11.11.13

Este Bingo não é para velhos


As minhas memórias de Bingo, tirando uma experiência mais recente no Underground Rebel Bingo, estavam já bastante apagadas. O Underground foi mais regabofe que outra coisa, uma noite em que fui fazer de Attenborough dos novos rituais e percebi que mesmo quando o nosso corpo aguenta, às vezes a nossa cabeça já detecta que aquilo não é bem para nós.
Quis reavivar a minha memória de Bingo no registo clássico, só para me aperceber que embora o jogo se mantenha exactamente igual, o que se passa à volta está a mudar.

A coisa proporcionou-se na passada noite de sábado, depois de jantar bem regado e dúvidas sobre o que fazer a seguir. Entra-se naquele loop de indecisão, em que metade diz que se calhar não lhe apetece ir a bares e discotecas e a outra metade está a ponderar os próximos passos. O facto de ser no centro de Lisboa, serviu de mote – “Então e um saltinho ao Bingo do Belenenses, ali junto ao Galeto?”.

Curiosamente, num grupo de oito pessoas na casa dos trinta, menos de metade tinha experiências passadas em Bingo, tirando naquela versão caseira dos jogos de tabuleiro do período jurássico-pré-consolas. “É caro?”, “Bem, diria que os cartões não devem ser mais de 1 ou 2€, a não ser que queiras aviar 10 cartões ao mesmo tempo...”
“Deve é estar cheio de velhos, não?”, “Só vendo...”.

Não estava cheio de velhos. Aliás, já passava da uma da manhã quando lá chegámos, o que obviamente devia reduzir a dose (quem frequente casinos, possivelmente poderá confirmar que a tarde/início de noite é o período de eleição da jogatana de terceira idade) e quando a luzinha “Aguardem” deu lugar ao “Entrem” abriram-se as portas e saiu de lá um grupo de putos com perto de vinte anos.

A sala é grande, mas a fumarada mesmo com “pseudo-extractores” dá-lhe um ar de antro como naqueles filmes do Indiana Jones, em que toda a gente te olha de lado com ar suspeito quando passas à procura de mesa.
A clientela é maioritariamente 30-40 anos, mas há vários grupos de malta jovem, certamente à procura de entretenimento low cost. Muita malta com ar vidrado de jogador demasiado regular, cigarro na mão, um copo que é feito para durar muito tempo. Algumas quarentonas tratam os empregador por tu, a maior parte das bandejas que passam têm Coca-Colas, 7Ups e a prova que o pessoal não está lá para consumir muito mais que o jogo.

Mesa no primeiro andar, empregado a torcer o olho ao volume do grupo “Epá, vocês não me tramem, o chefe não quer mais que seis por mesa”. Não há problema, dois de nós ficam na mesa ao lado, pelo menos é o que a quase cortina de fumo deixa ver. O cartão está a 50 cêntimos, quando forem as séries de prémio especial (1 ou 2€) o chefe avisa.

Compram-se cartões, vendo que boa parte eram maçaricos, o empregado recomenda traços ou bolas nos números, senão depois dá confusão. “Sabem como é, certo? Linha ou Bingo”. Sabemos pois, dizemos todos, mesmo os que não sabem.

Começam a ser anunciados os prémios do cartão, alguém do grupo se indigna por serem baixos “9€ a Linha? Isso não é nada...” Esquece-se que gastou 50 cêntimos e acalma-se quando ouve 90€ de prémio para Bingo. Saem números e toda a gente repara no sotaque das ilhas por parte do “anunciador”. “Vinte e sete – dois, sete”, “Oito, número oito” e por aí em diante. Tudo concentrado, algumas queixas de “Epá, nem um”. Ouve-se o primeiro grito “LINHA!”, bem audível e alguém refere “Epá, tem mesmo que se gritar”. Os ecrãs, em sistema moderno, mostram um feed de câmara com o cartão premiado. Confere.

Um momento de desilusão, quando o announcer diz “Vamos para Bingo” e não “Siga para Bingo” como a mitologia popular recomendava. Novas vagas de números com sotaque, há alguém na mesa a quem já só faltam dois números e um certo nervosismo aumenta. Por pouco tempo, no número seguinte, o grito é “BINGO” e não vem da nossa mesa.

Nova ronda, o empregado abana a cabeça quando alguém que comprou dois cartões lhe diz se pode jogar com o segundo, que não riscou, no próximo jogo. “Claro que não, cada cartão é válido para o jogo em que é comprado”. Chega mais um grupo de putos para a mesa ao lado, um deles ainda com cachecol da bola.

Jogámos mais alguns cartões, pelo meio o announcer do sotaque foi substituído por uma announcer sibilante e igualmente monocórdica, só o responsável de sala tem um timbre mais dinâmico quando anuncia prémios e confere vencedores.
Os putos ao lado gritaram “Linha”, mas foi falso alarme, o tipo que lá foi conferir lançou-lhes um olhar que preveniu futuras brincadeiras, se é que se tratou disso.
Já tenho as mãos todas sujas de vermelho e fortuna e glória nem vê-las.

Começo a pensar retirar-me, especialmente quando uma tipa que masca pastilha que nem uma trituradora composta, com a boca aberta, acaba de fazer Bingo e me pisca o olho a duas mesas de distância (ou então foram truques do fumo que paira no ar). De seguida, anunciam uma série especial, uma loucura de cartões a 1€.
Resolvo ir nessa última cavalgada e os números começam a sair. Estou com bastantes números a sair, mas em linhas dispersas, por isso quando alguém grita “Linha”, mantenho a minha cara compenetrada, focado no objectivo “150€ em Bingo”. Começam a ser mais escassos os números que tenho, mas a coisa continua a ficar composta. Faltam três. Depois dois. Espera, ela disse “Quarenta e três, quatro-três”? Disse e isso quer dizer que só falta um.

Faço uma cara tranquila, mas a adrenalina do jogo corre, como se tivesse oitenta e três anos e estivesse a uma cereja de sacar um jackpot nas slots do Casino. “Oitenta e seis, oito-seis”, espera é o meu....não eu tenho 87. Alguém grita Bingo, eu faço cara de quem falha golo à boca da baliza.

Evito a conversa de velho do Euromilhões “Eish, foi mesmo ao lado” e levanto-me com ar digno. Posso ter perdido no Bingo, mas os meus pulmões vão ganhar quando sair lá para fora. Aquilo fecha às três, mas há gente que vai a entrar decidida para aproveitar a meia hora final.

Levo o cartão que quase me levou a gritar “Bingo” no bolso. Já se viu que as coisas já não são bem como antes, mas fiquei com um 87 cravado na testa e aquela forma estranha de dizer números ainda a zoar na cabeça.

Não sei quando, mas hei-de voltar um dia. Nem que seja no horário dos velhos.

1 comentário:

  1. A minha utlima visita foi ao do Zoo, há coisa de 2 ou 3 anos. Não ganhei nada, mas jantei por 2 euros :)

    ResponderEliminar

Se vais dizer alguma coisa, escreve, não fiques para aí a olhar.