22.11.13

Arrependimento a pontapé


O arrependimento, enquanto algo que se diz em vez de algo que se sente, é um bocadinho como o consumo de vinho – só faz bem se for feito com moderação.

A propósito disso, eis uma espécie de parábola dos tempos modernos sobre o tema, conforme me foi contada por um amigo meu com passado de jogador da bola, não profissional, mas daqueles que toda a semana tem dois ou três jogos em torneios, etc. Dizia ele:

“Sabes, sempre fui um gajo que gosta de dar umas cacetadas em campo. Nada de coisas maldosas para aleijar a sério, mas aquele tipo de cacetada, vá lá umas pancadinhas que mostravam que não estava ali para brincar, mas sem entrar no campo do rufia.

Só que, fossem jogos a brincar ou não, eu gostava sempre de fazer o seguinte – cada vez que molhava a sopa, era o primeiro a tentar ajudar o tipo em quem malhei a levantar-se, punha logo o braço no ombro dele e pedia-lhe imediatamente desculpa, perguntava se estava bem e tal.
As pessoas são sempre mais compreensivas quando um gajo se mostra arrependido.

Passados alguns minutos, quando o jogo assim o proporcionava, malhava-lhe outra vez, repetindo novamente o ritual a seguir. A reacção por vezes era menos compreensiva, mas a tendência continuava a ser  muito melhor do que se não dissesse nada.

Havia jogos em que dava castanhada ou tempo todo e os adversários eram sempre condescendentes com o meu arrependimento. Creio que muitas vezes achavam que eu era apenas trapalhão, apesar de saber perfeitamente o que estava a fazer...”

Então e quando a coisa corria mal?

“Obviamente, havia malta que se picava e se virava contra mim, às vezes para me tentar fazer o mesmo ou pior. Só que, sendo eu um tipo tão simpático em campo e sempre pronto a pedir desculpa, era fácil que fossem eles a passar por maus da fita ou que tivessem uma reacção considerada desadequada. E aí, era novamente eu que ficava por cima...”

Mas ninguém te mancava o esquema?

“Sim, alguns chegavam lá, normalmente os que faziam o mesmo que eu. E como é que eu sabia isso? Normalmente dava por mim no chão e alguém a estender-me o braço e a pedir-me imensa desculpa com um sorriso nos lábios...”

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