27.3.13

A batalha da marmita


Plim, fez o microondas e em toda a copa fez-se silêncio, algo que era raro à hora do almoço. Por entre as fileiras do exército da marmita, das rainhas do gourmet aos mestres do desenrasca, sem esquecer os snipers dos restos, todas as atenções se centraram na zona do microondas.

Por detrás de uns panados com esparguete ainda fumegantes, lá estava ele. Depois de dias, meses e anos a fazer todas as piadas possíveis com marmitas, de almoços regados (dizia ele) com bons vinhos onde a sobremesa era um aliado indispensável e a teoria de que “cantina é coisa de fábrica”, aquele simples e singelo plim anunciava a sua derrota.
Fechou a porta do microondas vagarosamente, suspirando antes de se voltar para enfrentar o olhar do exército. Alguns sorrisos irónicos, um ou outro talher a bater no prato, mas ninguém lhe disse nada.

Sentou-se no meio de uma conversa sobre bebés, que continuam a crescer tão depressa e uma dica para tornar o polvo à lagareiro mais tenrinho.

Mesmo depois de aquecida no microondas, a vingança continua a servir-se fria.

25.3.13

Sócio, orienta aí dois instagramas de vida


Não seria uma segunda feira normal se depois de uma meia maratona não aparecesse aqui do nada o maluquinho das corridas a dizer que, novidade das novidades, tinha ido correr. No entanto, bastam duas horas de convívio forçado com os restantes 36999 que lá foram para perceber que correr 21kms à bruta está longe de ser o indício mais grave de loucura que por lá se vê.

Neste momento vivemos a febre de não bastar viver uma coisa para esta parecer real, pelos vistos também se tem que fotografar e partilhar instantaneamente o que quer que seja, para que outros possam ter a noção da nossa realidade.

É certo que isto já dura há algum tempo mas a loucura está a atingir novos patamares. Depois de um viagem de comboio entre Roma/Areeiro e o Pragal, em que ao nível do fascínio, a vista só tinha concorrência no facto de haver gente que já consegue cheirar a sovaco antes de correr há sempre uma procissão pelo meio de um mar de gente entre a estação e linha de partida, onde não falta a tradicional banda filarmónica e a oferta de brindes que alcança sempre o estatuto de divertimento de coliseu romano.

No entanto, o grande factor surpresa tinha que ver com o número alarmante de gente que esticava os bracinhos com os seus telemóveis, ainda na apinhada estação do comboio, para tirar a sua foto, colocar o seu filtro moderno e partilhar uma foto de uma porrada de gente vestida de lycra numa estação de comboios com frases inspiradoras como “Falta pouco...”, “Ena, somos tantos” ou “Lolol, mega hora de ponta”. Não sei como é que ninguém não levou um prato para colocar a sua barra de cereais e fotografá-la antes de a comer dois minutos antes da partida, só para dar um toque gourmet e social ao seu reforço energético.

E nem vou comentar fotos de gente à frente de WC portáteis. O valor do conteúdo das mesmas equivale ao conteúdo dos mesmos.

Eu sei, estamos a caminhar para a loucura, por isso é que corro para chegar lá mais depressa e deixar de me importar com isso. E assim sendo, 21kms são só um passeio.

15.3.13

Crónica do periodo jurássico da culinária lusa


Dou por mim a decorar pequenos “palitos” de manga com um fio de chocolate negro derretido, fazendo uma espécie de roda de bicicleta em prato largo. Detenho-me por segundos e penso se não terei sido vítima do vírus “Ah eu sempre tive algo de chef super gourmet e agora posso brilhar” e, ao olhar para o avental que tenho posto, a resposta não se afigura fácil. Cuspo para a manga só para me passarem essas ideias parvas e continuo, uma vez que não tenho tempo.


Recuando um pouco no tempo, quando andava na faculdade ainda não havia a febre da culinária gourmet. Bem, se virmos as coisas com detalhe, no escalão etário masculino 18-22 haver culinária por norma já é bom. Eis o que um amigo meu nessa altura me descreveu como o jantar caseiro que preparou para uma jovem que tentava impressionar:

Entrada: Melão com presunto
Prato: Salsichas recheadas em cama de couve
Sobremesa: Mousse surpresa

Eis o que ela (que eu também conhecia) me confidenciou ter sido o jantar:

Entrada: Em vez de cortar o melão em cubos, juntar-lhe um pedacinho de bacon por cima e espetar-lhe um palito, a loucura imperou. O jovem cortou talhadas de melão, deu-lhes uns cortes pelo meio e cravou lá nacos de presunto. A experiência a tentar comer aquilo deve ter sido do género daqueles concursos em que se veem gajos a malhar em maçarocas de milho como se fossem debulhadoras.

Prato: Conceito real das salsichas recheadas – uma espécie de salsichas enlatadas, com um corte no meio e uma fatia de queijo daquele plastificado enrolada à volta antes de levar um toque genuíno de microondas. A cama de couve....bem, a cama de couve era basicamente uma folha de couve cozida, uma espécie de barco na qual uma salsicha com uma peruca loira navegava.

Mas, a grande surpresa estava guardada para a mousse...surpresa.
Partindo do conceito de uma mousse em pó, em que basta seguir as indicações no pacote, o jovem achou que seria interessante dar-lhe uma certa finesse, finesse essa que se revelou na forma de uma caneca de brandy, transformando a mousse surpresa no delírio de qualquer alcoólico diabético. É a chamada sobremesa-digestivo-espera lá que já nem é preciso irmos a um bar a seguir. (nota: mais tarde, o artista tentou lançar-se na arte dos shots, criando uma mixórdia que envolvia desta vez brandy e Nesquik)

Não correu bem, será escusado referir, mas continuo a dizer que a apresentação conta sem cair no excesso de um prato de comida tão refinado que a construção lá dentro tem o tamanho de um playmobil. A minha única vergonha é não conseguir passar a apresentação do prato para os posts e continuar a servir este tipo de conteúdos, que nem com um bocado de presunto ou uma fatia de queijo enrolada conseguem passar por gourmet.

14.3.13

Flash Interview com Jorge Mário


(Junto à Capela Sistina alguns cardeais trocam cumprimentos, outros trocam até peças de roupa, observamos um placard publicitário com alguns dos principais patrocinadores do Vaticano. Repórter aguarda Jorge Mário que, já com cãibras de tanto se benzer, se limpa a uma toalha branca que se confunde com o seu novo equipamento. Apesar do cansaço, revela-se disponível.)

“Jorge Mário, grande reviravolta, esperava este resultado?”
“Jorge Mário é um servo de Deus e, como tal, vindo de uma entidade que tanto cria o mundo em sete dias como nos faz aturar as televendas durante tantos anos, temos que estar preparados para tudo”.
“Já escolheu nome de guerra Jorge Mário?”
“Trate-me por Francisco, mas olha que isto não é uma daquelas cenas de forcado, tem que ver com cenas mais espirituais.”
“Muito bem Francisco e esta mudança tem que ver também com a sua posição de missionário?”
“Não, não, isto foi só das votações, no conclave as coisas não se decidem assim de forma tão liberal...”
“Sendo argentino, é inevitável não falarmos da mão de Deus...”
“Pois, calculava, mas essa já o Maradona usou, por isso vamos supor que no meu caso foi utilizada outra parte do corpo...”
“Quer arriscar alguma hipótese Francisco?”
“Talvez o baço...”
“O braço de Deus? Uma hipótese com força portanto...”
“Não, não, eu disse o baço, que é uma cena que se pode retirar e não faz falta, mas que se pode conservar num frasco e ainda impressiona bastante. “
“Ah...certo. Só mais uma pergunta Francisco, o que acha que esteve na origem de uma decisão tão rápida que levou à sua escolha?”
“Bem, são apenas conjecturas, mas o facto da Tasca do Xico, ali na segunda à direita de quem sai do Vaticano, à quinta servir arroz de tamboril com gamberetti ao almoço pode ter apressado a coisa. Na nossa idade, canapés já não dão aquele conforto e alguns cardeais já se estavam a queixar que o arroz de miúdos de frango tinha muito frango e poucos miúdos....Ah, ah, brincadeira mas Xico, se me estás a ouvir, com este patrocínio nunca mais me cobras um euro...”
“Pensei que tinha escolhido o nome por razões espirituais”
“Claro, é que à sexta na tasca do Xico a especialidade é bacalhau espiritual e...”
“Bem, ficamos por aqui, com as primeiras palavras de Papa Francisco, ex-Jorge Mário”
“Só mais uma coisa...”
“Sim, diga.”
“Devido à intransigência do cardeal de Milão infelizmente tenho de anunciar que não vamos proceder de imediato à beatificação de Messi mas, a título honorário, vamos considerar todos os seus golos na Champions um milagre.”
“Então e Cristiano Ronaldo?”
“Esse só quando renegar ao diabo...”
“Refere-se portanto aquela russa que o desencaminha nas horas vagas...”
“Não, não, essa é divinal, estou a falar da mãe e das irmãs, aquilo é com cada gárgula...”

(corte de emissão, com os melhores momentos de Jorge Mário em missas do apuramento para o conclave)

13.3.13

Linha de apoio ao personagem


(telefone toca)
(uma voz feminina, ligeiramente metalizada mas a tentar passar um tom cordial, começa a debitar um discurso mecanizado)

“Bem vindo à linha de apoio ao personagem. Por favor, siga uma das seguintes opçôes:

Para problemas de personagens principais, prima 1
Para problemas de personagens secundárias, prima 2
Caso seja um autor à procura de personagens perdidas, prima 3
Caso seja um personagem no desemprego à procura de obra, prima 4
Caso seja um personagem inspirado em factos reais que afinal eram mentira, prima 5
Para resolver problemas de personagens com personalidade múltipla, prima duas teclas ao mesmo tempo.
Para apresentar queixa por abusos de autor, prima 7
Para saber mais sobre carreiras na vida real, prima 8
Caso seja uma personagem pornográfica, por favor desligue e ligue para a nossa linha de valor acrescentado.

Se preferir um atendimento personalizado, por favor aguarde sem premir nenhuma tecla”

(pequeno compasso de espera, a ouvir uma mistura entre as Quatro Estações de Vivaldi e o tecno que faz furor em qualquer pista de carrinhos de choque em Macedo de Cavaleiros)

“ Linha de Atendimento ao Personagem, bom dia. O meu nome é Pé de Laranja Lima, como posso ajudar?”
A voz era amistosa, demasiado amistosa, como é tradição em qualquer call center em que se defende que quanto amistoso, mais eficiente. “Bem, eu sou um personagem e preciso de ajuda, mas creio que não me enquadro nas opções anteriores. É que eu costumo aparecer nos posts de um blog de um gajo, mas ele ultimamente...”
“Peço desculpa por interromper” novamente o mel a escorrer da voz “Mas tenho o prazer de estar a falar com...”
“Ah, precisa do meu nome é?”, triste o mundo em que até as personagens são vítimas de burocracia “É apenas um procedimento formal...”, “Ok...chamo-me...deixe lá ver...chamo-me Anónimo da Silva, pode ser?”, pequena pausa “Claro que sim, Sr. Anónimo da Silva”.

“Bem, eu estou a ligar porque eu era suposto aparecer num post de um blog há dias, mas o gajo não há maneira de dar andamento às coisas, aquilo está parado. É que, pelo meio, já perdi trabalho em duas sátiras online sobre o Conclave, num post semi-erótico num daqueles blogs de gajas marotas e tinha aí uma oferta para fazer figura num sketch e, pelo andamento, arrisco-me a ficar a arder em todo o lado...”
“Compreendo Sr. Anónimo da Silva mas permita-me a questão – O seu seguro de personagem cobre danos em blogs? Isto é, dentro da sua cobertura, os itens “Preguiça de Autor”, “Bloqueio Criativo” ou “Dilemas de Escrita” também são extensíveis ao campo virtual?”
O personagem irrita-se, “Oiça lá, eu sou um personagem, como quer que saiba isso, deram-me um cartão, que tinha este número para ligar quando tivesse problemas e foi o que eu fiz. Sei lá o que cobre e o que não cobre”.
“Muito bem Sr. Anónimo da Silva mas, como deverá compreender, os direitos de um personagem estão limitados à cobertura do seu seguro ou à sanidade do seu autor...”, o personagem tenta lembrar-se se tem tendências homicidas “E isso quer dizer o quê, exactamente, em linguagem corrente que um personagem simples possa perceber?”
“Bem Sr. Anónimo da Silva, quer dizer que, basicamente, está fodido. Pelo menos enquanto o post com que se comprometeu não for publicado”. Silêncio do outro lado.
“Então e vocês servem para quê afinal?”, nova avalanche de mel auditivo “Sr. Anónimo da Silva, para além de apoio continuado a personagens que, em linguagem técnica, não valem um flato e ligam por tudo e por nada, resolvemos situações sem que elas deem por isso, enquanto ouvimos barbaridades”. O personagem, temendo ser tomado por burro, repete em voz mais baixa “E isso quer ao certo dizer o quê, que eu ainda não consegui perceber bem?”.
Suspiro metalizado “Quer dizer que se calhar devia ir visitar o tal blog Sr. Anónimo da Silva”.

E ele foi.

7.3.13

Por entre a calma do caos matinal


Sentados lado a lado na plataforma do Metro ela, perto dos cinquenta, cuidada mas hoje com menos aprumo do que possivelmente desejaria e mais azedume do que conseguia conter, soltou um rugido contrariado:

“Fizeste-me levantar mais cedo não sei para quê...Com esta merda de transportes públicos vou chegar à mesma atrasada ao trabalho”.

Ele, cabelo grisalho, óculos discretos, lendo calmamente o jornal da manhã, responde-lhe com um olhar benevolente de quem, livre do carro e do trânsito, tem agora mais calma e paciência para lidar com engarrafamentos emocionais.

O Metro chega, indiferente aos insultos, e esta história dilui-se pelo meio de outros tantos atrasos e desabafos matinais.

Quando o Papão cantava assim

As crianças cantam melhor. Sandman, tu davas-lhe bem.

 

4.3.13

Desapareceu de sua casa vs Mudou de casa e desapareceu



Creio que em tempos li qualquer coisa do Miguel Esteves Cardoso que abordava esta temática mas, tal como o amor, a memória às vezes também é f”$&da. No entanto, primeiro que tudo, quero dizer que tenho alguma saudade mórbida dos avisos que a PJ fazia na televisão, em que nos alertava para o cidadão A ou B que tinham desaparecido de sua casa, muitas vezes munidos apenas de um roupão e perturbações mentais.

Nos dias de hoje, para além dos alertas que surgem regularmente por email e Facebook sobre gente de quem se desconhece o paradeiro, há outro tipo de desaparecimentos que me preocupam. Falo-vos de episódios que começam normalmente com “Olha, é só para te dizer que vamos mudar de casa e vamos para Balafre das Minas do Bom Sucesso. Mas não te preocupes, aquilo é a um pulinho de Lisboa (ou outra cidade) e vamos continuar a combinar coisas na boa”.

E, a partir daí, ver esse amigo/a torna-se uma coisa tão regular como avistar o Bigfoot, pois amigos comuns juram que o viram num café no Chiado, outros que almoçaram outro dia com ele ali para os lados do Marquês, mas a verdade é que a coisa é difícil de confirmar. Quanto mais estranho o nome da terra e quanto mais próximo ele jurar que é perto de Lisboa, mais provável é confirmar-se o seu desaparecimento.

Às vezes, tentamos combater esse desaparecimento da nossa convivência através de uma visita a essa tal terra mágica que, mais do que um subúrbio convencional, é um portal para outra dimensão imobiliária. Os croquis que explicam como chegar lá estão por norma cheios de ICs, IPs, kms de Estradas e referências que começam com Quinta de qualquer coisa ou Restaurante “O não sei que mais”. Creio que já há workshops para decifrar este tipo de informações.

Depois de algumas voltas e alguns telefonemas porque a direita afinal era a esquerda e o restaurante já fechou e é uma casa funerária, chegamos lá. E durante algumas horas tudo parece estar como sempre foi e aquilo não é um evento místico, mas sim convívio à séria. Mas depois chega a hora da despedida e não consegues evitar umas lágrimas e um abraço sentido, porque amanhã a memória de como chegar a Balafre das Minas do Bom Sucesso, Lote 3, Rua AB não passará de uma vaga noção e, uma vez mais, os nossos amigos voltam à condição de mito urbano, de tão desaparecidos que andam.

3.3.13

Vou só ali transcender-me e já volto

Acredito que para escrever um livro que valha mesmo a pena escrever das duas, uma: ou tens uma vida plena de experiências que se tornam um valor acrescentado, seja de que forma for, e um livro se torna uma forma de condensares tudo isso e fazeres chegar aos outros a tua experiência ou te transcendes e a tua imaginação te permite criar algo através da tua capacidade de escrita que toca as pessoas e, dessa forma, te torna parte da vida delas através da tua obra.

Tendo em conta isto tudo, vou só ali espetar um garfo num olho e esperar que desse modo esteja a gerar experiência de vida ou, caso isso não resulte, que tal estimule a minha imaginação para tocar os outros, mas não no sentido porco da expressão.


1.3.13

Pessoas que fazem posts idiotas vivem mais tempo


O que acabam de ler só ainda não é uma verdade científica, porque a mim me falta o link para o estudo de uma qualquer entidade que o comprove. Não sei se é do tempo, da crise ou de uma invasão extraterrestre encapotada mas tenho vindo a descobrir regularmente notícias que associam determinada conduta, actividade ou traço de personalidade a uma vida mais prolongada.

Sem exagero, já li sobre estudos que dizem, entre outros, que rir faz viver mais tempo, ter mau feitio faz viver mais tempo e hoje descobri um que expõe a teoria da longevidade dos pessimistas. Ora, tendo tudo isto em conta, para assegurar a minha aspiração a uma vida longa, quero dizer que começo a ficar lixado para não dizer f#”$”o com o facto de não só achar que não há solução possível para tanta parvoíce, como ter a certeza que isto é tudo tão mau e tão horrível que nem me vou dar ao trabalho de tirar o sorriso que tenho na cara.

Ainda assim, se tudo isto não contribuir para viver mais uns anitos, aguardo com alguma ansiedade a divulgação de estudos que indiquem que indivíduos que usam lycra pelo menos três vezes por semana e saibam de cor todos os passos da Macarena estão no bom caminho para chegarem a centenários.