5.11.13

Bate leve, levemente, como se fosse uma dor de dentes


Batem leve, levemente,

como quem chama por mim.

Será o fisco? Uma stripper russa?

Gente não é, certamente

e a droga não bate assim.



É talvez a azia:

mas há pouco, há poucochinho,

nem uma agulha sentia

na quieta melancolia

dos dentes que tenho no focinho...



Quem bate, assim, levemente,

com tão estranha certeza,

que não se ouve, mas bem se sente?

Não é azia, nem é semente,

nem é uma espinha com certeza.



Fui ver. Não era um dente que caía

Daquilo que na boca é céu,

Fina e aguda, aguda e fina...

- Há quanto tempo a não via!

Saudades? Nem vê-las Deus meu!



Tento vê-la através da bocarra.

Pôs me a querer dar murros no focinho.

Passa gente e, quando passa,

Há quem caras faz e quem caretas faça

Perante tamanho esgar do coitadinho...



Fico olhando esses sinais

da pobre gente que avança,

e noto, por entre os mais,

os traços estruturais

de quem me olha com desconfiança...



E os dentinhos, doridos...

A dor quase nem deixa mostrá-los,

Pelo meio dos pelinhos definidos,

Em sulcos de barba compridos,

Não me apetece revelá-los...



Que quem já é pecador

sofra tormentos, enfim!

Mas um gajo como eu, Senhor,

porque lhe dás tanta dor?!...

Sabes que o gajo aguenta e é assim?!...



E uma infinita tristeza,

uma funda turbação

entra em mim, fica em mim presa.

Não porque há dor na Natureza

Mas porque sou eu a pagar a prestação.

7 comentários:

  1. ó pá, poderia ser eu a escrever isso! é que até estou comovida:P (menos a parte dos pelinhos da barba!)

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  2. e a parte da stripper russa, e a do gajo, e a do focinho...

    mas de resto:)

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    1. Nexo é coisa que nem sempre se arranja quando a malta está a ganir dos dentes :)

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  3. Respostas
    1. A arte da "adaptação freestyle" é comigo ;)

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  4. Se a striper fosse polaca, ficava perfeito!

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