1.11.13

A morte de um Zé que eu não conheci


O facto de ter uma irmã onze anos mais velha leva-me a ter referências e memórias de infância que mais não são do que extensões daquilo que ela viveu e que depois eu retinha em conversas que ouvia e coisas que observava.

Vai daí que ao ler a notícia da morte do Zé da Guiné o nome me soou logo familiar, mesmo sendo eu demasiado novo para poder ter qualquer memória directa do seu percurso.  Tenho ideia que foi lá a casa mais do que uma vez, no meio de um grupo de amigos ou a caminho de uma saída qualquer, tenho a noção que em tempos o Bairro Alto não era aquele destino corriqueiro, mas sim um espaço a quem muitos ainda torciam o nariz numa época em que as mentalidades eram bem mais fechadas , “noite” era um conceito que não era para toda a gente e “ir beber um copo ao bairro” estava longe de significar o que hoje significa.

Apesar de saber que o contacto com ele se foi esbatendo ao longo do tempo, sei que muito provavelmente a minha irmã estará hoje um pouco mais nostálgica a lembrar os tempos em que a história do Bairro Alto começava a ser feita. Da minha parte fica a solidariedade de uma proximidade indirecta e a triste e recorrente noção de que muitas vezes só a desgraça, a doença ou a morte é que reavivam memórias que, de outra forma, nos passariam muito ao lado.
E seja por este ou por outro Zé qualquer da história de cada um, quem perde somos nós.

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