28.12.13

Uma hora e meia de almoço


Tenho uma hora e meia para almoçar, mas uma hora de almoço nunca dá tempo para tudo aquilo que queremos enfiar lá dentro. São 90 minutos quando deviam ser 150, um conjunto de “ses”, “talvez dê” e “em correndo tudo bens” que teriam que bater certo para que corresse tudo bem. E uma hora de almoço, quando não é usada para almoçar, tem tudo tudo para correr mal.
Ontem foi assim.

13h10m – Os planos de sair dez minutos antes transformam-se na realidade de sair dez minutos depois. O tipo que sai do WC à tua frente não lavou as mãozinhas, és obrigado a fazer malabarismo ninja de não colocar mãos no puxador e abrir a porta.

13h15m – O sistema inteligente de elevadores no edifício em que trabalhas deve ser daqueles que associam inteligência à capacidade de parecer profissional mas fazer o menos que possível.

13h20m – Hesitas entre metro e autocarro. O mostrador de tempo de espera diz-te que faltam dois minutos. Compensaria se o mostrador não fosse da família do elevador do escritório, portanto um tangas. Esperas seis minutos e és ultrapassado na entrada do autocarro por duas senhoras que consideram que estar na paragem antes delas não te dá o direito de entrar primeiro que elas. Resolves trocar o termo “senhoras” por “cabras”.

13h48m – Chegas ao destino onde vais dar de comer a dois gatos que não são teus, mas que receberam com prenda de Natal uns dias sem aturar os donos. Demoraste mais cinco minutos que o previsto no autocarro porque ainda há gente que gosta de praticar o desporto nacional que é esperar que o condutor feche a porta de saída para se levantar e dizer “Espere só um bocadinho que eu vou sair aqui”.

13h50m – Sobes no elevador com uma idosa. Ela não te conhece do prédio e usa todo o manancial de truques de idosa desconfiada – deixa-te ser o primeiro a carregar no botão, não carrega em nenhum para te deixar na dúvida, mas vai mais perto da porta não vás tu querer roubar-lhe o saco das couves. Saem no mesmo andar, ela sai primeiro, mas não se dirige a nenhuma porta para tu não detectares qual a sua morada. Sentes o olhar dela nas tuas costas, enquanto usas a chave para abrir a porta de um apartamento que não é teu e ficas à espera de ouvir a polícia a chegar quando fores a sair. “Com licença minha senhora...”

13h55m – Tentas fazer festas em dois gatos carentes, enquanto trocas o resto de água e lhes recarregas o comedouro. Um dos gatos faz cabriolas tipo artista circense, o outro quer comida primeiro e convívio depois. Sem querer, baptizas o gato circense com a água que estás mudar e ouvem-se protestos felinos.  Lá usas um pano de cozinha para secar a carola do bicho e fazes-lhe um risco ao meio só porque sim.

14h07m – Neste momento já levas 27 minutos de atraso em relação ao horário ideal. No entanto, ficas satisfeito porque a velha não chamou a polícia. Tens agora um percurso de “idealmente” 20 minutos até ao Corte Inglês para levantar dorsais para a tropa toda que vai fazer a São Silvestre de Lisboa e acha que tu és o gajo mais responsável para essa tarefa. Desta vez não hesitas, aceleras para o metro.

14h10m – Perdeste o metro por segundos e o marcador indica que vais esperar seis minutos. Tentas ser previdente e vais para o fundo da plataforma, tendo em conta o lado em que vais sair para trocar de linha. Estás distraído ao telemóvel quando chega a composição e obviamente tem menos três carruagens do que é suposto. Ganhas ao sprint a uma idosa no acesso à última carruagem e sentes-te preparado para amanhã.

14h28m – Chegas ao Corte Inglês, depois de já teres trocado de Metro e resistido à avalanche de gente que acredita que é mais importante tentar entrar na carruagem do que deixar sair aqueles que lá estão dentro. Parece que o espírito de Natal já esgotou.

14h29m – Ou há um grande festival da Igreja Maná no Corte Inglês ou está tudo maluco com trocas, saldos e aquilo a que eles chamam Sexta Feira Negra. Os elevadores do Corte Inglês são os irmãos gémeos malvados dos elevadores da tua empresa.

14h30m – Devias estar agora a regressar ao teu lugar de trabalho mas, em vez disso, estás a tentar explicar a duas tias que irem nas escadas rolantes lado a lado com o rabo gordo bem apertado em calças de ganga do cenário não é a melhor solução para deixar passar quem acreditar que caminhar e aproveitar o efeito positivo de uma escada rolante é uma ajuda para poupar tempo.

14h33m – Surpreendentemente o Corte Inglês tem gente a atender em número suficiente para que a fila flua com dignidade. O facto de já não ser hora de almoço também ajuda. Ganhas ao sprint desta vez a um tipo que podia ser teu pai mas acha que contornar torniquetes é mais fixe do que seguir indicações. A confiança está ao rubro para amanhã.

14h38m – Cinco minutos depois és atendido, não sem antes explicar dez vezes à senhora atrás de ti que precisa de um comprovativo para levantar o dorsal, mesmo que o dorsal seja do marido que ele é que é lá das corridas. Ouves a conversa ao telefone, manda-me isso para o émele, que o senhor diz que dá para elas verem. O marido está indignado com a burocracia, mas mandou a mulher tratar das cenas, típico. A rapariga da organização é simpática, mas olha para ti com ar desconfiado porque a tua equipa tem o teu nome como nome da equipa. Serás um corredor narcisista? Não, foi só um erro no computador. Mas serás mesmo tu? Sou sim senhor e tenho aqui um documento de identificação que o comprova. Pedes três camisolas L e um M e ela diz-te “Olhe que para si o M não deve dar, que você é...alto”. Aquele tempo de suspensão fez-me pensar no Natal e o facto de haver uma mulher na minha lista fez-me pensar que se ela tivesse visto somaria dois mais dois.

14h43m – Parece que a descer escadas rolantes também não há gente que aprecie ficar de um dos lados para deixar gente que anda passar. Quase que bato o recorde do mundo de salto sobre carrinho de bebé de família beta, mas decido respeitar o pobre Martim Estevão que não tem culpa dos pais comunicarem através de smartphone.
14h45m – Não há cá dúvidas entre Metro ou autocarro, vão ser dez minutos a la pata até ao estaminé. Creio ver motins ao pé de uma Zara, mas pode ter sido apenas do piso escorregadio. Um taxista arreganha a dentuça quando me vê a aproximar dele cheio de sacos que ele julga serem de compras. Eu também arreganho os dentes, mas é por ele estar parado em cima de uma passadeira.

14h53m – Acontece algo que odeio que aconteça quando estou cheio de roupa a andar de um lado para o outro. Sentes um fio de suor a descer pelas costas e não ficas orgulhoso da tua condição humana.

14h55m – Passas à porta de um Centro de Emprego. Ouves dois gajos que lá estão “Epá não sei se é pior ficar uma hora à espera ou dez minutos a ouvir aquelas gajas simpáticas a falar com um gajo”. Começo a pensar que há coisas piores do que a minha hora de almoço, mas com fome (conceito relativo em época natalícia) não consigo dar razão a ninguém.

15h – Acabado de chegar, é natural a hipótese de pensar em almoçar sentado no respectivo spot. Chega alguém que me diz que tenho que enviar um descritivo para aí de três páginas com a máxima urgência, descritivo esse que está ainda por começar. Lanchar bacalhau é almoço, durante o mês de Dezembro?

6 comentários:

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    1. O cansaço via leitura é um talento natural que tenho ;)

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  2. Já eu estou angustiado, como naqueles pesadelos em que estamos numa espiral que não para...

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    1. Não vale a pena angustiar em causa alheia, que é desperdício de angústia.

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  3. bom treino para a s. silvestre. a posição foi boa?

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    1. Foi razoável, dado o enfardamento dos dias anteriores. Deu para rondar os 48mins, para aí nos 2000 primeiros ;)

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