1.11.13

Ontem almocei meia dose de greve de metro e duas batatas de surrealismo


Quis o destino que precisasse de ir a casa ao almoço. Quis o almoço que o levasse até ao destino. Quiseram os senhores do Metro em greve que usasse a Carris para esse efeito, já que o almoço me pediu para não ir a correr com ele até casa.



Forrei-me com aquelas protecções que eles usam na série dos zombies para que estes não lhes deem uma trinca nas partes mais expostas e dirigi-me à paragem. Uma velha rosnou-me, outra ameaçou-me com uma muleta e uma senhora confundiu-me com o Carrilho e eu dei-lhe logo duas chapadas para não haver confusões. As pessoas ficam mais tensas que corredores de 100 metros na final dos Jogos Olímpicos, quando estão nas filas à espera de autocarro em dia de greve.



Um casal de miúdos chegou à paragem e começou aos beijos, quando viu que ainda faltavam quatro minutos até vir o autocarro. Uma velha tentou queimá-los numa fogueira, mas o agarrado na fila disse que precisava do isqueiro e, sendo assim, a velha ficou apenas a blasfemar. Dois velhos riram-se e não deve ter sido pelo facto de terem pochettes iguais. Uma senhora disse que com aquele comportamento a rapariga parecia a Bárbara Guimarães e a rapariga partiu-lhe uma garrafa de vinho na cabeça para acabar com o mal entendido.



O meu almoço refilou e eu disse-lhe que bem podíamos ter ido a pé. Ele calou-se e o meu estômago riu-se com um ronco. O autocarro vinha aí e nem precisei de o ver para perceber isso, bastou-me ouvir a horda a manifestar-se, com velhos a lutar por pole position.



O autocarro para três metros atrás da paragem, o condutor experiente sabe que primeiro se largam as tropas e depois é que se recolhe o entulho. Uma mulher que, pela reacção, podia ser uma ministra a carregar circulares para despejar bicharada de apartamentos tenta entrar pela porta de trás. Arremessam-se bengalas, insultos e rogam-se pragas que começam por “Olhamáquela” mas o motorista, fá-la sair de novo para delírio da multidão que lhe pede para se candidatar a primeiro ministro, pelo menos durante dez segundos, antes de dizerem que o tipo é uma besta que nunca mais chega à paragem.



Dois otários correm para a porta de entrada do autocarro que ainda não chegou à paragem. A população ri-se quando o motorista lhes aponta para a dita cuja e a multidão, que já colocou as máscaras de escárnio do Halloween, rejubila. Os otários conformam-se e fazem da gaja que tentou entrar à mitra uma mulher mais feliz, pois agora já não é a última da fila e tem alguém para quem pode olhar com ar reprovador.



O autocarro chega à paragem e eu vejo tudo negro, não porque tenha desmaiado mas porque uma senhora cabo-verdiana de bom porte me passa a ferro com o seu arranque potente, isto com duas crianças ao ombro e três sacos pela mão (ou seria ao contrário?). Colado a ela, um velho careca que pelos vistos ia demasiado colado, pois vinte segundos depois já ela lhe estava a dar com uma criança na cabeça (ou seria um saco?) e a dizer que ele era um porcalhão. Uma senhora à frente deles vira-se e diz que o velho parece “aquele da FIFA, o que disse mal do cabelo do Ronaldo”, ao que o velho responde oferecendo-lhe para pentear algo que não lhe passa pela cabeça.



Benzo-me antes de entrar, mais para obter simpatia das beatas à minha volta, do que por acreditar numa intervenção divina que fulmine metade da horda que luta por um lugar no autocarro e avanço. Fico cara a cara com uma mulher bonita que está paralisada de pânico junto ao condutor, o velho Blatter já deve ter passado por ela. Repara que afinal não estamos cara a cara porque, para isso, teria que cortar metade das minhas pernas e, de repente, fico envergonhado porque soltei uma figura de estilo em pleno autocarro e espero que ninguém tenha reparado. Apesar de entre mim e ela haver um almoço, ela não sabe disso e eu não tenho pachorra para lhe dizer, até porque tenho um profeta do Lugarvaguismo a gritar atrás de mim. Diz ele “Lá atrás está vazio, lugares vagos por todo o lado” e eu gostava de saber como é que ele sabe isso, porque tem a visão entalada entre as minhas costas e o peito da cabo-verdiana, que é generoso mas não dá para sentar ninguém.



Pelo meio disto já só faltam duas paragens e está a actuar o coro da indignação, muito popular em tempos de crise e dias de greve. Salazar não aparece, mas só porque não deve ter conseguido entrar no Campo Pequeno. Uma senhora diz que parecemos todos cães num apartamento, não admira que queiram fazer leis sobre isso. Um tipo que tenta ler o Record morde-lhe uma canela e uma mãe atiça-lhe a filha que leva pela trela, só para ela parar com as comparações estúpidas.



A minha paragem está à vista e o meu almoço, que não é pizza, queixa-se que está com falta de ar mas eu digo-lhe que está a ser achatado como o caraças. A mulher bonita tenta evitar um slow com o velho Blatter, eu rendo-me a uma morna com a Cesária Évora de ocasião. “Ó chefe, abra à frente que eu quero sair”, não fui eu que disse, foi a voz do povo que fica sempre colado à porta da frente, qual lapa nas rochas. Eu aproveito e arranco, ainda oiço o profeta a dizer que agora é que há mesmo lugares lá atrás. É possível, mas não vou ficar para ver.



Corro para casa já com um decisão tomada – já comi greve que chegue por um dia, para o trabalho voltas a pé e vais ver que até te vai saber bem uma gincana por entre os mendigos e os pedintes que, em dias de greve, se plantam nos passeios com grande determinação e afinco.

2 comentários:

  1. Fónix! Que aventura, dá graças a Zeus pela sobrevivência à greve!

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    1. A greve não é grave, desde que proporcione matéria prima do género ;)

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