4.12.13

A razão nem sempre tem clientes - The feirante diaries



Agora que a poeira assentou, posso falar com mais calma daquilo que aprendi sobre pessoas em apenas 48horas como feirante. Mas atenção, não estou a falar de “pessoas” num conceito vago, mas sim especificamente pessoas enquanto “clientes” e isso, só por si, muda muita coisa.

Primeiro que tudo, gosto de observar a forma como as pessoas interagem com outras, neste caso numa possível relação comercial que pode (ou não) envolver dinheiro a mudar de mãos, isto para além de ser muitas vezes uma situação em que o cliente pressupõe uma suposta relação de superioridade face ao vendedor.
Eis alguns tipos de “clientes” mais problemáticos que identifiquei:

O Desvaloriziente – é o tipo de consumidor/cliente que, não percebendo ou não tendo interesse no teu tipo de produto, assume uma posição de desvalorização em relação ao mesmo. “Ah, isto é mais do mesmo”, “Não percebo o interesse nisto”, “Como é possível haver quem dê este valor por A ou B”. Por norma, esta reacção não é específica para um tipo de produto, tende a ser geral no que não lhe interessa.

O Bitaitiente – é alguém que sabe tanto ou mais do negócio do que quem o tem, ou que pelo menos pensa dessa maneira. Dá ideias (incluindo clichés que a seu ver são geniais), sugere alterações, promove a conversa como se ele fosse o Messias que nos levará ao lucro eterno. O pior de tudo, nestes casos, para mim não é ouvir a pessoa, mas sim não lhe poder dizer o que realmente penso. Ah e traço geral, não compra nada.

O Contorniente – o seu mote é “Contornar as regras é ganhar”. Se tu tens a promoção A+B = 3C, ele insiste para que faças 2C = 3B+A1. Se na banca ao lado eles fazem X por menos Y, aqui também se devia fazer o mesmo. Se podes usar o voucher L para descontar, ele tenta usar o L1, o L2 e o LLL12. Quando lhe explicas as regras, que estavam bem visíveis desde o primeiro momento e ainda concedes um ou outro extra, ainda assim fica com cara de “estes tipo são pouco compreensivos”.

O Bazariente – para ele, esteja onde estiver, está a regatear num bazar em Marrocos. Tenta fazer group buying, reduzir preços, inventar promoções, utilizar argumentos catastróficos, apelos emocionais e “A crise”. Se for necessário, arrasta inválidos e idosos para tentar ganhar vantagem, mesmo que não os conheça.

O Masiente – É tudo bonito, tem tudo muita qualidade, é um produto cinco estrelas, mas...E depois do mas vem sempre uma argumentação complexa, nem sempre compreensível sobre o facto de poder ou não ir comprar. É estar perante um carro que em vez de piloto, tem filósofo automático.

O Queropossoemandiente – Imaginem que têm um braço em cima da banca. Imaginem que esse cliente, para além do produto, insiste que o vosso braço faz parte da oferta. Imaginem que lhe tentam explicar o que é lógico, enquanto ele começa a procurar um serrote na mala. Imaginem que, perante a explicação “Não só não faz parte da oferta, como é um braço que me faz falta”, a resposta é do género “Tem dois, não tem?”. É só um exemplo...

O Solitariente – Não precisa e na verdade é bem provável que só compre algo por sentimento de vergonha. No entanto, até lá, a história da sua vida vai estar nos nossos braços e nos nossos olhinhos compreensivos.

1 comentário:

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