5.11.13

Sorte, timing ou venha o diabo e escolha?


A premissa do “Match Point” do Woody Allen assenta num princípio muito simples, que é expresso logo no início – “i’d rather be lucky than good”. Podemos questionar o que é efectivamente a “sorte”, porque se acreditarmos nela teremos que acreditar no “azar” e não tarda nada estamos a ligar para a Maya para ela nos lançar as cartas e falar com essa senhora ao telefone deve ser experiência para nos deixar a questionar muito mais coisas na vida.

Na minha perspectiva, se isolarmos o conceito de sorte num laboratório e lhe aplicarmos umas gotinhas de lógica, uns pós de cepticismo para equilibrar, chegamos a outro “material” que é possivelmente a definição que prefiro para uma certa cadeia de eventos que influencia a nossa vida – timing.

Pode haver quem diga que isto é uma questão de semântica mas, a meu ver, timing e sorte não passam exactamente por debaixo da mesma ponte. Obviamente quem gosta de dizer que “tem um azar do caraças” por tudo e por nada, que defenda “não tenho sorte ao amor/jogo/no trabalho/nas aulas de zumba” não se vai reconhecer aqui.

Se tiver que ir buscar novamente um filme, desta vez mais duvidoso, para continuar a dar exemplos a questão de timing é abordada, por exemplo, no “Sliding Doors” salvo erro com a Gwyneth Paltrow, em que a diferença entre ela apanhar ou não um determinado metro a uma determinada hora gera duas situações completamente diferentes com influência determinante na sua vida. As coisas no cinema são recorrentemente abordadas numa perspectiva dramática, como por exemplo as pessoas que trocam bilhetes de avião ou cedem lugar e o outro cai e por aí em diante.

Na vida real, o timing é igualmente importante, embora o dramatismo se esbata normalmente em circunstâncias mais “normais” ou decisões mais standard, isto porque a nossa vida decorre numa timeline extensa e muitas vezes o efeito do timing (ou da falta dele) nem sempre é observável de forma imediata. Por exemplo, em tempos recusei ir trabalhar para um spot porque o tipo que me queria contratar recusou algumas condições básicas que lhe pedi. Passados seis meses foram despachadas seis pessoas nesse departamento, incluindo esse tipo e, um ano e meio mais tarde acabei por ir trabalhar para esse mesmo lugar. No entanto, nesse período andei ligeiramente a marcar passo e a conjuntura mudou, levando a que as condições que depois aceitei fossem quase iguais às que recusei.
É todo um conjunto de engrenagens que batem certo ou que não se encontram e que determinam o passo seguinte. Algumas delas controlamos, outras nem por isso, mas a verdade é que muitas vezes nunca temos a big picture para perceber exactamente as consequências da decisão A ou da B.

Obviamente, podemos entrar na discussão com pesos pesados como doenças, acidentes ou tragédias e dizer “Ah, explica-me lá o timing dessas coisas”, mas isso é tentar dar à vida um prisma exclusivamente racional, coisa que ela não o é e aí já não estamos a falar nem de sorte, nem de timing, nem de azar, mas sim daquilo que nos lixa à grande e que passa pelo facto de na vida não termos resposta para todas as perguntas que fazemos.

E enquanto assim for, continuamos a debater sobre a falta de controlo que por vezes nos controla.

1 comentário:

  1. (tentativa de resposta à pergunta que serve de título ao post) ou uma questão de probabilidades.

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