12.11.13

Dos críticos e dos árbitros


Tenho um amigo que é crítico. Bem, na realidade tenho vários amigos que são críticos, mas este é dos poucos que o exerce numa perspectiva profissional. Nos últimos dias tenho assistido ao desenrolar das consequências de uma das suas críticas, que envolve uma resposta do autor da obra visada e do uso das redes sociais como forma de exposição de argumentos por ambas as partes. Acrescento que, tirando uma outra parte dispensáveis, a coisa forma um exercício sobre críticos, crítica e criticados bastante interessante do ponto de vista sociológico.

Vivemos numa época em que a opinião é, ao mesmo tempo, uma arma poderosa e algo facilmente desvalorizado. As pessoas procuram cada vez mais informação e opinião antes de comprarem/experimentarem algo, mas estão também cada vez mais abertas a considerar a opinião de alguém que não conheçam a ir, por exemplo, na conversa de um familiar ou amigo.
E onde fica o papel do crítico no meio disto?

Fica numa espécie de posto fronteiriço, já que o seu espaço ainda existe e tem o seu mérito, mas a verdade é que segundo a teoria de que hoje em dia qualquer um pode ser crítico (vejam-se blogs, facebooks, redes como GoodReads, etc) esse espaço é sempre passível de ser posto em causa. E um crítico profissional, tal como um árbitro, é alguém que é muito fácil de antagonizar/odiar.

Nos meios jornalísticos oficiais, onde mais que viver sobrevivem os críticos  que ainda não foram varridos pelas reduções, restruturações e generalizações pelas quais vão passando redacções, existem regras/prazos e tudo o que faz com que essa crítica seja um trabalho e não um hobbie.
As boas peças jornalísticas e bons suplementos de artes e afins assumem a forma de icebergs que andam à deriva e, por enquanto, vão sobrevivendo ao aquecimento global que vai afundando certas formas de comunicação.

O crítico sobrevive a isso tudo, agarra-se ao iceberg se puder, apenas para servir o resultado do seu trabalho ao público e sujeitar-se então à segunda fase – as críticas à crítica do crítico. Sim, porque hoje em dia, esse efeito boomerang é inevitável, pois todos temos a capacidade de produzir conteúdos e amplificá-los online. E se ele pode, porque não poderemos nós?

“Então, mas ao falar da posição do crítico não te estás a esquecer de interesses económicos, de jogos de influências e do sempre interessante campo da desonestidade intelectual, coisas que sempre foram associadas à crítica?”

Não, mas se for por aí, é a mesma coisa de todas as pessoas que falam de arbitragem mas não a conseguem dissociar de corrupção, de sistemas e da noção de que todo o erro presume intenção. E, se for por aí, terei que assumir que todos os envolvidos (críticos, autores, outros players do mercado) são passíveis de serem expostos a esses mesmos factores. Chegando aí, já não estamos a falar de pessoas e isso pouco me interessa.

Quando uma crítica chega à rua, vai formosa e pouco segura. Umas porque são efectivamente pouco seguras, outras porque são críticas e, mesmo que positivas, sujeitam-se à bordoada de visados, outros críticos nas horas vagas e de falanges de apoio. Um crítico com estaleca deverá estar preparado para isso, outros poderão cair na tentação da troca de galhardetes e, entrando aí, melhor preparação se pede para estar à altura.

Compreendo que hoje um “criticado” tenha mais armas à sua disposição para rebater, discordar, indignar-se em relação a uma crítica, mesmo que "positiva". Ainda bem que assim é, a troca de opiniões é sempre um valor acrescentado para qualquer processo e se hoje em dia o público puder ter acesso a mais conteúdos (fugindo do campo da roupa suja a ser lavada), isso é de louvar.
Mas também é fácil bater no crítico, na “crítica”, da mesma forma que como referi se bate em árbitros. Sujidade, corrupção, assim não vamos lá, isto tem que mudar e o sistema está podre e nas mãos de quem não merece.

E, como li no meio da discussão, às tantas alguém que participa diz que o melhor é “não se falar no assunto, quando não se tem uma boa forma de o fazer, mesmo que o nosso trabalho seja falar desses assuntos”. Será mesmo o melhor?

Portanto, numa época em que todos temos mais meios para comunicar, em que nos arrogamos com propriedade a expor as nossas opiniões e em que o social é cada vez mais uma ferramenta de trabalho, será que chegámos ao cruzamento em que dadas as condições em que trabalha e o pouco respeito que o seu trabalho inspira o crítico profissional pode ter o fim à vista?

E noutro campo dos mal amados, será que o futebol sobreviveria sem árbitros?

1 comentário:

  1. O crítico profissional de jornal pode ter tanto o fim à vista como os jornais e os jornalistas. Assim como a imprensa, sobretudo a escrita, ele desempenha um papel num meio em profunda evolução, mas não necessariamente em vias de extinção - ainda que ninguém saiba exactamente para onde caminha.

    Gosto da comparação provocadora com do crítico com um árbitro, mas parece-me haver uma diferença fundamental no papel do árbitro e do crítico. O árbitro, por princípio, tenta ser uma entidade "fora do jogo", no sentido de evitar ao máximo influenciar no resultado deste. Diz-se que os melhores árbitros são aqueles que não se notam. Mas sem ábitro não há jogo. Já o crítico não é indispensável ao objecto artístico. Quanto muito alguém pode argumentar que ele é um agente indispensável à economia cultural (não me parece), mas se o crítico morre na floresta, eu continuo a poder ir ver o Batman ao cinema.

    O crítico pode ser um "recomendador", um curador, ou pode ser um gerador de significados, alguém que nos ajuda a descobrir outras dimensões num filme que acabámos de ver, ou até alguém com quem gostamos de confrontar as nossas opiniões. Ele não pertence ao universo do objecto criticado, mas a partir do momento em que é invocado (ou lido, ou ouvido), ele passa a influenciar na nossa relação, no nosso entendimento, desse mesmo objecto.

    Se olharmos para o crescente volume de produção cultural / artística actual vemos que estes papéis serão cada vez mais relevantes, para nos ajudar a filtrar a imensa oferta, e fazer alguma sentido desta (para quem gosta dessas coisas). Se considerarmos que continua a haver espaço para a "opinião profissional" (seja comentário político, desportivo ou cultural), podemos chegar à conclusão de que poderão a continuar a haver críticos profissionais.

    A questão do respeito que levantas é importante. Em Portugal, muitas vezes, e já vi isto a acontecer tanto na indústria do cinema como no meio dos vinhos, surge sempre a questão de vivermos num país demasiado pequeno para evitar promiscuidades entre crítica e indústria, seja porque toda a gente se conhece ou porque sabe sempre bem passar uns dias em Londres a entrevistar o elenco do Harry Potter. Não sei se existe ou não, mas diria que também faz parte do papel do crítico contemporâneo, saber comunicar e estabelecer uma relação de confiança com os seus leitores (ver o caso extremo de pessoas como o Gary Vaynerchuk, p.ex.).

    Claro que depois entramos nos terrenos pantanosos do que é que constitui uma boa crítica, o que é uma opinião fundamentada e de onde vem a "autoridade" do crítico. Eu detesto críticos que perdem mais de dois terços de uma coluna a resumir um filme, e que perdem muito tempo com aspectos técnicos. Gosto de críticos que estabeleçam relações com o objecto e a sua própria experiência, que explorem significados do texto e que transgridam, com grande honestidade, a linha da subjectividade e da pretensão da objectividade (ex. "eu odiei o pormenor de ser assim, mas reconheço que..."). Claro que a minha opinião não é a norma, e nem me lembro de qual foi a última vez que li uma crítica num jornal de papel.

    E também há o caso do crítico que gosta de ser polémico porque comentários geram pageviews e pageviews geram boas estatísticas para apresentar aos anunciantes, mas isso faz parte das regras do jogo.

    Bom, acabo o comentário como comecei: sem grandes certezas. Mas gostei da viagem. =)

    Podemos saber a que "caso" te referes? Acho que enriqueceria a discussão.

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