20.11.13

Da intencionalidade da piada seca

Em termos de humor, tenho a mania que sou um gajo exigente. Mas atenção, que não se confunda exigência com snobismo até porque, comparando humor com comida, digo que tal como se pode comer maravilhosamente em restaurantes em que se gastem centenas de Euros isso também é possível em verdadeiras tascas onde as palavras gourmet e vintage fiquem à porta.

Voltando ao humor, o que a comparação anterior pretende traduzir é que tanto gosto de humor inteligente, como da piada mais seca (vulgaridade não, obrigado). Se o primeiro é obviamente mais complexo e depende de uma interpretação de sentidos e situações (que, quando mal executados podem derivar em humor elitista, de nicho ou, pura e simplesmente em algo descontextualizado), o segundo a meu ver depende da intencionalidade ponderada.
“E isso quer dizer o quê, meu palhaço?”, diria eu se fosse leitor deste blog e tivesse pouca paciência para o meu slow build up.

Quer dizer que eu gosto de quem usa o poder de uma piada seca de forma intencional, seja através de um trocadilho manhoso jogado de peito aberto ou aquela frase que causa humor incómodo estilo Office (onde se explorou bastante o conceito de vergonha alheia), sem que isso se deva confundir com pseudo humor negro, em que a pessoa usa apenas o choque e a exploração de áreas sensíveis sem qualquer critério, apenas como forma de criar desconforto..
Quer também dizer que não aprecio quem não usa a piada seca de forma sem saber o que está a fazer ou apenas porque não sabe fazer outra coisa, mesmo que inconscientemente. E o mundo está cheio de gente que pensa ser engraçada...

Não raras vezes vejo "comediantes" da nossa praça irem por um ou por outro caminho desta via do humor, sem que eu lhes reconheça grande mérito tirando o da coragem ou da exposição, porque não é fácil assumir directamente que se quer fazer rir alguém. Aliás, os melhores comediantes não "querem" fazer rir, é algo que por norma já lhes é natural e que, obviamente, trabalham e refinam quando o começam a fazer de forma profissional.

É certo que as análises são sempre suspeitas, porque se cinco mil pessoas fizerem like numa piada aparentemente seca de um comediante nacional sem que eu veja ponta de piada na coisa, a falha será do observador? É o conteúdo que conta mais ou a figura que o emite? Até que ponto o estatuto do emissor define o valor de uma piada? (neste campo podíamos alargar a coisa ao facto de uma anedota contada por um director causar sempre mais gargalhadas do que a mesma anedota contada por um paquete, mas isso já é outro campo minado).

 


 

18 comentários:

  1. O fazerem-nos rir depende essencialmente do emissor da piada, para mim. Há pessoas que já me fazem rir só de abrir a boca, porque já alcançaram esse "estatuto". Outras podem dizer a melhor piada do mundo, mas dificilmente irei esboçar um sorriso, porque "embirrei" com a pessoa. ;)

    pippacoco.blogspot.pt

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    1. Sim, por vezes é-me impossível dissociar personalidade de obra (por exemplo em literatura). Mas choca-me mais quando o conteúdo não tem qualidade e as pessoas, dado o emissor, continuam a achar o mesmo relevante.

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  2. "Aliás, os melhores comediantes não "querem" fazer rir."

    Como assim?

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    1. Devia ter esclarecido um pouco melhor este ponto. Quando digo não "querem" é porque na sua genérica maioria aqueles que eu considero os melhores comediantes são naturalmente engraçados à sua maneira, da mesma forma que tu certamente conheces pessoas que são capazes de dar a qualquer história um cunho humorístico, não porque se estejam a esforçar para isso, mas porque tal lhes sai naturalmente.

      Daí dizer não "querem" em sentido figurado, obviamente que querem mas a coisa já é natural neles (não quer dizer que sejam palhaços, podem até ser deveras depressivos e engraçados à mesma).

      Talvez pudesse ter empregue a expressão "não se esforçam demasiado para ser engraçados", em vez do "querer".

      Não sei se me fiz mais ou menos entender...

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    2. Fizeste. Mas eu tenho uma ideia da (boa) comédia que é mais ‘sweat, blood and tears’: os melhores comediantes são os que trabalham mais nas suas piadas, no seu ‘craft’, quase obsessivamente, independentemente de terem sido o palhaço da turma ou não (uns terão, outros não), ou o tipo mais divertido à mesa.

      Para mim, os tais ‘grandes, esforçam-se mais do que todos os outros. Claro que é fácil para o comediante de topo dar uma entrevista e pôr toda a gente a rir, mas se o gajo vai fazer um set de uma hora para um palco de stand-up, ele vai trabalhar como um desalmado para conseguir as tais gargalhadas (que a maior parte dos bons comediantes, como seres inseguros e atormentados, bem precisam).

      Aliás, e claro que isto é tudo na base do ‘achismo’, parece-me que a maior parte dos comediantes portugueses padece muito desse mal de “os meus amigos acham-me todos imensa graça” (isso e a comédia portuguesa ser nivelada muito por baixo, mas a verdade é que o Nilton tem 500 mil likes no Facebook, portanto eu é que estou errado).

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    3. Se nos focarmos no standup, é de facto um mundo em que só quem trabalha muito e constrói os seus números de forma inteligente, capitalizando no que de melhor tem (seja o contador de histórias nato ou o depressivo que explora de forma brilhante o lado negro da vida quotidiana).
      O que eu acho é que, naturalmente (e, teorizando, para aí em 90% dos casos) não basta querer ser engraçado, não basta mandar umas para o ar. Tens que juntar um dom natural que tenhas (o tal não esforço que eu refiro) com o tal trabalho que referes. Até porque, especialmente perante plateias cheias de gente à espera de entretenimento aquilo são muitas vezes momentos definidores de carreira (até porque no caso do standup há tipos que são brilhantes a escrever e nunca chegam a executar em nome próprio).

      Em relação ao panorama português, deitando mais achismo para a lareira, primeiro que tudo acho mal chamares Nilton a um comediante :)

      Depois, é verdade, qualquer tipo que solte umas piadas, tenha à vontade e, com sorte, umas connections, de repente acha-se comediante. Na minha opinião, temos alguns bons executantes mas com pouca capacidade de construção de números/estruturas com sumo e coerentes.
      Tal como muitas vezes no cinema nacional se vive o complexo do realizador/argumentista num só, que tantas vezes falha, o comediante/guionista 2 em 1 também é muitas vezes trágico.

      Mas pronto, se me pões a debitar sobre o mercado nacional nessa área, não tarda nada estou a fazer bonecos estilo Pepsi sueca e depois cai-me tudo em cima...

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    4. Ok, não estava a ver que íamos parar ao debate clássico dos "predestinados em dom natural", :) mas, além de não achar que o "dom natural" seja determinante, deve haver tantos maus comediantes como bons com "dons naturais"; continuo a dizer que o bom comediante é o gajo que vai atrás das gargalhadas, e que trabalha mais para isso, mesmo que pareça o contrário.

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    5. Não confundamos ter sucesso, com ter capacidade, porque obviamente há maus comediantes que são bem sucedidos.
      É que, por muito que me digam (para irmos ao encontro dos temas do dia) que o Ronaldo é produto de muito treino e trabalho específico e o Messi é uma espécie de "effortless talent", ambos nasceram com um dom natural, que desenvolveram e trabalharam para isso, ainda que com estilos distintos.

      Se me falares em ir atrás de vencer o medo em palco, de compreender as reacções do público, de "cavalgar a onda" do improviso quando tal está a resultar, de estudar tiques e maneirismos para os poder duplicar, de não ceder ao facilitismo só porque dizer "merda", "fdp" ou "caralho", assim como gozar com o anormal na rua resulta ou até batalhar num estilo pouco reconhecido pela maioria porque se acredita, aí eu acredito. Acredito que se pode melhorar muito e perceber que o humor não é uma caixa estanque de resultados sempre previsíveis.

      Mas, se me disseres que um tipo que não tem piada nenhuma (ou, pura e simplesmente tem-na escassa e de mau gosto) for muito esforçado e for atrás do sucesso passa a ser engraçado, aí já não alinho. E digo isso independentemente do sucesso que possa ter perante certas audiências.
      (mas aí vamos entrar em critérios de qualidade, gosto e afins, onde cada qual tem a sua visão e ponto final)

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  3. exactamente por não estarmos a confundir, é que a questão do dom natural (já por si um axioma muito dificil de definir, por isso é que não gosto dele) não se pode aplicar como medida de sucesso - que foi o que eu disse. O que eu estou a dizer é que ser "engraçado sem esforço", no sentido em que estava no texto, não é grande indicador de qualidade / grandeza / reconhecimento na comédia (embora possa ser uma característica partilhada por muitos comediantes, bons ou maus).

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    1. Percebo o que dizes, não concordo em parte, mesmo tendo em conta a área cinzenta dos "dons".

      Mas como isso seria uma argumentação bastante extensa, vamos deixar isso em stand by até, por exemplo, fazermos uma sessão de sit down comedy debating :)

      No entanto, a título de curiosidade, a par do "dom", também torces o nariz à categorização de "génios" em determinadas áreas?
      Em não torcendo, dirias que a genialidade pode ser trabalhada a partir da base ou é algo que (em potencial) nasce connosco?

      Ping pong de comentários devia ser desporto olímpico ;)

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  4. Para alguns será filme de terror "Quando os Comentário ganham Vida (e os gajos não se calam)". :)

    Bom, adiante.

    Antes de mais, a discussão do “dom natural”, na sua vertente de “como é que alguns atingem a grandeza”, é muito interessante, mas parece-me também muito complexa, porque envolve factores biológicos (inatos ou adquiridos), ambientais, contextuais, económicos, culturais e outras questões de quantificação de esforço, que podem ser muito relativizados ou distorcidos (v. Malcom Gladwell, de quem gosto muito, e a sua ‘pop science’), e nos quais eu próprio me confesso muito limitado. Daí ficar sempre desconfiado quando se fala em dom natural, porque pode querer significar muitas coisas diferentes.

    Em relação aos génios, eu abusador do qualificativo “genial” me confesso, e não posso negar que também me atrai a construção de mitos, heróis, génios e super-homens que a nossa cultura tanto gosta. Tenho os meus, mas o meu génio pode ser o teu charlatão, e vivo bem com isso.

    Em relação à pergunta específica, não consigo entender a genialidade como algo que se trabalhe ou nasce connosco. Para mim, a genialidade é um qualificativo que surge à posteriori, e que deriva já daquilo que foi alcançado. Acho estranho o conceito de alguém "trabalhar para ser génio". Podes trabalhar para ser o "melhor", para resolver problemas que mais ninguém resolveu, ou para chegar mais longe que os outros; o epíteto vem quase como consequência mas como tanto pode ser vazio ou pleno de significado, caso venha dos teus pais ou dos teus pares, ele não me parece ser grande indicador.

    Claro que se o Stephen Hawking disser que o João Magueijo é um génio, eu fico admirado, mas não é a mesma coisa do João Magueijo ganhar um Nobel ou lá o que será o reconhecimento máximo da física.

    Também é claro que não nascemos todos em condições de igualdade, pelo contrário, para atingir grandes feitos. Mas o que me parece mais interessante é essa grandeza depender de vários factores, todos eles com alguma complexidade, que têm de estar alinhados para que ela se manifeste.

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  5. Eu sou uma pessoa estranha, que vai às lágrimas quando ninguém mais se ri, ou fica calada quando todos irrompem em gargalhadas. Nem sempre "apanho" as piadas secas,.
    Como ninguém me perguntou, ou vou deixar a minha opinião do mesmo modo,: O humor britânico( Monty Python, Benny Hill, Ricky Gervais...) mete os americanos num chinelo ( Seinfeld, Larry David , Louis CK...) Sorry folks, herege, talvez, mas com bom gosto.

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  6. Mak, o que achas do humor do Rui Sinel de Cordes? ( Preto no Branco e Gentes da minha terra )

    Abraço

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  7. @André - já vi que em termos de genialidade o nosso conceito não difere muito, tenho até uma história curiosa nessa matéria sobre o percurso de dois tipos que estudaram piano no Conservatório e que a seu tempo te posso contar.

    @MD Roque - Não temos todos que rir do mesmo é certo e há piadas que só têm mesmo piada se só um ou dois apanharem (sem aspirações elitistas ainda assim). Quanto a humor britânico vs americano, acho que há coisas boas dos dois lados da fronteira, assim como há coisas más.
    É como humor no Brasil e Portugal, a língua é a mesma, mas há coisas que nos separam claramente...

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  8. Entao eu nao tenho direito a resposta? Ser anonimo nao significa ter de ser discriminado lol

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    1. Nada de discriminação. Na realidade, quando fiz a resposta anterior também te respondi a seguir, só que um crash manhoso não gravou a cena.

      Estou a recuperar fôlego para despejar o relambório de novo, portanto é só mais um bocadinho de paciência :)

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  9. Ja puxei de uma cadeirinha e assentei arreais aqui no teu tasco ;)

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    1. Porque prometido é devido.

      O que penso eu do Rui Sinel de Cordes e, de seguida, do seu humor.

      Em relação ao Rui, acho que é um gajo que trabalhou para se posicionar especificamente num campo do humor - dito humor mais negro/ácido. Independentemente do estilo e de gostar ou não, valorizo sempre alguém que se mexe por aquilo que acha que é bom, num campo tão pantanoso como é o humor nacional.

      Entre espectáculos ao vivo, programas, participação como "comentador" desportivo na TV, há um esforço (mas também a oportunidade) de se valorizar e marcar presença em vários formatos.
      É um gajo que trabalha por aquilo que tem e isso eu acho muito bem.

      Em relação ao estilo de humor propriamente dito, o humor negro é uma fronteira muito delicada entre um estilo provocatório e inteligente (que ainda assim nunca irá agradar a todos) e o facilitismo de ser ofensivo só porque se pode e rir à custa de A ou B sem grande critério.
      Tem algumas coisas positivias mas, segundo o meu critério (que vale o que vale) pisa muitas vezes o risco do lado mais negativo da fronteira e, como tal, não me entusiasma nesse sentido.
      Sou grande adepto do sarcasmo e da ironia, acho que o humor é uma das melhores formas de bater/desmistificar algumas vacas sagradas, desde que seja refinado e inteligente, quando se opta por essa via.
      Não acho grande piada a boa parte dos formatos que ele explora nesse estilo. Mas admito perfeitamente que o problema possa ser meu.

      E não se trata de ser moralista ou sensível, o Ricky Gervais tem segmentos onde se fala de cancro e outras coisas muito politicamente incorrectas que eu adoro. O que não é o caso na pessoa em causa.

      Espero que tenha valido a espera :)

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