3.11.13

Correr no cruzamento entre a 5ª Dimensão e um filme do David Lynch


Depois das dúvidas de ontem, optei por fazer um mix hoje de manhã, correndo 20kms com passagem pelo meio de alguns parques, mas reservando parte do percurso para os belos contentores à beira rio. A temperatura estava agradável, o público dentro da minha cabeça batia palmas e desta vez levei música para desanuviar. Mal sabia eu que também estava a executar o guião de um filme bem estranho.


Primeiro, na zona do Vale do Silêncio que já é sugestiva pelo seu nome, reparei que também têm um conjunto de máquinas para as pessoas fazerem exercícios, sendo que uma delas equivale a ter duas manivelas para cada braço rodar, de preferência em exercícios coerentes. Tal não acontecia com o velhote que os estava a fazer que, conforme eu passava a correr, rodava aquilo à máxima velocidade possível em direcções opostas, enquanto grunhia. Passados poucos segundos, desequilibrou-se e grunhiu mais alto, o que deu jeito, porque abafou o meu riso.

Ao chegar à Expo, na zona do Oceanário, eis que de repente vejo um balão a voar arrastado pelo vento, sendo perseguido por um grupo de seis adultos eufóricos. Mais atrás, uma criança chorava, não sei se pela perda do balão se pela figura dos adultos.

Mais à frente, na zona da marina, um chinês adulto tentava ensinar a outro chinês adulto como andar de bicicleta. Vai daí, empurra o outro à bruta com este montado na bicla, isto a partir de uma rua lateral e este pedala num percurso errante, por pouco não passando a ferro uma família biclo-veraneantes, antes de se quase espatifar num dos separadores de pedra. Quando o chinês empurrador chegou ao pé dele, o ciclista aprendiz mostrou a sua satisfação dando-lhe um pontapé no cu.

Avancei então para a zona dos contentores, onde por norma a animação é pouca, menos ainda desde que abriu a ciclovia que vai do Terreiro do Paço à Expo. Alguns ciclistas, poucos corredores e cheiro estranho na zona das fábricas. Um pouco mais à frente do Beato, começo a ouvir alguém a cantar e visto que estou de headphones, deve estar a fazê-lo alto. Com o olhar localizo a figura e arrependo-me imediatamente, trata-se de um pequeno cidadão barbudo que está basicamente a fazer aquilo a quem em termos técnicos se define como “cagar agachado junto aos carris do comboio”. Está bastante alegre e faz-me uma saudação conforme levanta as calças, ao passo que me afasto rapidamente tentando limpar o disco de imagens mentais que podem vir a prejudicar o meu sono de hoje.

Depois disto, já esperava ver um anão de triciclo ou, na subida, até à Paiva Couceiro uma troupe de palhaços assassinos, mas não houve nada de grandes cenários, tirando o casal de idosos numa carrinha que me fez sinal para avançar numa passadeira antes de deixar descair o bote, fazendo com que me atrapalhasse e quase fizesse moonwalk com os dentes no pavimento.

E ainda me perguntam alguns incrédulos porque é que eu corro pelo meio da cidade ao domingo de manhã... como se eu fosse o único a saber que é nessa altura que ainda está aberto o portal para a 5ª Dimensão.

2 comentários:

  1. Há uma série magnífica (que ainda pode ser comprada em DVD) chamada Carnivale -- e que é digna herdeira do mundo de Lynch. Julgo tar encontrado alguns dos seus personagens algures no trajecto da tua corrida :)

    Boa noite, Mak :)

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    1. Sei perfeitamente qual é, já vi "bocados" e é daquelas que está registada para um dia a ir repescar com a devida atenção.
      Não sei é se isso me alegra para a elaboração de novos percursos ;)

      Boa semana para esses lados.

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