31.1.13

Paradoxo da escrita

Quanto mais escrevo, menos tempo tenho para escrever.

E, pelo meio, há que tentar que tudo esteja assim.



PS - Ando a desbravar esta banda e que gozo me dá ver alguém com boa voz e boa energia fugir dos paradigmas típicos do visual MTV que nos traz uma linhagem de Barbies e Kens por atacado.

28.1.13

Quando o cinema vale menos que o milho


Gosto de ir ao cinema e felizmente ainda tenho a capacidade de o fazer regularmente. Obviamente que rentabilizo coisas como o facto de ter Cartão Zon, que permite comprar dois bilhetes pelo preço de um nos cinemas Lusomundo (para quem não seja cliente Zon, existe o Cartão Cultura da revista Sábado que, pelo que sei, por 7,5€ por ano não só permite o mesmo, como ainda dá outros descontos em certos eventos culturais).

O preço normal de um bilhete de cinema, nos dias que correm, oscila entre os 6,60€ e os 7€ facto que, a dividir por dois dá cerca de 3,30€.

Eu sei que é bastante mais caro do que sacar ou ver na net mas, no que a isso diz respeito, posso dizer que mantenho o seguinte ponto de vista – há coisas que valem a pena ser vistas no cinema, nem que seja como experiência ou quebra de rotina. Podemos entrar depois no debate sobre “o que é que vale a pena”, mas essa é uma discussão que dá pano para mangas, porque logo a seguir entrávamos no debate sobre “da tendência para o download para ver tudo primeiro e em catadupa, quando se tratam de séries” e daí em dois tempos estávamos no debate “as pessoa criam rotinas pós-modernas que nem sempre as favorecem”.

Por isso vamos só ficar pela noção de que, actualmente, um bilhete de cinema em condições promocionais (50%) é mais barato do que um balde pequeno de pipocas e eu digo balde porque aquilo não tem outro nome, embora dependendo da localização da sala o termo manjedoura também pudesse ser utilizado. Esta pode ser a forma como as salas de cinema reagem à crise de espectadores, que terá sempre tendência para se agravar dada a conjuntura mas eu, que sou raro consumidor da iguaria, tendo a ser renitente a comprar milho a preço de ouro. E baldes de bebida a preço de milho a preço de ouro.

E a questão que fica é, lucra mais um cinema em ter uma pessoa a ir uma vez por mês ao cinema, enchendo o bandulho de pipocas e refrigerantes, para sair de lá a dizer que aquilo foi caro e é por isso que não vão ao cinema ou lucra mais em ter parcerias que levem as pessoas de modo mais frequente ao cinema, em que os extras alimentares sejam um complemento e não a tentativa de sobrevivência financeira.

Ou então temos um caminho alternativo, onde cada um leva o seu farnel às escondidas, aproveita o espaço vazio na sala para fazer um piquenique e torna o cinema algo ainda mais especial, já que ali formigas só no ecrã.

27.1.13

Gostei de um filme com o Ben Affleck. O que vai ser da minha vida?



Sempre disse que o dia não chegaria e quando lá mais atrás me disseram que o Argo era baseado numa história verídica e seria realizado e protagonizado pelo Ben Affleck e, mais grave do que isso, era bom eu ri-me bem alto. Ia até avançar com uma piada do estilo "vê-se bem que o realizador é fraquinho pela escolha do actor principal", mas depois disseram que já tinha sido feita.

Ah e tal, "A cidade" também não era um mau filme. De facto, não era, era apenas desculpável enquanto espécie de homenagem ao "Heat - Cidade sob pressão" e ficava-se por aí. 

Saído da sala de cinema começo a pensar eoO Argo, maldito seja, é interessante e, traço geral, a canastronice típica do Ben ficou à porta e, mesmo sem me convencer, aguenta-se bem, se calhar foi por causa da época e da barba. Mas, filme à parte, preocupa-me o futuro da minha vida social. Se começo a admitir coisas destas a torto e a direito, não tarda nada estou a dizer que a tipa do Twilight é muito expressiva e que a Jennifer Lopez canta bem demais para sequer voltar a pensar ser actriz. Serei apanhado a defender os noticiários portugueses, não percebendo quem diz que aquilo é mais infotainment que outra coisa qualquer e que os programas da manhã da televisão são piores que a eutanásia para os pobres velhinhos que esperam sozinhos em casa por algo melhor.

E quando achar que já não tenho salvação, vou começar a acreditar que a maioria das pessoas que vão para a política fazem-no porque crêem que podem fazer mais e melhor pela sociedade e não para obter vantagens pessoais à custa de quem neles acreditou.


Para já vou com calma, um filme do Ben Affleck de cada vez. E se forem como este Argo, com segmentos com o Alan Arkin e John Goodman que são uma delícia, lá vou suspirar e preparar-me para engolir em seco outra vez.

25.1.13

Isto sim, é a verdadeira banda de metal


Sexta feira é dia de posts nhonhocas, imagens aspiracionais e coisas que combinam chuva, sonhos e preguiça em escrever alguma coisa de jeito. Como não pretendo começar a armar-me em excepção assim do nada, eis que vos quero apenas dizer que já há robots a formarem bandas e darem música.
Para além de gostar do seu critério musical, uma dúvida subsiste: para quando um Robocop. um Terminator vocalista ou até mesmo uma fritadeira com imensas capacidades, que foi recusada no X-Factor à última hora?



Sim, eu sei, sou um tipo de preocupações profundas.

24.1.13

Ai Cloud Atlas, seu livro depois do filme, porque o filme não foi tão paciente como o livro

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No que à leitura diz respeito, oscilo entre saber aquilo que quero ler de uma forma muito precisa e a descoberta totalmente não programada, seja ao passear pelos corredores de uma livraria, a meio de uma conversa ou, porque não, ao ler um blog.

No caso do Cloud Atlas há já bastante tempo que andava atrás dele, não direi desde 2004 mas a curiosidade já existia mesmo antes de saber que ia virar filme. Por preguiça ou dificuldade em encontrar exemplares por cá, fui adiando a coisa, que podia ter sido resolvido com uma simples encomenda online, visto que ler regularmente em inglês também me faz bem ao espírito.

Essa curiosidade que tinha de ver como resultaria esta narrativa que entrelaça vários enredos, separados no tempo e no espaço, levando-nos a viver várias histórias ao mesmo tempo e tentar perceber de que forma se vão ligar, tornou-se ainda mais forte, ao ver que a estreia do filme se aproximava. Finalmente encomendei o livro, mas não tive tempo de o começar antes do filme estrear e aí optei por só o começar a fazer depois de ir ao cinema.

O meu receio era que uma “história” tão dispersa e fragmentada em capítulos que funcionam como mini-histórias não resultasse nos ecrãs e ver nomes como Tom Hanks, Hugh Grant ou Halle Berry não me traziam mais confiança, porque com nomes grandes, especialmente deste tipo, é fácil secundarizar o valor dos personagens ao reconhecimento do actor. Não é um marinheiro atormentado, é o Tom Hanks a fazer de marinheiro atormentado ou não é um canastrão empresarial, é o Hugh Grant a fazer de canastrão (um papel recorrente) em qualquer época histórica.

Não vou aqui estragar a história a quem queira ver o filme mas, mesmo em três horas, este fica longe de se equiparar à riqueza do livro e eu ainda só vou a meio deste último. O artifício usado para unir as histórias, ainda torna a coisa mais forçada e a montagem falha, porque só podia falhar, a tentar colar cinco ou seis histórias que ficam assim empilhadas à bruta para o espectador aviar. A história flui em jeito pastelão e a tentativa de trabalhar uma moral unificadora a la Hollywood só tira valor ao que de bom se pode tirar do filme. Quando os actores são menos conhecidos a coisa resulta melhor e, dos mais conhecidos, só o Jim Broadbent é que se safa em pleno. O resto são pormenores, tanto bons como maus.

Visto o filme, dediquei-me ao livro, à procura da salvação das minhas expectativas. Até agora tudo faz sentido e as histórias têm o espaço e o cuidado que merecem. A forma como tudo se encaixa segue um ritmo natural e eu quase que já consegui apagar a imagem do Hugh Grant de certos personagens. Da Halle Berry deixei, já que deixa uma impressão visual bem mais simpática. Quando acabar, logo tiro uma conclusão.

Uma nota para a banda sonora instrumental, para quem goste do género – fazjus ao nome e vale a pena ouvir.

23.1.13

Cemitério de ideias



Não só para eles, mas especialmente para quem vive das ideias ou parte do seu trabalho passa por tê-las/desenvolvê-las, é impossível não ter a noção de que, a dada altura, já temos um cemitério de ideias para visitar regularmente.

É aí que moram todas as ideias que não chegam a ver a luz do dia, juntando-se às que tinham tudo para ver a luz do dia mas foram vítimas de um qualquer evento trágico, isto para não falar nas que se finaram depois de terem sido empurradas por nós para o esquecimento ou para o Mar de Um Dia Hei-De Pegar Nisto.

Nem sempre estas visitas ao cemitério de ideias têm que ter um tom amargurado. Por vezes é apenas uma experiência agridoce, seja porque hoje em dia as coisas já não fazem sentido da mesma maneira ou porque há ideias que se calhar têm um prazo de validade. Seja como for, seja trabalho ou algo pessoal, passar por lá é o início de conversas que começam assim “Lembras-te de quando pensámos/pensei em...

A vantagem de ser um cemitério figurado é que cada um pode imaginá-lo como quiser. E se não tiverem nenhuma ideia de jeito ao fazê-lo podem enterrá-la mesmo ali.

22.1.13

Teoria da observação social em elevadores


Há algo místico nas viagens de elevadores. Há quem não se sinta confortável a fazê-las, há quem se sinta mal, há quem suba mesmo quando se sente em baixo, há quem saiba que a partir dali é sempre a descer e há até quem os negue à partida, preferindo as escadas.

Seja como for, quando se entra num elevador tudo é possível, incluindo o facto de não acontecer nada de especial. Ainda assim, é interessante ver como se comportam as pessoas num espaço confinado, em que muitas vezes o seu espaço pessoal tem que ser partilhado com perfeitos (e não tão perfeitos) desconhecidos.

Assim sendo, num esforço épico de sociologia de ascensor, eis alguns comportamentos observados e estruturados em categorias:

O observador de tectos - Muito comum entre quem tenta alhear-se à realidade e evitar os demais durante um curto trajecto, procurando no topo do elevador algo que só se encontra na Capela Sistina.

O empático – Duas pessoas (ou mais) num elevador tornam-se automaticamente próximas ou, pelo menos, mais próximas. Daí que, mesmo que não as conhecendo de lado nenhum o empático exprima através de aceno de cabeça, sorriso afável, piscar de olhos ou expressão compreensiva, tudo aquilo que une duas pessoas num espaço de sobe e desce.

O amigo do telemóvel – Mal as portas do elevador se fecham, abre-se o mundo do smartphone, com mensagens importantes que têm de ser enviadas nos próximos 12 segundos, consultas de agenda, aplicações que precisam de ser actualizadas e afins. Antes de existirem telemóveis, muito possivelmente estas pessoas eram obrigadas a ficar incontactáveis durante todo o tempo que dura uma viagem de elevador.

O amigo do telemóvel e da porta do elevador - Quando o medo da falta de rede ataca no elevador, estas pessoas têm conversas ao telefone com a cabeça encostada à porta do mesmo, investindo com agressividade quando alguém se mete à frente.

O conversa a três – Aproveitando o facto de duas pessoas já estarem a conversar, esta pessoa torna por osmose a partilha do espaço na harmonia da conversação, tornando-se um observador atento da mesma, podendo ou não exprimir reacção ao que vai sendo dito.

O one person show – seja humor, storytelling, música nos phones ou até micro-cantoria, esta pessoa tem como missão dar valor acrescentado a uma simples viagem de elevador. Menos de cinco sorrisos é considerado fracasso.

O avaliador – Qual o valor de uma viagem de elevador? Esta pessoa só conseguirá dizer depois de avaliar de alto a baixo qualquer outra alma que partilhe com ela essa viagem. Calmamente e sem necessidade de ser discreto, pois o tempo é escasso.

O raio-x – Podem estar uma, duas ou dez pessoas no elevador, mas aos olhos deste indivíduo não está lá ninguém e é possível olhar através de qualquer objecto ou ser que lhe sejam colocados à frente.

O multitasking – Elevador? Qual elevador? Tenho um pequeno almoço para tomar, cabelo para pentear, maquilhagem para acertar, reuniões para marcar, emails para enviar e apenas uma viagem de 4 andares para o fazer.

O "olfactista" – Na melhor das hipóteses, esta pessoa acredita que espaços confinados são a melhor altura para comprovar que despejar 2 litros de perfume em cima faz maravilhas pela nossa vida social. Na pior das hipóteses, não estamos a falar de perfume.


Não se acanhem em partilhar tipologias, o meu paper sobre estas matérias está longe de estar fechado.

17.1.13

O problema de: "Recusar coisas"


Pode parecer estranho mas grande parte das pessoas que conheço (e possivelmente das que desconheço) tem na sua cabeça um chip sociológico que as impede de recusar algo, por isso lhes parecer sinal de má educação.

“Parece mal dizer que não” é o princípio de jantares que não correm bem, participações em projectos que dão para o torto, queixas de “eu já sabia que isto ia ser uma m”#$da” no pós-oquequerqueseja e tudo mais e um par de botas.

Na minha forma de ver as coisas, na maior parte dos casos, as coisas que geram mal estar têm uma propensão muito maior para acontecer depois de não se recusar algo que, mesmo que parecesse “mal”, teria um impacto muito menor numa primeira instância. A vergonha de recusar algo, de não querer dizer não impõe-se muitas vezes à premonição certa de fazer algo que não queremos e é isso que eu não percebo porquê.

E nem que me venham com a história de “é preferível sermos nós a engolir um sapo no lugar de desapontar os outros”, continuo a acreditar que uma boa parte das experiências ao longo da vida nos ensinam que se estamos sempre a pôr aquilo que realmente queremos em segundo lugar, um dia quando vamos à nossa procura já não nos encontramos.

Já existem tantos aspectos da nossa vida em que por vezes não temos o controlo que queríamos, seja porque não nascemos ricos, porque a nossa saúde não nos permite ou porque o destino não está do nosso lado e depois, quando chegamos às partes em que efectivamente podemos dizer sim ou não, vamos pelo contrário daquilo que queremos, porque temos comichões sociais.

Saber dizer “Não” não tem sequer que ser um cenário que tem que acontecer apenas quando “é preciso”, mas sim quando vai ao encontro do que realmente desejamos. Não nos torna negativos, crápulas ou piores do que os outros, torna-nos apenas mais honestos connosco próprios.

E a honestidade, por vezes hoje em dia, é confundida com má educação.

15.1.13

Late night check in

Quando dois tipos com ligeiro mau aspecto voltam ao seu local de trabalho, por volta das 23.30, para umas horas de ajustes e retoques num projecto que tem de ficar fechado até amanhã de manhã sabes que, durante uns breves segundos, o segurança vai hesitar sobre se são assaltantes com muita lata ou profissionais com talentos muito escondidos.

14.1.13

Um videoclip "enchido" de surpresas

A internet não nos dá descanso, nos últimos dias são épicos em catadupa. Por entre revelações e assombrações, há valores que começam a trazer alguma consistência, como é o casao da Feira do Fumeiro de Montalegre. Depois de no ano passado já terem começado a nadar de costas com um "êxito" em versão spot de promoção do evento, este ano a fasquia parecia difícil de superar.

Enganei-me redondamente, isto em 2013 está para lá de Bagdad. Eu podia falar do porco sexy, da conjugação "Salpicão...cão...cão...cão" com a imagem do cão e da turma que por lá aparece.

Mas o melhor é ver e, nem que seja pelo empenho, dar um saltinho a Montalegre. Quem sabe não abriram já os castings para o spot de 2014.


13.1.13

Maturidade é mentira



Sabes que já estás num outro patamar de maturidade, quando ouves alguém com 19/20 anos a contar-te um conjunto de histórias e tu consegues identificar as tangas à légua e pensas para contigo “Epá, esta nem eu tentava há alguns anos quando tinha essa idade....ou será que tentava e era urso demais para perceber que isto não cola nem com agrafos?”

Descobres depois que se calhar não estás assim tão maduro, quando dás por ti a contar tangas a essa mesma pessoa, só pelo desporto, e a tentar ver até quem cede primeiro: a credulidade alheia ou a tua vontade de rir.




Nota aleatória de bullshitting: perante qualquer oferta alimentar que levem para algum jantar/evento/etc e que queiram reforçar o lado caseiro e a qualidade da mesma, digam que foi feito por uma senhora idosa quase cega que vive lá rua. Podem ou não retirar-lhe um membro ou outros sentidos, para reforçar o dramatismo.

10.1.13

Os virais da moda


Há marcas que anseiam por criar virais, uma das ferramentas de comunicação mais trendy dos últimos tempos. E se isto de "criar virais" é uma área muito lamacenta, porque quem torna algo viral é o público e não o produtor/emissor do conteúdo, o curioso é ver quando a coisa se torna viral por razões que escapam aos objectivos de quem os produz.

Na era das redes sociais estas são um pau de dois bicos, pois tudo o que lá entra tanto pode ganhar rapidamente feedback positivo como rebentar na nossa cara e é preciso ver que, quando o conteúdo sai das nossas mãos, aquilo que lá pomos deixa de estar sob o nosso controlo.

As coisas bem feitas e planeadas nesse sentido e as grandes sacadas têm grandes resultados, mas até nesses casos há coisas que não resultam. Não é disso que se trata no regabofe que aí vai à conta da campanha da Samsung com bloggers de moda, etc (by the way, pessoal da Meios, se é para escrever bloggers em português, será conveniente não ficar a meio caminho). Quando cedemos espaço de opinião, por mais reputadas que as pessoas possam ser na sua área e, admito, não conheço as pessoas dos vídeos, num acção de marca é bom ver se o que as pessoas têm para dizer é um valor acrescentado. Porque, podemos agora andar todos a gozar com malas da Chanel, boa vida e afins, mas quem foi uma marca que escolheu estas pessoas para as associar aos seus produtos e aos valores que estes representam.

Neste caso, os conteúdos lançados já estão a caminho de se tornar virais, mas dá-me a ideia que não será bem pelo caminho que a Samsung desejaria. E o que me faz confusão, no meio disto tudo, não é a ideia na base, não é o discurso vazio ou pelo menos mal trabalhado (há guiões para casos em que as pessoas, por sí só, não se revelam grandes oradoras), nem sequer a falta de noção que é tirar as pessoas da sua área de conforto (moda) e pô-las a falar de desejos pessoais, com gadgets pelo meio.

É o facto de ninguém, entre produtor, agência ou cliente ter tido a noção que há coisas que falham mesmo antes de serem lançadas e, quando assim é, o melhor é nem verem a luz do dia. E aquela história do não interessar se falam bem ou mal, desde que falem é muito relativa quando passamos a ser alvo de risota geral.

No entanto, como isto anda, vai-se a ver e ainda estamos a assistir ao nascimento de figuras de elevado potencial mediático...

9.1.13

Talento, pianos, Ronaldo e Lobo Antunes



A discussão sobre talentos é sempre uma coisa que mexe connosco, mesmo que não seja do nosso talento para algo que se trate. Numa primeira fase, de um ponto de vista racional, a coisa é simples e parece relativamente fácil distinguir quem tem talento de quem não o tem numa primeira avaliação em que tenhamos algum conhecimento na matéria.

Errado.

Mesmo nas considerações e avaliações básicas de talento, embora seja aparentemente mais fácil ver quem tem ou não talento para determinada coisa, existem inúmeras variáveis, potenciais e não só que podem gerar julgamentos errados.

No entanto, não é sobre este nível de avaliação que vos quero dar uma palavrinha.

Quando me falam em Messis e Ronaldos, sem entrar na história de troféus e “eu é que sou o campeão lá da rua”, eu penso numa história de talentosos pianistas de conservatório. Em tempos idos, era eu um tipo respeitável, tive a oportunidade de conhecer um gajo que estudara piano no conservatório e com boas notas. Hoje em dia, no entanto, era alguém que se destacava numa área profissional completamente diferente.

Um dia contou-me a história do porquê de ter mudado de área, apesar de continuar a gostar imenso de música, tocar piano e afins. Dizia-me ele “Eu estudava horas e horas e tocava ainda mais horas e horas para ter as notas que tinha. Não estava em causa o talento que tinha, nem o gosto que tinha naquilo que fazia. Contudo, tinha ao meu lado tipos que conseguiam ter as mesmas notas que eu, melhores até se fosse preciso e tudo lhes parecia sair com menos esforço, o talento podia ser o mesmo, mas o deles dava menos trabalho. Até que um dia, sem qualquer mágoa, decidi ver se havia algo na vida para o qual eu também pudesse ter talento, mas em que tudo me saísse de forma ainda mais natural”.
Felizmente, encontrou esse algo.

A expressão em inglês, que vai além do talento natural e que a mim me faz sentido para descrever este tipo de talento é “effortless talent”. Tal não implica que não haja trabalho pelo meio, mas o caminho para lá chegar é que parece ser mais fácil e é aí que, sem entrar em detalhe, entram o Messi e o Ronaldo. O talento sempre esteve lá, não há volta a dar mas no Lionel, mais do que em Cristiano, tudo parece mais natural e isto não serve para diminuir o segundo que, para mim, também está na estratosfera do talento.

E então, recompensa-se a máquina de treino, o talento natural ou não há resposta óbvia? Creio que pessoas são pessoas e seja em que área for, goste-se mais de um ou de outro, quando o talento é equiparado, a personalidade ajuda a fazer a diferença e aí, o Ronaldo está sempre mais sujeito a levar por tabela do que o Messi. Por exemplo, entre Saramago e Lobo Antunes, sem prémios e talentos a distinguir o que quer que seja, sempre fui menos propenso a ler livros deste último por não ir à bola com a personalidade do escritor. Obviamente, isso não torna o Saramago melhor, apenas reduz a minha benevolência para com o segundo.

E agora vou usar o meu effortless talent para dizer baboseiras noutra freguesia.

8.1.13

Princípios de Mak & Avel - A matemática dos segredos



Duas pessoas que saibam um segredo já é uma pessoa a mais.
 Uma pessoa que diga "...mas não podes dizer isto a ninguém..." está a multiplicar o número de ninguéns que não sabem daquilo.
O peso de um segredo tem a proporcionalidade inversa ao número de pessoas que o conhecem.
Partilhar um segredo não divide a responsabilidade do significado do mesmo, apenas diminui a percepção dessa mesma responsabilidade.
O valor da incógnita que resulta da participação numa situação que acaba em "mas isto que fizemos vai ficar entre nós" só tende para zero quando o valor de "nós", na cabeça dos intervenientes, é superior ao valor de "isto".

7.1.13

A curta história do encontro entre duas balas

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Duas balas combinaram encontrar-se numa pistola. A da direita, que chegava sempre depois, cumprimentou a da esquerda e preparavam-se para pôr a conversa em dia quando esta última, sem qualquer justificação, saiu disparada.



A da direita, que era agora a do meio visto estar sozinha, não conseguiu deixar de pensar “Nem me disse onde ia ficar alojada...Bem, com esta trajectória esta tipa não vai a lado nenhum. Há coisas que não passam pela cabeça de ninguém...”

6.1.13

A era dos salões de jogos

Falava esta semana num conferência dedicada ao tema “Gente que consegue mexer as próprias orelhas, tanto as duas como uma só, sem lhes tocar” sobre a quase extinção dos salões de jogos. Pode parecer um tema estranho para semelhante evento, mas quando se estão a inventar coisas nem sempre há tempo para tentar ser coerente.

Quando era miúdo, para além da meca que era a Feira Popular, não faltavam em vários bairros de Lisboa salões de jogos ou na versão mais cool os salões de video-jogos. Tinham por norma uma ou duas mesas de snooker, mesas de matraquilhos, uma ou mais máquinas de flippers e várias máquinas de jogos.

A sua localização tinha por norma um paralelismo com a existência de escolas ou sítios frequentados por malta jovem na área e o seu índice de chungaria aumentava do dia para a noite, embora em certas “casas” por vezes se mantivesse quase sempre numa média elevada.

Numa altura em que as consolas ainda davam os primeiros passos e os computadores ainda cheiravam a Spectrum, não é difícil perceber o apelo de jogos com gráficos de encher o olho que não se encontravam em mais lado nenhum. Além disso, também eram sempre uma justificação interessante para faltar às aulas, afinal de contas quem precisa de Geografia quando tem “Caddillacs & Dinossaurs” a misturarem pancadaria à antiga com mutações genéticas e seres pré-históricos?

Apesar de achar que sempre controlei essa história do vício muito bem, perdi a conta ao número de horas e de moedas que investi nos salões, muito antes das PlayStations e afins lhes cravarem uma estaca no coração. Recordo até um café que tinha jogos na cave em que a minha mãe me apanhou uma vez e que só a muito custo a consegui convencer que eram as tostas do Sr.Isidro que me faziam lá ir.

Ao contrário de brincar na rua, coisa que é raro se ver hoje em dia putos mais pequenos a fazer, é certo que o desaparecimento dos salões de jogos não causa propriamente falhas estruturais na formação da malta. Mas, ainda assim, frases como “Troque-me aí duas chapinhas de 50” ou fazer tilt numa máquina de flippers, num acesso de raiva são coisas que não deixam de deixar um sorriso na cara de quem passou por isso.

E embora possa dizer que o rarear de boas máquinas de flippers não seja algo que o progresso resolveu, aquela fase da história com Trivial Pursuit, Mahjong e outras paciências em máquinas que existiam em certos bares e afins também só serviu para que muita gente se tentasse esquecer da companhia que levou para tais sítios. Hoje em dia sobrevivem apenas algumas salas especializadas em snooker e uns matraquilhos aqui e ali, alguns deles com ar futurista que não lembra ao demónio.


Adenda: Não esquecer também o ícone lisboeta que era Monumental Salão de Jogos, ali entre a Estrela e o Rato, que salvo erro faz agora parte do império de lojas chinesas.


PS – Se alguém tentou mexer as orelhas no início do texto, merece todo o meu respeito.