23.11.13

O que dizem as tuas tatuagens



Sou um admirador de tatuagens enquanto obras de arte que se relacionam (ou se deviam relacionar) de forma intimamente próxima com quem as tem. Acrescente-se ainda que não possuo qualquer tatuagem, mais por ser um compromisso comigo mesmo que até agora não desejei assumir, do que por medos, rótulos ou outro tipo de pressão social. Se este tipo de coisas me preocupassem, nunca tinha furado as orelhas para aí há 20 anos, numa altura em que isso ainda não era algo tão trivial como é hoje.

No entanto, sempre fui um bocadinho crítico, para não dizer gozão ou simplesmente irritante em relação à moda das tatuagens com mensagens em caracteres japoneses ou árabes feitas por gente que desconhece por completo os idiomas, não tem qualquer relação directa com essa realidade ou quando a mensagem não está directamente relacionada com a caligrafia.

Será que diz "Tu és eternamente responsável por aquilo que cativas" ou "Sopa de frango e camarão"?




O pequeno cínico que vive em mim diz-me o seguinte nessa matéria: “Se é verdade que cada um faz o que quer com o seu corpo, e isso não está em causa, se eu quero escrever o nome da minha filha, ou distinguir os valores que me guiam na vida, porque raio não o faço em português e opto por um idioma que desconheço em absoluto?”

A resposta parece-me que andará por este registo – porque caracteres japoneses ou árabes são cool e reforçam uma certa irreverência que porventura se queira projectar.
Já vi muita gente gozar com caixas de supermercado que têm o nome dos filhos tatuados nos braços. Vi até ou disseram-me algures a piada que trabalhar no Pingo Doce faz tanto mal à cabeça que quem lá trabalha tem que tatuar o nome dos filhos para não se esquecer deles.

Gostos à parte, em querendo avançar com a coisa, num processo que é delicado eu diria que o essencial é ter a certeza daquilo que se está a tatuar. Ora eu não quero apostar em % mas temo que uma boa parte de quem vai por esse caminho, finalizada a tatuagem, não terá a certeza absoluta do que tem escrito.

E aí entra o caso deste tatuador tailandês que foi preso em São Paulo e entra o potencial vidente do meu humor negro. Em tempos já tinha pensado que um tatuador que fizesse este tipo de trabalho podia perfeitamente andar a divertir-se às custas de quem tatua, de forma totalmente condenável é certo mas, ainda assim, trágico-divertida.

Agora, ao que parece o tipo, desde insultos a receitas, passando por piadas duvidosas, andou a curtir à grande nos últimos tempos. E a coisa só foi detectada porque alguém arranjou problemas no emprego à conta de um dos seus trabalhos.

A piada é de mau gosto volto a dizer e podia até ser uma notícia falsa mas, voltando à história das %, a minha questão volta a ser: quantas pessoas não poderão andar por aí com uma receita de bacalhau à Gomes Sá nas costas, a pensar que tatuaram “O amor é uma eternidade que se perde num segundo” ou coisa que o valha.

6 comentários:

  1. Acontece o mesmo com as tatuagens de códigos de barras, com o extra de funcionarem e por isso darem leitura do seu valor em caixa. Se tem uma, corra até ao supermercado mais próximo e descubra.

    (Volta Jack, este é o teu domínio!)

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  2. :))) aconteceu recentemente a uma colega minha. julgava que tinha escrito uma "frase guerreira" em chinês, afinal tem qq coisa como "as árvores e a primavera" :b :b :b
    podia ser pior, mas não deixa de ser estranho. até porque falamos de marcas para a vida (se não quisermos ir ao laser). eu tenho apenas uma, com um valor afectivo enorme. decidi-me por um letra (pelos visto, empanco mesmo nas letras :b), embora na altura (como pelos vistos continua) a grande onda eram os caracteres chineses...

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  3. Não sei se é mal comum de todos os nativos de qualquer língua, ou se é caso exclusivo dos "tugas", mas a verdade é que a maioria do pessoal não acha a nossa língua lá muito bonita. Como diz a música, "a língua inglesa fica sempre bem"... e quem diz inglesa, diz o menú do sushi...

    Já me deparei com este fantástico episódio
    http://amendoinsecocacola.blogspot.pt/2012/12/its-beef-of-cake.html

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  4. É por isso que não tatuo "dizeres", seja em português ou chinês. A palavra é mais definitiva. Uma imagem ou desenho permite alterar o significado da origem.

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  5. Nada que não me ocorra quando vejo tatuagens como as que referes. Em cheio.

    R.

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