para não perceber nada do tempo que passamos a ter sentimentos. Seja porque se separaram, saíram de uma relação, entraram numa relação, estão na porta rotativa das relações ou descobriram uma nova utilização para a palavra “relações”, por mais que tentes nunca os consegues encontrar ou sincronizar o vosso tempo.

Converteram-se religiosamente a uma qualquer actividade com a qual tens zero de afinidade ou perto disso Seja zumba, danças de salão, spinning, running, kick boxing, trekking, downhill, yoga, boardgaming, life coaching ou o diabo a quatro, ou entras no clube ou nunca mais os vês. Porque boa parte dessas coisas são viciantes, dizem eles. Só não desaparecem se forem do tipo evangelista e, nesse caso, sempre que estiveres com eles vão tentar converter-te ao que praticam. E, nesse caso, vais ser tu a desejar que desapareçam.

Eram conhecidos e não amigos – E isto é toda uma teoria à parte que faz parte da doutrina que distingue amigos de conhecidos. Neste caso, conhecidos são pessoas com quem partilhas um espaço físico (universidade, bairro, local de trabalho) e com as quais te dás bem. Quando sais/mudas desse espaço físico, só uma pequena % de relações sobrevive a essa distância – os teus amigos. O resto, são relações porreiras, mas circunstanciais.

Nota: Tentei meter uma imagem com ursinhos, mas não ia parar de chorar se o fizesse.

26.6.13

A (concha)nata da provocação tolânica

Diz-me o Tolan no seu interessante estudo de frangalidade e afins, que a espera na Conchanata, esse estabelecimento dedicado à nobre arte da gelataria, pode oscilar entre 30 a mais minutos. Ora eu, que circulo na zona e sou um tipo dado a desafios que envolvam o esforço heróico de enfardar bolas de gelado, resolvi testar-me numa noite de calor em que é possível suar do bigode sem esforço.

Eis os resultados:



Qualidade da fotografia: -0,28 (o instagram é demasiado mainstream e a gula impediu que a conchanata resistisse na sua forma completa)
Qualidade do gelado: Deveras aprazível, a novidade doce de leite com amendoim surpreende pela positiva (o kiwi, ácido é um bom contraste para quem goste de quebrar sabores como a nata)

Tempo de espera: inferior a seis minutos (poderia ter sido ainda mais reduzido, mas há sempre gente que gosta de perguntar se seis ou sete sabores são bons, mas depois escolhem sempre os mesmos)


Onde está o truque da espera reduzida?

No horário de chegada, cerca das 20.53, quando o grosso da maralha ainda janta. Dez minutos mais tarde, já saciados do seu jantar, hordas de cidadãos sedentos de gelados já formavam uma dessas filas de meia hora. E eu ria-me, com pedacinhos de amendoim e restos de kiwi nos dentes.

Shut up ova


Esqueçamos por um instante que o ténis é um desporto de elites e que estamos a celebrar o feito de alguém que tem "De Brito" no nome (nota mental: Fernando Mendes, o homem que sobrevive miraculosamente sem pescoço no Preço Certo já teve uma série em que era um novo rico que ia pelo nome de "De Nunes"). Afinal de contas, foi uma das bandeiras da Nike, nº3 mundial e mulher que tem tanto de pernas como Michelle de altura, que foi à vida.

O que o povo gosta mesmo é de ver pequenos Davids portugueses a aviar Golias, nem que esta seja uma glória efémera. Hoje terá honras de Telejornal, amanhã até os jornais desportivos (em que o conceito de desportivo é 85% futebol) guardarão um oitavo de página na capa para fazer menção ao feito. Depois de amanhã, não renovando o sucesso, terá que esperar novo feito davidesco.

Na verdade, se cair na próxima ronda, os entusiastas de hoje serão os fadistas de amanhã, cantando o fado do português que, mais do que ser grande, tinha tudo para o ser e caiu pelo caminho. Se for avançando, maior será o entusiasmo ou o fado aquando da sua queda (que espero não estar para breve).

Somos muito bons a subir à rede quando as coisas correm bem, mas somos óptimos no smash quando a coisa vem por ali abaixo.

Antes perder uma piada que o juízo


No original a expressão não é assim, mas esta notícia que vi no Expresso torna-a mais plausível. Eu sei que o fait divers é coisa para encher chouriços e um ladrão que entra numa casa na Nova Zelândia e depara com o dono da mesma enforcado não é propriamente um furo jornalístico.


 

O meu problema começa com a foto. 

Primeiro o banco de imagem deve ter respondido à pesquisa “Assalto+cliché+pé de cabra” mas, pior do que isso, no meio do tédio alguém não resistiu a uma legenda plena de humor duvidoso. E eu não sei se ache piada ou se pense que está tudo maluco e eu a ver da primeira fila.

25.6.13

Operadores de telemarketing, tende medo


O lado racional do meu cérebro já várias vezes me tentou explicar a razão da existência do telemarketing. Diz-me ele que é ainda “uma ferramenta de marketing que funciona em determinadas franjas da população” que, para as empresas “é um meio pouco dispendioso de colocar em prática tácticas comerciais mais agressivas” e que, para quem lá trabalha “é muitas vezes a única solução disponível para poder ganhar uns cobres”.

O lado emocional responde com desejos de morte violenta, baseados na incompreensão de quem já tentou simplesmente dizer “Não obrigado” e não conseguiu desligar, preso entre a tentativa de ser educado e a irritação de estratégias que tentam fazer da pressão uma ferramenta de conversão  e a consequente rejeição quase automática de todo e qualquer número não identificado.

É por isso que estou cada vez mais perto de desenvolver um esquema parecido com o deste senhor e fazer justiça pela minha própria criatividade.


Os meus três encontros com a polícia



Quando se querem contar histórias e impressionar pessoas, mesmo que sejamos do mais honesto e cumpridor de leis que existe, há sempre a tendência para puxar por uma mistura entre o nosso lado mais rebelde e aquilo a que se chama efabulação.

O meu problema é que, apesar de todo um background mitra, os meus encontros directos com forças da autoridade são mínimos, mais precisamente três.



Round One – O Mak de 14 anos acreditava que andar ocasionalmente na “penda” dos eléctricos acentuava a sua irreverência. Depois de quase ter aterrado com os queixos no asfalto em Algés mais tarde, no regresso, salta sabiamente antes do eléctrico cruzar a esquadra de Belém. Ele e o seu amiguinho não reparam é que está um polícia do lado oposto à esquadra. “Então, não sabem comprar bilhete é?”. Mak, sempre disposto a galhofar responde “Sabemos, mas já não íamos a tempo de entrar e aquilo não tem máquina do lado de fora” e o polícia diz-lhe para estar caladinho se não quer que ele lhe arranque o brinquinho à chapada. Mak percebe que o humor não está em alta por aquelas bandas. O bófia volta à carga “E os palhacinho são de onde?” e, perante a resposta “Da Ajuda”, torce o nariz e diz “Ainda por cima...Vamos lá então ficar com os números de telefone dos vossos pais”. Na dúvida sobre se aquilo é só número para assustar ou realidade, Mak revela os seus primeiros instintos corredores e, tal como o seu amigo, aproveita os segundos em que o polícia vai sacar do bloco, para zarpar a correr Calçada da Ajuda acima. Reza a lenda que só parei perto do Palácio da Ajuda, muito acima do que era necessário.

Round Two – Mak vai a concerto de música da pesada. Destacamento policial foi mal pensado porque, apesar de querer revistar toda a gente à entrada, estão demasiadas mulheres polícia presentes, para a proporção para aí de 80% homens – 20% mulheres que vão ao concerto. Depois de verem as filas a aumentarem, finalmente resolvem acabar com a política mulher só revista mulher e passam a ter mulheres a revistar marmanjos. Mak está prestes a ser revistado por um homem, quando sente uma mão no ombro e uma simpática agente, com uma largura de ombros comparável à sua, o convoca para ser ela a revistá-lo. Tudo a correr normalmente quando, do nada, Mak sente duas “simpáticas” pancadinhas estilo Moliére nas suas partes íntimas. “Não levas nada anormal aí pois não?”, diz com ligeiro sorriso, enquanto Mak pensa nas implicações de responder “Anormal, os tomates”. Sabiamente e felizmente não dorido, Mak segue para o concerto e espera não haver encore à saída.

Round Three – Mak vai ao Sudoeste 2012 mas acha-se com mais classe do que a maralha que lá fica a acampar. Fica num spot maravilha a vinte minutos de carro. Mak sabe que a GNR gosta de encher os cofres à conta de festivaleiros mais entusiastas do álcool do que da música. Mas Mak é já veterano nestas andanças e garante que há sempre um condutor 100% cool na viatura e, como 100% cool é praticamente uma descrição da sua pessoa, é Mak que vai ao volante quando, pela primeira vez na sua vida, é parado numa operação stop. Guarda bojudo manda-me sair do carro. Pergunta se bebi alguma coisa, ao que eu respondo “De jeito, não” e mostra que é totalmente alheio a boa música, não me perguntando pelo desempenho dos The Roots. “Vamos lá soprar aqui no balãozinho” é o convite que me faz, juntando um seco “Sabe como se faz?”. Mais uma vez, não resisto e acrescento “Já vi uma vez na Internet, acho que me safo...”, antes de fazer o que me pede. Enquanto se aguarda o resultado, pergunto “Então, o que é que deu?” e ele, com o entusiasmo de um comatoso vira o marcador e confirma “Zero”, ao que eu respondo jovialmente “É sempre o mesmo, já no Euromilhões fico sempre a zeros”. GNR sorri, mas para dentro e manda Mak seguir viagem, enquanto se dirige afoito para carro com quatro gajas a cantar Ting Tings. Pode ser que lhes ache mais piada.


PS – No entanto, em ficção, já estive preso na cela de uma esquadra, com outros perigosos detidos. A série era portuguesa e aquilo correu tão bem que o realizador nos pediu para sermos menos autênticos. Mas isso, fica para outras efabulações.

24.6.13

Ainda acredito na caixa do correio - Posts à pressão #7

Cheguei ainda há pouco a casa e dou por mim com seis cartas na mão. É um ritual, abrir a porta da rua, abrir a caixa do correio e subir as escadas. O problema é que as seis cartas não têm como destinatário pessoas, mas sim clientes, associados, subscritores e entidades que partilham o corpo comigo (bonita e dúbia expressão). No entanto, continuo a abrir a caixa do correio como quem abre um embrulho de um presente que não sabe de antemão o que é. De vez em quando, lá encontro algo que é pessoal, que não ficou nas caixas de comentários, nos emails e nos posts que constituem a mantinha social que usamos para aquecer as nossas relações. E lá continuo eu a abrir religiosamente a caixa do correio.

Ir a pé do trabalho para casa é a alegria de uma minoria - Posts à pressão #6


Sou português, gosto de me queixar. Às vezes faço-o quando saio do trabalho e me dá para ir a pé para casa, uma viagem que nem chega a meia hora em linha recta. Mas depois apercebo-me da sorte que é poder fazer isso quando quero. Que há gente que demora o dobro ou o triplo para chegar a casa de carro ou de transportes e vê fatias de tempo da sua vida a serem cortadas à bruta. Que há outros tantos que não percebem que andar a pé na cidade em que vives no teu quotidiano, quando tal é por opção, é uma mais valia não declarada em IRS. Só que acabo de escrever IRS e isso faz-me lembrar outra vez que sou português, que está um calor desgraçado e que ando a ler um livro de 1200 páginas. Vou então preparar-me para ir a pé para casa e já tenho com que me entreter para resmungar pelo caminho.

Acabo de referir num chat a série da RTP “Os Andrades” Posts à pressão – #5


Calhou agora mesmo em conversa. Eu devia ser um puto, mas lembro-me de ser uma série que dava para aí no horário em que as pessoas que faziam alguma coisa pela vida não estavam em casa. O mais engraçado nessa série, era que o que tinha piada não era eles a tentarem ter piada, mas sim a piada que tinha eles não terem piada nenhuma. Sim, é confuso, mas na verdade também há gente assim. E levam só com o genérico, porque eu sou amigo.




A estupidez que é ter medo de ficar sem memória - Posts à pressão – #4


Se há coisa que eu faço melhor que estender a roupa é lembrar-me de cenas. Não se tratam de cenas aleatórias, mas a precisão de ter um banco de memória de grande nível (deve ter ficado também com o espaço cerebral reservado à modéstia). Até há algum tempo sofria bastante a pensar que um dia podia ficar sem memória. Percebi depois que, se ficar sem memória, não me vou lembrar disso e que nem sequer me vou lembrar de me dar um carolo com força por estar estupidamente a sofrer por antecipação. Por outro lado, vou poder passar a comer gelados todos os dias sem ter qualquer sensação de culpa.